SUBLIME FEITIÇO
O teu abraço
é rio em maré cheia
a correr-me pelas veias.
Inunda-me a frescura
dos teus olhos d´água.
Então (sublime feitiço)
tudo em meu corpo
é musgo e bruma
e o nosso amor
trevo em terra fértil.
MERGULHO NO AZUL DAS COISAS
Mergulho no vento que amacia as pedras
à procura do enleio perdido nos primórdios.
Mergulho num rendilhado de horas mansas
feitas de palavras sem mácula e sem pressa.
Mergulho na porta aberta do poema
purgando-me dos anos e dos medos.
Mergulho num tempo novo e vasto
onde amar-te cheira a tudo o que quisermos.
Mergulho no azul das coisas
para ver florir a lua nos teus olhos.
HÁ SEMPRE UM AZUL
Só ficou a saudade
naquela gare deserta de afetos.
Tu meteste na bagagem
as palavras que sobraram.
Eu ergui o olhar marejado
ao encontro da chuva que caía
nos ombros de um futuro incerto.
Atravessei a cidade.
As gaivotas regressaram ao rio.
A tarde esmaeceu.
Só o azul dos autocarros
pintava as ruas caladas,
as fachadas dos prédios,
as mesas das esplanadas.
Apesar de tudo
há sempre um azul
a pintar o rosto das memórias.
TU ÉS GAIVOTA
Vê o que os outros sentem
quando te olham
(só os loucos gostam do boneco
que criaste para vestir a tua loucura).
Vê como o vento uiva na praia deserta;
como a gaivota observa as ondas revoltas
à procura da melhor forma de as mergulhar,
contra qualquer probabilidade de sucesso.
Tu és gaivota no areal deserto
à espera que o vento te deixe voar.
E corres. E saltas.
E mergulhas na vida
à procura da onda perfeita
que te seja sal e te arraste
e te leve a ser feliz nos fundões do desconhecido,
onde só os loucos sobrevivem.
Tu és gaivota. E nessa ânsia de voar
vais deixando pegadas no areal que é só teu
cada vez mais firme
cada vez mais forte
(abrindo caminho aos que hão de seguir
o boneco que criaste para vestir a tua loucura).
NUNCA TE DIREI DOS MEDOS QUE NÃO SENTES
Da minha boca nunca sairão palavras
que digam o que não quero que saibas.
Nunca te direi que a tua ausência
me transporta ao roxo das árvores de dezembro.
Que esperar-te é sofrer a agonia das folhas caídas.
Que querer-te é resignar-me à condição de retrato pendurado,
que adorna, conforta, mas não sacia.
Nunca te direi dos medos que não sentes.
Prefiro sentar-me no sopé da felicidade que irradias
e dizer-te que pelos teus lábios fala a fé do jovem que parte,
a euforia do barco regressado,
a frescura das garroas de setembro.
Prefiro cantar-te madrigais.
Dizer-te que nos teus lábios desabrocham todos os sorrisos
e que todos os astros orbitam no azul do teu olhar.
QUE IMPORTA?
Que importa
que a alma jaza acre e escura
na lassidão da espera,
se com sonhar-te apenas
tudo se irradia
e por ser-te
tudo se transforma?
QUANDO TE ENCONTRARES, APAIXONA-TE
Olha-te
sem reticências, como
o sol olha a seara que doirou, como
os amantes se olham para dentro da pele em chama, como
as mães olham para o filhos com o fervor de um coração apaixonado.
Olha-te
e quando te vires não
vaciles, não recues, não temas, não
fujas, que o melhor de ti estará sempre escondido no teu
intimo, onde outros procurarão mas apenas tu saberás encontrar-te.
Olha-te, e quando te encontrares apaixona-te.
ÉS A PRIMAVERA QUE PROCURO
Peguei na paleta e nos pincéis
para pintar a primavera no céu de dezembro.
Quis pintar o mar do meu país
mas os teus olhos tinham roubado o azul.
Quis pintar canteiros de rosas
mas os teus lábios tinham bebido o vermelho.
Quis pintar a magia do entardecer
mas o oiro do sol poente estava todo no teu rosto.
Percebi então que se trazes nos olhos o mar
nos lábios as rosas
e no rosto o entardecer
és a primavera que procuro
e nos teus braços nunca mais será inverno.
ESTADO DE GRAÇA
Eis-nos
na bênção da aventura
cachos de uvas ruivas no regaço
um véu de colibris a cobrir-nos a pele dos segredos.
Eis-nos
no céu dos escolhidos
todo o sol que irradias me ilumina
todo o amor que canto te pertence.
QUE SERÁ DE NÓS?
Alma aberta em chama
corpo aberto em prece
dos lábios rugidos firmes
gritos de guerras perdidas
a voz da sapiência que brada
mil e uma razões para recusar
o cálice de vida que se oferece.
Que é do amor escondido
nas entrelinhas das cartas rasgadas
qual das mãos algemadas
secará as gotas de cio
na pele dolorida da renúncia?
E de nós, que será de nós,
que sem sermos amantes
tememos a dor do amor acabado?
Tecelões à procura do novelo azul
azul ou pardo como os gatos da noite
os lábios sedentos de mel e hortelã
e a flor dos cardos a pingar-nos no ventre
a seiva húmida e quente dos beijos sonhados.
Entretanto é dia, e de dia
os gatos são transparentes e lúcidos.