Gabriela Lages Veloso

Gabriela Lages Veloso

n. 1997 BR BR

Autora de contos, crônicas e poemas. Colaboradora da Revista Literatura Errante.

n. 1997-11-24, São Luís - MA

Perfil
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Aster

Com o correr do tempo,
a humanidade fez grandes descobertas.
Aprendeu a dominar a arte
da linguagem, dos números e do fogo.
Porém, no meio do caminho,
em sua sede inesgotável pelo poder,
se esqueceu da simples essência da vida.

É preciso enxergar a vida com lentes de aumento
para compreender as suas miudezas.
Somos seres finitos, e esse é um fato.
Mas é necessário perceber que a
verdadeira morte é fruto do esquecimento.

Enquanto restarem lembranças,
as pessoas continuarão vivas,
como o brilho eterno das estrelas.
E, o que realmente permanecerá serão
os momentos vividos ao acaso,
a bondade sem holofotes,
as amizades sinceras e desinteressadas
e uma compreensão mais profunda de si e do outro.

VELOSO, Gabriela Lages. Poema Aster. Revista Literatura Errante - Memória, p. 28, 22 jun. 2021.
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Biografia
Contista, cronista, poetisa e ensaísta. Em 2021, foi membro da Revista Literatura Errante. Atualmente, é Colunista da Revista Sucuru e Editora da Sociedade Carolina.

Poemas

43

O Relicário

Após uma longa noite de sonhos intranquilos, Moira desperta sobressaltada, levanta-se e põe-se em frente a uma antiga penteadeira – uma relíquia pertencente à sua família por gerações. Por um instante, ela contempla o espelho e vê uma mulher de oitenta anos, com seus cabelos grisalhos em completo desalinho, rugas ao redor dos olhos e da boca, bem como olhos azuis, que outrora cintilavam, mas agora se encontram opacos.

“Em qual espelho ficou perdida a minha face?”, suspirou, angustiada.

Moira é uma juíza renomada, aposentada há alguns anos, que mora em uma suntuosa mansão. Mas, apesar de toda a sua riqueza, não tem herdeiros. Logo após a aposentadoria, ela entrou em crise, pois encontrou-se frente a frente com a pergunta que a inquietou por toda a sua vida: quando será o meu tempo?

Ao sair de seu quarto, Moira caminha até uma grande janela, no final do corredor, e põe-se a observar a chuva. À medida que cada pequeno cristal d’água cai sobre a grama, traz à tona, com toda a vivacidade, as antigas memórias da aurora de sua vida.

A pequena Moira adorava dias de chuva, pois, nesses dias, sua mãe tinha o hábito de contar histórias, sentada em uma cadeira de balanço, para ela e suas duas irmãs, que faleceram em um trágico acidente quando Moira tinha apenas cinco anos de idade. Por isso, a menina cresceu sufocada pela superproteção materna e pelas altas expectativas do pai.

Agora, em frente à grande janela, Moira estava tão absorta em seus pensamentos que não percebeu o avançar das horas. Permaneceu nesse transe até as sete horas, quando a governanta veio chamá-la para tomar seu desjejum. Alguns instantes depois, Moira estava perante a mesa posta com fartura, mas estava sem apetite, e quis tomar apenas uma xícara de chá.

“De fato, do fundo do poço só se pode tirar memórias ou mesmices...”, refletiu Moira.

Que contraste Moira enxergou entre a fartura desse café da manhã, para uma única pessoa, e todas as refeições de sua família – ou até mesmo a ausência delas – em seus dias de infância. Essa percepção transportou-a para o dia em que sua mãe recebeu um misterioso presente de uma falecida senhora: uma penteadeira de mogno, com miligramas de ouro incrustado em desenhos floreados, e um espelho embutido no majestoso móvel.

Moira aprendeu a ler e escrever bem cedo. Seus dias eram milimetricamente administrados pelo pai, que tinha um único objetivo na vida: fazer com que a filha jamais enfrentasse as mesmas privações pelas quais ele passou. Por isso, a menina tinha de estudar, dia e noite, para que, no futuro, tivesse uma profissão de prestígio e retorno financeiro a curto prazo.

Após o seu desjejum, Moira caminha por vários corredores e decide ir até o seu oásis particular: uma biblioteca de grandes dimensões, com prateleiras até o teto, todas preenchidas com edições de luxo de centenas de livros, desde os clássicos até os contemporâneos da literatura universal, em vários idiomas. Um leve lampejo acende uma fagulha em seus olhos azuis. Ela está no único lugar em que realmente se sente realizada.

Moira pensou como teria sido sua infância em uma biblioteca como aquela, como teria se divertido inventando suas próprias histórias, ou até mesmo imaginando ser a protagonista de seus romances favoritos.

Quando menina, seus passatempos favoritos, nas folgas de sua pesada rotina de estudos imposta pelo pai, eram ler contos de fadas e romances que a transportavam para outros momentos e mundos, e brincar em frente à majestosa penteadeira de sua mãe. Ao contemplar o espelho, ela não via a pequena garota de belos cachos castanhos e olhos azuis cintilantes, e sim a protagonista da história que estava lendo ou escrevendo.

O maior sonho de Moira era se tornar uma grande escritora no futuro. Por isso, ela tinha um diário, no qual criava um mundo todo seu, cuja única lei era a liberdade. Bem, esse era o seu sonho, porém ele não estava nos planos de seu pai, que queria, a todo custo, que ela fosse rica. Por essa razão, ela escondia seu diário na última gaveta do imponente móvel de mogno, assim também como sua força para escolher o próprio destino.

Ainda na biblioteca, uma pequena lágrima cai dos tristes olhos azuis de Moira, ao lembrar de seu antigo diário infantil e perceber o quanto a sua existência foi vazia... Vazia de significado, e, principalmente, de felicidade.

“Cada instante do nosso passado nos faz ser quem nós somos”, disse consigo mesma.

Nesse instante, a governanta entra na biblioteca e encontra Moira em prantos.

– A senhora está se sentindo bem? – perguntou a governanta.

– Não se preocupe comigo, só estou um pouco emotiva – disse Moira, enxugando as lágrimas.

– Desculpe interrompê-la, mas o Contador está lhe aguardando na sala de visitas. Devo pedir-lhe que retorne em outro momento? – disse a governanta, com um olhar compreensivo.

– Não. Diga que irei descer em alguns minutos – disse Moira, resignada.

– Certo, senhora. Você realmente está se sentindo bem? – insistiu a governanta.

– Obrigada pela preocupação, mas o meu problema não pode ser resolvido agora – disse Moira, enigmática. – Não deixe o Contador esperando, diga que irei em instantes.

A compaixão de sua funcionária a fez viajar mais uma vez em suas memórias. Moira viu-se perante o seu único e melhor amigo, que era também seu vizinho. Os dois costumavam brincar juntos no quintal de suas casas. Ele costumava ouvir pacientemente as queixas de Moira sobre a superproteção dos pais e como se sentia sufocada por isso. O garoto sempre a alegrava e distraía com suas histórias, pois ele também era dono de uma imaginação fértil. Porém, estava fadado a um destino no qual sua criatividade de nada valia. Ele era extremamente pobre, vivia em uma miséria maior do que a família de Moira jamais experimentaria. Por isso, quando completou apenas dez anos de idade, teve de começar a trabalhar em uma fábrica de tijolos, para que a família não definhasse de fome.

Temendo que a filha se apaixonasse pelo garoto quando eles chegassem à juventude e, assim, tivesse um destino diferente do que ele planejara, o pai de Moira proibiu a amizade das duas crianças, o que as condenou a um caminho no qual não havia tempo nem espaço para amizades ou sentimentos, somente para a monotonia diária e a solidão.

O temor do pai de Moira tinha uma explicação. No passado, ele é que fora o melhor amigo pobre de sua esposa. A avó, que Moira jamais conhecera, era uma mulher muito rica, que tinha apenas duas filhas, dentre as quais a primogênita um dia viria a ser a mãe de Moira. Contudo, a rica senhora não aprovava o relacionamento entre sua distinta filha e um rapaz tão humilde, pois acreditava não passar de um mero interesse financeiro. Por isso, deserdou sua primogênita no dia em que recebeu a notícia do casamento, e se ausentou, assim, para sempre da vida de sua filha. Somente em seu leito de morte arrependeu-se pela dura decisão e suplicou a sua segunda filha, a única herdeira de toda a sua fortuna, que entregasse a penteadeira à sua irmã, pois era uma relíquia que atravessava gerações de primogênitos dos seus antepassados.

Agora, em seu escritório, Moira discute acaloradamente com o seu Contador, pois descobre um desfalque em suas finanças. E toda essa agitação causa-lhe uma enorme dor no peito, e ela cai desmaiada.

Quando Moira recobra seus sentidos, ela encontra-se deitada em sua cama e percebe o olhar cansado de sua governanta, que ficara em vigília a noite inteira, cuidando de sua estimada senhora. Um turbilhão de pensamentos invade a mente de Moira. Ela enxerga sua vida como um delicado castelo de areia que está sendo soprado pelo impetuoso vento da morte. Restam, agora, poucos grãos... Ela percebe que sua existência foi preenchida unicamente pelas ausências de seu passado.

Em seu peito, aquela mesma dor se acentua; ela enxerga uma luz muito forte e imagina como teria sido a sua vida se ela tivesse, de fato, tomado as rédeas de seu próprio destino. Pois, em seu último suspiro, ela compreendeu que o futuro é um quebra-cabeça, com inúmeras lacunas, que podem ser preenchidas por várias peças disponíveis.

Inquieta, com a respiração ofegante, Moira desperta no dia de seu décimo oitavo aniversário. Tudo não passou de um sonho...

VELOSO, Gabriela Lages. Conto O Relicário. Revista Intransitiva - Memórias que nos atravessam, Rio de Janeiro, p. 62 - 67, 09 dez. 2020.
653

Vênus

Folheando uma revista,

Deparo com um rosto, uma história.

Uma mulher impecável,

A beleza personificada.

Mas, ao observar atentamente

Sua face, vejo apenas uma forma,

Um esboço de vida.



Folheando o grande livro da história,

Deparo com uma luta ancestral

Pelo pomo da discórdia.



Muitos sóis e luas se passaram,

E a pergunta permanece:

Quem é a mais bela?



Com o passar das estações,

Em um giro pelo globo,

As formas mudaram,

Sempre mais apertadas,

Inalcançáveis

E cruéis.



Talvez, em um futuro distante,

Alguém compreenda que

A beleza é um espelho de muitas faces.


VELOSO, Gabriela Lages. Poema Vênus. Ser MulherArte - Revista Feminina de Arte Contemporânea, 15 mar. 2021.
479

eScrEveR

Escrever é libertar-se de si mesmo.

É poder recriar o mundo com o poder da palavra.

 

Escrever é dar asas à imaginação.

É contemplar o mundo com outros olhos.

 

Escrever é ora um alento, ora um desconsolo.

É transitar entre mundos, eras e seres.


VELOSO, Gabriela Lages. Poema eScrEveR. Ser MulherArte - Revista Feminina de Arte Contemporânea, 15 mar. 2021.
636

A grande ilha

Ao atravessar o exato ponto entre céu e mar,
a tênue linha do horizonte
envolta no ir e vir das ondas,
se pode avistar a grande ilha.

Assim, ao longe, sendo constantemente
ofuscado pelos raios solares,
não se consegue ter uma imagem nítida,
somente os esboços de uma cidade.
Pouco a pouco, a ilha se mostra.

Ao chegar em terra firme,
já com os pés calcados na areia,
se pode ter um vislumbre do lugar.
O vento sopra forte e a praia parece deserta,
há somente alguns transeuntes na calçada
e, vez por outra, algum automóvel.

Muitos prédios de luxo compõem a paisagem,
imponentes e frios,
indiferentes à natureza que os cerca,
ou o que dela restou.

Na faixa de areia, o esgoto segue o seu caminho para o mar
sempre em frente,
esse é o preço do progresso.

Mas o coração dessa cidade não se encontra aqui,
é preciso ir além, até as ruínas sobreviventes ao tempo.
Há uma beleza única nessas ruas de cantaria
e nesses antigos casarões, com seus azulejos partidos.

A cidade conta a sua história
em cada pedra, rosto e som.

Na ânsia de viver permanentemente no presente,
o passado está sendo apagado.
Muitas construções foram jogadas às traças.
Algumas foram demolidas,
Outras se tornaram estacionamentos,
pois as ruas estreitas já não comportam
tamanho fluxo de pessoas, insetos e veículos.

O esgoto segue seu caminho para o mar.
Aqui se pode vê-lo por toda a parte,
em poças nas praças,
escorrendo pelas ladeiras
e disputando as calçadas com os mendigos.

Há muitos deles por toda a parte,
mas ninguém parece notá-los,
são deixados ali, para depois,
mas esse tempo nunca chega.

Após atravessar a ponte
e deixar a cidade velha para trás,
surgem novas construções,
cada vez mais altas e luxuosas.
Curiosamente os construtores desses prédios
jamais poderão, ao menos, visitá-los.
Esse mundo não os comporta.

A grande ilha continua se expandindo,
ocupando novos espaços,
poluindo os olhos d´água remanescentes,
desmatando e destruindo a natureza,
repetindo os mesmos erros de seus exploradores.

Agora, o que nos resta ver nessa cidade são as suas margens,
os lugares negligenciados por todos.

VELOSO, Gabriela Lages. Poema A grande ilha. In: Revista Granuja, México, 05 abr. 2021.
583

Chuva

Existe algo de mágico
Na chuva.
Algo místico
Que desperta as memórias
Mais profundas.

Essas nuvens pesadas
Nos transportam
Para outros tempos e lugares,
Revivem momentos
Que fazem morada
Na intimidade da alma.

Para alguns,
Trazem boas lembranças.
Para outros,
Saudades incuráveis.
Mas, certo é que não se pode
Sair o mesmo de um dia como esse.

VELOSO, Gabriela Lages. Poema Chuva. In: Revista Sucuru, 08 abr. 2021.
577

A Casa

Tenho mil e uma histórias dentro de mim.
Palavras.
Pessoas.
Sons.

Em antigos baús,
Guardo fotografias de desconhecidos,
Conchas e relicários.
Sou repleta de inutilidades.

Cores.
Sabores.
Cheiros.
Sou rica em miudezas.

Descarto pesos.
Coleciono sensações.
Tenho mil e uma memórias dentro de mim.



VELOSO, Gabriela Lages. Poema A casa. Revista Desvario, Sergipe, 22 fev. 2021.
431

Holograma

Por um instante,
Olhe ao seu redor
O que você vê?

Não me refiro
À ilusão de ótica
Que te cerca,
E sim, a todos nós.

Quem é você?
Não me refiro
À essa miragem com três dimensões,
Que não passa de uma mera máscara,
E sim, à sua verdadeira face.

Sorria,
Consuma,
Compre esse estilo de vida,
Seja o que todos são.
Realidade. Luz. Ação.

Mas, novamente pergunto
Quem é você?
Algo vazio pode ter profundidade?


VELOSO, Gabriela Lages. Poema Holograma. In: Revista Tamarina Literária, Rio Grande do Norte, 02 mar. 2021
464

Gaia

A cada volta, um novo ciclo.
Estou presa nas areias do tempo.
Passam-se dias, meses, anos,
E aqui estou eu.

Já presenciei muitas histórias,
Desse ser, que em mim habita.
Como mãe, que sou,
Contemplei todos os passos de meus filhos,
Em cavernas, aldeias, reinos, impérios, metrópoles
E no que ainda está por vir,
Nessa longa estrada.

Presa nos ponteiros do relógio,
Observei guerras intermináveis,
O passar de incontáveis estações.
Flor, folha, neve e sol.
Vi a vida ressurgir,
O amor permanecer,
Um novo ciclo começar,
Sonho ou liberdade?

VELOSO, Gabriela Lages. Poema Gaia. In: Antologia Poética Elas, a poesia, o indescritível. Florianópolis: Editora Expressividade, 2021.
441

A estação

Ouço melodias que me transportam

A tempos de frio Cálice

Transbordando em vinho

De amargas uvas.

Mergulho nas Águas de Março

E saio Sozinho.

Mas, Apesar de você

Eu vou.

VELOSO, Gabriela Lages. Poema A estação. In: As Literatas. MARANHAY - (Revista do Léo ) - 56 - março 2021 - EDIÇÃO ESPECIAL: ANTOLOGIA - MULHERES DE ATENAS, São Luís - MA, 04 mar. 2021.
471

Involução

Uma chance.

Um legado.

Duas faces de uma mesma moeda.

A educação mantém sua marcha.



Luta.

Indiferença.

Pratos de uma mesma balança.

A educação resiste.



Leis. Avanços. Retrocessos.

De repente, o mundo parou.

As diferenças se acentuaram.



Evasão.

Tecnologia.

Os adaptados sobrevivem?

A educação se perdeu no caminho.


VELOSO, Gabriela Lages. Poema Involução. Ser MulherArte - Revista Feminina de Arte Contemporânea, 15 mar. 2021.
465

Comentários (4)

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Luana, minha amiga, obrigada!

Luana Kerly
Luana Kerly

Perfeitos!! ????

Gabriela Lages Veloso
Gabriela Lages Veloso

Muito obrigada pela leitura, João Euzébio!

joaoeuzebio

COMO AS PALAVRAS FLUEM EM UM JEITO MAGICO DE POEMA ÉLINDO UM ABRAÇO