Héber Luciano

Héber Luciano

Escritor brasiliense de poesia e ficção

Perfil
3 Visualizações

Ipês-amarelos o ano inteiro

hoje não posso morrer

porque amanhã preciso

entregar um relatório.

 

(essa necessidade

de agradar é uma forma

esquisita de narcisismo.)

 

atravesso a passarela

e sinto o ímpeto de mergulhar

de ponta no asfalto, mas

 

hoje não posso morrer

porque o RH preparou

uma campanha legal

 

de setembro amarelo

e seria inconveniente

morrer por agora.

 

(é curioso que,

em setembro, os ipês pintem

a cidade de amarelo —

 

como se Deus

quisesse nos transmitir

uma mensagem.)

 

hoje não posso morrer

porque quero mandar

meu chefe à puta que pariu,

 

não que eu fazê-lo,

mas gosto da ideia

de haver essa possibilidade.

 

a Morte me espreita,

apaixonada, e nosso flerte

se estende há anos, mas

 

hoje não posso morrer

porque nunca comi camarão

e pode ser que seja bom.

 

(as coisas que não fiz

serão sempre mais numerosas

do que aquelas que fiz,

 

mas, pensando bem,

as coisas que não vou repetir

são as que me doem mais —

 

hoje não posso morrer

porque as lembranças

precisam de mim para existir.)

 

hoje não posso morrer

porque ainda estou reunindo

os convidados do meu funeral.

 

(não busco pessoas que chorem

a minha morte, mas que sorriam

ao lembrar que eu existi.)

 

hoje não posso morrer

porque é possível que eu encontre

um amor para recomeçar,

 

não que eu encontrá-lo,

mas gosto da ideia

de haver essa possibilidade.

Ler poema completo
Biografia
Héber Luciano nasceu em setembro de 1995, no Distrito Federal. Com o intuito de compartilhar suas crônicas e poesias, criou, em 2018, a página Solidão Conjunta (@solidaoconjunta), no Instagram. É autor dos livros "Colecionador de perdas" (Editora Urutau, 2023), "O abismo olha de volta" (Edição Independente, 2026) — respectivamente uma antologia poética e uma coletânea de contos que expressam o estilo cáustico e melancólico de sua escrita.

Poemas

3

Não sou assim o tempo inteiro

posso rir até a asfixia

de um vídeo de fantoches

e depois quase morrer

estrangulado pela ausência

de alguém que superei

há dois anos e meio

e não me faz falta

exceto neste instante.

 

às vezes estou tão alegre

que posso saltar e tocar

uma placa suspensa no mercado

e em seguida quero sumir

mas igual a uma criança

escondida detrás do sofá

espiando para saber

se alguém me procura.

Colecionador de perdas

no começo da vida,

colecionou cartões telefônicos,

figurinhas de Copa do Mundo

e bolinhas de gude;

depois colecionou

camisetas de bandas,

pingentes e bottons;

 

chegando à vida adulta

percebeu que, na verdade,

em vez de acumular bens,

acumulava perdas.

 

no início, perdeu

a infância e a juventude,

e com elas perdeu

os cartões telefônicos,

as figurinhas de Copa do Mundo,

as bolinhas de gude,

as camisetas de bandas,

os pingentes e os bottons.

 

da mesma forma que os cabelos

no topo da cabeça,

esses itens foram sumindo

gradativa e imperceptivelmente,

surrupiados pelo Tempo,

e o desfalque só foi notado

quando lhe faltava pouco.

 

as perdas se sucediam:

perdeu os amigos de infância

para a morte ou para a vida adulta,

perdeu três cachorros,

perdeu a bicicleta,

perdeu o futuro que planejara

na juventude.

 

perdeu ônibus e trens,

perdeu oportunidades

de falar e de ficar calado,

perdeu empregos,

perdeu os avós,

perdeu paixões,

perdeu um amor,

perdeu a imagem que tinha de si.

 

quanto mais velho ficava,

maior se tornava a coleção de perdas,

aglomeradas num quartinho da memória

que se revelava cada vez mais estreito

para tantos suvenires.

 

perdeu mais amigos

para a morte e para a vida,

perdeu o carro,

perdeu tios e tias,

perdeu outro cachorro,

perdeu o pai,

perdeu a mãe,

perdeu a fé.

 

o que era a vida

senão um passeio

ao longo de um corredor

de degustações? —

veja, experimente um pouco,

só um pouquinho,

porque nada pode te pertencer

por muito tempo.

 

a coleção de perdas aumentava:

perdeu o segundo amor,

perdeu outras paixões,

perdeu a beleza,

perdeu o tesão,

perdeu mais amigos para a morte,

perdeu as versões de si

que havia colocado no lugar

das versões perdidas.

 

foi perdendo também as lembranças,

de modo que o quartinho da memória,

antes abarrotado com a coleção de perdas,

foi se esvaziando e se esvaziando,

numa varredura brutal do Tempo,

que deixaria ficar, empoeiradas,

apenas as lembranças mais importantes.

 

por fim perderia a vida,

afinal, começara a morrer

a partir do primeiro suspiro

na sala de parto.

 

mas não importava que fosse

um colecionador de perdas,

porque para perder

momentos, amigos e amores

era necessário haver possuído

momentos, amigos e amores,

ainda que por um instante,

 

de modo que, estranhamente,

colecionar perdas

como troféus no quarto da memória

simbolizava a maior façanha

que um ser humano

poderia realizar.

Ipês-amarelos o ano inteiro

hoje não posso morrer

porque amanhã preciso

entregar um relatório.

 

(essa necessidade

de agradar é uma forma

esquisita de narcisismo.)

 

atravesso a passarela

e sinto o ímpeto de mergulhar

de ponta no asfalto, mas

 

hoje não posso morrer

porque o RH preparou

uma campanha legal

 

de setembro amarelo

e seria inconveniente

morrer por agora.

 

(é curioso que,

em setembro, os ipês pintem

a cidade de amarelo —

 

como se Deus

quisesse nos transmitir

uma mensagem.)

 

hoje não posso morrer

porque quero mandar

meu chefe à puta que pariu,

 

não que eu fazê-lo,

mas gosto da ideia

de haver essa possibilidade.

 

a Morte me espreita,

apaixonada, e nosso flerte

se estende há anos, mas

 

hoje não posso morrer

porque nunca comi camarão

e pode ser que seja bom.

 

(as coisas que não fiz

serão sempre mais numerosas

do que aquelas que fiz,

 

mas, pensando bem,

as coisas que não vou repetir

são as que me doem mais —

 

hoje não posso morrer

porque as lembranças

precisam de mim para existir.)

 

hoje não posso morrer

porque ainda estou reunindo

os convidados do meu funeral.

 

(não busco pessoas que chorem

a minha morte, mas que sorriam

ao lembrar que eu existi.)

 

hoje não posso morrer

porque é possível que eu encontre

um amor para recomeçar,

 

não que eu encontrá-lo,

mas gosto da ideia

de haver essa possibilidade.

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