Eu nunca disse que te amo Mas muita força as prende aqui Domá-las como um bicho Prendê-las antes que desaguem No intervalo de um beijo Rumo ao mar amargo do remorso.
Eu nunca disse, mas talvez não saiba O preço que se paga pelo apego Substantivamente as mãos procuram No escuro, a doce fantasia Do afago proibido
Este é o caminho sem volta E nunca a mesma chuva Lava o solo queimado de sol E nunca o mesmo nunca Pousa no ouvido sempre virgem.
Eu nunca disse, mas talvez não saiba O nome desse pulso febril que me enfraquece Sinto apenas no ardor desta manhã Uma tristeza e uma dor crepuscular Como quem segue viagem logo cedo Com saudade e sem pressa de chegar.
393
EU NÃO TE AMO!
Se amar é desejar o tempo inteiro A presença real do ser amado. Se é sentir no afago derradeiro O seio para sempre magoado.
Se é dar suspiros tristes ao luar Pela flor morta a estremecer num ramo. Se é uma outra alma escravizar Então, sinceramente, eu não te amo!
Porque o que sinto é muito mais que isso. Não é manter teu coração submisso E nem gravar em mim esta ferida.
Se é desejar felicidade plena, Mesmo que a minha seja tão pequena, Outra pessoa nunca amei na vida.
514
A NOITE
Sinto a noite crespar-se no meu peito E alongar seus dedos dolorosos Por meus cabelos já esbranquiçados E por meus ossos, trêmulos, de vidro. Sinto a noite, seu ósculo gelado Selando a clara e morna tarde de estio E atrás de si, seus cavaleiros Virem, a tropel, em seus cavalos negros Arrancar de mim os seus despojos.
Sinto a noite crescer na solidão Da velha casa abandonada do meu coração, Roendo as paredes cobertas de lodo, Os velhos retratos que o tempo Teve o devido cuidado De deixar somente as lembranças, As duras linhas onde eu escrevi Os primeiros poemas, Meus livros - a porta sempre aberta Para o refúgio de ideias e palavras, Sinto a noite roer meus paradigmas, Minha infância, meu primeiro beijo, Tímido e amedrontado, Meus sonhos, minhas crenças E tudo que não possa ser vendido Ou sequer trocado.
Sinto a noite apagar meus pensamentos, A longa trilha dos meus devaneios, Sinto a noite apagar a minha história Enquanto multiplica meus aniversários, E como consequência de tal sequestro Já não me reconheço para além desta angústia. Sinto a noite apagar meus anseios, Meu amor, minha vontade de viver. Somente essa saudade não se apaga, Essa saudade de tudo que não foi.
407
SEGREDOS
Quantos versos já tive que impedir A caneta, imprudente, de escrever? Nesses versos eu quase me traí Revelando o que tinha que esquecer.
Quantas vezes, num esforço desumano, Meus lábios eu mantive contraídos Pra que esses versos, mesmo por engano, Sussurrados não fossem aos teus ouvidos.
Vontade de dizer-te, em verso e rima, Todo carinho que a minha alma anima, Toda a saudade que lhe faz penar.
Quero teu corpo, teus abraços, beijos... Mas no meu peito guardo esses desejos Que nem em versos ouso confessar.
359
AMO SOMENTE OS SOLITÁRIOS
Amo as almas solitárias, os espíritos livres, as aves de rapina. Amo o pássaro que abandona o bando para ver o último raio de sol morrer detrás dos arvoredos. Amo a voz que canta solitária no seio da floresta abandonada. Amo os barcos que partem na escuridão, antes que as casas despertem do seu sono. Eu amo os passos que ecoam pela rua deserta, tendo por companheira somente a própria sombra. Amo o poeta, o coração enclausurado numa torre de marfim. Amo o lobo que se afasta da matilha para se embriagar com as luzes do luar. Amo a estrela que mantem-se acesa Antes de ser despedaçada pela escuridão. Eu amo o náufrago, o órfão e o moribundo Porque só eles compreendem a filosofia mais profunda. Amo os prados ermos onde um homem pode se sentir em casa E amo a borboleta antes que ela derrame pelo espaço Sua torrente de cores e movimentações. Amo a palmeira que sozinha resiste aos golpes do vento E amo a vela temerária que desafia a tempestade. Amo o silêncio da enorme noite cósmica Que nada faz para responder nossas perguntas e apelos. Amo o murmúrio das ondas quando fala somente aos meus ouvidos e amo o verde do mar quando somente meus olhos presenteia. Amo o vulto silente que passa nos campos desolados e que se alegra e ri consigo mesmo. Amo a estrada que não foi pisada, a vereda que não foi aberta, o pensamento selado, a palavra que não foi pronunciada, o estrangeiro que se maravilha com a sua própria estranheza. Só amo a estrela que se reconhece estrela e sabe que não necessita de outra fonte pra brilhar. Só amo aqueles que amam a própria solidão.
461
NÃO FAÇO VERSO EM VÃO
Não faço verso em vão. O poema é um pássaro preso numa folha em branco. Eu fendo a folha, o verso se liberta E beije a luz. É preciso escutá-lo e saber se quer sair.
A vida é dura, o amor é pouco e a alegria Raramente tem me visitado. Isso é deveras desesperador, Mas não é motivo para versejar.
Existem os bares, os livros, o abraço dos amigos, O beijo dos amores fugidios. Existe a noite e existe a chuva Onde consigo esconder meus prantos. Fazer versos pra que?
Os poemas não nascem quando quero. Ele fica aqui dentro em silêncio Germinado quando estou a cismar. A dor que sinto a cada instante É a dor de suas asas crescendo.
Eu escuto... ele chora. Bate com as asas de ferro Nas paredes do meu peito. Ele cresce. Traço, um risco, uma letra... ele explode. Ele se livra e me liberta.
405
BALADA PÓS-MODERNA
Fiquei sabendo que você era rockeira desejei-te a vida inteira essa é a hora de tentar.
Eu joguei fora meus cd's de Fábio Júnior levo o Ozzy no meu punho só pra te impressionar.
Só uso preto se tornou meu pesadelo ter que cortar o cabelo ou usar uma outra cor.
Comprei um disco desse tal de Sex Pistols meu ouvido não suporta mas meu coração gostou.
Tomei uísque tomei pinga, tomei vinho transformei o meu caminho onde o vinho me conduz.
Virei ateu, virei gnóstico, budista, só não quis deixar na vista que meu nome era Jesus.
Fiquei com medo de escrever-te uma poesia pois tão grande é a agonia que me causa teu amor.
Roubei uns versos de Carlos Drummond de Andrade e disse que era na verdade Dylan Thomas e Rimbaud.
Fiquei sabendo que você curte cinema e pra melhorar o esquema muita coisa eu assisti.
Eu vi Carlitos mesmo mudo causar riso, vi 'Cinema Paradiso' e Glauber Rocha eu não entendi.
Fiquei pensando as coincidências que não temos li 'A Era dos Extremos' só pra gente debater.
E depois disso tatuei todo o meu braço, dei uns tapas no barato mesmo sem sentir prazer...
Não fiz a barba pra virar socialista fiz pose de guitarrista pra você olhar pra mim.
Pintei uns quadros pra expor na galeria mas você sequer os via. Por que as coisas são assim?
Comprei uns livros de ciências, de magia, de história e filosofia pra poder te emprestar.
Eu fiz uns versos, inventei uma paranóia, tentei dar uma de Goya, fiz sonatas ao luar.
Eu tive amigos, tive fãs e seguidores, tive amores, tive dores, mas você nunca terei.
Eu já sabia meu destino era maldito já dizia Raulzito: Sou cowboy fora da lei.
443
O POETA-ESCULTOR
A pedra é nobre mas a mente é pobre... Cinzel na mão vazia, martelo de chumbo. Triste de ti, Pigmalião. Olha pra dentro buscando inspiração... Eureca! A tua Galatéia tem cara de escrementos!
385
O MARTELO DAS BRUXAS
Não hei de ser um boi Perdido no campo Do antes e agora
Quem sabe mais antes O pão de quimera Com trigo de vento
Põe a prosa no saco E foge ao teu encontro Aperta os dentes No sorriso
Orfeu está morto! Não há nem pra que Beijar estrelas E plantar mariposas...
Será que o remorso Resume a figura Dos ossos falantes Que outrora roemos?
Pão de verso na mesa Escorre na rima da boca Um segredo sem roupas
Não hei de ser um boi! Melhor é ser castor gigante E roer as bordas do tempo...
327
NECROFILIA
Leitores vasculham cemitérios, Livros são lápides eloqüentes, levam resíduos de poeta nos dentes. Leitores vasculham bibliotecas, comem defuntos com os olhos, vomitam versos de outrora.
Poetas amam a vida, bebem a vida. Tem olhos voltados para frente, abrem caminho no escuro. Poetas amam a vida, bebem a vida. Comem defuntos ocasionalmente.