Lista de Poemas
Marielle Franco (14/03/18)
Hoje o dia amanheceu branco.
O engarrafamento era branco,
As pessoas em seus ternos, brancos,
A indiferença do bom dia, brancos
(O céu nublado, feio e branco).
Mas a tristeza era negra,
A coragem era negra,
O sangue era de negra
E a indignação era negra,
Assim como a tempestade na noite anterior,
(Seria o pranto das mães pela filha negra,
também morta?)
A vida de uns passa, branco,
A vida das que lutam segue, negra.
O engarrafamento era branco,
As pessoas em seus ternos, brancos,
A indiferença do bom dia, brancos
(O céu nublado, feio e branco).
Mas a tristeza era negra,
A coragem era negra,
O sangue era de negra
E a indignação era negra,
Assim como a tempestade na noite anterior,
(Seria o pranto das mães pela filha negra,
também morta?)
A vida de uns passa, branco,
A vida das que lutam segue, negra.
174
O que é limpo, esconde o Diabo (Versos para outro agora)
Queria viver, indepedente das luas,
das marés, dos poderes, do sistema.
Queria aquela liberdade, que só um jogo
sem sistema lhe dá: vá e seja.
E assim será o mais feliz nisso.
Queria que o que escolho fosse,
e o que não quero, foi. Queria a vida
sem mais que perfeito, sem imperativo,
sem futuro do pretérito.
Uma forma de verbo que falasse
que todas as expectativas, se trabalhadas,
são a realidade.
Queria falar como seria ouvido,
escrever como seria lido,
festejar como se houvesse motivo.
Tudo passado, o que cato no chão
é o que foi aproveitado.
Ficou de ontem o azedo, ácido,
refluxo do complexo, asia do discurso.
Pudera nosso diálogo
fazer de tudo belo.
Esse conhaque de trago forte,
é a síntese da minha vida:
dúbia sinestesia em minhas sinapses,
o cheiro do podre é o que da esperança.
O que é limpo, esconde o Diabo.
das marés, dos poderes, do sistema.
Queria aquela liberdade, que só um jogo
sem sistema lhe dá: vá e seja.
E assim será o mais feliz nisso.
Queria que o que escolho fosse,
e o que não quero, foi. Queria a vida
sem mais que perfeito, sem imperativo,
sem futuro do pretérito.
Uma forma de verbo que falasse
que todas as expectativas, se trabalhadas,
são a realidade.
Queria falar como seria ouvido,
escrever como seria lido,
festejar como se houvesse motivo.
Tudo passado, o que cato no chão
é o que foi aproveitado.
Ficou de ontem o azedo, ácido,
refluxo do complexo, asia do discurso.
Pudera nosso diálogo
fazer de tudo belo.
Esse conhaque de trago forte,
é a síntese da minha vida:
dúbia sinestesia em minhas sinapses,
o cheiro do podre é o que da esperança.
O que é limpo, esconde o Diabo.
186
Sabiá
Sem saber por que, não voava.
Pé atado ao fino fio,
Que de aço, que de nada,
que de algo que ali estava
e prendia a Sabiá.
Se não se entregava
ao ar e vento, bela ave,
punha-se, alta e plena
a assobiar.
Sem gaiola, não via galhos
pra que alçasse um decolar.
Sabia se um forte frio
esperava, sabe-se onde lá?
Sem asa virou menina,
e deixou de assobiar.
Sem gorjeio, nasceu um pranto
feito frio fio
de chuva branco.
Não sabendo que teve penas,
sobrevivia, com a tristeza
de nunca mais assobiar.
Mas um dia, desfez seus planos,
deixou seus panos, plumou seu manto.
Entre cantos e sem alvoroço,
sem fazer nenhum esforço
alçoou vôo a Sabiá.
Daquele dia em diante
Em qualquer instante,
ganhava ela o ar,
sabendo que nunca mais
fino fio que fosse
lhe prenderia a qualquer lugar.
Pé atado ao fino fio,
Que de aço, que de nada,
que de algo que ali estava
e prendia a Sabiá.
Se não se entregava
ao ar e vento, bela ave,
punha-se, alta e plena
a assobiar.
Sem gaiola, não via galhos
pra que alçasse um decolar.
Sabia se um forte frio
esperava, sabe-se onde lá?
Sem asa virou menina,
e deixou de assobiar.
Sem gorjeio, nasceu um pranto
feito frio fio
de chuva branco.
Não sabendo que teve penas,
sobrevivia, com a tristeza
de nunca mais assobiar.
Mas um dia, desfez seus planos,
deixou seus panos, plumou seu manto.
Entre cantos e sem alvoroço,
sem fazer nenhum esforço
alçoou vôo a Sabiá.
Daquele dia em diante
Em qualquer instante,
ganhava ela o ar,
sabendo que nunca mais
fino fio que fosse
lhe prenderia a qualquer lugar.
206
Ressigninfância
Nunca esperava
que a maldade praticada
viesse da alma.
O menino, novo na cidade, sentiu raiva.
Raiva porque riram e zombaram
de não saber chutar uma bola.
Como bichos de luz ao apagar da casa,
deixou a raiva que lhe fazia morada
sair pela janela.
Se não sei chutar uma bola
é porque nunca tive bola, pensou.
E se aqueles meninos fossem tão duros,
por não conhecerem a ternura do abraço?
A cabeça ainda doía, vai dar galo.
Observando o zunir dos mosquitos,
era só o começo de mais um longo verão.
que a maldade praticada
viesse da alma.
O menino, novo na cidade, sentiu raiva.
Raiva porque riram e zombaram
de não saber chutar uma bola.
Como bichos de luz ao apagar da casa,
deixou a raiva que lhe fazia morada
sair pela janela.
Se não sei chutar uma bola
é porque nunca tive bola, pensou.
E se aqueles meninos fossem tão duros,
por não conhecerem a ternura do abraço?
A cabeça ainda doía, vai dar galo.
Observando o zunir dos mosquitos,
era só o começo de mais um longo verão.
187
Consequente
A chuva que me fez poema
é a mesma que destrói casas.
Tudo na vida acaba,
cerveja, cigarro, poeta.
é a mesma que destrói casas.
Tudo na vida acaba,
cerveja, cigarro, poeta.
174
Soneto da Barbie
Mesmo não sendo meu corpo plástico,
não serei eu, nascida Valéria,
criatura do sadismo clássico,
imagem da mais pura miséria?
Ou será tu, com seu guia prático,
mais pura imagem deletéria
de um antecessor à mim, sádico,
divino barro de nossa matéria?
- Hipócritas, nosso dedo em riste,
sem entender que a extravagância
apenas nossa loucura prova.
Somos, por excelência, triste
reflexo de nossa ignorância.
Somos todos Val Lukyanova.
não serei eu, nascida Valéria,
criatura do sadismo clássico,
imagem da mais pura miséria?
Ou será tu, com seu guia prático,
mais pura imagem deletéria
de um antecessor à mim, sádico,
divino barro de nossa matéria?
- Hipócritas, nosso dedo em riste,
sem entender que a extravagância
apenas nossa loucura prova.
Somos, por excelência, triste
reflexo de nossa ignorância.
Somos todos Val Lukyanova.
200
Neguinha
Vá me dizer, neguinha,
que ao final daquela noite,
sua boca não pedia a minha?
E o nome que queria
ouvir em seu gemido
não era o meu?
Sei que nosso amor transcende
esta pequena existência de ser.
Mas diga que não queria
entortar essas tangentes,
ver nossos corpos
se encontrar novamente,
pela mera graça
de viver.
que ao final daquela noite,
sua boca não pedia a minha?
E o nome que queria
ouvir em seu gemido
não era o meu?
Sei que nosso amor transcende
esta pequena existência de ser.
Mas diga que não queria
entortar essas tangentes,
ver nossos corpos
se encontrar novamente,
pela mera graça
de viver.
185
Cansei do Rio de Janeiro
Cansei do Rio de Janeiro.
Esta cidade que tem
mais sorrisos que dentes
e mais pessoas
que gente.
Cansei do Rio de Janeiro,
de suas garotas na praia,
de seus surfistas na onda,
de seus sambas na esquina.
Algo nesta felicidade
me incomoda.
É que me incomoda crer
que é possível ser feliz
se tudo é miserável
concreto,
contrato.
Falta tanto, falta tato,
falta contato.
Se falo isso prum carioca,
sou esculaxado.
O rio de janeiro continua lindo,
até o menino que me vendeu a bala
disse, com um sorriso sem graça,
muito embora seus olhos
lacrimejassem crack.
Ah! Rio, rio,
rio pra ser clichê
e fugir do tédio.
Viver tem disso
como em Leminski,
rimo tudo
com mistério.
Esta cidade que tem
mais sorrisos que dentes
e mais pessoas
que gente.
Cansei do Rio de Janeiro,
de suas garotas na praia,
de seus surfistas na onda,
de seus sambas na esquina.
Algo nesta felicidade
me incomoda.
É que me incomoda crer
que é possível ser feliz
se tudo é miserável
concreto,
contrato.
Falta tanto, falta tato,
falta contato.
Se falo isso prum carioca,
sou esculaxado.
O rio de janeiro continua lindo,
até o menino que me vendeu a bala
disse, com um sorriso sem graça,
muito embora seus olhos
lacrimejassem crack.
Ah! Rio, rio,
rio pra ser clichê
e fugir do tédio.
Viver tem disso
como em Leminski,
rimo tudo
com mistério.
206
Comentários (0)
Iniciar sessão
para publicar um comentário.
NoComments
