É o que vem a desenhar o compasso Num passo a passo dos traços nossos, agora Do que vinha-se, vai-se, do que vem, faz-se É o nos fazer girar esse compasso Que de agora os passos nada de antes se classifica É de ser perfeito o círculo que já se fez abrir Não há redores dele a passar-nos No que é nossa forma e nosso conteúdo. Alguns passos outros e passamos a girar Nele, tempo nosso, escalas menores No que d’alma atributos maiores Os passos eu não conto no desenho Passo os traços no agora Venho e faço descompasso A girar vida afora Roda grande que fecha Roda de dentro se abre Passa o tempo a ser nosso Gira a alma com passos maiores
Eu fico feliz se cai o teto, e me corto. E as tarefas em suas horas não se cumprem, e as coisas, elas não mais funcionam. Eu fico feliz se cai o teto e não há nada das coisas que não o pó. Um organismo não mais é a casa, e respiro. Abro-me em uma fenda se o teto cai, e as coisas eu tenho de jogar fora. E se esvai-se também a luz, as coisas vejo com as mãos, existem elas então além do claro e escuro até as texturas e dimensões, e elas não funcionam. Gosto quando cai o teto e eu me levanto.
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Pintura de Família, em Perspectiva
Eles não cresceram e se esconderam entre cercas de si, acerca dum sonho que não sonharam, em formas de não completude. E pelas casas que um dia minhas foram eu os vi, não havia mais as casas nossas, e nem vinha a mim as coisas que nos eram partilhadas, partidos são agora, sãos em seus chãos, salvos de suas enchentes, recorrentes de suas paredes, correndo não mais além de pra longe de rirem-se, rindo-me do meu tornar-me criança de amar a vida e rir-me deles. Eles não cresceram e eu fiquei jovem, e eu não os conheço senão do que passado nos foi, os anos e lições passaram-se e eles passaram a guiar com mãos de ferro seus destinos em dias de gravatas e tanto outros nós, casaram-se com dias que nunca conheci nas minhas demasiado frouxas mãos que não seguram o concreto. De casa em casa as noites suas são obrigações que peso em não carregar, cargas distantes de energia que antes compartilhamos, acarretam a si dos seus brilhos o oscilar, preservam sua constantes de salas daqui e dacolá. Eles não cresceram e são quadros, e eu não configuro mais deles, reuni-me em sala de celebração alguma, longe de seus portões e entradas, fecharam-se os nossos acessos, e eles caminham bem sucedidos, e eu sucedo a eles nas coisas todas que eles não continuaram. Eu tenho assombro e êxtase, sem amor não amo, e minha mão não consigo mais fazer a eles chegar, nem por culpa ou apreço, falta-me a vontade de lhes ser, os acompanhar, falta-me elos que ultrapassem o das nossas veias. Eles não cresceram e se esqueceram de si, lembram-se de mim como quem se esqueceu deles, verdade eu quis que fôssemos, mas borrou-se a maquiagem, não sonharam comigo o que sonhei que não houvesse a nos faltar. Eles caem tão certo ao chão, e não sangram senão em silêncio, nem confundem suas tão estabelecidas sílabas, eu grito de tudo o que me chega, e tudo me arrebata, e eles estão depositados em todos os seus bancos, os de render e os de adorar, com igual cegueira, pregando dum e doutro o mesmo teor. Eles não cresceram, e fiquei livre do nosso acordo, todos dormem e eu acordo comigo em meus próprios termos, sem laços de obrigação, em seus casulos eles se privam de me amar, privo-me eu de afeição na amplidão do meu céu escancarado, eles diminuem em seus não-espaços e congelam-se em seus nãocalores, eu me estico em minhas aberturas e me deles distingo na intensidade de meus fulgores.
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Leio a Tentar Saber Usar os Verbos
Leio a tentar saber usar os verbos, leio com constância de perseguidor. Na esperança fico, de repentina hora se fazer na qual os verbos me cairão por intuição, e todas as ações tentadas serão por fim, então, destituídas do tempo de agora. Leio a querer saber usar os verbos e decifrar o que é de indicar movimento, acima de todos os que precisam de complemento. Leio a querer saber qual a naturalidade de se unirem os verbos, a destrinchar os passos da dança que espalham em todos os sentidos: pontes mágicas, pontes tênues, visíveis como brilhos minúsculos, pontes de firmamentos imensos. Leio a andar até mim o súbito dos verbos, manso como são as visitas ternas de pais e amigos, chegam eles a se manifestarem nas mãos minhas e há o nosso desenho, de quando tomo-os eu também de súbito, leio a amá-los e apropriar-nos em recíproca de declarar. Leio a permitir aos verbos que saibam me usar.
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A Casa
A minha casa eu construí com o brilho de querer brilhar...não é longe nem distinto de si o brilho quando em si já se faz toda intenção de brilhar...mas que na espécie rara da minha voz ao minha casa fitar, o tom absorto dos olhos a todas as portas abrir e em cada chave a vida num novo patamar. A minha casa veio de longe nos meus caminhos primeiros a me soprar o brilho da noite de sonhar em brilhar, minha casa se fez apresentar em mim a estrela da manhã de em brilho ver meu coração se contornar. A minha casa respira no Amor que construí no brilho de querer amar, e em cada respirar da minha casa em mim se constrói o brilho de com Amor tudo nela cercar... A minha casa não é lugar de descanso, mas eis que certo dia hei eu de chegar ao cansaço, e no fôlego último pedir pro fogo me fazer nele respirar... Seja como for, na minha casa tem a própria essência de amar em todos os opostos de si e do mundo que se fazem conhecer pra que o Amor possa se sustentar. E eu respiro no fogo de ver brilhar o sonho da minha casa os alicerces de construir o sempre querer, e eis que me retomo em mim minha morada de levantar acerca do Amor o sempre perto brilho de ver o sonho da minha casa brilhar. E eis que construo minha casa e minha casa me constrói e porque, no voo incessante de querer o brilho fazer em fogo o construir e o respirar da minha casa em Amor, estou eu pra além da minha casa ver o meu sonho de a partir dela fazer o brilho voar.
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A Visão
Eu fechei os meus olhos, e com os meus olhos fechados Eu vou fechada para qualquer visão. Fechei os meus olhos e para os olhos abertos a me observar Eu sou um mundo em distração, um silêncio tropeçado, Um nó displicente de desejo no nada da cegueira sempre atado. Eu fechei os meus olhos pra poder fazer de mim O que há por dentro visão, Fechada para a cegueira do mundo em distração, Fecho os meus olhos para os desejos displicentes dos olhos abertos No que veem tropeçados, fechei os meus olhos Para os olhares em nó de cegueira não ver atados. Guarda-me silêncio de nada ver, Revela-me visão de ninguém escutar, Canta-me no escuro a luz de coisa alguma ter, Dança-me no desconhecer o alívio de por nada me guiar. Porque eu fechei os meus olhos E pra tudo o que os olhos abertos podem ver O coração não abre guarda, Porque de olhos fechados o escuro do possível É a possibilidade para que o improvável arda, E de olhos fechados, no alto da incerteza, Não há espaço para duvidar, De olhos fechados nada atrapalha minha visão, E no que não se vê está sempre a certeza a chamar. Porque no fechar dos olhos vem o coração de toda a visão ser a guarda, E a luz da possibilidade que não se vê É o escuro se fazendo para que o impossível arda, E no espaço da incerteza não fala alto a visão a duvidar, De olhos fechados nada atrapalha a certeza de não ver, E a visão está sempre a chamar. Guarda-me, revela-me, no alto da incerteza, De olhos fechados, Renda-me em coração o andar no escuro para que eu veja.
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Nós e Eles [A Partir da Fome]
Diz-se deles a se devorarem, pelo que conta a história, pelo que se lê sobre a fome que lhes é própria. Como que leões a cercarem de comentários sobre sua ferocidade os tigres, falamos nós e eles de si, cercando-nos de nós mesmo, deles a nos defenderem. Pelo que do mundo os quatro cantos sabe-se deles estão em constância a se classificarem como presas e caçadores, mesmo que de mesma genética e concentração, espremem-se aos sucos em suas substâncias venenosas e nas massas fermentam tão somente o quanto são obrigados, sem toque de avó, sem segredo de afeto. Reconhecem o recheio uns dos outros, nós e eles, pela cor da cobertura. Deles é extrapolado que se observe raro demais partir aquele que parta o bolo na busca de conhecer novas nuances, novos sabores de ser humano. Sabe-se ainda daqueles que repetem tipicamente os mesmos pratos de seus antepassados sem que conheçam a cozinha mundial, sem que se visitem em caldeirões de fervilhar não a ponto de engoli-los, mas a ponto de temperá-los, misturá-los, decorá-los como iguarias contemporâneas. Parece que ouviu-se falar daqueles que matam sua fome a agregar alimento ao alheio, diz-se desses, de nós e eles, como estranha tribo que projeta-se a caminhar faminta há séculos e mais séculos, buscando do alimentar a troca, diz-se ainda deles ser lamentável que estejam pelo globo espalhados, são eles diferentes continentes prontos a culminar numa esfera de maior harmonia, que põe-se a nutrir-se de seus próprios elementos, no que em um se perde o outro aparece a outra vez instituir-lhe. Dos que não encontram alimento conhece-se muito aqueles que desabam em se consumir, por daí distinguem-se em dois grupos: dos tão sedentos por repartirem o que neles sobra como de vida mantimento que partem-se em si em dos órgãos os mais vitais, tais consomem-se portanto em cabeça e coração, com elevada carga de fogo e luz, implodem-se na procura por dos desertos os outros sedentos, de suas forças extremas nasce-lhes o cansaço letal. Do outro grupo dizse daqueles que consomem-se no que extraem do alheio e num acúmulo do que não lhes é próprio explodem junto ao ambiente, comumente levando vidas outras já usurpadas em seus alimentos consigo. Diagnóstico é que de todos os tais grupos não se pode dizer que vivam em escassez de recursos pra que suas vidas sejam mantidas, bem como nutridas, espalhadas, desenvolvidas, largas e resistentes, porém pede-se mais campos pra que se replantem e se contemplem a crescer, pede-se que brotem um a um e um aos demais e todos os outros juntamente pra que a terra faça-se um tracejado uniforme, que sejam então os próprios indivíduos, nós e eles, nós somente carga e descarga, transporte e possibilidade, chão, chuva e colheita.
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Da Ilha e do Farol
Eu não sou escrava de ninguém e não me ponho a escravizar a vida em mim, Um século de vida no batimento, o fazer meu não é um esforço. Uma orquestra em cada passo, o caminhar meu não é uma marcha. Escrava de ninguém, de ninguém espero a escravidão, Da ilha e do farol, o batimento é do coração meu E a luz se irradia do compasso dos pés meus. Sem acorrentar uma mão à outra, são as cores minhas Que retoco sobre tudo o que há. Não sou escrava de nada e a escravidão de nada venho em minha liberdade projetar, Meus pés não arrastam as correntes que de minhas mãos tirei, E no retoque colorido de cada compasso, nasce a luz da minha ilha E o farol se vê estender o chamado das ilhas outras. Onde não há escravidão, o ritmo da luz, a música do caminhar. Onde não há escravos, há as cores, a ilha, o farol O passo e o batimento fazem da união o chamado. Eu não sou escrava de mim e à minha sombra não me acorrento, De mim só quero nos batimentos ver a luz retocar, De mim só quero na ilha morar, e das cores compassadas do farol O chamado e chamar me fazer ver. O ritmo, a música, as mãos e os pés, a ilha que eu venho a iluminar O meu não escravizar, o batimento, o compasso, as cores e a visão, O farol que me traz e me devolve a liberdade junto a todos, chamar
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Entre Nós
Mas eu fico, disse ela, não em conformidade, mas firme de aceitação. Fico entre nós, e sou entre nós, mas entre nós não me quebrem nos espaços, não façam seus pés entre os meus colocar, para que eu caia tão somente antes de dançar. Eu fico, mas não reinem sobre mim, sobre mim não me façam saber em ausência de si, ausência de nós. Eu fico, mas deixem que eu me ensine das coisas que sei e respire não os sonhos seus de mim, deixem-me do ar sentir uma falta que de angústia seja minha. Eu fico entre nós, mas caibam-me entre vós, saibam que somos nós, atados, apoio de laços, movimentos inteiros de ser um, de agregarnos. Eu fico, mas não me dissolvam como a um nó, que por entre nós fiquem os laços que nos cabem. Mas eu fico, disse ela em conformidade com o que aceitara. Fico entre os nós que somos e os espaços que nos quebramos, faço dos nossos pés os meus a colocar para que dancemos antes de cairmos. Eu fico, mas não quero reinar sobre nós, sobre mim não haverá ausência do que somos nós. Eu fico e deixo que me ensinem das coisas que sabemos, e respiro o que de nós são os sonhos, deixo que na falta do ar respiremos em conjunto. Eu fico entre nós, e faço que caibam em mim, sei de mim como nós, atada ao apoio de nossos laços, um ser que se movimenta inteiro a agregar-nos. Voltando-me aos nossos laços, eu fico e não me dissolvo entre nós.
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Engolida Por Uma Estrela
Eu vou reconstruir minha morada natural A partir dos destroços do infortuno círculo De substâncias falsas que tenta me encadear. Eu vou fazer da mais nítida transparência Da alma concebida serena E acalmar as conturbadas águas Dos sete mares de minha mente, Para que a ânsia dos meus pensamentos Possa assim não ser mera loucura. Vou despertar os deuses para que possam Ordenar os elementos da nossa existência E transformar em ouro o nosso amanhã Fazer de minha idade um dia doce. Fazer do que parece comum e banal A extraordinária fantasia De chuva de luzes sublimes Se atirando sobre nossos sonhos, Cobrindo de um espetáculo possuidor Da mais maravilhosa excentricidade. Eu vou fazer os planetas se alinharem, um a um, Apenas para que a nossa visão Tenha o inconstante privilégio da absurda beleza Que nasce do infinito. Eu vou abrir os mais enferrujados portões Dos destinos mais inesperados Para que em nossos caminhos Sempre estejam as inquietas estrelas A nos iluminar diante da infindável Sustentação mais fina que se mostra aos nossos olhos. Eu vou fazer do desconhecido, Um símbolo de nossas vidas, A vida de nossos delírios. Eu vou plantar nos jardins escondidos De nossos espíritos A flor de mais pura paz e de mais vívidas cores, Que será a cura indiscutível de toda intimidação. Eu vou me dispersar na terra de valor único E espantar a multidão tediosa E não convidada para meu banquete. Celebrar as lágrimas que derramam o tempo Nos vales da solitude amena em meu espaço. Eu vou gritar e ouvir o som nostálgico da minha voz Se espalhando sem rumo definido Pelas ruas onde o vento rodeia. Eu vou encher do sorriso mais expressivo Da vitória mais dificilmente alcançada Os rostos daqueles por quem, De alguma forma, tenho amor. Salvar a infeliz pronúncia de ódio Cantar a música da imaginação Na união de súplicas pela alegria.
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O Reino
Eu amo o reino das palavras, eu ando todos os dias pelo reino das palavras e passeio nos anseios de antes, nos rabiscos de tempos outros, os próprios anseios de mim. Eu amo o mundo das palavras e o mundo pelas palavras, eu amo o que o mundo é, no meu reino dos anseios, quando ele é de palavras. Eu amo a grafia das almas, o tom rascunhado dos sentidos, eu amo as palavras no mundo, e amo que elas reinem nos anseios de mim própria e de tantos outros próprios reis de si mesmos nas palavras. Eu amo o surgir, o formar e o retocar das letras na graça de seus sons aos ouvidos, na coreografia de seus movimentos na folha. Eu amo que corações possam ser escritos, amo que posso ver meu coração num papel, na parede, amo que, no reino das palavras, meu coração pode ser coroado em seu mundo, por seu próprio anseio de ser rei e por tantos outros corações reis de si mesmos, no mundo das palavras. Eu amo que eu possa ser além de mim, como tantos são além deles mesmos ao chegarem a mim, no criar, ler, ouvir, escrever, sonhar em letras... ...e é por isso, meu amor, que pra ti guardo o silêncio, guardo no silêncio o mundo todo que mais amo. Pois que, meu amor, o silêncio é o pai e a mãe da palavra, e o silêncio é a morte e renovação da palavra. E cá, em mim assim, esse mundo todo que sou em todo o meu reino, a palavra, és o silêncio, pois que, aqui, no querer ser do meu coração, és o que a tudo traz vida, cria, padece e se renova. Só isso, meu amor, em mim, o que precede, monta e desmonta e faz-se de novo a própria criação minha, de mim mesma, no meu reino. Vens antes, meu amor, no meu reino. A ti, no meu mundo, a coroa.