MENINAS
Quanta saudade tenho
daqueles tempos de criança
daquelas meninas de trança
brincando na corrente mansa
do rio Itapecuru.
Lembro de toda molecada!
Era um verdadeiro sururu
quando saíamos da escola:
correndo em desabalada
íamos olhar as coxas peladas
das meninas de trança que
banhavam no rio Itapecuru.
Passou o tempo! Passa, enfim, a vida!
Passaram águas; ficaram saudades!
E eu, jaburu sem rio e sem guarida
estou à margem das iniquidades.
As meninas de tranças; coxas peladas,
onde andarão?
Será que são amadas?
Que águas lavam aqueles mamilos retesados?
Quanta saudade tenho
daqueles tempos de criança
daquelas meninas de trança
brincando na corrente mansa do rio Itapecuru.
ILHA
Ó mar azul que me Ilha
Que faz de mim um Prometeu
Capaz de furtar o fogo
E ofertá-lo aos mortais
Ó mar azul que me Ilha
Oriunda és tu dos Tremembés
És, pois, Upaon-Açu
Que me guarda no útero da grande ilha
Ó mar azul que me Ilha
Sou teu Tupi-Guarani
Elevado a deus Netuno
Enamorado das ninfas e sereias dos lagos
Ó mar azul que me Ilha
Provocas-me tempestades e tormentas
Tornando-me assim Apolíneo e Dionisíaco
Capaz de unir dias e noites
Ó mar azul que me Ilha
E que me transforma em jamaicano
Atravessando noites regueiras
nos labirintos da velha e nova São Luis
Ctba20180727
FANTASIA
Vem, minha menina. Vem.
Vem que te quero linda!
Vem dançar comigo a
Marchinha de criança.
Hoje o carnaval é nosso
Vem porque hoje eu posso
Dizer ao meu coração:
Sou teu espírito;
E tu, minha alma…
Minha ilusão.
Neste carnaval alegórico
Quero pular em teus lábios
E no meio da multidão
Ser o teu único folião.
Vem, minha menina. Vem
Que te quero alma no meu espírito
Neste carnaval sou teu amor contrito.
MINHA CASA ERA UM RIO
A minha casa era um rio de imensidão
Tão grande… tão grande… tão imenso
Que todos os rios do mundo
Passavam pelo rio da minha casa
O rio da minha casa tinha algo de humano
Todas as noites ele vinha conversar comigo
Contava-me estórias mágicas… fantásticas
Dessas que a gente nunca mais esquece
Eram tantas as lendas que ele contava
E embalado pelas maravilhas eu navegava em suas águas
E nadava todo o percurso do rio que passava em minha casa
E navegava todos os rios que passam pelo rio da minha casa
A minha casa tinha um rio de águas profundas
Mansas, calmas, perenes e cristalinas
Águas que me abraçavam, que me acariciavam
Que me beijavam e que me amavam afetuosamente
O rio da minha casa quando me via triste
Chamava todos os rios do mundo
E dançavam ciranda ao meu redor
Até que vissem de novo um sorriso no meu rosto
Se por ventura chorasse de fome
O rio da minha casa e todos que passavam por ela
Pescavam o peixe mais belo
E me alimentavam até cessar a fome
Quando em noites escuras e sem luares
Noites que nos infestam de fantasmas
O rio da minha casa murmurava uma canção
E trazia com ela as mais belas princesas
Ah! O rio da minha casa não me deixava em solidão
Brigava com papai… ralhava com mamãe
E enchia suas almas de todos os cuidados
E os transformavam em verdadeiros espíritos de proteção
Assim era o rio daquela minha casa!
Hoje vivo ao léu na minha caverna
A minha casa que era um rio de felicidade
Agora nada mais é que pântano. É cidade
Quantas saudades tenho daquele rio
De um rio que juntava todos os rios imensos do mundo
Do rio que passava na minha casa
Da minha casa que era o barco da felicidade
ODE A SÃO LUIS
Ó tu, leito-mãe dos Tupinambás
Reina dos mares do Sul, sois vós
Vitoriosa, oh! amada Upaon-açu
Carregas nome e cetro de realeza
N’alma saber e virtude de Atenas
No peito o brasão de viva Natureza
Ó tu, São Luís – Ilha dos Amores!
Amada de francos, lusos e neerlandeses
Sois vós o encanto de Arúspice
Profeta da vossa eterna glória e pureza:
– Vosso destino é conservar em si toda beleza
serás deste teu Orfeu a eterna Eurídice
Ó tu, São Luís – Jamaica brasileira
Sou-vos grato pela vida inteira pois
Sabei-vos de muitos ser uma só pessoa
Jamais vos deixaste vencer. Sois guerreira!
Ainda que vos queira estuprar o monstro da modernice
Haverá sempre um filho teu que não fugirá a luta
Ó tu, São Luís – Cidade dos Azulejos
Perdoai o jugo da desgraçada sorte (e)
Tomai por exemplo o Cristo da hora da morte
Perdoai os filhos que vos sangra em realejos
Todos serão defenestrados, enfim, para que
Possamos amar-vos entre ruas e curvas de azulejos
ANGÚSTIA
calaram-se:
o criador e a criatura!
o verbo não se lhes fora suficiente
para a tripudiagem da carne
que se lhes emanam de almas vagabundas
calaram-se:
o criador e a criatura!
agora tristes e insuficientes
perderam o tino a coragem e a vergonha
– não tenham medo de perder a opinião! –
os deuses são assim: feitos de ilusão absoluta
não tenham medo de perder santos e anjos
aqui no inferno vos dareis abrigos
aqui podereis espiar vossas miseráveis felicidades
e podereis ter a justa angústia de si
e a certeza da remissão de pecados
vinde, pois, criador e criatura
aqui vivereis com seus humanos
aqui sabereis da virtude dos demônios
seres encantados, mas reais profanos
adoradores das imagens sagradas
dos infernos mais profundos do ser
vinde, ó criador… ó criatura…
o vinho da poesia nos confortará
nele dissiparemos todas as dores
dele sairemos embriagados
e depois de torturados pelas ressacas da incompetência
haveremos de bebê-lo
e de novo dele renascer plenos de consciência
CORPORALIDADE
Este já tão vergastado corpo
Totalidade de toda potência que me sustenta
Tangenciando toda multiplicidade
Fluxo e refluxo na minha total unicidade
Onde nem alma e espírito existem
Mas tão somente a natureza do existir
Roga o devir de toda potência
Na imanente consciência do único ser:
— Essência de toda experiência possível!
ARTRÓPODES
Com a noite vem-me o corvo
- Amigo das minhas noites insones! -
Pousar sobre os meus umbrais…
E conversamos sobre todos nossos cânones
Varamos a noite sem a preocupação da luz
Apenas a arquitetura de nossas almas
São aventadas no ventre que nos produz
E que nos faz sujeitos de águas calmas
E juntos por toda noite densa
Compomos a sinfonia de dionisíacas esferas
Embalados pela mundidade que nos condensa
Em mundos onde todas as paixões são efêmeras:
Corpos, almas e carnes são nossa arquitetura
E assim somos artrópodes inquietados
No átimo dos segundos de noites de ternuras
Nos tornamos flores e rosas no jardim dos amargurados
DESENCONTROS
Vão, minh’asas,
E diz a ela, por favor,
Que a esperei pela noite inteira.
Diz a ela, diz a Jaci,
Que as montanhas modernas
A esconderam de mim;
E que o senhor do tempo
Ciumento e carrancudo
Fez do nosso encontro trovões e relâmpagos.
Vão, minh’asas,
Diz a ela, diz a Jaci,
Que amanhã estarei aqui.
Ctba/20180826
VELEJA(DOR)
sempre sempre
venho volto solto
no fato dos atos
sinto sinto sinto
desacatos velhacos
ser desprendido
rugindo vazio
calafrio
alma alma
nunca calma
depois da calma
gritos dores
silêncio
vazio…
velo velo
veleiro
sem leme
sem navegador
carregas dor
só dor
lamento do vento
sustento do ser
que não quer ser
ser ser ser
faca de dois gumes:
direito esquerdo esquerdo direito
mar de estrumes…
navego ego
cego cego cego
nau de loucos
mortos dos meus cemitérios
condenados todos
loucos loucos loucos
velejam rezas
procissões desejos
pesco versos inconfessos
diversos dispersos
mares de peixes perdidos
sepulcro do ser
ser não-ser ser
nasceres mal-resolvidos…
findo fim enfim
mal-resolvido:
ser não-ser ser não-ser
dizer o quê?
viver morrer:
não-ser ser não-ser ser
ondas sem volume
não-ser ser do lume
topo de águas
volume de mágoas
ser-me não-ser-me
navegante navegador navegado
singrante singrador singrado
mar sujeito desprendido