Iago R Carvalho

Iago R Carvalho

n. 2001 BR BR

n. 2001-10-18, Itumbiara

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O truvão cabe no meus trem

Fico imaginando a dor do gramático ao ouvir meus trem
Meus truvão, minhas coisa e meus toró

Dói nos ouvidos maternos as gírias do filho
 Que tudo tá ok pra gente

Dói no ouvido do paulista e do carioca
Quando o nordestino fala das terra e dos cabra do sertão

-Fala certo, mineiro!- Grita-me o gramático
-Fala certo, filho!- Berra a mãe ao jovem
-Fala certo, nordestino!- Berram paulistas e cariocas

Fico no meu canto, aceito gíria, nordeste e mineiro
porque os meu truvão cabe no meus trem
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Poemas

28

Mutilar-se

Mutilo-me
E das feridas escorre o sangue roto de um morto
                                                              [Que ainda vive
Vive?
A vida é uma mentira contada para as crianças
E as mesmas crianças
Ja na fase adulta percebem a mentira
E, como eu, mutilam-se
Mutilam-se para se adequarem ao que as açoita
O açoite abre chagas em suas costas
E das feridas escorre o mesmo sangue roto
Sangue esse que, atingindo a terra,
Desperta os demônios que açoitam meu espírito
E do sangue que respiga tornam-se os versos
Que entram no vazio de quem não sente
E dos versos de sangue preencho-me de poesia
287

Epitáfio de um poeta

Sorrio, embora apodrecido. Temo continuar a ser quem sou: um raio de inconstância em um mundo estático. Abro mão do indivíduo e aceito o acalento vindo do inconcebível. A imaginação, que outrora fora rainha de nossa existência é hoje banida e maltratada, tornando amarga nossa vivência. O último desejo de minh'alma é o terno abraço da terra e o beijo podre dos vermes decompositores, almejo deitar para sempre ao lado da deusa esquecida de um mundo perdido. Aqui, meus amigos, jaz um jovem imaginador vencido.
346

O ofício dolente

Sou só mais um ser ignavo
que no meio da noite pranteia em segredo
A dor que permeia o triste escravo.

Enquimero-me nas peles putrefatas
daqueles que não tem voz
Sentindo a dor que pesa suas omoplatas.

Penso que sinto… nunca saberei
Abraço a desonra do trabalho
de rir-me do rei.

Quem serei?
Não sei
             -O poeta sofre no sofrimento que não lhe pertence
286

Literalmentes


Dize-me que sou
Literalmente a pior pessoa que conheces
Dize-me que sou
Literalmente uma anta
Dize-me que sou
Literalmente um animal
Dize-me que sou
Literalmente tudo o que não é literal
125

Carne

Sou poema sem sentido 
Existo apenas para incomodar
Leigos e críticos sem coração
Que ao invés de sentir poesia
Tentam ler

Ora, se queres explicações
Vá para o inferno!
O poema que se explica
Que se abre 
Que não guarda seus segredos
Que não intriga quem o sente
Poema não é

Grandes são as histórias que se redige
Com base na palavra carne
Mas
Se pensar direito
Não seria a palavra carne
Mais poética que essas histórias?

Serei então uma ode à carne
Louvarei as proteínas 
As teias intrincadas de aminoácidos
Que conferem sua motilidade
Exaltarei suas várias cores
Exaltarei suas configurações espaciais
Mas no fim nada importa
Porque a carne em si é poesia
A mim, direis, que importa
Que carne é só uma palavra
A isso, digo-vos:
Que me importa?

Sou ode à carne
Sou não texto com sentido
Sou delírio de um idoso senil
E que é um delírio se não algo
Que em toda sua irracionalidade
Traz ao mundo um pouco de lógica?

Sou delírio também
Sou e não o Sou
O que isso me importa?
Nada, sou ode à carne
149

Vago

Se divago em meio ao campo vago
Vago, mas ainda sim lotado
E por ele vago 
Carregando cestos de palavras vagas
Derramando rios de poesias vagas
Murmurando trechos daquilo que nunca vão ouvir
Trechos vagos, claro
E da inércia na qual me fruo
Sinto que esse é tempo de poemas rasos
É o tempo da poesia vaga
E do vago me corre a vaga
A vaga da desesperança
E vendo as coisas que um dia disse
Percebo que do fruir ainda sou criança
Novo ainda na dança vaga
E que de novo, mesmo com tanta andança
Careço de toda forma
A forma que tenho é disforme e se deforma
Deforma, reforma, deforma
Volta sempre à prima forma
E no seguir da norma
Norma que não entendo,
É, pois, vago pensar
Me jogo então
Nas vagas do meio
Do campo vago em que vago
Do circuito fechado que me pus a cruzar
Digo não te preocupes
Que nada há com que se preocupar
Se te digo que me mato
Morri nas palavras
Se te digo que me espanco
Minhas úlceras são verbos
Se te digo que me xingo
Meus xingamentos são subjetivos
Se te digo que não me importo
Importei-me há muito
Se te digo que me corroo
Já nem existo mais
E se existo 
Minha existência é vaga
Tal como minha poesia
145

Gatilhos

Ratos?
Esgotos?
Bitucas de cigarros?

Nas ruas
Entupidos
Queimam nuas

Pinturas?
Latas?
Usuras?

Mal vistas
Gerais
Bem quistas

Drogas?
Devaneios?
Togas?

Censuras
Libertadores
Escusas

Rabiscos?
Papéis?
Petiscos?

Caros
Bem ricos
Raros

Cadeiras?
Estátuas?
Candeias?

Intocáveis
Mentirosas
Inutilizáveis

Pobres?
Vendas?
Nobres?

Invisíveis
Faliram
Risíveis

Saúde?
Lazer?
Alaúde?

Escassa
Não temos
Sem graça

Prazeres?
Sentidos?
Haveres?

Negados
Nebulados
Obrigados

Capital?
Egoísmo?
Estatal?

De alguns
De todos
Dos nenhuns

A Noite?
Os dias?
O açoite?

Terrores
Voando
Nossas dores

E futuros?
E amores?
E furos?

Aos ricos
Aos brancos
Aos pretos
135

Mutilar-se

Mutilo-me
E das feridas escorre o sangue roto de um morto
                                                              [Que ainda vive
Vive?
A vida é uma mentira contada para as crianças
E as mesmas crianças
Ja na fase adulta percebem a mentira
E, como eu, mutilam-se
Mutilam-se para se adequarem ao que as açoita
O açoite abre chagas em suas costas
E das feridas escorre o mesmo sangue roto
Sangue esse que, atingindo a terra,
Desperta os demônios que açoitam meu espírito
E do sangue que respiga tornam-se os versos
Que entram no vazio de quem não sente
E dos versos de sangue preencho-me de poesia
194

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