gabrielriva

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n. 1987 BR BR

Um poeta menino em corpo de adulto, um ativista de Direitos Humanos em mundo de máquinas. "Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase" P. Leminski ex-estranho.blogspot.com (desativado)

n. 1987-08-25, Niterói

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Uma Foda

Meu bem,
um dia você aprenderá que nem tudo
pode ser resolvido com uma foda,
e que o mais apertado dos abraços
pode ser vazio.

Um dia, meu bem, você aprenderá que
o beijo roubado é o mais
sincero. E que o sorriso de uma criança
pode ser o mais fingido.

Um dia, meu bem, você descobrirá
que a traição começa antes mesmo dela
e nela não se encerra. Um dia perceberá
que sem te trair,
já te trai por inteira.
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Poemas

23

Uma Foda

Meu bem,
um dia você aprenderá que nem tudo
pode ser resolvido com uma foda,
e que o mais apertado dos abraços
pode ser vazio.

Um dia, meu bem, você aprenderá que
o beijo roubado é o mais
sincero. E que o sorriso de uma criança
pode ser o mais fingido.

Um dia, meu bem, você descobrirá
que a traição começa antes mesmo dela
e nela não se encerra. Um dia perceberá
que sem te trair,
já te trai por inteira.
157

Brasa

Aceitar que a vida seja brasa.
Que o amor venha da alma,
que se beije com calma
que se transe como água.

Que a vida seja suave,
que pela pedra se esgueire.
Que mude-se de ideia
do que se disse antes,

que mude-se o dizer
pra manter aquela. 


Que após uma poesia inverno
dessa que viva alma
não tem,
uma poesia primavera
desabroche como cerejeira,
e ecoe os versos na mente:
"Sim, inverno. Estamos vivos"
176

Oração a Xangô e Iansã

Ó Xangô, ó Iansã
Peço passagem para todos Exus
e a benção de Oxalá.

Que nessa vida eu possa ser
a justiça da garoa da manhã,
que nutre o campo do trabalhador
e os sonhos das crianças que dormem.

Que não deixe nunca de ser relâmpago,
trazendo luz à escuridão,
e esperança aos desacreditados.

E que quando precisar, seja
a tempestade, trazendo justiça
aos injustiçados,
nos momentos de mudança.
343

Canto de urgência

Serei eu o último são em um mundo caduco?
Serei o último caduco em um mundo são?
Será meu último suspiro agudo ou eterno?

Não. Não é esse o poema que quero.
Quero um verso-ser e ser um verso,
quero falar sobre tudo que há para viver e não vivemos.
Sobre o grito de liberdade e o grito de desespero,
quero falar sobre ter...
Ter histórias e ter beijos,
ter romances e ter carícias,
sobre ser amor e ser vivo.

Ser amor é ser vivo,
e ser amor é se permitir ser triste.
Não sou o primeiro poeta neste canto,
E nem serei o último.

É preciso lembrar que vivemos
pela neblina que desce no nascer do sol na baía,
pela incomoda felicidade de uma criança,
pelo choro baixo no final de um dia.

Não há poema mais urgente de ser escrito.
Não há métrica, não há originalidade,
não há rima, cadência ou ritmo,
mais importante ou rico do que este poema-memória.

Esse poema é vivo,
este poeta é você
e neste último verso, vá embora.
187

Snow Crash (Amor imperfeito)

Quero um amor que me baste. 
E que me bastando,
não seja suficiente estarmos
um no outro. Que queiramos estar
um consigo.

Quero um amor que me bata
como um pico de heroína
quando a vejo dobrar a esquina.

Um que me fascina, que com seu gozo
me alucine, como o brilho dos astros
sob o efeito de uma anfetamina.

Quero um amor que sendo eu todo,
seja minha droga. Que sendo eu nada,
seja meu copo e depois meu colo.
Quero um amor que sendo tudo perfeito,
seja ele imperfeito.

Quero um amor, que de qualquer jeito
que fale, não seja espelho do meu.
O amor que quero comigo,
é o seu.
182

Amo-te

201

Bandido

- Tem certeza que é só isso? 
- É isso elevado a potências. É isso repetido 
na linha de tempo de um amor eterno,
que em sua finitude, se repetiu por 10 anos.

Viver é ter noção da própria morte.
É estar preparado para ser o bandido
na sua própria história. 
210

Souza (com s)

A vida é mais do que se imagina.
Enquanto o Doutor
nem dá bom dia, revela o ascensorista:
Isso aqui é um quebra-galho.
Na verdade, sou saxofonista.
187

Infinitivo

Não forçarei meus versos
A terminarem com infinitivos
Para garantir uma rima ao final do dia.

Rimarei, ainda que sem ritmo,
Seus conteúdos.
Conjugarei meus versos
Com todas as possíveis flexões do verbo vida.

Para que quando em duas sílabas
A vida finde,
Saberei que nada que
Experimentei
Foi em vão.
190

Sabiá

Sem saber por que, não voava.
Pé atado ao fino fio,
Que de aço, que de nada,
que de algo que ali estava
e prendia a Sabiá.

Se não se entregava
ao ar e vento, bela ave,
punha-se, alta e plena
a assobiar.

Sem gaiola, não via galhos
pra que alçasse um decolar.
Sabia se um forte frio
esperava, sabe-se onde lá?

Sem asa virou menina,
e deixou de assobiar.
Sem gorjeio, nasceu um pranto
feito frio fio
de chuva branco.

Não sabendo que teve penas,
sobrevivia, com a tristeza
de nunca mais assobiar.

Mas um dia, desfez seus planos,
deixou seus panos, plumou seu manto.
Entre cantos e sem alvoroço,
sem fazer nenhum esforço
alçoou vôo a Sabiá.

Daquele dia em diante
Em qualquer instante,
ganhava ela o ar,
sabendo que nunca mais
fino fio que fosse
lhe prenderia a qualquer lugar.
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