Músico e licenciado em História, dedicando-me grandemente à criação artística, nomeadamente musical e poética. As viagens e tours com a banda Albaluna proporcionaram uma nova visão sobre a arte, altamente influenciada pelos motivos tradicionais e étnicos de todos vários sítios do Mundo.
Nascido nos Países Baixos e de ascendência portuguesa, sou músico e licenciado em História, dedicando-me grandemente à criação artística, nomeadamente musical e poética. As viagens e tours com a banda Albaluna proporcionaram uma nova visão sobre a arte, altamente influenciada pelos motivos tradicionais e étnicos de todos vários sítios do Mundo.
Por vaguear Questiono o que estas pedras já terão visto Se não sendo pedras de todo Algo mais nobre teriam previsto. Se viram corpos, se viram asas Se todo o firmamento nas suas amarras Se águas dúvidas fundaram E todavia nada lavaram Por todos os campos de calçada Me arremesso, deambulante.
Se és casado com a solidão Basta seres triste para ficares só Podes gostar de não gostar Pagar ouro por mero pó. As pedras têm com as aves A perversa intimidade Umas observam-nos altivos Enquanto outras nos vêem de alto Pelos meandros de calçada Navego, deambulante.
Leio nos meus pensamentos Mais do que quero noutro alguém Foram estas mesmas rochas Morada de outrora, do além Mais rapidamente se veste um livro Do que um rasgo de tecido Um rasto indeciso Na rapina do tempo omisso Pelo flutuar da calçada Num solilóquio deambulante.
Na dúvida exausta Empilhamos ares de outras trovas Bairros fazemos de nossas casas Fazemos de velho coisas novas. Fugimos do ardor De entre quem do amor terá seu luto Gosto de pouca gente E de pouca gente gosto muito. Por todos os campos de calçada Sigo, deambulante.
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A Porta
Afinal, o que importa É quem tu és por detrás da porta Onde te arrumas e te afliges Sem destino te diriges À mercê de uma mão morta
Afinal, o que mais importa É quem tu deixas atrás da porta Entre todos esses teus repentes Os ódios que fogem entre dentes Como caudais sem comporta
Afinal, o que realmente importa É porque choras por detrás da porta Nessas ânsias e ciúmes Calos, marcas e negrumes Toda a alma que em gume se corta
Afinal, o que mais importa É porque vais de porta em porta A desejar regra em laje torta A inventar vida em coisa absorta Quando, no final, mais ninguém se importa
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Pontilhismo ao Pôr-do-Sol
Na inocência em que vos vejo Sois como campos de flores Pontilho de todas as cores O vosso prado de virtudes Numa tela vaga e rude.
Três silhuetas desiguais em contraluz Divagando nos campos de flores Do jeito em que vos retenho Cabe todo o céu num só desenho.
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Chiaroscuro
Mote:
Sem ter o mesmo azul do mar Semblante obscuro No fim um novo acordar Num chiaroscuro
Glosa:
Rastos de mágoas pendentes Procissões de meias-gentes Havendo todo um céu por revelar Sem ter o mesmo azul do mar
Todos os inícios aperfeiçoados Breve visão dos dias claros Sempre nova na voz em que murmuro, com este Semblante obscuro.
Matam-se sonhos com o olhar No fim um novo acordar.
Ilumina-se aqui Tenebrista de branco e treva Preencheu-se um abismo em mim Onde um novo e vasto monte impera. Na vertigem de ser Sem medo de me perder Num sonho absurdo…
Entra sem voltar atrás! Entra! Encontra-te onde estás!
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Os Noctívagos
Há-de haver quem pretenda Sofrer do mesmo mal E cantar à luz das velas Rasgar as mesmas ruelas Roubar o silêncio aos desejos Sob a luz boémia dos candeeiros
E há-de haver ainda quem se ofenda Com a força de uma onda que rebenta Pela cara que mostras à rua Pela pele que deixas nua Sob as vestes do receio Sob a luz boémia desse anseio
A liberdade é a sombra que trazes Tu que és tu com a boca que calas Tu que não és tu na Arena das Falas Nos braços que se estendem sobre ti Nos diálogos sem sentido Na luz de um triste arrependido
Admiram-te as pedras que perturbas Olhos de rua logo atentam Nas poses que em ti assentam Quando és miúda, dama e moça Num vestido que repousa No ar que rasgas com a postura
Sob a luz boémia dos candeeiros de rua
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NÓS OSSOS QVE AQVI ESTAMOS PELOS VOSSOS ESPERAMOS
Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos Entre as sombras da noite geram-se as luzes da madrugada Tomba, quebra, cai irrelevante Vai-se esse distante infante Cheio de visões e ideologias Que com ventos e calmarias Deforma o corpo, a mente inflamada Entrem servos de vossos amos,
Ossos novos convidamos!
Nós ossos que aqui estamos pelos vossos aguardamos A carne podre que vos pesa de nada serve nesta mortal festa Tudo o que fomos e marcámos Só a medo e vozes banhámos Fomos vácuo para Cronista E popular conto não nos regista Serve o tempo que nos resta para contar ao infante qu’ela gesta Sábia força, pajens e amos,
Aqui dentro nos encontramos!
Nós ossos que aqui estamos pelos vossos ansiamos Vivam esperando a Comum Sorte Sapiência que tal ainda não superou Soprou a arte do que rastejou Que as mãos ergueu por talento Imortal ciclo em movimento O eterno projecto que se alimenta da morte Somos berço, somos ramos,
E sem idade sorvemos anos!
Nós ossos que aqui estamos pelos vossos reclamamos Com vagos olhos vos fitamos Com mãos mortas acenamos E quando o tempo vos entedia Com belos esgares o enfrentamos
Pois se vos custa, avancemos Com nobres poses vos acolheremos Para ela caminhámos, por ela perecemos Remediando eternos danos
Nós ossos qve aqvi estamos em silêncio vos convocamos!
200
Torpe
É demasiado torpe Demasiada morte de pensamentos Honrada marencoria eduardina Que me faz pensar que não. Faz levantar estas águas Em nobre Ínsula fraternal Que entre História e monstrengos Já não vislumbro caminho algum
Entre o que foi e o que é Como o congelar de um Tempo Vejo em mim O Antepassado Revejo em mim o sentimento Revelação da Loucura E dou sentido ao Elogio. Antes viver cego numa cor minha Que falar sem própria língua Que servir em gris vazio.
Já não vislumbro caminho algum Que entre História e monstrengos Em nobre Ínsula fraternal Faz levantar estas águas Que me faz pensar que não. Honrada marencoria eduardina Demasiada morte de pensamentos É demasiado torpe… (Em revertida surdina)
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Alão
Escorre escarlate pela goteira Não sendo esse o seu valor Pinta em loriga de peleja A pesada cor da dor. E não sendo esse o seu valor Vai escudeiro na goteira Sucumbe qual bicho em montaria Alão traz morte na peteira. Pinta em loriga de peleja Maior essa, a falha humana Cavaleiro prova a terra Na qual ele mesmo se dana. A pesada cor da dor Viseira ofusca e retém Fica homem derreado Filho de um pai e mãe. Escorre escarlate pela goteira Sucumbe qual bicho em montaria Viúva, mãe de órfãos, se desdenha Peleja toma tão nobre cria Não é fidalgo mas filho de alguém Esse que é pai é também filho de mãe.
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Reminiscência do Futuro
O meu sonho é um retrato No qual eu não estou Um plano maior do que tudo Uma dor maior que o luto Um êxtase maior do que os meus Um último reduto.
Em muito igual A todos os outros sonhos Do mais comum dos plebeus No entanto, estes são meus Um infinito sem tamanho Qual vinho – qual arte – qual deus?
O meu sonho é um retrato Onde tudo é simples Do que ainda não se revelou Do que vejo e ainda não sou O meu sonho é o outro lado Ali ao brotar um, muito mais se desflorou.
Fórmula de livre substância E tudo o que de mais existe É a não-palavra em forma pura O apogeu da própria natura Num museu de e para sempre Me prendo por livre assinatura.
Pacto de minha angústia Compadrio de luz e negrura Que meu pai assim escolheu Que a minha mãe em mim escorreu Num abraço, de génese incorrupta Ser foz de rio cuja fonte serei eu
Pensei-te pequeno e infinito Guardei-te nela, estatueta terna Nos olhares que se desfazem Num regaço se comprazem Em Primaveras do que em nós se fez De um ser que é rei à nossa imagem.