ivchristianmarrs

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Músico e licenciado em História, dedicando-me grandemente à criação artística, nomeadamente musical e poética. As viagens e tours com a banda Albaluna proporcionaram uma nova visão sobre a arte, altamente influenciada pelos motivos tradicionais e étnicos de todos vários sítios do Mundo.

Perfil
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Eclipses

Tenho as minhas vontades ligadas
Aos mais pagãos ambientes do céu
Se está escuro, sou como o breu.
Se faz sol? Sou outro eu.
Ler poema completo
Biografia
Nascido nos Países Baixos e de ascendência portuguesa, sou músico e licenciado em História, dedicando-me grandemente à criação artística, nomeadamente musical e poética. As viagens e tours com a banda Albaluna proporcionaram uma nova visão sobre a arte, altamente influenciada pelos motivos tradicionais e étnicos de todos vários sítios do Mundo.

Poemas

9

Deambulatório

Por vaguear
Questiono o que estas pedras já terão visto
Se não sendo pedras de todo
Algo mais nobre teriam previsto.
Se viram corpos, se viram asas
Se todo o firmamento nas suas amarras
Se águas dúvidas fundaram
E todavia nada lavaram
Por todos os campos de calçada
Me arremesso, deambulante.

Se és casado com a solidão
Basta seres triste para ficares só
Podes gostar de não gostar
Pagar ouro por mero pó.
As pedras têm com as aves
A perversa intimidade
Umas observam-nos altivos
Enquanto outras nos vêem de alto
Pelos meandros de calçada
Navego, deambulante.

Leio nos meus pensamentos
Mais do que quero noutro alguém
Foram estas mesmas rochas
Morada de outrora, do além
Mais rapidamente se veste um livro
Do que um rasgo de tecido
Um rasto indeciso
Na rapina do tempo omisso
Pelo flutuar da calçada
Num solilóquio deambulante.

Na dúvida exausta
Empilhamos ares de outras trovas
Bairros fazemos de nossas casas
Fazemos de velho coisas novas.
Fugimos do ardor
De entre quem do amor terá seu luto
Gosto de pouca gente
E de pouca gente gosto muito.
Por todos os campos de calçada
Sigo, deambulante.
151

A Porta

Afinal, o que importa
É quem tu és por detrás da porta
Onde te arrumas e te afliges
Sem destino te diriges
À mercê de uma mão morta

Afinal, o que mais importa
É quem tu deixas atrás da porta
Entre todos esses teus repentes
Os ódios que fogem entre dentes
Como caudais sem comporta

Afinal, o que realmente importa
É porque choras por detrás da porta
Nessas ânsias e ciúmes
Calos, marcas e negrumes
Toda a alma que em gume se corta

Afinal, o que mais importa
É porque vais de porta em porta
A desejar regra em laje torta
A inventar vida em coisa absorta
Quando, no final, mais ninguém se importa
128

Pontilhismo ao Pôr-do-Sol

Na inocência em que vos vejo
Sois como campos de flores
Pontilho de todas as cores
O vosso prado de virtudes
Numa tela vaga e rude.

Três silhuetas desiguais em contraluz
Divagando nos campos de flores
Do jeito em que vos retenho
Cabe todo o céu num só desenho.
183

Chiaroscuro

Mote:

Sem ter o mesmo azul do mar
Semblante obscuro
No fim um novo acordar
Num chiaroscuro

Glosa:

Rastos de mágoas pendentes
Procissões de meias-gentes
Havendo todo um céu por revelar
Sem ter o mesmo azul do mar

Todos os inícios aperfeiçoados
Breve visão dos dias claros
Sempre nova na voz em que murmuro, com este
Semblante obscuro.

Matam-se sonhos com o olhar
No fim um novo acordar.

Ilumina-se aqui
Tenebrista de branco e treva
Preencheu-se um abismo em mim
Onde um novo e vasto monte impera.
Na vertigem de ser
Sem medo de me perder
Num sonho absurdo…

Entra sem voltar atrás!
Entra! Encontra-te onde estás!
126

Os Noctívagos

Há-de haver quem pretenda
Sofrer do mesmo mal
E cantar à luz das velas
Rasgar as mesmas ruelas
Roubar o silêncio aos desejos
Sob a luz boémia dos candeeiros

E há-de haver ainda quem se ofenda
Com a força de uma onda que rebenta
Pela cara que mostras à rua
Pela pele que deixas nua
Sob as vestes do receio
Sob a luz boémia desse anseio

A liberdade é a sombra que trazes
Tu que és tu com a boca que calas
Tu que não és tu na Arena das Falas
Nos braços que se estendem sobre ti
Nos diálogos sem sentido
Na luz de um triste arrependido

Admiram-te as pedras que perturbas
Olhos de rua logo atentam
Nas poses que em ti assentam
Quando és miúda, dama e moça
Num vestido que repousa
No ar que rasgas com a postura

Sob a luz boémia dos candeeiros de rua
123

NÓS OSSOS QVE AQVI ESTAMOS PELOS VOSSOS ESPERAMOS

Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos
Entre as sombras da noite geram-se as luzes da madrugada
Tomba, quebra, cai irrelevante
Vai-se esse distante infante
Cheio de visões e ideologias
Que com ventos e calmarias
Deforma o corpo, a mente inflamada
Entrem servos de vossos amos,

Ossos novos convidamos!

Nós ossos que aqui estamos pelos vossos aguardamos
A carne podre que vos pesa de nada serve nesta mortal festa
Tudo o que fomos e marcámos
Só a medo e vozes banhámos
Fomos vácuo para Cronista
E popular conto não nos regista
Serve o tempo que nos resta para contar ao infante qu’ela gesta
Sábia força, pajens e amos,

Aqui dentro nos encontramos!

Nós ossos que aqui estamos pelos vossos ansiamos
Vivam esperando a Comum Sorte
Sapiência que tal ainda não superou
Soprou a arte do que rastejou
Que as mãos ergueu por talento
Imortal ciclo em movimento
O eterno projecto que se alimenta da morte
Somos berço, somos ramos,

E sem idade sorvemos anos!

Nós ossos que aqui estamos pelos vossos reclamamos
Com vagos olhos vos fitamos
Com mãos mortas acenamos
E quando o tempo vos entedia
Com belos esgares o enfrentamos

Pois se vos custa, avancemos
Com nobres poses vos acolheremos
Para ela caminhámos, por ela perecemos
Remediando eternos danos

Nós ossos qve aqvi estamos em silêncio vos convocamos!
200

Torpe

É demasiado torpe
Demasiada morte de pensamentos
Honrada marencoria eduardina
Que me faz pensar que não.
Faz levantar estas águas
Em nobre Ínsula fraternal
Que entre História e monstrengos
Já não vislumbro caminho algum

Entre o que foi e o que é
Como o congelar de um Tempo
Vejo em mim O Antepassado
Revejo em mim o sentimento
Revelação da Loucura
E dou sentido ao Elogio.
Antes viver cego numa cor minha
Que falar sem própria língua
Que servir em gris vazio.

Já não vislumbro caminho algum
Que entre História e monstrengos
Em nobre Ínsula fraternal
Faz levantar estas águas
Que me faz pensar que não.
Honrada marencoria eduardina
Demasiada morte de pensamentos
É demasiado torpe…
(Em revertida surdina)
122

Alão

Escorre escarlate pela goteira
Não sendo esse o seu valor
Pinta em loriga de peleja
A pesada cor da dor.
E não sendo esse o seu valor
Vai escudeiro na goteira
Sucumbe qual bicho em montaria
Alão traz morte na peteira.
Pinta em loriga de peleja
Maior essa, a falha humana
Cavaleiro prova a terra
Na qual ele mesmo se dana.
A pesada cor da dor
Viseira ofusca e retém
Fica homem derreado
Filho de um pai e mãe.
Escorre escarlate pela goteira
Sucumbe qual bicho em montaria
Viúva, mãe de órfãos, se desdenha
Peleja toma tão nobre cria
Não é fidalgo mas filho de alguém
Esse que é pai é também filho de mãe.
142

Reminiscência do Futuro

O meu sonho é um retrato
No qual eu não estou
Um plano maior do que tudo
Uma dor maior que o luto
Um êxtase maior do que os meus
Um último reduto.

Em muito igual
A todos os outros sonhos
Do mais comum dos plebeus
No entanto, estes são meus
Um infinito sem tamanho
Qual vinho – qual arte – qual deus?

O meu sonho é um retrato
Onde tudo é simples
Do que ainda não se revelou
Do que vejo e ainda não sou
O meu sonho é o outro lado
Ali ao brotar um, muito mais se desflorou.

Fórmula de livre substância
E tudo o que de mais existe
É a não-palavra em forma pura
O apogeu da própria natura
Num museu de e para sempre
Me prendo por livre assinatura.

Pacto de minha angústia
Compadrio de luz e negrura
Que meu pai assim escolheu
Que a minha mãe em mim escorreu
Num abraço, de génese incorrupta
Ser foz de rio cuja fonte serei eu

Pensei-te pequeno e infinito
Guardei-te nela, estatueta terna
Nos olhares que se desfazem
Num regaço se comprazem
Em Primaveras do que em nós se fez
De um ser que é rei à nossa imagem.
156

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