Lista de Poemas

LIRA PARA ALVORECER A ALVORADA

Escuto o silêncio

Dizer á madrugada

Que se prolongue nos invernos:

Ah,

Enquanto esta ordem-conselho

Se processa na mente do tempo,



Cavalga por todo o meu cérebro

O viscoso e insólito pensamento

De que seja o basáltico céu empalidecido

A perfeita comunhão entre a elação da beleza

E os sortilégios dum mar capcioso e sombrio.

Escuto o silêncio

Dizer á madrugada

Que se prolongue nos invernos:



Esta miscível atmosfera eclética

De anestesia, Prosa, Poesia,

Onirismo, miasmas, niilismo, corvo, frescura,

Espreita, peçonha, perfídia e coruja

Casamata um reino de desovas, volúpias,

Espermas, esperas, espirais de psicodelia,

Enseada para fugas ou a Política daninha,

Teatro, Baco, vinhas, sangue a cada esquina;

Heróis, concertos de Rock e Operas que reverenciam

A Jazzística Cinética Ventania!

Escuto o silêncio

Dizer á madrugada

Que se prolongue nos invernos:

Capturo as essências da urina,

Da friagem, do orvalho, da orquídea em remanso,

Da groselha e da azaleia de ébano,

Aspergindo-as na página em branco

Do meu corpulento caderno

De Vermelhos Versos Saltimbancos!

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

796

ÁS PORTAS DA PSICODELIA POÉTICA

Ando comendo água pela vastidão dos bares da mente.

Ando zarpando pelo Atlântico da memória náufraga, dolente e incontinenti!

Ando constantemente prenhe de paisagens

Pululantes e sôfregas por gente.

Ah,

Como eu queria

Que soubéssemos

Ser o errático bólide do córrego infrene:

Conhecendo o sentido de se estar

Com a planta dos pés na terra;

Levados pelo remanso

De se estar plenamente

Ao sabor do ar livre;

Dispostos a polenizar a matéria

Do desconhecido que

--- á nossa frente ---

Placidamente fica á espera.

Ando sob o efeito

Da alterosa poeira,

Deixada pela energia cinética das ideias

Quais rebentam dos pensamentos quânticos:

Olhar além da gravidade,

Cujo códice de leis nos circunscreve e rege;

Mergulhar no infinito oceano

De mundos paralelos,

Fervilhando nos átomos

Da nossa pele e osso;

Flutuar sobre a onipresente

Neblina da estupradora Tirania,

Juntando-me ás Estrelas

Que formem a Luz da Chama Coletiva

Para derrotarmos a pérfida Realeza da Hipocrisia

E parirmos --- finalmente ---

O Reino da Pax-Poesia.

Ah, que temeridade que digo:

A bem da verdade,

Estou comendo água demais por dias a fio!

JESSé BARBOSA DE OLIVEIRA

879

VENTANIAS DA MENTE

Preciso adelgaçar cometas.

Preciso nivelar-me ao celeste azul.

Preciso ler Manuel Bandeira.

Preciso ouvir As Rosas Não Falam, Free Jazz e Blues!

Preciso garimpar as incertezas da certeza.

Preciso tomar um porre de Rum.

Preciso pôr as cartas sobre a mesa.

Preciso flertar com O Bando de Teatro Olodum!

Preciso sentir a textura da tez da minha Preta.

Preciso prementemente ir á rua desnudo do habitual calandu.

Preciso assistir --- de novo --- á película O Baixio das Bestas.

Preciso pagar --- com os juros da cara --- a conta de luz!

Preciso dormir por 8 horas.

Preciso comprar os acústicos de Jorge Benjor, Seu Jorge e Paulinho da Viola.

Preciso gostar de comer chuchu e saber que não sou cult.

Preciso criar coragem para suportar o peso da minha Cruz!

Preciso encarar a barrela.

Preciso fazer 1 bilhão de aquarelas.

Preciso descobrir minhas raízes no Benin ou na Nigéria.

Preciso demonstrar mais amor pela Terra.

Preciso ser Angola, Moçambique, Sudão, Somália, Etiópia e África do Sul.

Preciso chupar acerola, umbu, cajá além de caju.

Preciso largar mão de querer rimar com o fonema e o corpo da letra U!

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

819

A ESPORÁDICA MAJESTADE DO INCOMUM

Há dias que a retina não controla

A projeção de imagens.

Há dias que a urina infunde

Á leve menção do simples laivo da vontade.

Há dias que a doce e inócua brisa

Escalavra cruelmente a face.

Há dias que a noite

É contínua manhã incólume: a aderente Paisagem!

Há dias que a Escuridão é a alameda

Onde reside a foz de toda a universal verdade.

Há dias que o dia

Aparenta ser fluxos e refluxos de miragem.

Há dias que o Poema

É o mais etéreo plenilúnio da Vacuidade

Há dias que a latitude e a lembrança

São o mais edaz epicentro da saudade.

Há dias que o ser concreto

São os sortilégios de Mérlin, Iemanjá,

Baco, Amon-Rá e o Hades.

Há dias que o Poeta

É corpo sem Verve, a terra sem Verbo: A Vácua Viagem!

Há dias que a guerra

Sucumbe ao sopro do vento da Amizade.

Há dias que a Porta

Não é uma mera passagem.

Há dias que o sofrido povo

Não é miríade e sim, O Principal Personagem.

Há dias que a Poesia sonha

O sonho de ser o Graal da IGUALDADE!

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

775

TORRECIALMENTE

A chuva molha ácida

A minha basáltica cara.

A chuva carboniza ávida

Todo o meu lirismo-crisálida.

A chuva á maneira incendiária

É uma navalha que mata e retalha

A medula dos sentidos da minha verve magmática.

A chuva, todavia,

Embala a esperança

Que pujantemente palpita

Nos corações das sertanejas almas,

Fazendo da terra ressequida, inexoravelmente devastada

Infinitos reinos de cristalina água:

Contínua florescência majestática

Das cataratas do Iguaçu e do Niágara!

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

968

ELEGIA DE UM NÃO-PINTOR

Talvez eu fosse aquarela,

Mas sou apenas um tosco poeta.

Talvez estivesse em Guernica,

Mas testemunho --- todos os dias ---

Florescerem vítimas de banalizadas chacinas

No gigantesco tropical Paraíso do Pré-Sal

E das commodities agrícolas.

Talvez presenciasse

As pinceladas catárticas de Frida,

Mas meu ser se limita

A derramar copiosas lágrimas das vistas.

Talvez vivesse como um viçoso ébano

Que pisasse em sementes de café nos anos vinte ou quarenta

Do evo passado,

Mas me descubro um preto de pés pneumáticos

O qual --- no século XXI --- engendra

Versos natimortos na sua cabeça de asno.

Talvez pudesse dizer a Van Gogh

O quão cultuada e lucrativa

Tornou-se a sua Pintura Impressionista,

Mas somente consigo escrever

--- sobre a folha do caderno Tilibra ---

Letras de aparência carrancuda,

Abjeta: dantesca grafia!

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

839

O FILHO DA GUERRA DE TODOS OS DIAS

O homem joga-se no abismo...

O homem transforma-se no abismo...

O homem foge agonicamente do abismo...

O homem é essencialmente o abismo...

O homem singra caminhos longos, oblíquos, doridos...

O homem, habitando a selva de pedra do mundo iníquo,

é ventania, alegria, caixão, senzala, poesia, fuzil,

Escravos chibatados sobre o pelourinho...

O homem, em facundo desafio,

Posta-se frontalmente ao feral tanque assassino...

O homem: sulcos, dédalos, pedras, espinhos...

O homem pugna contra os doze signos do abismo...

O homem cai e se soergue assertivo, altivo...

O homem, favelas, utopias, trampos, caatingas, Sonoras, Savanas, redemoinhos...

O homem sonha com o sol da dignidade e do altruísmo...

O homem fica preso no templo da vilania e do egoísmo...

O homem trafega pela rodovia da vida-morte em período contínuo....

O homem perde-se entre amores, saudades, vórtices, descaminhos...

O homem floresce como laranjeira, esmeralda, pendão, criptográfico pergaminho:

A certeza jazendo na vivenda do eternal exílio!

JESSé BARBOSA DE OLIVEIRA

http://palavrasdeumpoetamenor.blogspot.com/

845

A LIRA DA HIPOTERMIA

A atmosfera fria

Prepondera

No corrente dia,

No entanto,

Os pensamentos

Não aderem

Ao império do mármore:

A bem da verdade,

São vulcânicos desertos

Do Saara e do Mojave!

A atmosfera fria

Prepondera

No corrente dia:



Penso nos entes

De antártico

Coração transformando

Mares majestosos

De candura e crisálida

Em infinitas úlceras multiplicadas

Cuja missão é criar bactérias

Quais sepulcralizam a alma.

A atmosfera fria

Prepondera

No corrente dia:

Não obstante

A brisa malina,

Os condôminos de rua

Deitam ---

Prematuramente ---

Na sepultura

Ao se tornarem

Almoço ou janta

Da nossa venerável

Sociedade fraternal,

Nobre, magnânima, humana!

A atmosfera fria

Prepondera

No corrente dia:

A tristeza gélida

Empedra a lareira

Dos solares sentimentos,

Matando os sonhos

E seus rebentos.

A atmosfera fria

Prepondera

No corrente dia:

Nada perto ou equidistante...

Nada ao longe...

Nada aquém...

Nada além

De hipotérmicos,

Decrépitos

E esqueléticos

Horizontes!

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

859

ENTRE ALGUM LUGAR(ODE A WALLY SALOMÃO)



Vérvico galopar
Entre o poroso e o hermético:
Sua mente flui, reflui
Pelas alamedas, ribanceiras
Cordilheiras do Clássico,
Do Moderno e pare, assim,
Um Autêntico Contemporâneo


Fazer Poético
Cosmopolita, Latinoamericano,
Brasileiro, Nordestino, Baiano,
Plenitude do Universo retroagindo-se e se açambarcando!


Seu verso cavalga
Pela estrada da reflexiva,
Filosófica, sonora,
Jocosa, prosódica,
Culta, dionisíaca,
Difusa, diáfana,
Ferina, aquática, sábia,
Copiosa, prolífica, ígnea,
Reta,
Obliqua,
Acuidosa,
Expedita,
Gostosa,
Dúctil,
Livre,
Liberta,
Libertina,
Geral Geleia,
Gelatina,
Eclética,
Ladina Metalinguagem.


Seu poetar codifica e decodifica
A Metalinguagem.
Seu poetar
Penetra e ejacula a Metalinguagem.

Seu poetar
É a Metalinguagem
Que vocifera
Contra a lepra qual acomete e devassa a emoção
E contra o vírus
Da hipocrisia, da miséria, da vácua poetização!


Seu poetar
É a Metalinguagem
Que afaga, fecunda e soca
A janela da intimidade:
Expondo eloquentes aquarelas
Da introspectiva realidade.

Seu poetar
É a Metalinguagem
Que rompe e carcome
O indestrutível cadeado
Das senzalas da Palavra.


Seu poetar
É a Metalinguagem
Que descabaça
O vapor barato

Pois o falo que a aparelha
É verbo nascido
Do ventre do fogo e do aço.

Seu poetar
Alimenta-se
Da molécula
Que fabrica
A Metalinguagem:

Ele bebe a água da Metalinguagem.
Ele come a carne da Metalinguagem.
Ele assume a pelagem e a identidade da Metalinguagem.
Ele é a própria Metalinguagem, na verdade!

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
881

AQUARELAS DE MIM

Erijo monólitos de mim quando escrevo

Erijo exílios em mim quando escrevo

Erijo céticas catedrais de paz em mim quando escrevo

Erijo no chão de cimento da minha verve

Girassóis do mágico vento quando escrevo.

Faço do silêncio interno

A mais fragorosa música quando eu escrevo

Faço da crédula e velhaca ressonância dos

Corais de zagais modernos

Estro para revelar o sabor malsão de seu mel malévolo

Quando escrevo.

Pincelo alcovas para o vácuo dormir comigo

Quando escrevo.

Pincelo AKs-47 para soçobrar os majestosos castelos da demagoga e harpíaca

Eloqüência quando escrevo.

Pincelo uma miríade de pernas sôfregas por cosmopolismo

Quando eu escrevo.

Pincelo heterônimos bidimensionais

Quando escrevo.

Degusto o sol da catarse

Ao pincelar a mim mesmo quando escrevo.

Sou disco bicromático quando escrevo.

Sou relva, revoada e guepardo quando escrevo.

Sou faca cega, lâmina de dois gumes e pedra lascada quando escrevo.

Sou água-viva, letargia e águia quando escrevo.

Sou aquarela sem pais, aquarela sem limiar e aquarela sem medo.

Afinal, quando eu escrevo,

Sou aquarela inerme, aquarela do caos, aquarela indigente:

Sem nome, sem baile, sem lápide, sem brumas ou testamento!

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

844

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MEU NOME É JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA. NASCI EM JUNHO DE 1982, NA CIDADE DO SALVADOR,
BAHIA, PARAÍSO ONDE AINDA RESIDO.
 QUASE NO PÔR-DO-SOL DE MINHA ADOLESCÊNCIA, DESCOBRI QUE O MEU DESTINO ERA
CAMINHAR TROPEGAMENTE PELAS ALAMEDAS DA POESIA. E, HÁ CERCA DE TRÊS ANOS,
PUBLICO REGULARMENTE EM DIVERSOS SITES LITERÁRIOS.



DADOS BIBLIOGRÁFICOS:
 
 50° VOLUME DA ANTOLOGIA DOS POETAS BRASILEIROS CONTEMPORÂNEOS, ORGANIZADO PELA CÂMARA BRASILEIRA DOS JOVENS ESCRITORES. O POEMA PUBLICADO CHAMA-SE
ESCRIBIR EN CIELO DE AMARGURA.
51°VOLUME DA ANTOLOGIA DOS POETAS BRASILEIROS CONTEMPORÂNEOS, ORGANIZADO PELA CÂMARA BRASILEIRA DOS JOVENS ESCRITORES. O POEMA PUBLICADO CHAMA-SE
FÁBRICAS DA MORTE.
 
ATENÇÃO: TODOS OS POEMAS FORAM REGISTRADOS PELA
BIBLIOTECA NACIONAL, SITUADA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO E SE ENCONTRAM SOB A PROTEÇÃO DA LEI
DOS DIREITOS AUTORAIS N° 9.610/98