Com o correr do tempo, a humanidade fez grandes descobertas. Aprendeu a dominar a arte da linguagem, dos números e do fogo. Porém, no meio do caminho, em sua sede inesgotável pelo poder, se esqueceu da simples essência da vida.
É preciso enxergar a vida com lentes de aumento para compreender as suas miudezas. Somos seres finitos, e esse é um fato. Mas é necessário perceber que a verdadeira morte é fruto do esquecimento.
Enquanto restarem lembranças, as pessoas continuarão vivas, como o brilho eterno das estrelas. E, o que realmente permanecerá serão os momentos vividos ao acaso, a bondade sem holofotes, as amizades sinceras e desinteressadas e uma compreensão mais profunda de si e do outro.
VELOSO, Gabriela Lages. Poema Aster. Revista Literatura Errante - Memória, p. 28, 22 jun. 2021.
Contista, cronista, poetisa e ensaísta. Em 2021, foi membro da Revista Literatura Errante. Atualmente, é Colunista da Revista Sucuru e Editora da Sociedade Carolina.
Em uma segunda-feira qualquer, um dia nublado e cinza, me encontro em um grande engarrafamento. Entro na primeira rua que encontro. Um atalho. Aparentemente um lugar comum, com pessoas comuns. Entretanto, nunca me esquecerei daquele lugar, da sensação de despertar para a realidade que me cerca. Era uma rua estreita, muito estreita, com uma infinidade de pequenas lojas por todos os lados. Além de uma feira, uma borracharia, casas e uma igreja, que se destacava no ambiente, por suas dimensões e aparência impecável. Quantas pessoas... tantas pessoas vão e vêm freneticamente, todas com pressa, com um aspecto de cansaço e com várias sacolas, tantas sacolas quanto lojas, em um lugar que sem dúvida enfrenta graves problemas. Tantas mães em plena adolescência, carregando seus filhos, outras crianças, no meio da rua estreita. Tento seguir com o meu carro, desviando de outros carros, carroças, bicicletas, motos e pessoas. Lá vem um ônibus. Percebo que todos que antes ocupavam a estreita rua se dispersam, sobem nas calçadas, entram nas ruas transversais. Como é a minha primeira vez nesse lugar, imito a ação. O ônibus segue seu curso e mais uma vez a rua estreita é tomada. Algumas pessoas estão sentadas em suas portas, menosprezando os problemas das outras, afinal elas sofrem muito mais. Vejo uma jovem bem magra, extremamente suja, sentada na calçada da rua estreita, em meio ao lixo e o esgoto que escorre a céu aberto, conferindo as moedas que ganhou dos motoristas que por ali passavam. Ela já desistiu de pedir ajuda para os pedestres cheios de sacolas, pois sempre que chegam ao ponto da calçada em que ela se encontra, lançam um olhar de indiferença e desprezo, e atravessam a rua estreita, afinal eles não podem sustentar o vício (fome) que ela tem, pois eles têm muitas contas a pagar. Dobro a esquina para sair da rua estreita, e me deparo com um muro pichado com o nome de uma facção criminosa. Vejo mais moradores sentados em suas portas. Lembro de uma notícia em que moradores como aqueles, em um bairro como aquele, foram expulsos de suas casas por traficantes que dominavam o lugar. Percebo que os rostos dos moradores deste estreito bairro têm uma mistura de medo e conformismo. Essa “é a eterna contradição humana”.
VELOSO, Gabriela Lages. Crônica Insight. In: Coletânea de Contos e Crônicas - Vencedores do Prêmio Literário AMEI 2020. São Luís: Viegas Editora, 2021.
878
Esfinge
Calmaria. Grito abafado. Mergulho dentro de si. Várias vozes falam em uníssono. O silêncio é ensurdecedor.
Essencial. Inadmissível. Vital. Várias imagens simultâneas. O silêncio é caleidoscópico.
Paz. Imposição. Espelho. Várias linhas de um mesmo novelo. O silêncio é tecitura.
Dias iguais, formam pessoas iguais, que vivem vidas iguais. E, assim, o ciclo recomeça. Até o instante em que um livro é aberto. E a realidade salta diante de um par de olhos atentos, de alguém que será tachado de ridículo por pessoas ocupadas pelo cotidiano. Tanto tempo se passou, mas ainda temos medo de sair da caverna.
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(Re)comienzo
Días iguales, forman personas iguales que viven vidas iguales. Y así el ciclo comienza de nuevo. Hasta el momento en que un se abre el libro. Y la realidad salta ante un par de ojos atentos, de alguien que se llamará ridículo por personas ocupadas por la vida cotidiana. Tanto tiempo ha pasado, pero todavía tenemos miedo de salir de la cueva.
VELOSO, Gabriela Lages. Poema (Re)começo. In: Revista Kametsa, Peru, 24 ago. 2021.
872
Ressalva
No instante em que saímos de uma caverna escura, e encaramos o sol do meio-dia, temos a visão ofuscada por uma luz intensa.
Esse é o papel da arte, desfazer as amarras do preconceito e da ignorância, retirar-nos da escuridão e do transe cotidiano.
Mas existem ressalvas, a arte é o caminho mais longo para a mudança, pois ela não resolve diretamente os dilemas do mundo.
Pelo contrário, a arte traz à tona todas as mazelas e problemas, que, em vão, tentamos esconder, nos becos escuros da consciência, ou do que dela restou.
A arte, portanto, não pode mudar, sozinha, o mundo. Mas pode abrir caminhos e possibilidades de mudança.
E assim como uma onda que insistentemente bate em uma rocha, a arte pode quebrar as barreiras do medo de tudo aquilo que é desconhecido, e nos fazer acreditar no amanhã.
VELOSO, Gabriela Lages. Poema Ressalva. In: Revista Sucuru, Paraíba, 2022.
630
(Re)ver
Enquanto vivemos desatentos, valorizamos coisas banais, a rotina se transforma em nossa maior prioridade. O essencial se torna invisível aos olhos, consciente ou inconscientemente. Nosso olhar não se fixa em nada que não nos diz respeito, e, apesar de compreendermos a existência e injustiça da desigualdade, tudo que se refere ao Outro torna-se Nada.
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(Re)ver
Mientras vivimos desatentos valoramos las cosas banales, la rutina se convierte en nuestra prioridad. Lo esencial se vuelve invisible a los ojos, consciente o inconscientemente. Nuestra mirada no se fija en nada que no nos concierne, y a pesar de que entendemos la existencia y la injusticia de desigualdad, todo lo que se refiere al Otro se convierte en Nada.
VELOSO, Gabriela Lages. Poema (Re)ver. In: Revista Kametsa, Peru, 24 ago. 2021.
849
Tempo
Não é preciso viver mil primaveras para fazer as pazes com o tempo. Nem, tampouco, para ser dele um eterno aprendiz.
Nele existe uma grande simplicidade: tudo o que vivi ontem, ecoa hoje. E tudo o que faço hoje, irá reverberar amanhã.
Mas, cuidado para não te tornares um refém do amanhã, à mercê das Moiras, que insistem em determinar as linhas do destino. Não sejas prisioneiro delas.
Antes de ser simplesmente levado ao acaso, torna-te o guia dessa jornada. Para que, assim, encontres o equilíbrio necessário para tecer o grande novelo da vida.
VELOSO, Gabriela Lages. Poema Tempo. In: Revista Sucuru, Paraíba, 2022.
643
Das horas vagas
A poesia se contradiz. Abriga o universo dentro de si, mas encontra-se no aconchego do lar.
A poesia é um bordado de silêncios, que está escondido no canto azul dos pássaros, e, no som do mar, contido nas conchas.
A poesia é o que não acontece, o eco insistente das horas vagas.
VELOSO, Gabriela Lages. Poema Das horas vagas. Revista Sucuru, 21 abr. 2022.
179
La vida
Soy intensamente breve, Como un sueño. Hecho de fragmentos de instantes.
Y en esa brevedad mía De segundos contados, Debo ser tratada con prudencia.
En las tormentas, Los pesos deben ser arrojados En el mar del olvido.
En bonanza Los recuerdos deben ser recogidos Con ternura, al abrigo de la memoria.
En mí, todo es esencial Lluvia y aridez. Me resisto al tiempo y al mal tiempo.
No tengo rutas fijas, Soy caleidoscópico. Así que no te equivoques No hay un solo propósito para mí Soy un enigma por descubrir.
VELOSO, Gabriela Lages. Poema La Vida. Revista Los Trapos, 30 jun. 2022.
490
O mar
Ninguém nunca tocou o teu mistério. Tens essa imensidão, que atravessa horizontes, mas, uma simples concha te contém.
Na superfície, tudo que podemos enxergar é um espelho perturbado pelas ondas. Um vento forte insiste em embalar tuas águas carregadas de sal.
Na profundidade, tudo que se escuta é o eco do teu silêncio, que grita, aos quatro ventos, histórias naufragadas pelo tempo.
Nessa jornada, tens a lua como guia das tuas marés. Quem atravessa tuas águas, mesmo que somente com o olhar, sente a difícil liberdade de retornar ao porto.
VELOSO, Gabriela Lages. Poema O Mar. Coletânea Poetas Maranhenses, Vol III. São Luís: Viegas Editora, 2022.