Lista de Poemas

MARÉS DE SAL

Chegaste suave e leve como a brisa do ar

Desenhaste sem aviso crianças na minha mão

 

E minha alma louca por te encontrar

Pousou lentamente no teu coração

 

Nesse coração de jardim florido

Pegaste numa flor sem pressa e a tua vida pousou para me amar

Doce e lentamente na minha alma cheia de mar

 

Em revoadas soltas por leves asas brancas

Por entre dunas crescidas, feitas por ventos do norte

Em palavras floridas, por juras de promessas santas

 

Por búzios lançados em laços de amor de pulseiras da sorte          

Por pisadas frescas marcadas há beira – água

Por feridas sem dor e por dor sem mágoa

 

Agora bate lentamente esse coração enfraquecido

O dissídio angelical dissolverá numa harmonia diva

A angústia na hora pensativa no olhar tristonho e envelhecido

 

Sem ti sinto-me velho na vida ou novo sem alegria

E esse teu ventre está oco de filhos que não vêm mais,

Tenho o frio do teu Inverno, numa herança de letargia

 

De letras surdas e trémulas, sufoco no inferno de escrita rouca

Sinto que as minhas mãos vão perder o cheiro do tempo de serem por ti tocadas

E os meus lábios vão sofrer por selar o teu sorriso na minha boca

 

Tens ainda aqui o coração deslumbrado,

À espera das mil coisas que tens para dar

E um desejo infinito de tocar o passado,

 

Amar, viver, morder no tempo, gritar um não

Exaltas a revolta no eco impotente desse grito décuplo,

Que se esbate no tempo empíreo que te dão.

 

Um doce esquecimento, um salgado gosto no chorar

Nada importa neste percurso amargurado,

Tu és o rio doce, que corre no meu mar

 João Murty

325

MULHER MORENA

Mulher pequena, tranquila

De traço moreno vincado

Olhares de ferro que abri

Água dura derretida

Consciência entendida

Certeza de estar aqui

Olhar de memória parado

Olhar vidrado partido

Lábio de fogo acobreado

De gosto saboreado

Amargo, doce que senti.

 

Mulher grácil, morena

O amor não tem segredo

Amar vale sempre a pena

Ama-te a ti sem medo

Sem gestos perdidos

Sem frio e sem mágoa

Eu guardo e tenho na mão

A corrente do teu coração

Quando para ti dizeres

Eu quero a vida solta

E se assim o entenderes

Eu dou-to de volta


João Murty

349

FLOR DE QUERUBIM

No teu Jardim de querubim

onde nasce o bem da existência

e a eternidade se funde na ausência

flutuam auréolas de prata e cetim.

 

Nesse jardim da ilusão

há poetas e poesias,

profetas e nostalgias,

uma estátua de marfim,

um jardim lendário,

um solitário jasmim,

com perfume imaginário.


Há sonho, magia, canto e prosa

um segredo indecifrável,

de uma diva e  uma rosa.

lendas intangíveis, mas tão sensíveis

gladiam o inóspito e o áspero

juntando fragmentos miscíveis

que fervem na  palma da mão

histórias lindas, mesmo que findas

pra sempre ficarão.

 

No teu Jardim de querubim

habita a lenda da flor que chora,

lágrimas de um triste fim,

gerado por um amor prematuro,

sucumbi-o à desilusão e foi embora,

não à bem que sempre dure

nem mal que não salte fora,

foi o corpo da bela diva, a solidão e o momento

um segredo corrompido, na paixão e  amor

uma traição, um gemido, um lamento

o triste chorar sentido,

no canteiro da rosa em flor

comunga da sua dor nas pétalas caídas ao vento

na quietude do silencio, no chão jaz o odor

o orgulho ferido, o despeito revolvido

e marcas no sentimento.


João Murty

760

FRAGMENTOS I


Fragmentos de poesia, 
grito de alma, triste e atormentado, 
oprimido, na coletânea de silêncios 
que se amontoam no mundo da utopia. 
Silva no ar, um ronco prolongado, 
ponte de  tédio do ontem e do agora, 
martelando frases numa obra abstrata, 
enigmática sem rosto, decantada na magia 
mensagem de fantasia, vandalizada e jogada fora 
  
Utilizada, caída, esquecida debota no tempo, 
como suspiros que jazem no chão da noite, 
 esmagadas no interlúdio ignóbil do pensamento. 
  
João Murty
297

REENCARNAÇÃO

Percorro as linhas da vida, em contagem decrescente

Como um foguete lançado na vastidão do universo

Vivo nesta escuridão, carregado de culpa só e penitente

Morro e ressuscito, como uma força fluida no tema deste verso.

 

Raspando as entranhas do tempo, com a culpa que me domina

Num tempo sem horas, onde o pó da memória não pára de correr

Suave em mágica espiral, vaie-se amontoando em forma de colina

Esculpindo no destino, o percurso que me cumpre percorrer.

 

Neste vale das almas, em que o passado é presente na lembrança

Findo o tempo do peso do meu karma, minha alma liberta o medo

O anjo - guia canta e clama às almas, desabrochando a mudança.

Num parto prematuro, num corpo de menino, reencarna mais cedo.


João Murty

482

FRAGMENTOS - ALQUIMIA DO TEMPO V

Recordação angélica,

telepatia da nossa história.

Eco longínquo que ressoa,

do momento do reencontro.

Um fogacho cadente,

no tempo e na memória. 

Vou reinventar-te. Fazer o teu sorriso

com afetos de alquimia.

a batida do coração

ao ritmo do bolero de Ravel.

duas raspas da tua alma,

num poema de Brel,

tempero com sol e lua,

decanto com a luz do dia.


Descompasso-me no silencio serene

respiro o ar da magia do  teu mundo,

numa viagem mutável de respeito perene.

No infinito me isolo, concebo, fecundo .

 

João Murty

 

358

TENPOS DE INQUISIÇÃO

Cruzadas, Templários, Cavaleiros de Malta, Inquisição

Loucos foram os tempos e duros foram os anos

Ordens de fé costumes profanos que adulteram a religião

Em atos de crueldade de quem pode e causa danos.

Sagas da desgraça, que se mata por fé, por raça e por pavor

Por ordens cruéis, dadas por qualquer senhor da corte dos infernos

O ar queimado por gritos dos mártires, roucos de dor

Perfilam-se na agrura dos lares desfeitos por ódios paternos.

 

Instrumentos de tortura, grilhões partidos, foles ardidos

Em sinais de espera, dos cães de guerra dos mundos perdidos

No tempo das sombras, de rezas de bruxas, de padres e algozes

De nobres da corte, por vontade sua, travam na rua duelos ferozes

O tempo de caos, sacrificado e dolorido, amarga no desgosto

Em caras marcadas esgaces de horror, estampado no rosto

Peste nauseabunda em corpos frenéticos de transpiração

Das chagas da lepra, dos sorrisos imundos da decomposição

Fogueiras de corpos, gemendo gritando, para morrerem de pé

Caídos e erguidos, são queimados vivos, pelos falsos da fé.

 

Tempos que pariste homens perversos, loucos sem compaixão

Vingando na maldade e matando em nome da Santa Inquisição

E, no final, nem vencedores nem vencidos, nem honra nem glória

Apenas uma nódoa no passado, que marcou uma era da nossa história

Nascida no fanatismo da religião, que envergonhou o nome de Deus

Sinais dos tempos, que se encontrem reluzentes em alguns museus.

João Murty

302

JARDIM DE QUERUBIM

 

No teu jardim de querubim,

Auréolas de seda pairam no ar

Sussurrantes, tremem banhadas de luz

Ritmados, na batuta do delfim

Asas de anjos tremulam no esvoaçar

Palpitantes nos seus corpos nus

Sorriam por entre as flores do jardim

 

Ressoa notas cristalinas do clarim

Onde nasce o bem da existência

E a eternidade se funde na ausência

Presa na imaginação que coloris

A Via-Látea abre uma porta

Com as cores do arco-íris

No teu jardim de querubim

 

Venho do fundo remoto do tempo

A Esperança não sucumbe, ela não cansa

Não tenho tempo a perder

Bate nela a minha crença

No tempo sem horas no tempo sem fim

Abalam sonhos nas asas da descrença

Criam-se sonhos nas asas da esperança

Por penas aladas de querubim

 

Só queria ser um arcanjo

Sentir um amor exclusivo

Condensado nas normas celestiais

Flutuar no pecado abrasivo

E chorar por todos os demais

Sorrir quando o sol perder a luz

Sentir a sombra do corpo de anjo

Nas asas que transporte a minha cruz.


João Murty

310

AURORA BOREAL

Eu vi o sol nascer rompendo o horizonte numa aurora boreal

Aurora deusa benigna estende teus braços e sara este meu mal

Luz angélica exultante, que singra entre os escolhos

Aquece a alma de quem padece e seca o sal dos meus olhos.

 

Ó escuridão faminta e tenebrosa

Que te alimentas das entranhas do medo

Massacras com arte vagarosa

A solidez do meu rochedo.

 

Escuta, vem chegando a aurora boreal, luminosa e graciosa no seu andar

Sem arautos nem pasquins, traz no rosto de criança um sorriso de sonhar

E no seu manto de jasmins de fundo em ouro e marfim, vêm anjos cantar.

 

Ecoam doces melodias, estrofes, odes, sonetos nesse coro matinal

Senti naquele momento, que a força do pensamento de forma clara e real

Fundia-se suavemente, num estado omnipresente, na aurora boreal

João Murty
309

ESTRELA D` ALMA

Desde esse dia adverso à sorte

Observo à noite o Céu, por entre as nuvens sombrias

Apressadas, correm, escuras enigmáticas como máscaras da morte

Entediadas por um véu chuvoso, sórdidas frias e doentias.

 

Procuro por entre essa constelação

Resposta à minha alma, perpetuada em visões nubladas pela demência

Sedimentada na angústia de um vazio e fluida na solidão

A luz de uma estrela em ti renascida, bela e precoce na inteligência.

 

Olho sobre o astro pálido. Mas não te avisto

Vou mais longe, nesse lugar mais alto que a morte

Marcado por meteoros e cometas em rastos de fogo e xisto

Persistindo na rota do sonho e no desejo deste amor tão forte.

 

Vou mais longe, ainda que o sonho sem regresso não te traga

Acordado, pulo, corro pelo trilho infinito azul dos arcanjos

Nos fluxos e refluxos das órbitas das estrelas, continuo nesta saga

Perdido, desesperado por te ver, quero gritar, pedir ajuda aos anjos.

 

Ligado em ti neste sonho eterno que se percute e me acalma

Num orbe que sobe e desce em ponte de suspiros vejo onde vagueias cintilante

Traças o caminho, que apaga a melancolia que bateu à porta da minha alma

Dando um rumo novo à vida, pela visão protetora dessa luz tão brilhante.


J oão Murty

299

Comentários (0)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments

José João Murtinheira Branco nasceu em Lagos no ano de 1954. Graduou-se em Direção Hoteleira na Escola do Estoril, tendo concluído a Pós - Graduação em Gestão e Análise de Projetos e a Pós - Graduação em Gestão Integrada pela Universidade Internacional de Lisboa. O lado humano das coisas, a solidariedade e a justiça, levaram a abraçar com coragem e inconformismo, alguns projetos difíceis.

No período de 1993 a 1998, na qualidade de Diretor Geral de Operações, teve intervenção relevante no processo de recuperação e viabilidade do Grupo Torralta – CIF, que veio a ser adquirido pelo Grupo SONAE.

Ao longo da sua atividade profissional integrou o concelho fiscal de várias empresas e exerceu cargos de direção e administração em hotéis e grupos turísticos-hoteleiros. Cumulativamente esteve ligado á área do ensino e formação tendo lecionado no CFA – Pontinha, a disciplina de Planeamento e Controlo. Na área da consultadoria desenvolveu vários trabalhos no âmbito de Estudos, Projetos e Diagnósticos de Investimento e conjuntamente com o prof. Dr. João Carvalho das Neves (prof. Catedrático do ISEG) e com o prof. Dr. Charles Blair (prof. Catedrático da U. Manchester), participou no “Estudo de Desenvolvimento Integrado de Turismo - Ilha Porto Santo.

Em 1997, numa singela manifestação de agradecimento foi agraciado pela Casa do Pessoal do Hospital de Vila Franca de Xira. E, em Março de 2010 foi homenageado pela ADHP (Associação dos Diretores de Hotéis de Portugal), com o PLACA CARREIRA distinguindo o profissionalismo colocado ao serviço da Indústria Turístico - Hoteleira.

A leitura esteve sempre presente na sua vida Tem como autores de referência Pessoa, Bocage, Florbela, Poe, Quintana, Drummond, Aleixo, Mário de Sá Carneiro.

Gosta de futebol, golfe, mar, e do seu próprio espaço para escrever.

Em relação à vida, entende que é uma caminhada num processo cíclico de evolução. E que tudo é efémero, nada mais prevalece para além da aprendizagem dessa caminhada.