João de Castro Sampaio

João de Castro Sampaio

n. 2000 BR BR

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n. 2000-09-26, Ouro Preto

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castanheira

quando eu tinha seis anos me disseram
que uma vez, quando eu morresse
talvez eu voltaria em algum outro corpo
então eu fiquei desesperado
com a simples ideia
de passar a eternidade
contemplando a minha própria existência
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Poemas

39

A valsa do tempo

Não há pretexto para julgar, ademais,
Os necessários e até então chamados
Indeferidos desgastes do corpo
E da alma: tudo se mostra assaz importante.
O que passa para lá jamais volta,
E aquilo que fica jamais passa:
De modo que a experiência se torna inconclusiva
Se o pensamento permanece imutável.
Tantos caminhos a serem percorridos, porém,
Todos estão envoltos por um nevoeiro que,
Pormenorizado, só faz desviar a vontade
Para ruas sem saída.
Não me foi dada a opção de transformar a pedra em pão.
Logo, nada posso fazer se já escolheram para mim
O rei entre os Homens.
As nuvens vêm e com elas a chuva, que depois passa e
Dá lugar ao Sol, que depois passa e
Dá lugar à Lua, que depois passa e
Dá lugar a um novo dia, e assim é feito
Até que a morte nos separe: o corpo cai,
A terra traga, o sangue ferve e continua a correr
O rio da sua aldeia, de modo que não há
Mais novo elemento nessa valsa do tempo e de crenças
Futuras a passadas, até estarmos, inevitavelmente,
Defronte com o fim.
288

O afogado

Esqueça, esqueça, já é tarde, ou melhor,
Ficou tarde: Não olhe para a lua:
Cingir-lhes de preto e branco para depois
Atestar loucura desmedida, em paz.
O mar da minha janela e o Jesus postos invisíveis,
E meus olhos perdendo latitude; passam os anos,
Passam as cores: eu só enxergo o azul-claro em verticais horrores.
A máquina por pouco me atinge.
Parando para pensar, atingiu: tal evento jamais se esvaziou
Da minha memória.
Ah, o Azul me fascina, é verdade.
Talvez eu esteja devendo algo à Ele; talvez eu deveria
Simplesmente entregá-lo a razão fundamental
Que me mantém de pé: o ar dos meus pulmões
Em um abismo preto e branco                         Oh, a luz....
304

Imóvel

Que da imagem fez-te pronta:
São mil nulidades o que te exaltam.
E do verbo, que me resta a não ser insistir?
Quiçá viver em um pôr-do-sol tuberculoso,
Ou em ondas do mar que trazem, miraculosas,
A oração egrégia livre da sintaxe que fora pressuposta
A acabar de vez com o pensamento:
À sua imagem e semelhança.
Debalde é a esperança de se realizar a vontade;
O mundo jaz no maligno.
E eu, eu continuo imóvel.
Imóvel, meu Deus, imóvel...
330

ipê

Pobres que Circe implode. Som
Que risível é o prazer
Mas que pena tenho eu que sentir
Pena que anjo? eu tenho nojo. Anjo
Do alto rampampam eu te acompanho tss tss
Oh Marília eu quem sou eu? O
Bom pastor Dirceu, a quem a graça vós trouxeste
À pura alma de Glauceste, o tiquetaque do relógio
Meia-noite à Cronos estais em mãos, entregue
Ao pai, que estão perdidos em matas e rodovias
Voltar marcado e flagelado não faz surgir nada
De novo sob o Sol, palavra do Snõr
Graças aos seus, além, mar de utopia e sonhos cansativos
Haja tempo antes que se faça a hora
Outro dia, mas que interno vou pular
E treinava o sorriso no espelho o senhor Bloom
A poucos passos do seu grande dia, pela sua dolorosa paixão
Me diga aonde foi que eu errei, e nada, realmente 
Me surpreende mais.
523

A canção de amor de Policarpo

Devagar e solene e constante, rasas pinceladas
O solo intangível, parca proteína,
Da água suja fiz o sal, o verde, o vermelho
E do alto da montanha cuspi o azul.

Ascendi o carvão, denotei a queda da prata
E disse, flamejante, à quem interessar,
o meu nome é um grito na rua,
Possa andar calmamente pelo estuário.

Faço o Tejo em parca linha
Para que outros tenham a mais-vontade
De contá-lo ao povo em outras linhas
Mais bonitas do que estas.

Misto que sy o, é asy, não:
É o que? Não sei, asy? Asy:
Sept okrok kek kek koáx kururu,
O sapo, a rã a salamandra no ovo.

A partida dos yagaru posto que a naue gaçom:
Hy un tempo forte onde alguüs abá
Snhvam que xe r-apé kukuî;
Asy seguj o curso do ty.

Xe r-akub, asy como essa terra noua.
Na bespera fezemos asab o tyîasy,
Para mor dêpick ityk o capitam
Que ëfim tra tou de nos seguij.

Eis aqui vosso santo nome,
O filho d'êndy está entre nós
Em um grito kyririm chegou até àmana
Efim a guatá q ouuemos

Pyryk, tyryk, sykyîé, asy virã vijr;
Alguűs deles se forã meter a belé
Como aues: katu mba'e moendy.
T-atá os fez oje tambem.

Byr entã emeryto eflluyo
Partij portanto pós a parva preça
A alma aíb apek asé
Devotei-lhes de vontade, enfim,
Servos da verdade, cansados, enfim,
Beijei-os nos lábios, fiz mais que moendy, enfim,
Tratei-os como meus, amei-os, enfim
Deixei-os dauerme lhados e de boõs rostros, enfim,
Cantei-lhes a jnocemçia e fim.
305

A vida pelo espelho

Eu vejo a vida em olhos cheios de lágrimas
Refletidos em um espelho.
Não gosto da vida; maltrato-a sempre que posso.
Em minhas mãos o florescer torna-se tedioso
E o pôr-do-sol me deixa cansado.
É isso, estou cansado e não gosto da vida,
Da vida nas ruas
Da vida nas casas
Da vida nas línguas
Da vida nos cabelos
Nas cinzas do fogo que queima, na água que corre, no vento que grita, na terra que chora
Da vida na terra meu Deus, até disso me canso, me canso
De coisas que não me atingem,
De coisas que não vejo, e estas são a maioria.

Essa arte de ver o mundo pelo espelho
Manteve-me distante de abcessos, é verdade,
Mas também me tornou este cansado e tedioso que sou.
Faria bem eu em estilhaçá-lo então?
Sim, de certa forma, posso ter essa certeza
Pois quebraria a distância entre
A flor e o pôr-do-sol e a vida, porém,
Para onde iria a minha imagem,
Aquela, que tanto me habituei
A contemplar
Durante todo esse tempo?
541

O Edifício

Caminho entre as pedras de um solo compensado
Passando a ponte o que encontro é um sapo amassado.
E mais ali, adiante, uma passarela e o sol quente;
Vejo uma casa cheia de gente.
Encontro andando um pouco mais para cima
Uma echarpe vermelha e cheia de rima.
Mas deixo-a no canto, preciso subir ainda mais
Pois no meio já é difícil manter a respiração
E o caminho se estende para além do coração.
Se acabo me atrasando no meu passo,
Eis à minha direita, bruxas em meu encalço!
Para fugir me resta guinar à esquerda e
Rezar para me esquecerem, e fundamentar
Essa minha passagem vulgar.
Ainda na direita moram canibais violentos,
Que quando famintos tornam-se barulhentos:
Querem atrair a carne que Deus lhes negou em demasia.
Então, lembro-me do que o Profeta dizia:
"Descanse a mão no parapeito e veja a rua.
Olhe para os caminhos talhados em rocha crua.
Esqueça o som que vem do galinheiro,
O som do céu ecoa o ano inteiro!
Mas saiba que não ouvirá nada lá do fundo,
Subir este caminho é a razão que fez o mundo!"

Indeferidos desgastes da alma, descendo
Doidos exigem vingança
Eu determino o léxico hierônimo, subindo
Que eu vejo no céu, que vejo?
É o desejo, partes familiares, a raiz
De um a três, respiração basculante
Não tenho ciência, descendo
Eméritos contrastes fluindo, subindo
Cães peregrinos do partido tísico, descendo
Vetor inerte de Kali, deus em seu coração, subindo
Não vejo nulidades, apenas simpatia cadavérica
Sapo subindo, olhando para cima, o que viu?
Não foi o escopo celestial, mas
A bota que o destruiu.
A roda dos autos, aparato mecânico, descendo
O pó de ébano, subindo
Água de bica escorrendo, ponte de madeira sobre o riacho e depois
O séquito fúnebre do menino afogado, descendo
Para o jantar à beira do lago
Onde o sol marca-lhe o rosto, subindo
Velhos amigos subindo, outros,
Tão novos, descendo
Pergunto que está fazendo?
Traçando o obstinado caminho
Mas me diga, foi eu que me tornei telúrico
Ou foi o sonho que se firmou inconclusivo?
Ademais, futuro, lembra-te do nome:
Abril rasteja na minha memória e
Às terças faço-me de iogue e
Sinta-se em casa, subindo e
Preparei-lhe um ótimo jantar: camarões, ostras lagostas e
Um enxame de vespas vem ai e
Puídos e sujos é lamentável ver isso nesse estado e na minha frente e

é engano doutor eu não estou doente
não estou, não estou, não estou
loucos? diziam: dê-me a tez do dinheiro
eu não quero dinheiro, eu rasgo dinheiro
e não é por isso que eu sou louco
Ah... a chuva vem vindo, vem vindo, vem vindo
E com ela o dínamo, atrás, subindo
Antelogo que o tempovoe; face trajando puro para o noroeste
E pago pecados à Deus, até ali atrás, adeus, pago pedaços...

Todos caminhos levam ao mesmo lugar, subindo
E eu não subo mais este pilar
Ir à casa de Madame Outono
Está fora de cogitação.
Grito, estou ótimo, disfarço o hálito,
Olho para o céu e uivo feito um cão
E penso em contar a história sem Eu,
Mas falho desde o primeiro fio de cabelo.
Não posso mais fazer parte disto.
Queiras vós ficar deitado, de olho no teto
Enquanto Madame Outono faz contigo
Aquilo que bem entender.
Desisto, por fim, o mundo é inquieto!
Nunca vou me acostumar com tal constatação.
Não me importa o tempo.
Que é o amanhã, se é hoje o momento da dúvida?
Que é o ontem, se é agora a hora da morte?
A história do tempo faz tanto sentido quanto
A história do Eu: findados no primeiro fio de barba!
Atrás da linha do trem vem a dose diária de ópio,
Finda a tarde e mato as moscas no meu quarto,
Acendo velas e incensos para Madame Outono, e, por fim,
Deito no catre pensando morrer
Mas para fins de efeito,
Dormir é mais que necessário,
Porém nunca suficiente.

Pego nessa estagnação artificial, não penso sair
Não penso pensar, penso irrestrito, mas não consciente.
Da mesma forma que o afogado não pede
Outra dose de água salgada,
Eu não peço sentido, não peço razão.
Se os iguais, por iguais, se fazem além,
Para o além vão as almas partindo
Porém, caindo, se faz um alguém
Que no caminho acabou se perdendo:
Meu corpo, aparente, se fez, descendo;
Minha alma, máquina, se faz, subindo.
289

miserável terra que chora

era o tempo quando eu olhava o mar
da quarta grade da gaiola,
que eu era, de fato, pura e genuinamente feliz
no tempo em que eu acreditava em amor
meu Deus, faz-me este milagre
pois quero acreditar em qualquer coisa para me livrar
da inocência desse mundo.
o sol posto em poente ao meio dia
escurece meus olhos quando olho o olho do céu

uma tísica moléstia pegou meu coração
roto de maldade, está mais pesado
que o operador da balança; jamais, protesto, jamais
café frio? escute, joga na pia, a estante caiu? então levanta
quem é você? sou uma mulher, antes fosse lua pálida no céu
canto de sirenas dentro da pia, apaga-te, apaga-te ágape de fogo
e houve luta, assim disseram, até demais
vendo-me no espelho, vejo um corpo fraco e suscetível, porém
até lá, vou caminhado pelos meridianos fazendo o sinal da cruz
me dê papel e caneta, preciso escrever!

não mato, não morro
não vivo de novo
não choro não sangro
não fico sozinho
não finjo solenidade ou simples preocupação
não canto não grito
não ignoro esta parede babilônica 
bem na minha frente, graças a Deus, e anos antes também
nimrode passeando
nu na avenida champs-élysées
na miserável terra que chora,
em campos elucidados de razão sem fim,
se fez o tudo e o todos
e todos titãs passeavam na alameda san rafael
e marcavam de se encontrar no passeio público
para fumar com todos os santos e depois
tomar uma xícara de café.

enquanto francesas solícitas serviam o imperador,
floresciam todas as flores na tarde derrocada;
que postas, então, em fortuna intocada
juntamente com a sombra da alma amada,
e o grito de uma mulher desesperada,
ouviram o brado retumbante e aclamador
vindo de uma boca una e santificada
anunciando outra vez uma história inacabada,
a inefável voz de Cristo redentor
544

Doidos e desonestos

Ergueu-se então, emérito eflúvio;
Partiu, portanto, pós a parva pressa.
Manteve-se marginal ao monstruoso monolito.
Chegou correndo, cerceou o campanário e
Iluminou, inquieto, incontáveis igrejas

Asteroides, asteroides! Eu viajei soturno
Numa rocha lápis-lazúli nauseabunda
Movida em piloto central-automático

Acácio quiquié traste informe, ali vem dois
Mais duas e uma porção, uma ajudinha
Amigo, é pra loucura a gente tafim, loucura, é, beleza
Acácio quiquié já foi, já fui, a bem

Doudos, diziam ex vi juris et legis, ut
Respondi Ord. liv. 5.º, tít.48: Dous por cento!
Continuaram, nom est disputandum, entendeu?
E ainda ab irato nom est disputandum.
Prossegui inimico est suspecto judice, não entendo José, por favor, pare!
Ouvi um suspectus et caricator judex, e O
Corpo e O Sangue de Cristo, Rei, Olhai!

Em áureos cenários verdejantes
Iluminados à luz de pirilampos
Crescem tácitos e flamejantes
Os sacros lírios dos campos!
526

Certamente, mais do que nunca

Saber quem estava certo, nesse caso,
Mostrou-se de assaz importância para o tal do sujeito.
Porém, apenas a terrível ideia de estar, de
Ser alguém, ali no momento, de fato, o incomodava.
O sujeito era de um tipo,
Desses que não se explicam,
E morrem de medo de estarem errados o tempo todo.
Na verdade era improvável:
Ninguém poderia dizer;
Ou sorria, ou chorava, jamais descansava o rosto.
Queria ter a cor do sal na ferida,
Queria respirar, mas estava envolto em volúpia e tirania;
Lá estava ele, pobres dos que foram ver!
Fazer tais exigências não significou nada.
Tudo se resolve no tempo
E o tempo é o mundo
E o mundo é inconstante
541

Comentários (3)

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CORASSIS

Parabéns pela tua poesia !

Thaís Fontenele

Gostei muito da sua escrita, magnífico!

petit_bateaux

voce eh fera dms, vamos ser amigos ?