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Nem de todos os fortes reza a história

Saberá o falcão no ninho
que é dono e senhor do ar?
Saberá o leaozinho
que nasceu para reinar?

A sequóia porventura
imagina quando eclode
que chegará a uma altura
mais que a vista alcançar pode?

Júlio César saberia,
quando a estátua foi achar,
que a sua fama haveria
a de Alexandre igualar?

Que ser grande será o seu destino,
talvez não saberá, mas já é grande,
mesmo sem o saber, o pequenino.

E se o falcão se aborrece
e desiste de voar?
E se o leão, que o merece,
ao trono renunciar?

E se a árvore nega o estado
de ser maior que uma serra,
preferindo ver curvado
o seu tronco sobre a terra?

Talvez César se escussasse
a ganhar o que ganhou
se em jovem adivinhasse
que foi isso que o matou.

Mesmo sem o saber, o pequenino
já é grande, mas se rejeitar ser grande,
ser pequeno será o seu destino.
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Poemas

5

Nem de todos os fortes reza a história

Saberá o falcão no ninho
que é dono e senhor do ar?
Saberá o leaozinho
que nasceu para reinar?

A sequóia porventura
imagina quando eclode
que chegará a uma altura
mais que a vista alcançar pode?

Júlio César saberia,
quando a estátua foi achar,
que a sua fama haveria
a de Alexandre igualar?

Que ser grande será o seu destino,
talvez não saberá, mas já é grande,
mesmo sem o saber, o pequenino.

E se o falcão se aborrece
e desiste de voar?
E se o leão, que o merece,
ao trono renunciar?

E se a árvore nega o estado
de ser maior que uma serra,
preferindo ver curvado
o seu tronco sobre a terra?

Talvez César se escussasse
a ganhar o que ganhou
se em jovem adivinhasse
que foi isso que o matou.

Mesmo sem o saber, o pequenino
já é grande, mas se rejeitar ser grande,
ser pequeno será o seu destino.
84

A inconstância do clima

Não há muito, quando eu era pequeno,
o tempo condizia co'a estação:
no Inverno frio, na Primavera ameno,
bem quente e deleitoso no Verão.
Mas não era eu ainda adulto pleno
e vi o tempo mudar de condição:
se antes constante, assíduo e com tino,
rumou a oposto, triste e mau destino.

Chega agora atrasado ao mês devido;
traz frio a Julho e chuva mais que um pouco.
Do seu digno dever tão esquecido,
não mata a sede a Março e a Abril tampouco.
Vendo-o tão negligente e distraído,
quem pode não julgá-lo como louco?
Julgo-o eu, certamente, que me lembro
de o ver de calções já em Dezembro.

Numa hora tão sereno, logo muda
num vendaval feroz inesperado.
A moça, que na praia está desnuda,
vê o momento de gozo terminado.
Sem brisa alguma, às vezes, que me acuda,
queima a garganta o ar abraseado.
E sem que sinal prévio aparente
ora a chorar começa de repente.

De ti dizem, ó clima: "estar doente
é a causa por que tanto desvaria!"
Mas o humor inconstante em ti presente,
que juvenil parece rebeldia;
a febre tropical, húmida e quente,
de quem, ao mesmo tempo, chore e ria;
esse desprendimento negligente,
se humano fosses eu até diria
serem sintomas bem reveladores
que de todo perdido estás de amores.
86

À moda de Camões

Aos cabelos de Apolo que roubaste,
devolve o ouro belo desses teus.
A luz que Dante viu, a luz de Deus,
quando subiu ao Céu, p'ra ti tomaste

e agora mora cá nos olhos teus.
Te baste o quanto dela te jactaste,
ao Paraíso vai, de onde a tiraste,
e diz: "já não a quero para os meus".

Não te condóis de Clóris, que chorava,
pois lhe furtaste da esmeralda a cor,
que a vista dela tinha e que de amor,
ao invés de Medusa, nos matava?

Essa face não sei de quem a houveste,
mas são suas medidas tão perfeitas
que só certezas tenho e não suspeitas:
humana não será, mas sim Celeste.

Vénus seu corpo deu-te, bom demais,
contando em reavê-lo prontamente;
não foi para te ver eternamente 
de desejos matar a nós mortais.

Vertem as Musas lágrimas de dor
por perderem a voz que deslumbrava:
seu canto em harmonia ultrapassava
o que de nautas foi naufragador.

Por ti mudo ficou o divino coro,
de sua boca só o pranto flui;
delas tem piedade e restitui
essa voz que os deuses leva ao choro.

A graça que em teu espírito eu já vi,
reúne a das três Graças nele só.
Destas irmãs, contudo, eu tenho dó,
pois nelas nada sobra já de ti.

Aos deuses, tu, enfim, dás grã tristeza
e ofendida está a Mãe Natura,
pois conseguiste a ínclita proeza
de afeiar toda a bela criatura.

Corrigir o mal feito, ó lindeza,
é necessário, porque, se isto dura,
contra o Homem, por vingança, a Natureza
com os deuses ainda se conjura.

Mas como a ti honestidade devo,
que a ser fiel ao meu melhor me obrigas,
as deidades não ter como inimigas
(dizê-lo é meu dever nisto que escrevo)

menos me move a este duro apelo,
move-me mais o int'resse meu profundo:
de ver-te fico imóvel como o gelo
e tornas-me incapaz de ser facundo,

por isso essa beleza que te adorna,
essa alma cuja graça o sol ofusca,
e ao choro leva e o peito nos transtorna
e os deuses loucos pôs em sua busca,

torna-as a eles, dá a cada um sua parte
e puramente humana torna a mim,
sem a essência dos Céus em ti refém.

Que então eu, que te adoro e sou ninguém,
coragem já terei, sei-o, por fim,
para meus sentimentos declarar-te.



(Dedicado a A. V. L.)
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Soneto 2

Como se encontra a última alegria
atrás de muitos anos de tormento,
maior parece o meu contentamento
que na altura pequeno parecia.

Fui feliz e que o era não sabia;
soube-o quando, perdendo no futuro
a fé de um destino menos duro,
para o passado olhei com nostalgia.

Mas lágrimas dos olhos não despejo,
porque chorar o mal, o mal piora.
Somente o meu próprio passado invejo,
e há tanto que em meu peito só a dor mora,
se um dia o bem vier, que não virá,
bem melhor do que for parecerá.
90

Soneto 1

De quem nos interessa, diz o povo,
é o interesse não correspondido;
e quem nos quer, por nós não é querido.
Faço ao adágio um acrescento novo:

quando é um mesmo amor por dois sentido
e o vemos, por vergonha, falecer
sem ter tido a chance de viver
e a nós também, sem nunca o ter vivido.

No tálamo de morte, eu, então,
bem mais arrependido me acharei
por não ter conseguido a fruição
deste amor, do que a morte temerei,
pois a esperança tenho que me ajude
viver no Além o amor que aqui não pude.
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