Meu pai e minha mãe se olharam um de uma esquina e outro de outra se conheceram, namoraram, casaram, sorriram, brincaram e se amaram e daí, nove meses depois eu nasci.
Então veio os natais e a escrita. E assim começou minha história.
Sociedade dos Eremitas - Lendo e Escrevendo, 2019. Editora Litere-se.
344
O Embrião
Nascemos embriões vigorosos sete a nove meses guardados para que nossa carne, nossos ossos possam viver enfim... Separados
Do seio materno que nos preparou e a quebrar o cordão que nos prendia num despertar quase que lento chorou a semente mostrou sua magia.
Sociedade dos Eremitas - Lendo e Escrevendo, 2019. Editora Litere-se.
426
Sensações II
Sou como a nuvem passageira e suave no azul do céu Não espero nada de ninguém Não quero que esperem de mim Quero sossego para olhar a vida com meus olhos. Com meus próprios olhos.
Quero enxergar o fio da vida que arrebenta com o findar das horas Pois a vida não é mais do que isso Um fio infinito que não se vê apenas posso senti-lo sua negra decomposição em mim À hora é sua maior inimiga Você nunca convencerá Pois ela é sua dona
Não siga o caminho negro nem o caminho branco Pois não há caminhos para quem vive apenas a morte E nesta noite calada teu carinho me sustenta, vivo, ou quase vivo Não tenho mais certezas A escuridão é dúvida e só vejo escuridão Tua alma é escura como a alma de qualquer mulher.
Sociedade dos Eremitas - Lendo e Escrevendo, 2019. Editora Litere-se.
342
Sensações
Não ligue para as televisões ligadas Não ligue para os telefones chamando Ouça apenas o som ressoando lá fora. O som do mundo vivo. Não! Para este mundo morto das televisões. Não! Para as vozes sem rosto dos telefones. Não! Para estas pessoas que te cercam com seus pensamentos codificados.
Sim! Quero ouvir... Quero ouvir os ruídos dos insetos Quero ouvir o marulhar das águas do mar Quero ouvir o eco do vento passear pela madrugada solitária Quero ouvir pássaros, bichos entrando e saindo nos meus tímpanos. Não! Para o som metálico e correto das máquinas.
Apenas, quero ouvir O som sem sentido que dá sentido ao mundo.
Sociedade dos Eremitas - Lendo e Escrevendo, 2019. Editora Litere-se.
352
Juventude
Mar de fúria e de inquietude as mãos engorduradas de desejos roupas armadas de atitude vaidosos em seus ensejos.
São água transbordando no recipiente falam como donos da verdade são livres em suas mentes mas se perturbam frente à liberdade.
Sociedade dos Eremitas - Lendo e Escrevendo, 2019. Editora Litere-se.
335
Adolescência
Calmo, fui no que pude preso nos sonhos adolescentes cheio de fúria e atitudes louco, tempestuoso e displicente.
Farto de desejos... Amores crônicos jeito puro, atirado e indômito às vezes falo muito... Vezes lacônico bicho do mato, surpreso... Atônito.
Minto por não saber a verdade. Espinhas meu rosto deformam Hormônios meu corpo transformam De sincero, minha autenticidade.
Voraz e de alma gentil sentimentos ferozes todos consigo... Algozes de um desejo mercantil.
Sociedade dos Eremitas - Lendo e Escrevendo, 2019. Editora Litere-se.
350
Poética
Não faço versos Eles apenas brotam na minha escuridão e escorrem suando em minhas mãos, e se entregam ao papel É como uma fonte que mina na rocha querendo encontrar seu destino.
Sociedade dos Eremitas - Lendo e Escrevendo, 2019. Editora Litere-se.
402
Motorista de Ônibus
Seus olhos acesos seus ouvidos como cães que guardam a noite ele dirige o ônibus
O ronco do motor os outros carros os sinais de trânsito os passageiros com as delicadezas ou ignorâncias diárias
Seu coração? Seus nervos? Seu corpo? Ninguém sabe como está nem se preocupa em saber. Pra quê? Por quê? Aquela máquina aquela bomba relógio. Ele é carne? Ele é ossos? Será que ele é humano?
-Não! Ele é apenas um motorista de ônibus.
Relicário das Dores - Lendo e Escrevendo, 2019. Editora Litere-se.
711
Os Corvos
Gritos de socorro silenciados Nos suaves cortes na carne Buscando carinho Buscando caminhos Querendo aceitação Querendo interpretação.
Não pertenço ao mundo Ao mundo que me deram Nasci no tempo errado O tempo é impaciente E não gosta de improvisos Já fiz rabiscos nos muros E em páginas rasgadas Que só entendem os letrados Na escuridão.
Um luto bem vivo Com minhas roupas escuras Que são meu casulo. Um luto mais vivo Do que o eu aprisionado Alimentados por músicas E literatura mórbida O que são corvos? São apenas pássaros.
Vivo em duas casas diferentes Mas me perco em todo esse labirinto Não quero escolhas nem permuta Quando nasci nunca queria ser borboleta Só quero voar com minhas penas negras de corvo.
Gosto do alimento com parasitas e insetos Gosto mais do errado do que do certo Que para todos são uma mesma coisa. Só quero voar como um corvo Na vastidão do céu negro da noite. Não quero acordar dos meus versos.
366
A Infância
Quando era criança queria ser grande Quando se é grande quer ser pequeno Ainda me lembro de quando menino apenas sonhava Pesadelo é coisa de homem barbado.
Dirigia ônibus, era médico, matava ladrões, governava o mundo, salvava as pessoas, até podia ser um bom vilão. Morria de brincadeirinha quando se cresce vê que a morte não é brincadeira Vivia de brincadeirinha o mundo era um pequeno brinquedo que minha inocência dominava.
Então cresci, e me perdi pois o mundo tornou-se grande demais para mim Quanto mais cresci menor me tornei diante do mundo. Meu coração virou um pequeno brinquedo na mão de crianças más então tudo aconteceu naturalmente o ônibus me atropelou, o médico me maltratou, fui acuado e dominado não salvei nem a mim mesmo. E o bom vilão? Ah! Esse me matou.
Sociedade dos Eremitas - Lendo e Escrevendo, 2019. Editora Litere-se.