Lista de Poemas
Novos tempos
Em outros tempos há
Alguma coisa em que eu possa me basear
Uma vocação, um sonho, um amor talvez
Nos tempos daqui a vida está resumida
Em uma singela esperança:
Os novos tempos serão melhores!
Os novos tempos são sempre melhores
E nessas esperanças vazias construímos tudo
Base, paredes e teto
Janelas, portas e portinholas
E se precisarmos de mais um quarto futuramente?
Derruba-se uma parede e levanta-se outra mais pros fundos
Há sempre mais espaço em uma esperança vazia
Leva esses tijolos daqui até lá
É preciso mais cimento daqui uns dias
Só podemos carregar
Que nossos braços suportam
E os alicerces suportam uma certa quantidade de tijolos
Mas nesses novos tempos
Há mais quartos sendo construídos
Todos os dias
Brancura as cabelos e mofo nas paredes
Quem sabe essas lembranças irão se pôr com o sol de amanhã
quem sabe essas meias verdades se tornem inteiras de algum modo
e esse chão colha somente as folhas da amizade e perseverança
quem sabe esse tempo dê algo a mais do que somente brancura aos cabelos e mofo nas paredes
quem sabe esse horror tenha seu fim mais breve do que esperado
e eu que tantas vezes me vi calado
esperando o momento de dizer
sempre observando os passantes
observando sem ser observado
nesse momento em que chove
chove? pois não ouço
sim. chove, mas não aqui
mas em algum lugar chove
há sempre sol em algum lugar
sempre chuva em algum lugar
onde, então, há alguém?
onde há pessoas que lembrem?
há, em algum lugar, uma morada
feita de tijolos, um sob o outro
com uma porta grande e pesada
que se encontra muito longe nessa entrada
estrada essa serpenteia pelos vales da alma
e sai na floresta da solidão
uma após a outra, as árvores vão
uma após a outra, nessa ida é tudo vão
tudo é dúvida e desencontro
tudo que construo, logo desmonto
e nessas idas e vindas da alma
estou sempre entre essa e a outra
a sensação de que tudo é falso
por dentro
a vida triste e cruel
por fora
Escrito nas paredes
As paredes estão sempre ali, todos os dias.
Faça chuva ou faça sol, imperturbáveis.
Quem sabe eu escreva nessas paredes,
Para as palavras viverem e ficarem sempre ali,
Faça chuva ou faça sol, imperturbáveis.
Eu escreveria:
Teus olhos vêem
Aquilo que querem ver
Os dias passam
Te fazem envelhecer
Deixe estar
Os dias vão passar
Seja entre ou através
Te escapando pelas mãos
Ou pelos pés
Uma crença teus dias encerrará
Todos são diferentes
Todos serão iguais
Me fazem ir pra frente
Me farão olhar pra trás
Palavras são apenas
Paredes caladas
Há muito para dizer
Mas não dizem nada
Não escrevo nas paredes
Minhas linhas são perturbadas
Hoje estão sérias
Amanhã já contam piadas
Escrevo em um caderno
Ele acompanha minhas viradas
Quando as linhas acabam
Me apresentam a próxima página
Confissão de uma alma fria
Não me surpreendo com esse cansaço matinal
Nem com o frio que me invade os pulmões nas noites frias
Não espero nada diferente do normal
Não rezo por um milagre em minha vida
Não me surpreende o vazio dessa existência
Nem o vão entre cada palavra
O desgosto invade cada experiência
O desafeto está às margens da estrada
O vento canta com as decepções do dia a dia
Sonhos se perdem no emaranhado da minha agonia
Lá estava eu destinado a grandeza
Indo de encontro a felicidade
Mas escolhi os dias amargos
Escolhi o fardo implacável
Escolhi o peso da eternidade
Em algum lugar
Em algum lugar está
Uma nau distante
Onde o vento arrasta
Um desejo cortante
De nunca estar
Sempre ser
Sempre serei
Navego pelo mar infinito
Observo a crista das ondas
Acordo com um grito
Pois não há nada a temer
Nada há para esconder
Onde vivia
Não constumava acordar gritando
Pois em cada janela
Há alguém escutando
Me sufocava essa tal liberdade
Que todos compartilhavam nessa cidade
Apenas mais uma
É uma das partes mais reverenciosas da nossa arte
a inutilidade berra
enquanto a utilidade cala
Até quando as coisas que amamos
precisarão passar por essa rígida seleção
e até quando nosso coração irá suportar
perder todos os dias essa luta
de bater sem parar
num corpo a muito já falecido?
É tudo falso
Não me sinto bem hoje
Há uma inquietação sob meus pés
Alguma noção trágica e sem sentido
Resquícios do que não está mais aqui
Sempre me surpreendo assim
Sentindo a presença do que já se foi
Como a dor de um membro já amputado
Como a dor de uma ferida cicatrizada
Sinto uma tristeza intensa
Uma constante falta de sentido nas coisas
Até em mim
Principalmente em mim
Me sobe um calafrio
Algo não está certo
Penso que deveria contar a alguém
Mas todos já sabem
Qual a diferença entre mim e eles?
Eu não consigo ignorar esse círculo vermelho
Que fica no canto das telas
Não consigo ignorar essa sensação
De que tudo é falso
Tudo isso é uma mentira
Não passamos de personagens de uma comédia sem graça
A escuridão me atacou
Hoje a escuridão me atacou
Refletiu-me a luz da lua
Em sua presença me desfaço
Como se minha alma já fosse sua
Quanto mais luzes acendo aqui embaixo
Menos eu vejo as lá de cima
Tanto me acostumei com a noite
Ajo como se ela já fosse minha
Procurei luas no meu horizonte
Somente estrelas vieram até mim
Foi assim no início
E será assim até o fim
O problema é essa intensidade no ar
Ventos que levam o que não consigo ver
As estrelas me mostram meu futuro
Mas estou longe demais para ver
Hoje a solidão me achou
Não sei se é certo ou errado
Sei que minha vida é bobagem, é nada
Perto desse céu estrelado
Pontos brilhantes ao longe
Derramam em mim seu olhar
Olham minha amada também
Aquela que nunca deixei de amar
O que mais vou querer?
A mesma lua que me cuida, a cuida também
O mesmo sol que me aquece, aquece ela também
O cotidiano é duro e pegajoso
Meu único consolo é o luar
Minhas mãos frias tremem
Quando lembro daquele olhar
Imensidão castanha onde me perdi
Jamais vou me encontrar
Para que objetivos na vida?
Para que sonhos a alcançar?
Minha vida está em suas mãos
Meu sonho é ao seu lado ficar
Sonho esse
Somente sonho será
Sonhos são ilusões lindas
Nunca acontecerá
O acaso me encontrou
Hoje o acaso me encontrou
não pediu nada
apenas abriu a porta
e se aproximou
sua presença não me assusta
mas sei o que significa
nada de esperança para mim
nessa vida injusta
trazei todos para assistirem
o espetáculo do momento
medo, choro, raiva e desespero
os acasos que me acometem
esses acasos me encontram
nada tenho do que reclamar
os pesadelos me invadem os dias
tudo está onde deveria estar
o que dizem sobre essa chuva
e sobre os ventos que invadem
em minha alma sempre chove
há sempre poças em meu jardim
os ventos sussuram
somente para os loucos
pobres mentes que adoeceram
para mim já falta pouco
o que aconteceu
molda o cotidiano
vivo somente de lembranças
mas esse sempre foi o plano
não tenho medo de sofrer
intermináveis eras passaram
fui centenas nesse mundo
estou ciente que me condenaram
as paisagens por onde passo
são abundantes em seu florescer
pena não poder assistir
estou rápido demais para ver
pai, não me culpe por minha ausência
bendigo a ti e aos teus atos heróicos
como explicar o que ignoro?
como relatar desconhecendo os fatos?
não é por falhares no passado
falhas pois és humano
a renúncia é um gesto de fé
renuncio a todos aqueles anos
não é por religião
tampouco pelas histórias
te guardo sempre comigo
jamais sairá de minha memória
apenas vejo como tudo isso é falso
o mundo, os homens, as coisas
que por não existirem bastaram
não confio nas pessoas
método triste e sofrido
vivo nesse dilema
de noite sonho com o frio
de dia nada me esquenta
Alguém
Alguém que te faça sonhar
Alguém que te faça refletir
Alguém com quem chorar
Alguém com quem sorrir
Pela vida inteira ei de esperar
Por alguém que me faça repousar
Em teu seio eu vou me deitar
Ouvir por dentro a sua vida pulsar
Vê essas estrelhas de tão fino brilho?
Essas colinas decorando o caminho?
Esse mar infinito como o meu amor?
Essas cores aguardando o sol se por?
Nada se compara à tua perfeição
Traços bordados e cosidos
Pelo mais habilidoso artesão
Nunca em minha existência
Senti assim uma ausência
Título do mais belo livro
Palavra escrita com afinco
Uma mensagem em cada entrelinha
Este poema para chamá-la de minha
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