Suspiro de realidade Conto-me em paixão Plena fico Em cada contradição. Essa é a minha hora: Tema sem exatidão, Esse é o meu título: Tempo sem previsão. Tic-tac soam meus passos No chão: Donos do compasso eles são. Tic-tac: ouço dos meus pés A estação Com a minha noção de tempo: Caminho eles são.
Eu gosto que meu coração sangre, eu gosto que ele se estenda em dor e gosto que ele se reconheça em sofrimento, eu gosto que meu coração tenha que procurar a cura dum sentimento em outro sentir de si ou no puro causar de sua ferida a cura em seu próprio movimento. Eu gosto que meu coração sangre e se faça o princípio da dor que principia a vida, que ele sangre e derrame sobre a ferida de sangue o reatar de sua alegria dividida. Eu gosto que meu coração sangre e conheça que o sangue estendido no dividir de sua alegria é a seiva que o retoma em seu tempo na promessa de que no seu reflorescer tudo se alivia. Eu gosto que meu coração sangre e na sua alegria retomada não mais em tempo se veja, no que em seu sangue refloresce a vida não mais em promessa, e que em seu sangue há de si a própria cura, que na sua própria alegria a seiva da dor em condição seja. Eu gosto que meu coração sangre, pois que, no sangue, dividida, está e sempre é...a própria vida.
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A Juventude
Eu sou cheia de sonhos antigos. Como para o meu corpo está o sangue, Para o meu coração, os sonhos. E antigos são como o que me fez Mover pela primeira vez, E antigos como o ar em meus pulmões. Eu sou cheia de sonhos antigos. Sonhos que eu nasci sonhando, Suntuosos como os passos que me Levaram longe deles, Cintilantes como a luz que os reacendeu. Santos e serpentes, signos e sóis, Simples como os mares navegados, Antigos são os sonhos que me preenchem, Secretos como a essência do silêncio pronunciado. Em todas as minhas idades, Eu, cheia de sonhos antigos. Fossem sonhos em meu esquecimento guardados, Sonhando serem por mim sonhados, Sejam sonhos despertos no meu realizar, São todos os sonhos os mesmos, Os mais antigos que a minha consciência de sonhar. Eu sou cheia de sonhos antigos, O sangue do meu coração, O primeiro mover do meu corpo. Sonhos de antes de nascer o ar, Passeando suntuosos dentro de mim, Quando longe de cintilar na luz Do meu reascender em sonhar. Sonhos mais antigos que o segredo do silêncio, Que a essência dos sóis sobre os mares, Simples no que me preenchem. Antigos são os sonhos que fizeram a idade em mim, Eu sou a idade dos meus sonhos, E no meu corpo, santos são os signos Da idade dos meus sonhos. Eu sou cheia de sonhos antigos, Sonhos nascidos antes da minha consciência sonhar, E sou cheia, no corpo e no coração, Da idade dos sonhos, Como o primeiro respirar, É a juventude sempre em mim a suspirar.
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A Casa
A minha casa eu construí com o brilho de querer brilhar...não é longe nem distinto de si o brilho quando em si já se faz toda intenção de brilhar...mas que na espécie rara da minha voz ao minha casa fitar, o tom absorto dos olhos a todas as portas abrir e em cada chave a vida num novo patamar. A minha casa veio de longe nos meus caminhos primeiros a me soprar o brilho da noite de sonhar em brilhar, minha casa se fez apresentar em mim a estrela da manhã de em brilho ver meu coração se contornar. A minha casa respira no Amor que construí no brilho de querer amar, e em cada respirar da minha casa em mim se constrói o brilho de com Amor tudo nela cercar... A minha casa não é lugar de descanso, mas eis que certo dia hei eu de chegar ao cansaço, e no fôlego último pedir pro fogo me fazer nele respirar... Seja como for, na minha casa tem a própria essência de amar em todos os opostos de si e do mundo que se fazem conhecer pra que o Amor possa se sustentar. E eu respiro no fogo de ver brilhar o sonho da minha casa os alicerces de construir o sempre querer, e eis que me retomo em mim minha morada de levantar acerca do Amor o sempre perto brilho de ver o sonho da minha casa brilhar. E eis que construo minha casa e minha casa me constrói e porque, no voo incessante de querer o brilho fazer em fogo o construir e o respirar da minha casa em Amor, estou eu pra além da minha casa ver o meu sonho de a partir dela fazer o brilho voar.
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Da Ilha e do Farol
Eu não sou escrava de ninguém e não me ponho a escravizar a vida em mim, Um século de vida no batimento, o fazer meu não é um esforço. Uma orquestra em cada passo, o caminhar meu não é uma marcha. Escrava de ninguém, de ninguém espero a escravidão, Da ilha e do farol, o batimento é do coração meu E a luz se irradia do compasso dos pés meus. Sem acorrentar uma mão à outra, são as cores minhas Que retoco sobre tudo o que há. Não sou escrava de nada e a escravidão de nada venho em minha liberdade projetar, Meus pés não arrastam as correntes que de minhas mãos tirei, E no retoque colorido de cada compasso, nasce a luz da minha ilha E o farol se vê estender o chamado das ilhas outras. Onde não há escravidão, o ritmo da luz, a música do caminhar. Onde não há escravos, há as cores, a ilha, o farol O passo e o batimento fazem da união o chamado. Eu não sou escrava de mim e à minha sombra não me acorrento, De mim só quero nos batimentos ver a luz retocar, De mim só quero na ilha morar, e das cores compassadas do farol O chamado e chamar me fazer ver. O ritmo, a música, as mãos e os pés, a ilha que eu venho a iluminar O meu não escravizar, o batimento, o compasso, as cores e a visão, O farol que me traz e me devolve a liberdade junto a todos, chamar
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Entre Nós
Mas eu fico, disse ela, não em conformidade, mas firme de aceitação. Fico entre nós, e sou entre nós, mas entre nós não me quebrem nos espaços, não façam seus pés entre os meus colocar, para que eu caia tão somente antes de dançar. Eu fico, mas não reinem sobre mim, sobre mim não me façam saber em ausência de si, ausência de nós. Eu fico, mas deixem que eu me ensine das coisas que sei e respire não os sonhos seus de mim, deixem-me do ar sentir uma falta que de angústia seja minha. Eu fico entre nós, mas caibam-me entre vós, saibam que somos nós, atados, apoio de laços, movimentos inteiros de ser um, de agregarnos. Eu fico, mas não me dissolvam como a um nó, que por entre nós fiquem os laços que nos cabem. Mas eu fico, disse ela em conformidade com o que aceitara. Fico entre os nós que somos e os espaços que nos quebramos, faço dos nossos pés os meus a colocar para que dancemos antes de cairmos. Eu fico, mas não quero reinar sobre nós, sobre mim não haverá ausência do que somos nós. Eu fico e deixo que me ensinem das coisas que sabemos, e respiro o que de nós são os sonhos, deixo que na falta do ar respiremos em conjunto. Eu fico entre nós, e faço que caibam em mim, sei de mim como nós, atada ao apoio de nossos laços, um ser que se movimenta inteiro a agregar-nos. Voltando-me aos nossos laços, eu fico e não me dissolvo entre nós.
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A Ação
Não, não há pressa nessa minha velocidade. Quando eu me ponho a correr aqui dentro do coração, Mesmo que em vida a explodir, É só uma brisa o que se estende ao meu passar. Sem pressa, que é pra chegar mais rápido Que eu vou assim, no andar que sou devagar, Que o meu divagar está no que dos meus sonhos é ação, E que vigorosa eu sou na corrida que ninguém vê, Mas vagarosos são os meus passos de fora, No ritmo que o mundo se encontra com o meu correr. E ainda que eu vague entre mim e o mundo, É com vigor que eu paro e me ponho a observar. É sem pressa que me ponho a andar. Mas não há pressa, eu paro sim nas fronteiras, Mas não daqui, de dentro do meu coração. Eu paro sim, mas meu parar é para movimento insinuar, É numa brisa que eu chego mais rápido. Devagar passando pelo mundo, Divagando em ritmo a ação dos sonhos meus, Ainda que nos passos pro lado de fora, A falta de vigor, aqui de dentro em nada sou vagarosa, E que no que o mundo se põe a me observar, Parada, vigorosa em mim no meu andar, Sem pressa, uma brisa eu, de explodir e de andar.
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Dizer ao Mundo Que Nada é Tão Divertido Quanto a Vida a Que te Dispões
Por que não te fazer cantar? Sobrepor em asas o tom maçante do marchar... Por que não te fazer perder? Nos trilhos que te põe a cuidar, um descuido a te guiar... Por que não te fazer tropeçar? Dançar um outro passo no teu caminho reto a te esmagar... Por que não te fazer desenhar? Mudar os traços e os quadros que compõem o teu olhar... Por que não te fazer escutar? Converter a beleza do teu silêncio em palavras que querem voar... Por que não te fazer sonhar? Rasgar a realidade em fios mais nobres a tecer o teu andar... Por que não te fazer sentir? Mover os tons que são teus ao coração do mundo... Por que não te fazer inventar? Ver nascer em tua face uma face filha de si mesma, criando um pouco de ti na face de todas as coisas... Por que não te fazer espalhar? Conhecer a tua casa em todos os lugares que teu coração abriga... Por que não te fazer cair? Deixar que um abismo próximo te seja interrompido... Por que não te fazer chorar? Enxugar da tua mágoa toda a beleza do teu coração, vê-la cair em outras alegrias... Por que não te fazer ridículo? Dizer ao mundo que nada é tão divertido quanto a vida a que te dispões... Por que não te fazer brincadeira? Subir, descer, cair, machucar, rir do choro e engolir a lágrima com um sorriso... Por que não te fazer ausência? Sem propósito além do próprio crescer, sem ponto final além do que é caminhar... Por que não te fazer presença? Qual silêncio ver tua luz brilhar, sem que digas teu nome todos a te chamar... Por que não te fazer desaparecer? Pro mundo ser ausente de valores, pra ti ser a totalidade de todas as crenças... Por que não te fazer fracassar? Livrar-te das correntes do sucesso escrito em papéis, e ver teu nome timbrado em espaços de nenhuma formalidade e toda vida...
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O Segredo
Vem ouvir esse segredo...coração meu. Que Amor em paz é poder amar na batalha. E os nossos dias já ausentes de visão Foram lutados lá fora, nós e o mundo, Um mundo todo contra nós a lutar. Lá atrás fez-se a esperança No que a humanidade fraca falha, No que a compaixão e a fé em outros corações demora. Vem ouvir esse segredo...do longe ao coração meu. Que Amor em paz se ama lutando. E as nossas primeiras provas foram nós e o mundo, Nós, um mundo todo a lutar, Em provas de outrora, na intolerância alheia, A nossa luz se revelando, No que o ardor e a obra em corações nossos É existir profundo. Vem ouvir esse segredo...que fala ao coração meu. Que Amor em paz é pela paz lutar. E as estações nossas de agora são os mundos Que antes lutamos, em nós já um mundo todo, Em nós, a nos apresentar. Nas estações presentes, a árvore e o ramo de tantas vidas, Nossa seiva a vibrar, no que as oposições de nós, vençamos. Vem ouvir esse segredo...que declara o coração meu. Que Amor em paz é o que faz a paz na batalha. O mundo todo de quem com o mundo já lutou É a humanidade dos nossos corações, A compaixão que nos nossos dias de agora nunca falha. Que Amor em paz é o segredo de lutar. E as provas de agora somos nós perante o mundo, Somos nós as lutas se revelando em luz de nossos corações, A fé em nosso ardor profundo. ...vem ouvir o segredo das estações E das lutas de nós, o mundo, Vibrando de ramo em ramo a esperança, A árvore da vida, nós, em nossa herança.
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O Tempo
Todos os dias eu vejo...a minha vida inteira: Começo e meio de tudo o que em mim é vida. Os ciclos das eras são um dia meu em suas horas, A herança milenar das estrelas é rotação De cada um dos meus instantes. E todos os dias eu vejo...a minha vida inteira, Em suas idades arquitetadas sem tempo: Na noite vem aurora a se apresentar, Na aurora vem dia quente já a se movimentar, Na tarde de se aquietar, A noite de nascer e morrer a chamar. Num exercício de existir, todos os dias eu vejo... A minha existência sendo e precedendo a arte de ser, Sendo em seu existir a arte de seguir e de prever, Girando em sua própria roda o recomeçar de suas luzes, Seus próprios dias. Todos os dias eu vejo...a minha vida inteira. Os meus dias não são dias, Não começam, não terminam, São recomeço de vida inteira em mim, Os ciclos das minhas estrelas quietas me chamam Em seu estampado em céu da minha aurora A descansar nas horas do meu dia alto, Porque no meu ver de vida inteira, É na noite minha em seus e meus Esconder e prometer de luzes Que todas as manhãs estão em seu exercício de existir, Eu, sendo e precedendo o meu existir, No que tempo se retoma em tempo, Eu em morrer e nascer de minhas próprias luzes, Em minha roda, eu, na minha vida inteira, Os meus próprios dias.
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O Reino
Eu amo o reino das palavras, eu ando todos os dias pelo reino das palavras e passeio nos anseios de antes, nos rabiscos de tempos outros, os próprios anseios de mim. Eu amo o mundo das palavras e o mundo pelas palavras, eu amo o que o mundo é, no meu reino dos anseios, quando ele é de palavras. Eu amo a grafia das almas, o tom rascunhado dos sentidos, eu amo as palavras no mundo, e amo que elas reinem nos anseios de mim própria e de tantos outros próprios reis de si mesmos nas palavras. Eu amo o surgir, o formar e o retocar das letras na graça de seus sons aos ouvidos, na coreografia de seus movimentos na folha. Eu amo que corações possam ser escritos, amo que posso ver meu coração num papel, na parede, amo que, no reino das palavras, meu coração pode ser coroado em seu mundo, por seu próprio anseio de ser rei e por tantos outros corações reis de si mesmos, no mundo das palavras. Eu amo que eu possa ser além de mim, como tantos são além deles mesmos ao chegarem a mim, no criar, ler, ouvir, escrever, sonhar em letras... ...e é por isso, meu amor, que pra ti guardo o silêncio, guardo no silêncio o mundo todo que mais amo. Pois que, meu amor, o silêncio é o pai e a mãe da palavra, e o silêncio é a morte e renovação da palavra. E cá, em mim assim, esse mundo todo que sou em todo o meu reino, a palavra, és o silêncio, pois que, aqui, no querer ser do meu coração, és o que a tudo traz vida, cria, padece e se renova. Só isso, meu amor, em mim, o que precede, monta e desmonta e faz-se de novo a própria criação minha, de mim mesma, no meu reino. Vens antes, meu amor, no meu reino. A ti, no meu mundo, a coroa.