É o que vem a desenhar o compasso Num passo a passo dos traços nossos, agora Do que vinha-se, vai-se, do que vem, faz-se É o nos fazer girar esse compasso Que de agora os passos nada de antes se classifica É de ser perfeito o círculo que já se fez abrir Não há redores dele a passar-nos No que é nossa forma e nosso conteúdo. Alguns passos outros e passamos a girar Nele, tempo nosso, escalas menores No que d’alma atributos maiores Os passos eu não conto no desenho Passo os traços no agora Venho e faço descompasso A girar vida afora Roda grande que fecha Roda de dentro se abre Passa o tempo a ser nosso Gira a alma com passos maiores
Eu não sou escrava de ninguém e não me ponho a escravizar a vida em mim, Um século de vida no batimento, o fazer meu não é um esforço. Uma orquestra em cada passo, o caminhar meu não é uma marcha. Escrava de ninguém, de ninguém espero a escravidão, Da ilha e do farol, o batimento é do coração meu E a luz se irradia do compasso dos pés meus. Sem acorrentar uma mão à outra, são as cores minhas Que retoco sobre tudo o que há. Não sou escrava de nada e a escravidão de nada venho em minha liberdade projetar, Meus pés não arrastam as correntes que de minhas mãos tirei, E no retoque colorido de cada compasso, nasce a luz da minha ilha E o farol se vê estender o chamado das ilhas outras. Onde não há escravidão, o ritmo da luz, a música do caminhar. Onde não há escravos, há as cores, a ilha, o farol O passo e o batimento fazem da união o chamado. Eu não sou escrava de mim e à minha sombra não me acorrento, De mim só quero nos batimentos ver a luz retocar, De mim só quero na ilha morar, e das cores compassadas do farol O chamado e chamar me fazer ver. O ritmo, a música, as mãos e os pés, a ilha que eu venho a iluminar O meu não escravizar, o batimento, o compasso, as cores e a visão, O farol que me traz e me devolve a liberdade junto a todos, chamar
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Entre Nós
Mas eu fico, disse ela, não em conformidade, mas firme de aceitação. Fico entre nós, e sou entre nós, mas entre nós não me quebrem nos espaços, não façam seus pés entre os meus colocar, para que eu caia tão somente antes de dançar. Eu fico, mas não reinem sobre mim, sobre mim não me façam saber em ausência de si, ausência de nós. Eu fico, mas deixem que eu me ensine das coisas que sei e respire não os sonhos seus de mim, deixem-me do ar sentir uma falta que de angústia seja minha. Eu fico entre nós, mas caibam-me entre vós, saibam que somos nós, atados, apoio de laços, movimentos inteiros de ser um, de agregarnos. Eu fico, mas não me dissolvam como a um nó, que por entre nós fiquem os laços que nos cabem. Mas eu fico, disse ela em conformidade com o que aceitara. Fico entre os nós que somos e os espaços que nos quebramos, faço dos nossos pés os meus a colocar para que dancemos antes de cairmos. Eu fico, mas não quero reinar sobre nós, sobre mim não haverá ausência do que somos nós. Eu fico e deixo que me ensinem das coisas que sabemos, e respiro o que de nós são os sonhos, deixo que na falta do ar respiremos em conjunto. Eu fico entre nós, e faço que caibam em mim, sei de mim como nós, atada ao apoio de nossos laços, um ser que se movimenta inteiro a agregar-nos. Voltando-me aos nossos laços, eu fico e não me dissolvo entre nós.
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A Visão
Eu fechei os meus olhos, e com os meus olhos fechados Eu vou fechada para qualquer visão. Fechei os meus olhos e para os olhos abertos a me observar Eu sou um mundo em distração, um silêncio tropeçado, Um nó displicente de desejo no nada da cegueira sempre atado. Eu fechei os meus olhos pra poder fazer de mim O que há por dentro visão, Fechada para a cegueira do mundo em distração, Fecho os meus olhos para os desejos displicentes dos olhos abertos No que veem tropeçados, fechei os meus olhos Para os olhares em nó de cegueira não ver atados. Guarda-me silêncio de nada ver, Revela-me visão de ninguém escutar, Canta-me no escuro a luz de coisa alguma ter, Dança-me no desconhecer o alívio de por nada me guiar. Porque eu fechei os meus olhos E pra tudo o que os olhos abertos podem ver O coração não abre guarda, Porque de olhos fechados o escuro do possível É a possibilidade para que o improvável arda, E de olhos fechados, no alto da incerteza, Não há espaço para duvidar, De olhos fechados nada atrapalha minha visão, E no que não se vê está sempre a certeza a chamar. Porque no fechar dos olhos vem o coração de toda a visão ser a guarda, E a luz da possibilidade que não se vê É o escuro se fazendo para que o impossível arda, E no espaço da incerteza não fala alto a visão a duvidar, De olhos fechados nada atrapalha a certeza de não ver, E a visão está sempre a chamar. Guarda-me, revela-me, no alto da incerteza, De olhos fechados, Renda-me em coração o andar no escuro para que eu veja.
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Eu Fico Feliz se o Teto Cai
Eu fico feliz se cai o teto, e me corto. E as tarefas em suas horas não se cumprem, e as coisas, elas não mais funcionam. Eu fico feliz se cai o teto e não há nada das coisas que não o pó. Um organismo não mais é a casa, e respiro. Abro-me em uma fenda se o teto cai, e as coisas eu tenho de jogar fora. E se esvai-se também a luz, as coisas vejo com as mãos, existem elas então além do claro e escuro até as texturas e dimensões, e elas não funcionam. Gosto quando cai o teto e eu me levanto.
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O Segredo
Vem ouvir esse segredo...coração meu. Que Amor em paz é poder amar na batalha. E os nossos dias já ausentes de visão Foram lutados lá fora, nós e o mundo, Um mundo todo contra nós a lutar. Lá atrás fez-se a esperança No que a humanidade fraca falha, No que a compaixão e a fé em outros corações demora. Vem ouvir esse segredo...do longe ao coração meu. Que Amor em paz se ama lutando. E as nossas primeiras provas foram nós e o mundo, Nós, um mundo todo a lutar, Em provas de outrora, na intolerância alheia, A nossa luz se revelando, No que o ardor e a obra em corações nossos É existir profundo. Vem ouvir esse segredo...que fala ao coração meu. Que Amor em paz é pela paz lutar. E as estações nossas de agora são os mundos Que antes lutamos, em nós já um mundo todo, Em nós, a nos apresentar. Nas estações presentes, a árvore e o ramo de tantas vidas, Nossa seiva a vibrar, no que as oposições de nós, vençamos. Vem ouvir esse segredo...que declara o coração meu. Que Amor em paz é o que faz a paz na batalha. O mundo todo de quem com o mundo já lutou É a humanidade dos nossos corações, A compaixão que nos nossos dias de agora nunca falha. Que Amor em paz é o segredo de lutar. E as provas de agora somos nós perante o mundo, Somos nós as lutas se revelando em luz de nossos corações, A fé em nosso ardor profundo. ...vem ouvir o segredo das estações E das lutas de nós, o mundo, Vibrando de ramo em ramo a esperança, A árvore da vida, nós, em nossa herança.
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Dizer ao Mundo Que Nada é Tão Divertido Quanto a Vida a Que te Dispões
Por que não te fazer cantar? Sobrepor em asas o tom maçante do marchar... Por que não te fazer perder? Nos trilhos que te põe a cuidar, um descuido a te guiar... Por que não te fazer tropeçar? Dançar um outro passo no teu caminho reto a te esmagar... Por que não te fazer desenhar? Mudar os traços e os quadros que compõem o teu olhar... Por que não te fazer escutar? Converter a beleza do teu silêncio em palavras que querem voar... Por que não te fazer sonhar? Rasgar a realidade em fios mais nobres a tecer o teu andar... Por que não te fazer sentir? Mover os tons que são teus ao coração do mundo... Por que não te fazer inventar? Ver nascer em tua face uma face filha de si mesma, criando um pouco de ti na face de todas as coisas... Por que não te fazer espalhar? Conhecer a tua casa em todos os lugares que teu coração abriga... Por que não te fazer cair? Deixar que um abismo próximo te seja interrompido... Por que não te fazer chorar? Enxugar da tua mágoa toda a beleza do teu coração, vê-la cair em outras alegrias... Por que não te fazer ridículo? Dizer ao mundo que nada é tão divertido quanto a vida a que te dispões... Por que não te fazer brincadeira? Subir, descer, cair, machucar, rir do choro e engolir a lágrima com um sorriso... Por que não te fazer ausência? Sem propósito além do próprio crescer, sem ponto final além do que é caminhar... Por que não te fazer presença? Qual silêncio ver tua luz brilhar, sem que digas teu nome todos a te chamar... Por que não te fazer desaparecer? Pro mundo ser ausente de valores, pra ti ser a totalidade de todas as crenças... Por que não te fazer fracassar? Livrar-te das correntes do sucesso escrito em papéis, e ver teu nome timbrado em espaços de nenhuma formalidade e toda vida...
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Os Soldados
Um a um, os soldados, em seus círculos, Do uniforme um símbolo seus corações. Um a um na continuidade da marcha, Os soldados no fogo e explosão estendem em Uniformes o símbolo de seus corações. Os soldados, um a um, em seus corações são uniformes Na descontinuidade de sua marcha, A explosão, símbolo, de um a um, Do soldado, o fogo. Um a um, os soldados sonham com a guerra, Fazem seus sonhos na terra, Amam as sombras distendidas da carne, Um a um, amam os soldados o altar da guerra. Os soldados no altar de suas carnes, Sonham com a terra distendida de sombras E amam a guerra de seus corações. Um a um, os soldados em seu cansaço Consertam dramas e brincam de armas. E um a um, os soldados desarmam seus corpos E em suas guerras chegam à chama sedenta, Um a um, caem juntos os soldados No drama de seu cansaço, As armas sedentas na chama dos corações Brincam em seus corpos. Um a um, os soldados sem uniforme perdem o símbolo, Um a um, a marcha sedenta chegada ao altar do coração, Na carne desarmada, um a um, Os soldados brincam com o fogo distendido da terra, Um a um os soldados amam a explosão dos corações, Cai sobre o altar a carne, a guerra.
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Leio a Tentar Saber Usar os Verbos
Leio a tentar saber usar os verbos, leio com constância de perseguidor. Na esperança fico, de repentina hora se fazer na qual os verbos me cairão por intuição, e todas as ações tentadas serão por fim, então, destituídas do tempo de agora. Leio a querer saber usar os verbos e decifrar o que é de indicar movimento, acima de todos os que precisam de complemento. Leio a querer saber qual a naturalidade de se unirem os verbos, a destrinchar os passos da dança que espalham em todos os sentidos: pontes mágicas, pontes tênues, visíveis como brilhos minúsculos, pontes de firmamentos imensos. Leio a andar até mim o súbito dos verbos, manso como são as visitas ternas de pais e amigos, chegam eles a se manifestarem nas mãos minhas e há o nosso desenho, de quando tomo-os eu também de súbito, leio a amá-los e apropriar-nos em recíproca de declarar. Leio a permitir aos verbos que saibam me usar.
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Engolida Por Uma Estrela
Eu vou reconstruir minha morada natural A partir dos destroços do infortuno círculo De substâncias falsas que tenta me encadear. Eu vou fazer da mais nítida transparência Da alma concebida serena E acalmar as conturbadas águas Dos sete mares de minha mente, Para que a ânsia dos meus pensamentos Possa assim não ser mera loucura. Vou despertar os deuses para que possam Ordenar os elementos da nossa existência E transformar em ouro o nosso amanhã Fazer de minha idade um dia doce. Fazer do que parece comum e banal A extraordinária fantasia De chuva de luzes sublimes Se atirando sobre nossos sonhos, Cobrindo de um espetáculo possuidor Da mais maravilhosa excentricidade. Eu vou fazer os planetas se alinharem, um a um, Apenas para que a nossa visão Tenha o inconstante privilégio da absurda beleza Que nasce do infinito. Eu vou abrir os mais enferrujados portões Dos destinos mais inesperados Para que em nossos caminhos Sempre estejam as inquietas estrelas A nos iluminar diante da infindável Sustentação mais fina que se mostra aos nossos olhos. Eu vou fazer do desconhecido, Um símbolo de nossas vidas, A vida de nossos delírios. Eu vou plantar nos jardins escondidos De nossos espíritos A flor de mais pura paz e de mais vívidas cores, Que será a cura indiscutível de toda intimidação. Eu vou me dispersar na terra de valor único E espantar a multidão tediosa E não convidada para meu banquete. Celebrar as lágrimas que derramam o tempo Nos vales da solitude amena em meu espaço. Eu vou gritar e ouvir o som nostálgico da minha voz Se espalhando sem rumo definido Pelas ruas onde o vento rodeia. Eu vou encher do sorriso mais expressivo Da vitória mais dificilmente alcançada Os rostos daqueles por quem, De alguma forma, tenho amor. Salvar a infeliz pronúncia de ódio Cantar a música da imaginação Na união de súplicas pela alegria.
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Ela anda em seu jardim
Ela anda em seu jardim, O cemitério, Da terra um dia ela fez Nascer flor, mas terra ela colocou Por cima, e depois mais terra Ela fez a cobrir. Ela anda em seu jardim, O cemitério, No que antes camadas via, De camadas era feito, No que vida jazia, Agora jazigos imutáveis, Ela anda sem diamantes ou minerais. Não, não morra em vida, Não converta em pó o rosto, Não aceite o pálido sobre a cabeça. É um apelo de vida essa morte, É a vida que se vai dos corpos Que não mais a comportam, Aos que ainda caminham em passos Concretos e pulsantes Clamando ser inserida, reinserida. Ela anda por seu jardim, De flores esvanecidas, Tanta vida desconfigurada, Vida resetada, vida em marco zero. Não morras em vida, Não permaneça pálida, Vidas inteiras sopraram em suas veias, Odeie as caixas de madeiras, imensas, Quebre a lascas uma por uma, Destrua, desaceite, desconstrua A morte, sua caixa de madeira, Odeie a morte em vida. Não morra um poema pálido.