Gayan

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n. 1966 BR BR

Gayan Tito. Poeta menor.

n. 1966-05-13, Minas Gerais

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Noturno desértico


No deserto residente
em noite continente
sozinho sigo
viagens em desabrigo.
Saqueadas as estrelas
e a lua de aflitivo pranto
corsário de escuro manto.
Céus rangem ferrolhos
em negrumes molhos
caldo de tempestade
que sobre mim se abate
neste torrão sem vida
além da vida
que nele sinto e sou.
Um raio que desabou
reza uma prece univerbal
de clarão monoteísta.
O instante seguinte,
este,
é ateu.
Breu.
( Tuas luzes chuvosas
e mãos aquosas,
escorreram-se de mim. )

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Poemas

14

Do que se põe

Do que se põe

Todos põe algo
na vida.
E disto,
algo são.
Eu nada ponho,
nem gesto,
nem intenção.
A não ser
um varal de palavras
no fio da imaginação.
Por pôr letra
borboleta.

337

Por oração


Interdito, em mim, os altares.
Vazio, de semântico vinho, o cálice.
Anacrônicas liturgias, catedrais vazias.
Só me restou, por oração, a poesia.
Sublimado sentimento do sagrado.
Em meus rosários turvos,
constante o arado.
Eterna a charrua, perene o labor.
Trago novos ícones para velho andor.
Meu culto raro, de igrejas apartado.
Busco a Ti, a mim tens buscado.
Encontramo-nos, santuário do que sou.
Por oração, só a poesia me restou.
Nada ao Supremo peço, tudo, em versos,
derramo em gratidão, etérico servo.
Teologias, não as cultivo, voz estranha.
Minha teogonia nasce das entranhas,
de suave enlevo e terna adoração.
Só, a poesia me restou por oração.

417

Entulho de Poesia


Penduraram no teto do quarto
minhas sobras de versos,
os rascunhos naufragados,
as palavras que se desagregaram
por fissão fonética,
as ideias sinuosas
que não se fecharam
em preciso círculo,
as rimas necrosadas,
doloridas, apáticas.
Penduraram ali
por pudores de descarte,
para que não findassem
no lixo comum
entre restos de comida.
(vai que algum mendigo famélico
que revira latas de lixo
delas se alimente
e, por efeito acumulativo,
adicione à indigência
também a loucura)
Sim, ali penduraram!
Mas, o teto, que é de concreto,
projetado para suportar
matéria concreta,
não suportou o peso
do abstrato:
desabou!...
Desabou e ficou pendurado
nos inobjetos que nele
se pendurou.
Virou também entulho
de poesia.

427

Poetas de pés sujos

Poetas de pés sujos
à Adélia Prado

Poesia tem que ter barro,
caco de telha, goteira de telhado.
Poesia de sentimento puro
não presta.
Criança é quem melhor faz poema
e sem pegar no lápis, longe do papel.
Poesia está na casca da árvore
enrugada de canto de cigarra:
é só ir lá e por o barulho na garrafa,
lamber o tronco até pegar o gosto
de um verso qualquer.
Não se começa uma poesia
olhando para as estrelas,
elas estão distantes e frias,
e já se esgotaram da própria luz.
Começa-se uma poesia
olhando para o chão.
Adélia, aquela que tem muitos prados
e montanhas de Minas no nome,
ensinou-me isto.
É estrume verde de vaca que cria
que é bom para rimar com alegria,
e não agonia, euforia, alegoria...
Poesia dá em árvore que não se cultiva,
que nasce e cresce sozinha no campo;
você passa por ela, vê o fruto e colhe.
Simples assim...
Ah, ia me esquecendo:
poesia não tem fim.
Poesia só tem começo,
porque dentro.
Eco infindável na infinita alma
do poeta.
Círculo cujo centro está em toda parte
e a periferia em parte alguma,
e que me perdoem os hermetistas
pela apropriação mais que devida.
Poesia é quase que um nó na tripa.
Quando aflora na gente,
a dor de senti-la é na barriga.
Cabeça e coração
entram depois nesta confusão.
Poesia é o olho de Deus
para quem não tem olhos
de ver Deus,
mas quer ser visto por Ele...
-Bom, compreendi pouco
desta coisa de olho!...
-Ótimo! É sinal que estamos perto
da visão...
No santuário da poesia,
há uma placa esculpida no frontispício
que, em letras douradas, diz:
'Você está pisando em solo sagrado.
Por favor, suje os pés antes de entrar'.
Não acredite em nenhum poeta
que não tenha os pés sujos.
Agora, peço licença
para ir sujar os meus...

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