Igor Roosevelt

Igor Roosevelt

n. 0000-00-00, Teresina - PI

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OS MORTOS

Em que os mortos pensam, nessa noite

Sem fim em que se deitam e que se perdem?

A quem os mortos amam nos seus sonhos

Isentos de sentido e de sabores?

A morte priva os mortos de carpir

Mas rouba-lhe as mãos de trabalhar.

Se os mortos não tem boca pra sorrir

Também lhes faltam olhos pra chorar.

Os mortos não entendem ontologia

Os mortos não vasculham bibliotecas

E nem recitam versos ao luar

O coração dos mortos é um castelo

Sem hóspedes e sem anfitrião

Onde a saudade nunca pode entrar.

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Poemas

43

EU NUNCA DISSE QUE TE AMO

Eu nunca disse que te amo
Mas muita força as prende aqui
Domá-las como um bicho
Prendê-las antes que desaguem
No intervalo de um beijo
Rumo ao mar amargo do remorso.

Eu nunca disse, mas talvez não saiba
O preço que se paga pelo apego
Substantivamente as mãos procuram
No escuro, a doce fantasia
Do afago proibido

Este é o caminho sem volta
E nunca a mesma chuva
Lava o solo queimado de sol
E nunca o mesmo nunca
Pousa no ouvido sempre virgem.

Eu nunca disse, mas talvez não saiba
O nome desse pulso febril que me enfraquece
Sinto apenas no ardor desta manhã
Uma tristeza e uma dor crepuscular
Como quem segue viagem logo cedo
Com saudade e sem pressa de chegar.
393

EU NÃO TE AMO!

Se amar é desejar o tempo inteiro
A presença real do ser amado.
Se é sentir no afago derradeiro
O seio para sempre magoado.

Se é dar suspiros tristes ao luar
Pela flor morta a estremecer num ramo.
Se é uma outra alma escravizar
Então, sinceramente, eu não te amo!

Porque o que sinto é muito mais que isso.
Não é manter teu coração submisso
E nem gravar em mim esta ferida.

Se é desejar felicidade plena,
Mesmo que a minha seja tão pequena,
Outra pessoa nunca amei na vida.
514

A NOITE

Sinto a noite crespar-se no meu peito
E alongar seus dedos dolorosos
Por meus cabelos já esbranquiçados
E por meus ossos, trêmulos, de vidro.
Sinto a noite, seu ósculo gelado
Selando a clara e morna tarde de estio
E atrás de si, seus cavaleiros
Virem, a tropel, em seus cavalos negros
Arrancar de mim os seus despojos.

Sinto a noite crescer na solidão
Da velha casa abandonada do meu coração,
Roendo as paredes cobertas de lodo,
Os velhos retratos que o tempo
Teve o devido cuidado
De deixar somente as lembranças,
As duras linhas onde eu escrevi
Os primeiros poemas,
Meus livros - a porta sempre aberta
Para o refúgio de ideias e palavras,
Sinto a noite roer meus paradigmas,
Minha infância, meu primeiro beijo,
Tímido e amedrontado,
Meus sonhos, minhas crenças
E tudo que não possa ser vendido
Ou sequer trocado.

Sinto a noite apagar meus pensamentos,
A longa trilha dos meus devaneios,
Sinto a noite apagar a minha história
Enquanto multiplica meus aniversários,
E como consequência de tal sequestro
Já não me reconheço para além desta angústia.
Sinto a noite apagar meus anseios,
Meu amor, minha vontade de viver.
Somente essa saudade não se apaga,
Essa saudade de tudo que não foi.
407

SEGREDOS

Quantos versos já tive que impedir
A caneta, imprudente, de escrever?
Nesses versos eu quase me traí
Revelando o que tinha que esquecer.

Quantas vezes, num esforço desumano,
Meus lábios eu mantive contraídos
Pra que esses versos, mesmo por engano,
Sussurrados não fossem aos teus ouvidos.

Vontade de dizer-te, em verso e rima,
Todo carinho que a minha alma anima,
Toda a saudade que lhe faz penar.

Quero teu corpo, teus abraços, beijos...
Mas no meu peito guardo esses desejos
Que nem em versos ouso confessar.
359

AMO SOMENTE OS SOLITÁRIOS

Amo as almas solitárias, os espíritos livres, as aves de rapina.
Amo o pássaro que abandona o bando
para ver o último raio de sol morrer detrás dos arvoredos.
Amo a voz que canta solitária no seio da floresta abandonada.
Amo os barcos que partem na escuridão,
antes que as casas despertem do seu sono.
Eu amo os passos que ecoam pela rua deserta,
tendo por companheira somente a própria sombra.
Amo o poeta, o coração enclausurado numa torre de marfim.
Amo o lobo que se afasta da matilha
para se embriagar com as luzes do luar.
Amo a estrela que mantem-se acesa
Antes de ser despedaçada pela escuridão.
Eu amo o náufrago, o órfão e o moribundo
Porque só eles compreendem a filosofia mais profunda.
Amo os prados ermos onde um homem pode se sentir em casa
E amo a borboleta antes que ela derrame pelo espaço
Sua torrente de cores e movimentações.
Amo a palmeira que sozinha resiste aos golpes do vento
E amo a vela temerária que desafia a tempestade.
Amo o silêncio da enorme noite cósmica
Que nada faz para responder nossas perguntas e apelos.
Amo o murmúrio das ondas quando fala somente aos meus ouvidos
e amo o verde do mar quando somente meus olhos presenteia.
Amo o vulto silente que passa nos campos desolados
e que se alegra e ri consigo mesmo.
Amo a estrada que não foi pisada, a vereda que não foi aberta,
o pensamento selado, a palavra que não foi pronunciada,
o estrangeiro que se maravilha com a sua própria estranheza.
Só amo a estrela que se reconhece estrela
e sabe que não necessita de outra fonte pra brilhar.
Só amo aqueles que amam a própria solidão.
461

NÃO FAÇO VERSO EM VÃO

Não faço verso em vão.
O poema é um pássaro preso numa folha em branco.
Eu fendo a folha, o verso se liberta
E beije a luz.
É preciso escutá-lo e saber se quer sair.

A vida é dura, o amor é pouco e a alegria
Raramente tem me visitado.
Isso é deveras desesperador,
Mas não é motivo para versejar.

Existem os bares, os livros, o abraço dos amigos,
O beijo dos amores fugidios.
Existe a noite e existe a chuva
Onde consigo esconder meus prantos.
Fazer versos pra que?

Os poemas não nascem quando quero.
Ele fica aqui dentro em silêncio
Germinado quando estou a cismar.
A dor que sinto a cada instante
É a dor de suas asas crescendo.

Eu escuto... ele chora.
Bate com as asas de ferro
Nas paredes do meu peito.
Ele cresce. Traço, um risco, uma letra... ele explode.
Ele se livra e me liberta.
405

BALADA PÓS-MODERNA

Fiquei sabendo
que você era rockeira
desejei-te a vida inteira
essa é a hora de tentar.

Eu joguei fora
meus cd's de Fábio Júnior
levo o Ozzy no meu punho
só pra te impressionar.

Só uso preto
se tornou meu pesadelo
ter que cortar o cabelo
ou usar uma outra cor.

Comprei um disco
desse tal de Sex Pistols
meu ouvido não suporta
mas meu coração gostou.

Tomei uísque
tomei pinga, tomei vinho
transformei o meu caminho
onde o vinho me conduz.

Virei ateu,
virei gnóstico, budista,
só não quis deixar na vista
que meu nome era Jesus.

Fiquei com medo
de escrever-te uma poesia
pois tão grande é a agonia
que me causa teu amor.

Roubei uns versos
de Carlos Drummond de Andrade
e disse que era na verdade
Dylan Thomas e Rimbaud.

Fiquei sabendo
que você curte cinema
e pra melhorar o esquema
muita coisa eu assisti.

Eu vi Carlitos
mesmo mudo causar riso,
vi 'Cinema Paradiso'
e Glauber Rocha eu não entendi.

Fiquei pensando
as coincidências que não temos
li 'A Era dos Extremos'
só pra gente debater.

E depois disso
tatuei todo o meu braço,
dei uns tapas no barato
mesmo sem sentir prazer...

Não fiz a barba
pra virar socialista
fiz pose de guitarrista
pra você olhar pra mim.

Pintei uns quadros
pra expor na galeria
mas você sequer os via.
Por que as coisas são assim?

Comprei uns livros
de ciências, de magia,
de história e filosofia
pra poder te emprestar.

Eu fiz uns versos,
inventei uma paranóia,
tentei dar uma de Goya,
fiz sonatas ao luar.

Eu tive amigos,
tive fãs e seguidores,
tive amores, tive dores,
mas você nunca terei.

Eu já sabia
meu destino era maldito
já dizia Raulzito:
Sou cowboy fora da lei.
443

O POETA-ESCULTOR

A pedra é nobre
mas a mente é pobre...
Cinzel na mão vazia,
martelo de chumbo.
Triste de ti, Pigmalião.
Olha pra dentro
buscando inspiração...
Eureca!
A tua Galatéia
tem cara de escrementos!
385

O MARTELO DAS BRUXAS

Não hei de ser um boi
Perdido no campo
Do antes e agora

Quem sabe mais antes
O pão de quimera
Com trigo de vento

Põe a prosa no saco
E foge ao teu encontro
Aperta os dentes
No sorriso

Orfeu está morto!
Não há nem pra que
Beijar estrelas
E plantar mariposas...

Será que o remorso
Resume a figura
Dos ossos falantes
Que outrora roemos?

Pão de verso na mesa
Escorre na rima da boca
Um segredo sem roupas

Não hei de ser um boi!
Melhor é ser castor gigante
E roer as bordas do tempo...
327

NECROFILIA

Leitores vasculham cemitérios,
Livros são lápides eloqüentes,
levam resíduos de poeta nos dentes.
Leitores vasculham bibliotecas,
comem defuntos com os olhos,
vomitam versos de outrora.

Poetas amam a vida, bebem a vida.
Tem olhos voltados para frente,
abrem caminho no escuro.
Poetas amam a vida, bebem a vida.
Comem defuntos
ocasionalmente.


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