ÉDEN
Bato-te à porta
com a certeza de ter chegado a casa.
A tua silhueta balança
na nudez da parede branca.
Uma mão a amparar-te o rosto
a outra no cabelo
e nos olhos a vontade de naufragar
no mar de promessas sussurradas.
Somos Éden
jardim de flores e frutos proibidos.
Dos teus lábios escorre
o roxo das ameixas maduras
e dos dedos pétalas azuis
de uma flor que um dia idearei.
Foi noite nas nossas vidas
até me dares guarida.
Depois pintei um sol para te oferecer.
DAI-ME UMA PEDRA EM VEZ DE CORAÇÃO
Dai-me a alma dos poetas
mas não a sua sina.
O êxtase da paixão mas não o desencanto.
Deixai-me esculpir vida nas estátuas frias
desenhar paixões a esvoaçar nos varais
ou nos parapeitos das janelas
dos amantes encobertos.
Pintar a tristeza da cegonha
que não migra porque partiu uma asa
ou da mãe que seca o rosto do filho
com os dedos molhados pelo seu próprio pranto.
Dai-me uma pedra em vez de coração!
O coração é pássaro de asa partida
que não migra e anseia a nova primavera
que apenas lhe trará mais solidão.
Dai-me a alma dos poetas
mas não a sua sina.
A MAIS ALEGRE DE TODAS AS PALAVRAS TRISTES
Não é por isto ou por aquilo que te falo.
Falo-te porque sim. Porque é
falando-te que purgo este sentir.
Sei que mais falta me faz falar-te
do que a ti escutar-me,
mas é da alma que te falo, e nas coisas da alma
nem tudo tem de ser medido.
Hoje venho falar-te na mais alegre
de todas as palavras tristes: A saudade.
Alegre porque é uma graça senti-la
- felizes os que a sentem, porque viveram.
Triste quem não guardou na alma rosas em botão
para desfolhar ao entardecer da vida
que seja por veredas de saudade.
MIRAGEM
Esta noite sonhei-me e era a solidão
do pasto verde tombado pelo vento
nos campos molhados de janeiro.
Sonhei-me num prado de trevo
a viver o desalento do petiz que se
despede do papagaio tresmalhado
e perdido nos confins do azul.
Esta noite vi-me por dentro
e senti o assombro correr lentamente
pelo labirinto de veias mornas de vida.
E depois vi-te. Nadavas num mar
de indiferença e altivez, para longe,
bem longe dos meus braços abertos.
Esta noite chamei-te, mas não vieste.
Duraste apenas o tempo de fugires
para lá de onde os sonhos alcançam.
O cavalo de chuva galopava na vidraça
a atormentar-me os lábios ruivos
febris, doídos de saudade e de desejo.
OS CHOUPOS NÃO QUEBRAM
Acordou-me o inverno
O vento sacode o choupo molhado
Oiço-lhe a alma a gemer
Um rosário de queixumes
O azul de outras luas escureceu
Fez-se cinza a correr p´la berma
Arrastado pela enxurrada dos dias
Acordou-me o inverno
Abanei, mas os choupos não quebram
Abri a janela e encarei o vento
Que a minha casa é feita de verdade
Paredes erguidas do barro que sou
Adobes de coragem e coração
Tudo alumiado por lúcido clarão
CRESCEU-NOS A CAMA
Lentamente
descemos o rio
mudaram as luas
os azuis do céu
e os verdes das margens
até nós mudámos
sem darmos por isso
pouco a pouco
o espelho mostrava-nos
o que viria a seguir
o preço a pagar
pela nossa irreverência
eu deixei de correr
e tu seguiste-me os passos
até ao ponto de não podermos
mais fugir ao destino
o céu acinzentou
cresceu-nos a cama
e o teu sangue
deixou de saciar-me
diz-me, amor
perdemos a sede
ou secou-se a seiva
que nos corria efervescente
pelas crateras da pele em chama?
cresceu-nos a cama
ou mingaram-nos os braços?
TUDO ME SERVE PARA TE AMAR
Desbravo caminhos
nos beijos que me negas
Os meus olhos fazem amor
com a tua sombra
os meus lábios
com o teu cheiro
a minha alma
com o teu desdém
Provoco-te com beijos
rabiscados no vento
Tu, a mim, apenas recusas
Pensarás que não sei dos teus desejos
- framboesa, melancia, romã
bruma fresca, maré viva, algodão doce
Tudo te serve para me provocar
Tudo me serve para te amar.
TAMBÉM HÁ POESIA NO QUE NÃO TE ESCREVO
Amar-te é brincar às escondidas com o destino
É desesperar no tempo e questionar se existes
Se demoras, se chegas, se ficas, se tornas a vir
É querer-te e rasgar caminhos para fugir de ti
Amar-te é um emaranhado de coisas por dizer
É um sem-fim de apagar poemas sem sentido
De dizer com os olhos o que os dedos omitem
Pois também há poesia no que não te escrevo
Amar-te é isto e tudo o mais que não se explica
As cores dos pássaros que à noite me visitam
Esta inquietação constante na pele dos lábios
O contar das horas que ainda faltam para te ter
ESQUECESTE DE SER TUA
Na tua alma faz-se luto
cada vez que a porta se fecha
e os seus passos se perdem
na imensidão da noite
vestes a pele de sentinela
nas madrugadas caladas
a porta do quarto entreaberta
a sua cama vazia...
esqueceste o nome que tinhas
antes de seres quem és
esqueceste a cintura fina
os seios rijos, o rosto viçoso
perdeste a altivez no andar
porque o sol rompeu
a alvorada dos teus dias
e tu toda vergaste ao seu esplendor
esqueceste de ser tua
pertences a todos menos a ti
não sorris sem temer o castigo
não abraças o canto sem temer o pranto
és doente crónica
sofres desse mal chamado amor
que as dores do parto são para a vida inteira
esqueceste o nome que tinhas
antes de seres mãe.
GRITO DE GUERRA
Fosses tu palavra
perdida no verso apagado
e eu papoula florida
em lava ardente
e nenhum de nós seria poema
mas és pétala agreste
no girassol de agosto
musa, lágrima,
loucura expelida
dos confins do pranto
e eu sou o protótipo
de um poeta em construção
alma fustigada
pela voragem dos sentidos
e assim, no rubro do sangue
na angústia, no desejo
faço-te trova, hino
grito da guerra que nos invade.