Lista de Poemas

(Re)construção

Desde crianças, somos ensinados 
a ver o mundo. Ver e não-ver.
Decoramos (pre)conceitos, que
formam muros tão altos, que
somente o conhecimento pode
ultrapassar. Mas, a cada nova 
descoberta e exercício de empatia,
são criadas frestas nesse alto muro.
E através delas surgem pequenos
fachos de luz. Luz que nos deixa
temporariamente cegos, e, talvez,
por isso, nos faça enxergar, por
um instante, para além de tudo
aquilo que já havíamos visto antes.

***

(Re)construcción

Desde la infancia, se nos enseña
para ver el mundo. Ver y no ver.
Memorizamos (pre)conceptos,
que forman muros tan altos que
que sólo el conocimiento puede
superado. Pero con cada nuevo
descubrimiento y ejercicio de la
empatía se crean grietas en este
alto muro. Y a través de ellos
pequeños pozos destellos de luz.
Luz que nos deja temporalmente
ciego, y, tal vez nos hace ver, por
un instante, más allá de todo lo
que hemos visto antes.


VELOSO, Gabriela Lages. Poema (Re)construção. In: Revista Kametsa, Peru, 24 ago. 2021.
874

Insight

  Em uma segunda-feira qualquer, um dia nublado e cinza, me encontro em um grande engarrafamento. Entro na primeira rua que encontro. Um atalho. Aparentemente um lugar comum, com pessoas comuns. Entretanto, nunca me esquecerei daquele lugar, da sensação de despertar para a realidade que me cerca.
  Era uma rua estreita, muito estreita, com uma infinidade de pequenas lojas por todos os lados. Além de uma feira, uma borracharia, casas e uma igreja, que se destacava no ambiente, por suas dimensões e aparência impecável. Quantas pessoas... tantas pessoas vão e vêm freneticamente, todas com pressa, com um aspecto de cansaço e com várias sacolas, tantas sacolas quanto lojas, em um lugar que sem dúvida enfrenta graves problemas.
  Tantas mães em plena adolescência, carregando seus filhos, outras crianças, no meio da rua estreita. Tento seguir com o meu carro, desviando de outros carros, carroças, bicicletas, motos e pessoas. Lá vem um ônibus. Percebo que todos que antes ocupavam a estreita rua se dispersam, sobem nas calçadas, entram nas ruas transversais. Como é a minha primeira vez nesse lugar, imito a ação. O ônibus segue seu curso e mais uma vez a rua estreita é tomada.
  Algumas pessoas estão sentadas em suas portas, menosprezando os problemas das outras, afinal elas sofrem muito mais. Vejo uma jovem bem magra, extremamente suja, sentada na calçada da rua estreita, em meio ao lixo e o esgoto que escorre a céu aberto, conferindo as moedas que ganhou dos motoristas que por ali passavam. Ela já desistiu de pedir ajuda para os pedestres cheios de sacolas, pois sempre que chegam ao ponto da calçada em que ela se encontra, lançam um olhar de indiferença e desprezo, e atravessam a rua estreita, afinal eles não podem sustentar o vício (fome) que ela tem, pois eles têm muitas contas a pagar.
  Dobro a esquina para sair da rua estreita, e me deparo com um muro pichado com o nome de uma facção criminosa. Vejo mais moradores sentados em suas portas. Lembro de uma notícia em que moradores como aqueles, em um bairro como aquele, foram expulsos de suas casas por traficantes que dominavam o lugar. Percebo que os rostos dos moradores deste estreito bairro têm uma mistura de medo e conformismo. Essa “é a eterna contradição humana”.

VELOSO, Gabriela Lages. Crônica Insight. In: Coletânea de Contos e Crônicas - Vencedores do Prêmio Literário AMEI 2020. São Luís: Viegas Editora, 2021.

868

Relógio de areia

Nunca se engane com as 
pequenas coisas, elas são 
mais cruciais do que se imagina.
A arte nos faz sentir, ver, 
ouvir e viver outras vidas,
por isso, tem sido como 
água nesse deserto sem fim. 

No ir e vir das ondas da 
vida, nos deparamos com 
situações que modificam-nos
permanentemente. Em um dia, 
tudo seguia o seu curso, o tempo 
era cronometrado à conta gotas,
e todos corriam, perdidos 
em seus próprios mundos. 

No dia seguinte, o mundo parou.
A pandemia desacelerou os 
relógios, e, abruptamente, levou 
vários entes queridos. Tudo 
o que antes era ignorado,
ganhou um novo significado. 
A vida ganhou uma nova cor. 

De repente, percebemos a nossa
transitoriedade, somos apenas
passageiros nesse mundo.
Só então, notamos que existe 
um universo além de nós.
Mas atravessar desertos exige 
coragem. As vezes, é preciso 
deslocar a rota para encontrar 
o caminho. Assim, a arte tem 
sido a nossa bússola. 

VELOSO, Gabriela Lages. Poema Relógio de areia. Revista Sucuru - 5 ed., p. 81, 26 jul. 2021.
886

(Re)começo

Dias iguais, formam pessoas 
iguais, que vivem vidas iguais.
E, assim, o ciclo recomeça. 
Até o instante em que um 
livro é aberto. E a realidade 
salta diante de um par de
olhos atentos, de alguém
que será tachado de ridículo
por pessoas ocupadas pelo
cotidiano. Tanto tempo se
passou, mas ainda temos
medo de sair da caverna.

***

(Re)comienzo

Días iguales, forman personas
iguales que viven vidas iguales.
Y así el ciclo comienza de nuevo.
Hasta el momento en que un
se abre el libro. Y la realidad
salta ante un par de ojos atentos,
de alguien que se llamará ridículo
por personas ocupadas por la
vida cotidiana. Tanto tiempo ha
pasado, pero todavía tenemos
miedo de salir de la cueva.


VELOSO, Gabriela Lages. Poema (Re)começo. In: Revista Kametsa, Peru, 24 ago. 2021.
857

(Re)ver

Enquanto vivemos desatentos,
valorizamos coisas banais, a
rotina se transforma em nossa
maior prioridade. O essencial
se torna invisível aos olhos,
consciente ou inconscientemente.
Nosso olhar não se fixa em nada
que não nos diz respeito, e,
apesar de compreendermos a
existência e injustiça da 
desigualdade, tudo que se 
refere ao Outro torna-se Nada.

***

(Re)ver

Mientras vivimos desatentos
valoramos las cosas banales,
la rutina se convierte en nuestra
prioridad. Lo esencial se vuelve
invisible a los ojos, consciente
o inconscientemente. Nuestra
mirada no se fija en nada que
no nos concierne, y a pesar de
que entendemos la existencia
y la injusticia de desigualdad,
todo lo que se refiere al Otro
se convierte en Nada.

VELOSO, Gabriela Lages. Poema (Re)ver. In: Revista Kametsa, Peru, 24 ago. 2021.
836

Ressalva

No instante em que saímos de
uma caverna escura, e encaramos
o sol do meio-dia, temos a visão
ofuscada por uma luz intensa.

Esse é o papel da arte, desfazer
as amarras do preconceito e
da ignorância, retirar-nos da
escuridão e do transe cotidiano.

Mas existem ressalvas, a arte é
o caminho mais longo para a
mudança, pois ela não resolve
diretamente os dilemas do mundo.

Pelo contrário, a arte traz à tona todas
as mazelas e problemas, que, em vão,
tentamos esconder, nos becos escuros
da consciência, ou do que dela restou.

A arte, portanto, não pode
mudar, sozinha, o mundo.
Mas pode abrir caminhos
e possibilidades de mudança.

E assim como uma onda que
insistentemente bate em uma
rocha, a arte pode quebrar as
barreiras do medo de tudo
aquilo que é desconhecido,
e nos fazer acreditar no amanhã.

VELOSO, Gabriela Lages. Poema Ressalva. In: Revista Sucuru, Paraíba, 2022.
618

Tempo

Não é preciso viver mil
primaveras para fazer
as pazes com o tempo.
Nem, tampouco, para ser
dele um eterno aprendiz.

Nele existe uma grande 
simplicidade: tudo o que
vivi ontem, ecoa hoje. 
E tudo o que faço hoje, 
irá reverberar amanhã.

Mas, cuidado para não te 
tornares um refém do amanhã, 
à mercê das Moiras, que insistem 
em determinar as linhas do destino. 
Não sejas prisioneiro delas. 

Antes de ser simplesmente 
levado ao acaso, torna-te o guia
dessa jornada. Para que, assim,
encontres o equilíbrio necessário 
para tecer o grande novelo da vida.

VELOSO, Gabriela Lages. Poema Tempo. In: Revista Sucuru, Paraíba, 2022.
633

Macabéa

Com quantas Macabéas se faz 
o mundo? Mulheres pacatas, desajeitadas, silenciadas, que 
quase não deixam marcadas 
suas imagens no espelho. 

Macabéa, até quando aceitarás 
o destino que te impuseram?
Até quando permanecerás invisível?

VELOSO, Gabriela Lages. Poema Macabéa. Revista Sucuru - 13 ed., p. 26, 31 mar. 2022.
470

La vida

Soy intensamente breve,
Como un sueño.
Hecho de fragmentos de instantes.

Y en esa brevedad mía
De segundos contados,
Debo ser tratada con prudencia.

En las tormentas,
Los pesos deben ser arrojados
En el mar del olvido.

En bonanza
Los recuerdos deben ser recogidos
Con ternura, al abrigo de la memoria.

En mí, todo es esencial
Lluvia y aridez.
Me resisto al tiempo y al mal tiempo.

No tengo rutas fijas,
Soy caleidoscópico.
Así que no te equivoques
No hay un solo propósito para mí
Soy un enigma por descubrir.

VELOSO, Gabriela Lages. Poema La Vida. Revista Los Trapos, 30 jun. 2022.
479

La vida

Soy intensamente breve,
Como un sueño.
Hecho de fragmentos de instantes.

Y en esa brevedad mía
De segundos contados,
Debo ser tratada con prudencia.

En las tormentas,
Los pesos deben ser arrojados
En el mar del olvido.

En bonanza
Los recuerdos deben ser recogidos
Con ternura, al abrigo de la memoria.

En mí, todo es esencial
Lluvia y aridez.
Me resisto al tiempo y al mal tiempo.

No tengo rutas fijas,
Soy caleidoscópico.
Así que no te equivoques
No hay un solo propósito para mí
Soy un enigma por descubrir.

VELOSO, Gabriela Lages. Poema La Vida. Revista Los Trapos, Argentina, 30 jun. 2022.
186

Comentários (4)

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Gabriela Lages Veloso
Gabriela Lages Veloso

Luana, minha amiga, obrigada!

Luana Kerly
Luana Kerly

Perfeitos!! ????

Gabriela Lages Veloso
Gabriela Lages Veloso

Muito obrigada pela leitura, João Euzébio!

joaoeuzebio

COMO AS PALAVRAS FLUEM EM UM JEITO MAGICO DE POEMA ÉLINDO UM ABRAÇO

Contista, cronista, poetisa e ensaísta. Em 2021, foi membro da Revista Literatura Errante. Atualmente, é Colunista da Revista Sucuru e Editora da Sociedade Carolina.