Gabriela Lages Veloso

Gabriela Lages Veloso

n. 1997 BR BR

Autora de contos, crônicas e poemas. Colaboradora da Revista Literatura Errante.

n. 1997-11-24, São Luís - MA

Perfil
25 357 Visualizações

Aster

Com o correr do tempo,
a humanidade fez grandes descobertas.
Aprendeu a dominar a arte
da linguagem, dos números e do fogo.
Porém, no meio do caminho,
em sua sede inesgotável pelo poder,
se esqueceu da simples essência da vida.

É preciso enxergar a vida com lentes de aumento
para compreender as suas miudezas.
Somos seres finitos, e esse é um fato.
Mas é necessário perceber que a
verdadeira morte é fruto do esquecimento.

Enquanto restarem lembranças,
as pessoas continuarão vivas,
como o brilho eterno das estrelas.
E, o que realmente permanecerá serão
os momentos vividos ao acaso,
a bondade sem holofotes,
as amizades sinceras e desinteressadas
e uma compreensão mais profunda de si e do outro.

VELOSO, Gabriela Lages. Poema Aster. Revista Literatura Errante - Memória, p. 28, 22 jun. 2021.
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Biografia
Contista, cronista, poetisa e ensaísta. Em 2021, foi membro da Revista Literatura Errante. Atualmente, é Colunista da Revista Sucuru e Editora da Sociedade Carolina.

Poemas

8

(Re)viver

Agendas cheias de 
compromissos vazios 
nos tornam apáticos e 
indiferentes ao mundo 
ao nosso redor. É preciso
que algo aconteça para 
nos acordar do transe 
cotidiano. Esse é o papel 
da arte: trazer um sopro 
de vida aos nossos dias 
e apurar nossos olhares 
e consciências. A arte – 
em cada nota, tinta ou 
letra – salva vidas.

***

(Re)vivir

Agendas llenas de
compromisos vacíos
nos hace apáticos e
indiferentes al mundo
a nuestro alrededor.
Se necesita que le ocurra
algo para despertarnos de nuestro
trance. Este es el papel
del arte: aportar un soplo
de vida a nuestros días
y agudizar la vista y
la concienciación. Arte –
en cada nota, tinta o
letra – salva vidas.


VELOSO, Gabriela Lages. Poema (Re)viver. In: Revista Kametsa, Peru, 24 ago. 2021.
890

(Re)lembrança

Hoje falo em nome de 
todas as mulheres do 
passado, presente e futuro. 

Escrevo para que tudo 
que minhas ancestrais 
viveram não seja apagado.

Escrevo porque acredito 
que somos todos iguais, 
independente de cor, gênero ou fé.

Escrevo para que nossas 
conquistas não sejam 
levadas pelo vento.

***

(Re)cordar

Hoy hablo en nombre de
todas las mujeres del
pasado, presente y futuro.

Escribo para que todos
lo que vivieron mis antepassados
no se borrará.

Escribo porque creo
que todos somos iguales
sin importar el color,
el género o la fe.

Escribo para que nuestros
logros no sean
arrastrados por el viento.

VELOSO, Gabriela Lages. Poema (Re)lembrança. In: Revista Kametsa, Peru, 24 ago. 2021.
861

(Re)construção

Desde crianças, somos ensinados 
a ver o mundo. Ver e não-ver.
Decoramos (pre)conceitos, que
formam muros tão altos, que
somente o conhecimento pode
ultrapassar. Mas, a cada nova 
descoberta e exercício de empatia,
são criadas frestas nesse alto muro.
E através delas surgem pequenos
fachos de luz. Luz que nos deixa
temporariamente cegos, e, talvez,
por isso, nos faça enxergar, por
um instante, para além de tudo
aquilo que já havíamos visto antes.

***

(Re)construcción

Desde la infancia, se nos enseña
para ver el mundo. Ver y no ver.
Memorizamos (pre)conceptos,
que forman muros tan altos que
que sólo el conocimiento puede
superado. Pero con cada nuevo
descubrimiento y ejercicio de la
empatía se crean grietas en este
alto muro. Y a través de ellos
pequeños pozos destellos de luz.
Luz que nos deja temporalmente
ciego, y, tal vez nos hace ver, por
un instante, más allá de todo lo
que hemos visto antes.


VELOSO, Gabriela Lages. Poema (Re)construção. In: Revista Kametsa, Peru, 24 ago. 2021.
888

(Re)começo

Dias iguais, formam pessoas 
iguais, que vivem vidas iguais.
E, assim, o ciclo recomeça. 
Até o instante em que um 
livro é aberto. E a realidade 
salta diante de um par de
olhos atentos, de alguém
que será tachado de ridículo
por pessoas ocupadas pelo
cotidiano. Tanto tempo se
passou, mas ainda temos
medo de sair da caverna.

***

(Re)comienzo

Días iguales, forman personas
iguales que viven vidas iguales.
Y así el ciclo comienza de nuevo.
Hasta el momento en que un
se abre el libro. Y la realidad
salta ante un par de ojos atentos,
de alguien que se llamará ridículo
por personas ocupadas por la
vida cotidiana. Tanto tiempo ha
pasado, pero todavía tenemos
miedo de salir de la cueva.


VELOSO, Gabriela Lages. Poema (Re)começo. In: Revista Kametsa, Peru, 24 ago. 2021.
872

(Re)ver

Enquanto vivemos desatentos,
valorizamos coisas banais, a
rotina se transforma em nossa
maior prioridade. O essencial
se torna invisível aos olhos,
consciente ou inconscientemente.
Nosso olhar não se fixa em nada
que não nos diz respeito, e,
apesar de compreendermos a
existência e injustiça da 
desigualdade, tudo que se 
refere ao Outro torna-se Nada.

***

(Re)ver

Mientras vivimos desatentos
valoramos las cosas banales,
la rutina se convierte en nuestra
prioridad. Lo esencial se vuelve
invisible a los ojos, consciente
o inconscientemente. Nuestra
mirada no se fija en nada que
no nos concierne, y a pesar de
que entendemos la existencia
y la injusticia de desigualdad,
todo lo que se refiere al Otro
se convierte en Nada.

VELOSO, Gabriela Lages. Poema (Re)ver. In: Revista Kametsa, Peru, 24 ago. 2021.
849

Insight

  Em uma segunda-feira qualquer, um dia nublado e cinza, me encontro em um grande engarrafamento. Entro na primeira rua que encontro. Um atalho. Aparentemente um lugar comum, com pessoas comuns. Entretanto, nunca me esquecerei daquele lugar, da sensação de despertar para a realidade que me cerca.
  Era uma rua estreita, muito estreita, com uma infinidade de pequenas lojas por todos os lados. Além de uma feira, uma borracharia, casas e uma igreja, que se destacava no ambiente, por suas dimensões e aparência impecável. Quantas pessoas... tantas pessoas vão e vêm freneticamente, todas com pressa, com um aspecto de cansaço e com várias sacolas, tantas sacolas quanto lojas, em um lugar que sem dúvida enfrenta graves problemas.
  Tantas mães em plena adolescência, carregando seus filhos, outras crianças, no meio da rua estreita. Tento seguir com o meu carro, desviando de outros carros, carroças, bicicletas, motos e pessoas. Lá vem um ônibus. Percebo que todos que antes ocupavam a estreita rua se dispersam, sobem nas calçadas, entram nas ruas transversais. Como é a minha primeira vez nesse lugar, imito a ação. O ônibus segue seu curso e mais uma vez a rua estreita é tomada.
  Algumas pessoas estão sentadas em suas portas, menosprezando os problemas das outras, afinal elas sofrem muito mais. Vejo uma jovem bem magra, extremamente suja, sentada na calçada da rua estreita, em meio ao lixo e o esgoto que escorre a céu aberto, conferindo as moedas que ganhou dos motoristas que por ali passavam. Ela já desistiu de pedir ajuda para os pedestres cheios de sacolas, pois sempre que chegam ao ponto da calçada em que ela se encontra, lançam um olhar de indiferença e desprezo, e atravessam a rua estreita, afinal eles não podem sustentar o vício (fome) que ela tem, pois eles têm muitas contas a pagar.
  Dobro a esquina para sair da rua estreita, e me deparo com um muro pichado com o nome de uma facção criminosa. Vejo mais moradores sentados em suas portas. Lembro de uma notícia em que moradores como aqueles, em um bairro como aquele, foram expulsos de suas casas por traficantes que dominavam o lugar. Percebo que os rostos dos moradores deste estreito bairro têm uma mistura de medo e conformismo. Essa “é a eterna contradição humana”.

VELOSO, Gabriela Lages. Crônica Insight. In: Coletânea de Contos e Crônicas - Vencedores do Prêmio Literário AMEI 2020. São Luís: Viegas Editora, 2021.

878

Anúncio

Extra! Extra! Vende-se uma casa

pegando fogo. Comporta bilhões

de moradores. Vista espetacular.



Desde que não se importe com o

ar levemente tóxico, as praias um

tanto impróprias para o banho, as

temperaturas um pouco desreguladas.


Meus caros, essa casa pegando fogo

é tão grande, tão rica, desde que não

se repare nos simples problemas, e

viva como se não houvesse amanhã.



VELOSO, Gabriela Lages. Poema Anúncio. In: Revista Sucuru, 31 jul. 2021.
846

Relógio de areia

Nunca se engane com as 
pequenas coisas, elas são 
mais cruciais do que se imagina.
A arte nos faz sentir, ver, 
ouvir e viver outras vidas,
por isso, tem sido como 
água nesse deserto sem fim. 

No ir e vir das ondas da 
vida, nos deparamos com 
situações que modificam-nos
permanentemente. Em um dia, 
tudo seguia o seu curso, o tempo 
era cronometrado à conta gotas,
e todos corriam, perdidos 
em seus próprios mundos. 

No dia seguinte, o mundo parou.
A pandemia desacelerou os 
relógios, e, abruptamente, levou 
vários entes queridos. Tudo 
o que antes era ignorado,
ganhou um novo significado. 
A vida ganhou uma nova cor. 

De repente, percebemos a nossa
transitoriedade, somos apenas
passageiros nesse mundo.
Só então, notamos que existe 
um universo além de nós.
Mas atravessar desertos exige 
coragem. As vezes, é preciso 
deslocar a rota para encontrar 
o caminho. Assim, a arte tem 
sido a nossa bússola. 

VELOSO, Gabriela Lages. Poema Relógio de areia. Revista Sucuru - 5 ed., p. 81, 26 jul. 2021.
896

Comentários (4)

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Gabriela Lages Veloso
Gabriela Lages Veloso

Luana, minha amiga, obrigada!

Luana Kerly
Luana Kerly

Perfeitos!! ????

Gabriela Lages Veloso
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Muito obrigada pela leitura, João Euzébio!

joaoeuzebio

COMO AS PALAVRAS FLUEM EM UM JEITO MAGICO DE POEMA ÉLINDO UM ABRAÇO