Iago R Carvalho

Iago R Carvalho

n. 2001 BR BR

n. 2001-10-18, Itumbiara

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O truvão cabe no meus trem

Fico imaginando a dor do gramático ao ouvir meus trem
Meus truvão, minhas coisa e meus toró

Dói nos ouvidos maternos as gírias do filho
 Que tudo tá ok pra gente

Dói no ouvido do paulista e do carioca
Quando o nordestino fala das terra e dos cabra do sertão

-Fala certo, mineiro!- Grita-me o gramático
-Fala certo, filho!- Berra a mãe ao jovem
-Fala certo, nordestino!- Berram paulistas e cariocas

Fico no meu canto, aceito gíria, nordeste e mineiro
porque os meu truvão cabe no meus trem
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Poemas

28

Poema capitalista

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317

Poema de José

Ninguém queria ser José
Ninguém almejava ser José
Nem queria filhos Josés

Ninguém dava de comer a José
Ninguém dava de beber a José
Nem queriam que dessem aos Josés


Ninguém lia José
Ninguém escrevia a José
Nem queriam que lessem Josés


A pergunta que fica é:
Será que José é?
331

Para fazer um presidente

1 copo de estupidez
1 colher de leite dos tetos do poder
2 golpes de azeite sacro
3 cubos de insensatez
5 xícaras de língua presa
8  taças de burrice

Misture tudo e deixe maturar por trinta anos, sovando de tempos em tempos com doses de palavras maldosas

Rende 4 porções
305

Para isso, artes superficiais

Do jardim de Baudelaire colhi as flores do mal.
Na morada de Byron vi todas as voluptas humanas.
Desviei das pedras de Drummond, embora tropeçasse
Vez ou outra.
Dos Anjos, veio-me o Eu podre e ignavo.

Que sou eu então? Construido a partir das obras de outrem.
Danem-se as flores de Baudelaire.
Danem-se as orgias byronianas.
Danem-se as pedras no caminho 
E que se dane Eu.

O artista, ao ser precedido de gigantes, sente-se pequeno
Sente que sua arte é copia 
Mas… é cópia?
Não é possível que outros homens colham flores
Que outros homens façam orgias e
Que outros homens vejam pedras em seu caminho?

Ao inferno com as comparações!
Minhas flores têm o mesmo perfume do mal
Minhas orgias têm a mesma volupta 
Minhas pedras são tão poéticas quanto
E meu Eu é podre como qualquer um

E nessa sina de originalidade vive o poeta
Todas as suas artes parecem artificiais
Droga! Mais uma de Baudelaire.
308

Valha-te o inferno!

Dir-me-ia na mais pura verdade
Que a situação se esvaíra,
Que na verdade era mentira
A situação do gordo frade.

“Valha-te o inferno!”, Dir-lhe-ia 
                                             [toda a cidade.
Sinto que ao mal o frade se unira,
Mas a situação que outrora sentira
Levara-nos a aceitar tal podestade

“Valha-te o inferno!”, dir-te-ei em um sismo
“Não te jogas ao buraco porque te persegue
                                                         [ o imaginário.
Te jogas porque te anima o ideário
Que o espera ao fundo do abismo!”.

Em meio às pedras agora chora.
A escuridão que o encobre hodierno,
Rota e pérfida, não mais o namora.

Mesmo que me encontre igualmente, agora,
Dir-te-ei irritado e sem demora:
“Valha-te o inferno!”
314

Complexo de deus

É estranho o poeta muito religioso
Que cria um mundo indecoroso
De pura magia indiscreta
Na qual ordena e manda, mesmo 
                                               [de forma indireta.
E nessa de criar os seus
Embora identifique-se como Prometheus
E com fogo acredite ajudar humanos, os meus,
Faz-se, de certa forma, também deus.

Criam mundos, destroem as vidas.
Tornam a existência de seus eus-líricos,
Pontos em impuros mostos satíricos,
Na qual as égides de seus valores são corroídas.
Chega a não se importar com as vidas cálidas
Criadas para seus propósitos teóricos,
Acredita que em seus textos pictóricos
Não existem existências válidas.

Darei por findo meu discurso infinito
Ao retratar por imagens escritas o que fora dito
Demonstrando a ti as coisas hipócritas
Estruturadas em críticas às teorias demócritas
Do poeta que em sua hipocrisia, ao criar os mundos seus
Faz-se ditador das vidas, tornando-se também deus.
332

Mais um dia

Mais um dia
A noite obscurece o horizonte
Talvez não vejamos mais o céu,
Mas é verdade que ele ainda lá está

Mais um dia
Os deuses horrendos de nossa existência brincam
Com a desgraça tardia
E tentam com seu julgo impiedoso
Mostrar-nos o é que não o é

Mais um dia
Será que realmente poderia o ser?
O ser contempla sua mazela e
Abaixa a cabeça

Mais um dia
Enfia o dedo na chaga
Na esperança de que algo sinta
E possa livrar-se do torpor

Mais um dia
O que é a dor?
Não mais o sei

-Nada sinto nessa ofuscadora escuridão de incertezas
371

Epitáfio de um poeta

Sorrio, embora apodrecido. Temo continuar a ser quem sou: um raio de inconstância em um mundo estático. Abro mão do indivíduo e aceito o acalento vindo do inconcebível. A imaginação, que outrora fora rainha de nossa existência é hoje banida e maltratada, tornando amarga nossa vivência. O último desejo de minh'alma é o terno abraço da terra e o beijo podre dos vermes decompositores, almejo deitar para sempre ao lado da deusa esquecida de um mundo perdido. Aqui, meus amigos, jaz um jovem imaginador vencido.
350

O ofício dolente

Sou só mais um ser ignavo
que no meio da noite pranteia em segredo
A dor que permeia o triste escravo.

Enquimero-me nas peles putrefatas
daqueles que não tem voz
Sentindo a dor que pesa suas omoplatas.

Penso que sinto… nunca saberei
Abraço a desonra do trabalho
de rir-me do rei.

Quem serei?
Não sei
             -O poeta sofre no sofrimento que não lhe pertence
293

Canção do Exílio

I

No vale de árvores mil
Encontro-me na paz feroz
Longe do açoite do algoz
Nesta terra o Brasil

Talvez eu seja um de mil
Que ao alimentar-se dessa noz
Lembre-me que um dia foram nós
Os habitantes de Brasil

É de natureza inverossímil
O som da cana moída por vós
Trabalho incumbido a nós
Pelos ditos senhores de Brasil

O medo faz-me tomar medida vil
Agora separar-me-ei de vós
Pois já escuto ao longe o algoz
Saindo de seu covil

II

O frio reconfortante
Embebeda-me com sua paz nauseabunda
Em meio à natureza profunda
Dessa terra estonteante

Como os fluídos do amante
Escorre pela coluna corcunda
Da cervical até a bunda
O suco de cheiro enfastiante

A dor pujante
Lembra-me da antiga rotunda
De uma tribo moribunda
Agora uma lembrança distante

Por sobre o rosto enfante
Vermes vindos da terra fecunda
Adentram a enclausura moribunda
De um espírito delirante

III

Como sinto falta da floresta!
Que um dia para nós fora
Uma irmã, mãe e protetora
Desta, agora nada resta

Encontro-me agora nesta
Retornando à fauna e à flora
Pela boca do verme que me devora
Para dar vida à Mãe-floresta

Talvez fique indigesta
Com o filho que agora
Sentindo medo de viver lá fora
Retorna de maneira funesta

O corpo que a natureza empresta
Ao nativo que vos fala agora
Nunca calçará a espora
Que deixa a natureza indigesta
364

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