flora floema

flora floema

n. 1997 BR BR

n. 1997-09-08, Florinea

Perfil
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Ainda crio verbos para você

Meu coração ainda me pede
Para descansar em sua última foto
Aguardo em bradicardia

Meus olhos em vermelho agudo
Não escondem nem acolhem
Embora formem profundos sentidos
Vistos, lidos e amanhecidos

Querendo se conjugar
Na saudade que
Fico a saudadear
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Poemas

57

Li a placa de perigo e avancei

A perda de algo
que nunca possuí
noticiada em arrepios pelo corpo
vulto contorcido, quente
ereto
como se quisesse esvair
das fronteiras corporais
de onde o toque pungido
sangra a pele

do abandono crepitante
se forma o sofrido gemido
do gozo sentido
esqueço seu nome
volto para casa
em estalos
você é brasa
que não queima
evapora
118

Ensurdecedor

O barulho que ela ouve
sente quente atrás da orelha
chega como um sussurro
a mil decibéis

A acumulação é a origem
sua cor é chave
mas ela não está preparada
cobre os ouvidos
com algodão macio

No trabalho
o zumbido estridente
a fere
os colegas a olham
homens e mulheres sulfites
em suas expressões
in(diferença)

Nela
choro de fio contorcido
da gargantilha que arranha
e destrói cada anel cartilaginoso
de sua traqueia
antes da morte
eles desejam
calar a sua voz

Tudo sangra
a garganta
os ouvidos
vem de
vermelho vivo

O sangue não estanca
a fúria não coagula
ela tinha acabado de descobrir
e então grita
pós-morte
268

Você fodeu a minha cabeça

Você envolta pela toalha
recém saída do banho
estimulava meu olfato
com o cheiro de sabonete
na sua pele macia
provocava arrepios
na minha

eu vinda do sol
você vinda da lua
não conseguíamos coexistir
sua dependência
apagou minha luz
acabamos ambas
na escuridão

seus olhos de harpia
me avistaram a anos-luz
em diferentes dimensões
com o bico pontiagudo
perfurou os meus olhos

cega
não vi você
arrancando de dentro de mim
meu ser comigo mesma
minha liberdade em vísceras
minha autoestima coagulada

pedaço por pedaço
você foi me consumindo
enquanto eu dizia
me coma

você me fodeu
e eu sequer gozei
137

Da sua boca brotou poesia dolorida: em mim

No momento certo
Você me envolveu com suas fibras
Eu impregnada de lignina
Dura, oca, vazia
Amei quando sequer
Havia amor em mim

Agora somos
Nós frouxos
Em nossas fotos
As cordas se emaranham
Apertam firmemente
Na intenção de conter

A cada visita que faço a elas
Mais difícil e tumultuoso
O desatar dos nós
Mais sinuoso o caminho de volta

Me deixa em carne viva
A saudade da sua boca
Tornou meus pelos eretos
Em constante alerta

Quando existo
Em seu esquecimento
Minha vida em outra se faz
Quando existo
Em sua lembrança
O mar dos meus olhos
Insistem em retornar
Para o oceano dos seus
E arde
Essa água salgada
Sobre a minha pele

As mãos brancas
Que me tocavam
Retirou abruptamente
Meu amor por nós
Sem considerar as raízes

Restou
Do seu amor por mim
E do meu amor por você
A distância
De 384.400 km

Como se a lua
Cumprimentasse
A Terra
327

TOC TOC TOC

no meio da noite
o vazio
insinuando-se
pela porta fechada

penso:
aqui estou eu
você não pode invadir
de dentro
e me arrancar lágrimas

que secam
pela ação do tempo
o sofrimento lancinante
não perdura
mas sufoca

sigo caminhando
dou conta de só pisar
entre as linhas da calçada
Tempestuosa
Oblitero
Continuamente
193

Vivo dentro de um sonho

o sono entorpecente
vem para nos entreter
visões de um mundo
nos olhos de quem sonha
onde a aflição acaba
com o despertar

sonho
e sonhando
sei que estou sonhando
saio do sonho
transformado em pesadelo
com um beliscão

das realidades que me são entregues
uma permite que o sol queime a pele
e posso ao menos acompanhar
o movimento de rotação da Terra

junto aos ácaros do meu travesseiro
conto no relógio o tempo
que levarei para um novo despertar
dentro de uma existência programada
para sonhar
120

Indelicada é a vida

indelicada vida
obtém da gente
medo
mesquinharias
e ainda ameaça
com a sua ausência

indelicada vida
seus modos ultrajantes
nos obrigam a gratidão
quando caímos ao chão
ela esconde o band-aid

indelicada vida
jogadas perigosas
nos fazem sorrir
ao imaginar o cenário
da vitória sem ela
descanso
silêncio
paz

indelicada vida
nos últimos 45 minutos
do fim da sua presença
nós pediremos por mais
217

Daquele dia em que marquei de te ver por acaso

me programo toda noite
há duas semanas
para encontrar com você
acordada ou dormindo
nós duas
ocupando o mesmo espaço
em tempos diferentes

como um reflexo
minha mão se entrelaça na sua
você me olha confusa
e o amor parece brotar do cimento
as raízes logo invadem
a calçada da loja onde nos esbarramos

você me diz que precisa ir
eu digo que foi bom te ver
sussurro em seu ouvido
que nossos caminhos
se cruzaram novamente

destino
ou
planejamento estratégico?
333

Eu preciso do mesmo combustível de um balão

tudo o que vejo pela minha janela
cheira a poesia
do filhote de pardal na torre da igreja
ao balançar de folhas nas copas das árvores

o céu nublado assombra
arrasta melancolia
me desfaço em nós
e prossigo íntegra

nas mãos
poemas de Maya Angelou
busco sentidos
palavras tangíveis
que caibam em mim
provoquem combustão

expandam meu ser polimerizado
como um balão
290

Por que haveria de ser mais que um dia?

Capturar essa brisa
Que passa entre os dedos
Escolher permanecer
E observar o eriçar dos pelos

Compreender
O que o céu nublado
Tem a dizer

No espaço entre as nuvens
Ouvir um sussurrar
De algo mudo

O dia é um encaixar de 24h
E mais alguns minutos
Dispostos num tempo
Em que um é dia
E outro noite
136

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