Lista de Poemas

Sobre viver

Minha casa é o mundo.

Navio sem porto.


Minha comida é esmola.

Chuva no deserto.


Invisível, que sou,

Ando para sempre e nunca.


VELOSO, Gabriela Lages. Poema Sobre viver. In: Revista Cosmopolita, 10 mai. 2021.
494

A Casa

Tenho mil e uma histórias dentro de mim.
Palavras.
Pessoas.
Sons.

Em antigos baús,
Guardo fotografias de desconhecidos,
Conchas e relicários.
Sou repleta de inutilidades.

Cores.
Sabores.
Cheiros.
Sou rica em miudezas.

Descarto pesos.
Coleciono sensações.
Tenho mil e uma memórias dentro de mim.



VELOSO, Gabriela Lages. Poema A casa. Revista Desvario, Sergipe, 22 fev. 2021.
423

A estação

Ouço melodias que me transportam

A tempos de frio Cálice

Transbordando em vinho

De amargas uvas.

Mergulho nas Águas de Março

E saio Sozinho.

Mas, Apesar de você

Eu vou.

VELOSO, Gabriela Lages. Poema A estação. In: As Literatas. MARANHAY - (Revista do Léo ) - 56 - março 2021 - EDIÇÃO ESPECIAL: ANTOLOGIA - MULHERES DE ATENAS, São Luís - MA, 04 mar. 2021.
464

Vênus

Folheando uma revista,

Deparo com um rosto, uma história.

Uma mulher impecável,

A beleza personificada.

Mas, ao observar atentamente

Sua face, vejo apenas uma forma,

Um esboço de vida.



Folheando o grande livro da história,

Deparo com uma luta ancestral

Pelo pomo da discórdia.



Muitos sóis e luas se passaram,

E a pergunta permanece:

Quem é a mais bela?



Com o passar das estações,

Em um giro pelo globo,

As formas mudaram,

Sempre mais apertadas,

Inalcançáveis

E cruéis.



Talvez, em um futuro distante,

Alguém compreenda que

A beleza é um espelho de muitas faces.


VELOSO, Gabriela Lages. Poema Vênus. Ser MulherArte - Revista Feminina de Arte Contemporânea, 15 mar. 2021.
470

Gaia

A cada volta, um novo ciclo.
Estou presa nas areias do tempo.
Passam-se dias, meses, anos,
E aqui estou eu.

Já presenciei muitas histórias,
Desse ser, que em mim habita.
Como mãe, que sou,
Contemplei todos os passos de meus filhos,
Em cavernas, aldeias, reinos, impérios, metrópoles
E no que ainda está por vir,
Nessa longa estrada.

Presa nos ponteiros do relógio,
Observei guerras intermináveis,
O passar de incontáveis estações.
Flor, folha, neve e sol.
Vi a vida ressurgir,
O amor permanecer,
Um novo ciclo começar,
Sonho ou liberdade?

VELOSO, Gabriela Lages. Poema Gaia. In: Antologia Poética Elas, a poesia, o indescritível. Florianópolis: Editora Expressividade, 2021.
433

Holograma

Por um instante,
Olhe ao seu redor
O que você vê?

Não me refiro
À ilusão de ótica
Que te cerca,
E sim, a todos nós.

Quem é você?
Não me refiro
À essa miragem com três dimensões,
Que não passa de uma mera máscara,
E sim, à sua verdadeira face.

Sorria,
Consuma,
Compre esse estilo de vida,
Seja o que todos são.
Realidade. Luz. Ação.

Mas, novamente pergunto
Quem é você?
Algo vazio pode ter profundidade?


VELOSO, Gabriela Lages. Poema Holograma. In: Revista Tamarina Literária, Rio Grande do Norte, 02 mar. 2021
456

Involução

Uma chance.

Um legado.

Duas faces de uma mesma moeda.

A educação mantém sua marcha.



Luta.

Indiferença.

Pratos de uma mesma balança.

A educação resiste.



Leis. Avanços. Retrocessos.

De repente, o mundo parou.

As diferenças se acentuaram.



Evasão.

Tecnologia.

Os adaptados sobrevivem?

A educação se perdeu no caminho.


VELOSO, Gabriela Lages. Poema Involução. Ser MulherArte - Revista Feminina de Arte Contemporânea, 15 mar. 2021.
456

eScrEveR

Escrever é libertar-se de si mesmo.

É poder recriar o mundo com o poder da palavra.

 

Escrever é dar asas à imaginação.

É contemplar o mundo com outros olhos.

 

Escrever é ora um alento, ora um desconsolo.

É transitar entre mundos, eras e seres.


VELOSO, Gabriela Lages. Poema eScrEveR. Ser MulherArte - Revista Feminina de Arte Contemporânea, 15 mar. 2021.
628

Chuva

Existe algo de mágico
Na chuva.
Algo místico
Que desperta as memórias
Mais profundas.

Essas nuvens pesadas
Nos transportam
Para outros tempos e lugares,
Revivem momentos
Que fazem morada
Na intimidade da alma.

Para alguns,
Trazem boas lembranças.
Para outros,
Saudades incuráveis.
Mas, certo é que não se pode
Sair o mesmo de um dia como esse.

VELOSO, Gabriela Lages. Poema Chuva. In: Revista Sucuru, 08 abr. 2021.
555

A grande ilha

Ao atravessar o exato ponto entre céu e mar,
a tênue linha do horizonte
envolta no ir e vir das ondas,
se pode avistar a grande ilha.

Assim, ao longe, sendo constantemente
ofuscado pelos raios solares,
não se consegue ter uma imagem nítida,
somente os esboços de uma cidade.
Pouco a pouco, a ilha se mostra.

Ao chegar em terra firme,
já com os pés calcados na areia,
se pode ter um vislumbre do lugar.
O vento sopra forte e a praia parece deserta,
há somente alguns transeuntes na calçada
e, vez por outra, algum automóvel.

Muitos prédios de luxo compõem a paisagem,
imponentes e frios,
indiferentes à natureza que os cerca,
ou o que dela restou.

Na faixa de areia, o esgoto segue o seu caminho para o mar
sempre em frente,
esse é o preço do progresso.

Mas o coração dessa cidade não se encontra aqui,
é preciso ir além, até as ruínas sobreviventes ao tempo.
Há uma beleza única nessas ruas de cantaria
e nesses antigos casarões, com seus azulejos partidos.

A cidade conta a sua história
em cada pedra, rosto e som.

Na ânsia de viver permanentemente no presente,
o passado está sendo apagado.
Muitas construções foram jogadas às traças.
Algumas foram demolidas,
Outras se tornaram estacionamentos,
pois as ruas estreitas já não comportam
tamanho fluxo de pessoas, insetos e veículos.

O esgoto segue seu caminho para o mar.
Aqui se pode vê-lo por toda a parte,
em poças nas praças,
escorrendo pelas ladeiras
e disputando as calçadas com os mendigos.

Há muitos deles por toda a parte,
mas ninguém parece notá-los,
são deixados ali, para depois,
mas esse tempo nunca chega.

Após atravessar a ponte
e deixar a cidade velha para trás,
surgem novas construções,
cada vez mais altas e luxuosas.
Curiosamente os construtores desses prédios
jamais poderão, ao menos, visitá-los.
Esse mundo não os comporta.

A grande ilha continua se expandindo,
ocupando novos espaços,
poluindo os olhos d´água remanescentes,
desmatando e destruindo a natureza,
repetindo os mesmos erros de seus exploradores.

Agora, o que nos resta ver nessa cidade são as suas margens,
os lugares negligenciados por todos.

VELOSO, Gabriela Lages. Poema A grande ilha. In: Revista Granuja, México, 05 abr. 2021.
558

Comentários (4)

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Gabriela Lages Veloso
Gabriela Lages Veloso

Luana, minha amiga, obrigada!

Luana Kerly
Luana Kerly

Perfeitos!! ????

Gabriela Lages Veloso
Gabriela Lages Veloso

Muito obrigada pela leitura, João Euzébio!

joaoeuzebio

COMO AS PALAVRAS FLUEM EM UM JEITO MAGICO DE POEMA ÉLINDO UM ABRAÇO

Contista, cronista, poetisa e ensaísta. Em 2021, foi membro da Revista Literatura Errante. Atualmente, é Colunista da Revista Sucuru e Editora da Sociedade Carolina.