gabrielriva

gabrielriva

n. 1987 BR BR

Um poeta menino em corpo de adulto, um ativista de Direitos Humanos em mundo de máquinas. "Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase" P. Leminski ex-estranho.blogspot.com (desativado)

n. 1987-08-25, Niterói

Perfil
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Uma Foda

Meu bem,
um dia você aprenderá que nem tudo
pode ser resolvido com uma foda,
e que o mais apertado dos abraços
pode ser vazio.

Um dia, meu bem, você aprenderá que
o beijo roubado é o mais
sincero. E que o sorriso de uma criança
pode ser o mais fingido.

Um dia, meu bem, você descobrirá
que a traição começa antes mesmo dela
e nela não se encerra. Um dia perceberá
que sem te trair,
já te trai por inteira.
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Poemas

23

Marielle Franco (14/03/18)

Hoje o dia amanheceu branco.
O engarrafamento era branco,
As pessoas em seus ternos, brancos, 
A indiferença do bom dia, brancos
(O céu nublado, feio e branco). 

Mas a tristeza era negra,
A coragem era negra,
O sangue era de negra 
E a indignação era negra,
Assim como a tempestade na noite anterior,
(Seria o pranto das mães pela filha negra,
também morta?)

A vida de uns passa, branco,
A vida das que lutam segue, negra.
188

O que é limpo, esconde o Diabo (Versos para outro agora)

Queria viver, indepedente das luas,
das marés, dos poderes, do sistema. 
Queria aquela liberdade, que só um jogo
sem sistema lhe dá: vá e seja.
E assim será o mais feliz nisso. 

Queria que o que escolho fosse,
e o que não quero, foi.  Queria a vida 
sem mais que perfeito, sem imperativo, 
sem futuro do pretérito. 
Uma forma de verbo que falasse 
que todas as expectativas, se trabalhadas,
são a realidade. 

Queria falar como seria ouvido,
escrever como seria lido,
festejar como se houvesse motivo. 

Tudo passado, o que cato no chão
é o que foi aproveitado.
Ficou de ontem o azedo, ácido,
refluxo do complexo, asia do discurso. 
Pudera nosso diálogo
fazer de tudo belo.

Esse conhaque de trago forte,
é a síntese da minha vida:
dúbia sinestesia em minhas sinapses, 
o cheiro do podre é o que da esperança.
O que é limpo, esconde o Diabo. 
 
198

Aquela Loucura de Napalm na Selva do Vietnã

Será o que me falta, coragem ? 
Sou um poeta maldito
que bate cartão, quarenta por sete. 
 
Mas o que é ser livre em um mundo de abismos?
De cartas marcadas, de esgotos e lixos,
onde os jardins só são acessíveis
àqueles que tem caixa.
 
Toma um fósforo, 
mas guarda o trago.
Teu cigarro, amigo, é caro.
E todos estão de olho no seu corpo.
 
Mas não em sua saúde! Ansiolíticos, 
anfetaminas, cafeína e termogênicos.
Viva o cloridrato de metilfenidato!
Sem prescrição não tem problema,
e sem nota é mais barato.
Tudo pode, se passa pelo mercado,
se mira a produtividade. 
 
Será o que me falta, insanidade? 
Um revolucionário mais 
crente no Apocalipse, que na revolução.
 
Vai amigo, agora acende.
Não há nenhum corpo a menos de 100 metros,
nem teto sob sua cabeça, teu fumo então é lícito. 
Mas não teu baseado! Este não!
apenas quando patenteado e regulamentado
pela indústria, que manda no Estado.
 
Será o que me falta, conhecimento? 
Tão pouco nisso tudo me faz sentido...
Nem mesmo o brado e a placa do meu vizinho,
na massa que marcha contra o que acham que é o sistema.
 
Alguns dias ligo o foda-se. 
Como do pão, bebo do vinho, deixo as conexões
me levarem para algum vídeo sem sentido.
Mas nem isso, nem isso,
impede que acorde na madrugada,
suando frio. Que olhe pra retaguarda
na noite alta, aflito. Com medo ora da
polícia, ora do bandido. 
 
O que fazer, se tudo me parece tão megalomânico?
Enquanto os manicômios para alguns voltam a ter estilo,
sigo eu, com esta minha revolta, sem endereço conhecido.
Volto para os versos, num conhaque, num vazio agudo,
cheio de tudo, cheio de nada. 
 **
Entre quadros, do alto do prédio, desaba o corpo
do Comediante. 
Numa poça, seu bótom sujo de sangue.
E toda aquela imagem, 
aquela loucura de napalm na selva do Vietnã,
em lágrimas, me dá um mormaço,
irônica, em mim faz morada.
 
Num riso insano, poeta,
sou eu mesmo o Comediante. E agora,
só me resta aquele tango argentino. 
195

Cansei do Rio de Janeiro

Cansei do Rio de Janeiro.
Esta cidade que tem 
mais sorrisos que dentes
e mais pessoas
que gente.

Cansei do Rio de Janeiro,
de suas garotas na praia,
de seus surfistas na onda,
de seus sambas na esquina.

Algo nesta felicidade
me incomoda.

É que me incomoda crer
que é possível ser feliz
se tudo é miserável 
concreto,
contrato.

Falta tanto, falta tato,
falta contato.
Se falo isso prum carioca,
sou esculaxado.

O rio de janeiro continua lindo,
até o menino que me vendeu a bala
disse, com um sorriso sem graça,
muito embora seus olhos
lacrimejassem crack.

Ah! Rio, rio,
rio pra ser clichê
e fugir do tédio.

Viver tem disso
como em Leminski,
rimo tudo
com mistério.
218

@griva (TOC 140)

A gente quer tanto ser
que às vezes
esquece o quê.
181

Na ponta do lápis

Quero a agonia do poema incompleto,
Verso solto em meu caderno,
Rima pobre em meu soneto
Métrica desfeita em meu terceto.

Quero levantar o copo pensando em odes
E ver que a poesia pode,
Falar da pedras no caminho
E de mortes da bezerra.

Sorte  tem quem,  pelo menos,
Numa terça-feira,
A qualquer momento,
Num verso etílico ou 
Hai-kai sarnento,
Faz da agonia, liberdade.

Como quem espanta a coceira
Ou limpa o cabelo grudento, 
Completa um verso de amor
,Desses que goza,
Na ponta do lápis.
207

Neguinha

Vá me dizer, neguinha,
que ao final daquela noite,
sua boca não pedia a minha?
E o nome que queria
ouvir em seu gemido
não era o meu?

Sei que nosso amor transcende
esta pequena existência de ser.
Mas diga que não queria
entortar essas tangentes,
ver nossos corpos 
se encontrar novamente,
pela mera graça
de viver.
197

Boca seca, coração seco

Boca seca,
coração cheio.

Ainda posso sentir
a textura do seu cabelo,
enquanto me recuso a abrir os olhos
e ver que não está deitada ao meu lado,
e que seus lábios não me darão bom dia.

Boca cheia,
Coração seco.

O que espera de mim ainda é
o que não posso te dar.
O que mais sentiu falta
não foi do meu corpo,
nem do meu sexo.

Boca seca,
Coração seco.

As lagrimas que derramou ontem
não tinham o meu nome
(percebeu que as minhas tinham o seu?).
E embora a boca que beijasse
fosse minha,
o beijo que queria não era meu.
212

Ressigninfância

Nunca esperava
que a maldade praticada
viesse da alma. 

O menino, novo na cidade, sentiu raiva.
Raiva porque riram e zombaram
de não saber chutar uma bola.

Como bichos de luz ao apagar da casa,
deixou a raiva que lhe fazia morada
sair pela janela. 

Se não sei chutar uma bola
é porque nunca tive bola, pensou. 
E se aqueles meninos fossem tão duros,
por não conhecerem a ternura do abraço? 

A cabeça ainda doía, vai dar galo.
Observando o zunir dos mosquitos,
era só o começo de mais um longo verão.
195

Passo/espaço

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