Mutilar-se
Mutilo-me
E das feridas escorre o sangue roto de um morto
[Que ainda vive
Vive?
A vida é uma mentira contada para as crianças
E as mesmas crianças
Ja na fase adulta percebem a mentira
E, como eu, mutilam-se
Mutilam-se para se adequarem ao que as açoita
O açoite abre chagas em suas costas
E das feridas escorre o mesmo sangue roto
Sangue esse que, atingindo a terra,
Desperta os demônios que açoitam meu espírito
E do sangue que respiga tornam-se os versos
Que entram no vazio de quem não sente
E dos versos de sangue preencho-me de poesia
Canção do Exílio
I
No vale de árvores mil
Encontro-me na paz feroz
Longe do açoite do algoz
Nesta terra o Brasil
Talvez eu seja um de mil
Que ao alimentar-se dessa noz
Lembre-me que um dia foram nós
Os habitantes de Brasil
É de natureza inverossímil
O som da cana moída por vós
Trabalho incumbido a nós
Pelos ditos senhores de Brasil
O medo faz-me tomar medida vil
Agora separar-me-ei de vós
Pois já escuto ao longe o algoz
Saindo de seu covil
II
O frio reconfortante
Embebeda-me com sua paz nauseabunda
Em meio à natureza profunda
Dessa terra estonteante
Como os fluídos do amante
Escorre pela coluna corcunda
Da cervical até a bunda
O suco de cheiro enfastiante
A dor pujante
Lembra-me da antiga rotunda
De uma tribo moribunda
Agora uma lembrança distante
Por sobre o rosto enfante
Vermes vindos da terra fecunda
Adentram a enclausura moribunda
De um espírito delirante
III
Como sinto falta da floresta!
Que um dia para nós fora
Uma irmã, mãe e protetora
Desta, agora nada resta
Encontro-me agora nesta
Retornando à fauna e à flora
Pela boca do verme que me devora
Para dar vida à Mãe-floresta
Talvez fique indigesta
Com o filho que agora
Sentindo medo de viver lá fora
Retorna de maneira funesta
O corpo que a natureza empresta
Ao nativo que vos fala agora
Nunca calçará a espora
Que deixa a natureza indigesta
Mais um dia
Mais um dia
A noite obscurece o horizonte
Talvez não vejamos mais o céu,
Mas é verdade que ele ainda lá está
Mais um dia
Os deuses horrendos de nossa existência brincam
Com a desgraça tardia
E tentam com seu julgo impiedoso
Mostrar-nos o é que não o é
Mais um dia
Será que realmente poderia o ser?
O ser contempla sua mazela e
Abaixa a cabeça
Mais um dia
Enfia o dedo na chaga
Na esperança de que algo sinta
E possa livrar-se do torpor
Mais um dia
O que é a dor?
Não mais o sei
-Nada sinto nessa ofuscadora escuridão de incertezas
Gatilhos
Ratos?
Esgotos?
Bitucas de cigarros?
Nas ruas
Entupidos
Queimam nuas
Pinturas?
Latas?
Usuras?
Mal vistas
Gerais
Bem quistas
Drogas?
Devaneios?
Togas?
Censuras
Libertadores
Escusas
Rabiscos?
Papéis?
Petiscos?
Caros
Bem ricos
Raros
Cadeiras?
Estátuas?
Candeias?
Intocáveis
Mentirosas
Inutilizáveis
Pobres?
Vendas?
Nobres?
Invisíveis
Faliram
Risíveis
Saúde?
Lazer?
Alaúde?
Escassa
Não temos
Sem graça
Prazeres?
Sentidos?
Haveres?
Negados
Nebulados
Obrigados
Capital?
Egoísmo?
Estatal?
De alguns
De todos
Dos nenhuns
A Noite?
Os dias?
O açoite?
Terrores
Voando
Nossas dores
E futuros?
E amores?
E furos?
Aos ricos
Aos brancos
Aos pretos
Carne
Sou poema sem sentido
Existo apenas para incomodar
Leigos e críticos sem coração
Que ao invés de sentir poesia
Tentam ler
Ora, se queres explicações
Vá para o inferno!
O poema que se explica
Que se abre
Que não guarda seus segredos
Que não intriga quem o sente
Poema não é
Grandes são as histórias que se redige
Com base na palavra carne
Mas
Se pensar direito
Não seria a palavra carne
Mais poética que essas histórias?
Serei então uma ode à carne
Louvarei as proteínas
As teias intrincadas de aminoácidos
Que conferem sua motilidade
Exaltarei suas várias cores
Exaltarei suas configurações espaciais
Mas no fim nada importa
Porque a carne em si é poesia
A mim, direis, que importa
Que carne é só uma palavra
A isso, digo-vos:
Que me importa?
Sou ode à carne
Sou não texto com sentido
Sou delírio de um idoso senil
E que é um delírio se não algo
Que em toda sua irracionalidade
Traz ao mundo um pouco de lógica?
Sou delírio também
Sou e não o Sou
O que isso me importa?
Nada, sou ode à carne
Literalmentes
Dize-me que sou
Literalmente a pior pessoa que conheces
Dize-me que sou
Literalmente uma anta
Dize-me que sou
Literalmente um animal
Dize-me que sou
Literalmente tudo o que não é literal
Vago
Se divago em meio ao campo vago
Vago, mas ainda sim lotado
E por ele vago
Carregando cestos de palavras vagas
Derramando rios de poesias vagas
Murmurando trechos daquilo que nunca vão ouvir
Trechos vagos, claro
E da inércia na qual me fruo
Sinto que esse é tempo de poemas rasos
É o tempo da poesia vaga
E do vago me corre a vaga
A vaga da desesperança
E vendo as coisas que um dia disse
Percebo que do fruir ainda sou criança
Novo ainda na dança vaga
E que de novo, mesmo com tanta andança
Careço de toda forma
A forma que tenho é disforme e se deforma
Deforma, reforma, deforma
Volta sempre à prima forma
E no seguir da norma
Norma que não entendo,
É, pois, vago pensar
Me jogo então
Nas vagas do meio
Do campo vago em que vago
Do circuito fechado que me pus a cruzar
Digo não te preocupes
Que nada há com que se preocupar
Se te digo que me mato
Morri nas palavras
Se te digo que me espanco
Minhas úlceras são verbos
Se te digo que me xingo
Meus xingamentos são subjetivos
Se te digo que não me importo
Importei-me há muito
Se te digo que me corroo
Já nem existo mais
E se existo
Minha existência é vaga
Tal como minha poesia
Mutilar-se
Mutilo-me
E das feridas escorre o sangue roto de um morto
[Que ainda vive
Vive?
A vida é uma mentira contada para as crianças
E as mesmas crianças
Ja na fase adulta percebem a mentira
E, como eu, mutilam-se
Mutilam-se para se adequarem ao que as açoita
O açoite abre chagas em suas costas
E das feridas escorre o mesmo sangue roto
Sangue esse que, atingindo a terra,
Desperta os demônios que açoitam meu espírito
E do sangue que respiga tornam-se os versos
Que entram no vazio de quem não sente
E dos versos de sangue preencho-me de poesia