doravante, cego
E se por acaso do destino,
Bem no instante em que vi a luz,
Em um átimo, ela se apagasse, e eu
Ficasse cego?
Pois então, se por agora entendermos como cego,
Pura e simplesmente a ausência de visão,
Teria sido me negado o prazer de ver
Chover ao fim da tarde, e o céu, que por inveja
Da chuva que veio do vento sul, se recusou
A fechar.
E no crepúsculo, dando seu último suspiro,
Uns tímidos raios de sol fuzilam as gotas;
Formou-se um arco-íris que não pude ver.
É verdade, não tive o prazer de vê-lo,
Mas mesmo assim eu estaria aliviado,
Pois logo abaixo do arco-íris estava o mundo.
E eu sei que, no instante que o sol se pôr,
Eu não vou querer olhar pela janela.
Se por acaso do destino,
Eu cegasse no instante que vi a luz,
Meu Deus, tudo se resumiria:
Pois estou fraco demais para presenciar
Essa tragédia que acontece quando
Baixa o véu noturno, pois, num paradoxo,
À noite, já não somos mais os atores e nem
O mundo é o nosso palco.
Quando cai a noite, escura e fria,
E o homem vira uma fera selvagem,
Uma fera selvagem tornar-me-ia?
Não! Pois como não vejo a imagem
Do espelho, deliro em fantasia,
E como fiz-me cego nessa passagem,
Ser cego, para sempre, me pareceria
Tão somente um ato de coragem!
Mas se eu fosse eternamente cego
Aparece-me uma dúvida mortal:
Saberia eu dizer
Quando cai a noite, escura e fria?
E se no momento em que o homem,
Inevitavelmente, torna-se selvagem,
Eu, que vivo na escuridão;
Eu, que vivo na treva;
Será que eu também me tornaria selvagem?
Ou será que eu lembraria da luz,
Ainda que eu a tenha visto
Apenas por um instante?
A verdade é que somos
Escravos da consciência.
De olhos abertos
Abri a porta.
Ganhei a rua.
Desci um pouco.
Voltei.
Tranquei a porta.
Três, quatro,
cinco vezes.
Se eu vivesse no presente,
E não no passado, eu teria
Com toda certeza do mundo,
Deixado a porta destrancada.
Mas, como se já não bastasse
Toda essa caminhada morro abaixo,
Me parece que essa última vez que eu pisquei,
Foi, na verdade, a primeira vez que abri os olhos.
Eu subo a rua.
Destranco a porta,
E tranco de novo.
Nove, dez,
Vinte vezes.
Às margens do riolargo
Frentemorto ao riolargo
Relutando, plenamente emocionado.
O ventoplexo itinerante
Assopra os meus cabelos.
Sonhalento, correrias no campo aberto.
No mês de abril as águas do riolargo
Tornam-se vermelhas e sórdidas.
Num escopo, solidários, os peixes de riolargo
Corremrios assustados noitefora, foranoite
Seideveração de todos está acabando...
Renderam as armas e a música cessou.
Antelogo que o temporria, boa noite!
E o ventoplexo em riolargo
Volta e meia voltacasa.
Eu, morto de fome
É de assaz importância
Ressaltar que,
No inverno do corrente ano,
Eu decidi morrer de fome.
Mas isso já foi colocado no papel
Mais de cinco vezes, mas eis
Aqui a sexta tentativa,
Pois este é um tempo que me tem
Negado até mesmo o direito de
Morrer como Homem.
Ademais, não sou melhor do que
Você: nunca fui melhor do que
Ninguém. Acabo sempre sendo o mais
Acomodado. Talvez não por minha culpa
Nunca por falta de esforço ou de vontade.
Sempre termina dessa forma.
Agora, os outros já vieram e passaram,
Mais uns outros estão por vir.
E se os primeiros me enterraram,
Os próximos pisarão em cima de mim.
Já não era tão útil, e ainda
Por cima, transformaram-me num cão
E me deixaram largado nesse frio chão.
E foi assim que eu morri:
Como os antigos poetas que eu conheci!
04/06 ou eu não te odeio
te amo hoje na quarta, mas,
amanhã é quinta, eu deixo para lá
passa o dia, é sexta e eu decido
que é hora, de novo, de te amar
sinta-se à vontade
tu tens a cor do pecado
e seus olhos fedem: chorarás, chorarás
no dia em que eu fizer falta, talvez, há
de chorar, chorarás
e chorei, de fato, mas já no outro anoitecer
no nosso encontro, sussurro no seu ouvido
que quero seu sangue, sem nenhum pudor
porém, no outro dia
já não te chamo mais de meu amor
Carta que eu escrevi um dia e nunca enviei
Quando eu entrei no reino de Morfeu,
Jamais, como pude pensar, jamais imaginaria,
Os impactos oníricos que testemunharia
Alguém tão descrente e néscio como eu!
Caladas foram as horas que passei;
Também, pensei, não pude, com razão,
Eliminar as tristezas do coração,
Nem as lágrimas que um dia gastei!
Por que eu sou refém, Senhor,
Destes sonhos sem esplendor?
Talvez a verdade eu nunca conheça!
Mas seu, que antes que amanheça,
Irei, mais uma vez, ficar à mercê
De uma miríade onírica de você!
O Homem
Não cabe a alguém assim
Viver neste mundo ruim
O mundo, cheio de segredos
Lhe faz enfrentar vossos medos
Põe-lhe a faca na garganta
E corta com tal força que espanta
Pois, é no temor de enfrentar a diáspora
Que faz da vida uma bela metáfora
A cruz ou o abismo?
Carrego a minha cruz
Em frente ao abismo
Se eu largo minha cruz
Eu caio no abismo
Se eu seguro minha cruz
Salvo-me do abismo
Pesa-me a cruz
Liberta-me o abismo
Ilumina-me a cruz
Corrompe-me o abismo
O fundo me seduz
Faz-me largar a cruz
Caindo, vem o pensamento
Caberia, a mim, o sofrimento
De carregar a cruz? Ou de cair
No abismo? Mas, pensando em fugir
Dessas escolhas, desse penar
A única saída é voar
Saio da cruz voando
Mas o abismo continua me tentando