Lista de Poemas

PAIXÃO DEVOLUTA

Tanta loucura, tanta paixão
neste amor prematuro
não á bela sem senão
não á bem que sempre dure
nesta vida transitória, deste triste coração
não sei se fostes ilusão ou ansiedade,
um déjà-vu ou uma realidade. 

Um silêncio, um olhar.
o ensejo do primeiro beijo,
uma história, um desejo,
nada fica, nada resta,
nesta agonia da tarde,
num amor podre que não presta,
o meu lume por ti já não arde.

Nesta minha partida,
já não sei o que sei,
já esqueci se te beijei
no adeus da tua ida,
fiquei mudo, fiquei surdo
quando a mentira se espalha,
a nau parte ou encalha
nas histórias de conveniência,
que me disseram quase tudo
e os silêncios da tua ausência,
mataram um amor, parco e devoluto

Que outros braços te apertem,
e outros afetos ,beijam essa boca de rosa e lume
que sintam o odor do teu perfume,
onde a volúpia do desejo, mata a lealdade,
tudo se apaga ou fica na memória,
desvanecendo-se aos poucos na sanidade,
amortalhando a desilusão, na serena realidade.

João Murty
302

FRAGMENTOS II


Vasculho na inercia a soberba, fútil e ingrata 

esmagando num sifão, o grão da alquimia, 

mesclado num tempo que não tem hora, 

perdura  os  amores e dores que me afundo, 

aguardando a hora de morrer. 

Em vácuo eterno me esvaio disperso

como o alento final d'um moribundo, 

momento jucundo! Queira a morte aparecer  

eu  aguardo, como o último suspiro do universo. 
  


Ferrado na pele, roído e flagelado no sentimento, 

perdido na dormência de tanto me encontrar perdido, 

desfaço o cansaço, que bloqueia o pensamento. 


João Murty
294

VELAS DE MAR QUENTE

Trago comigo o silêncio, comigo mora o passado

Nubladas de angústia no pensamento, cerrado Impérvio anunciado!

Um místico sofrer fadado de censura, só em penitência permanente

 

Lembranças fugazes parcas de ternura mitigam as esperanças que persistem

No mar de razões mal-amadas, corroído por tempestades que ainda existem

No espaço sideral deste tormento, vivo a nudez das palavras assombradas

Véu tenebroso que perpétua na história alada de metáforas amordaçadas

Por ruelas escondidas, cenários sombrios de portas cerradas, becos e arcadas

Fragmentos de memórias, dos teus olhos em sentimento

Lágrimas caídas, estarrecidas no chão da noite escura

Por entre pedras e ruínas, rolam vencidas ao sabor do vento

Momento inteiro, instante único no adeus da desventura

 

Volteio no leito estreito onde me deito, melancólico triste e fatigado

Medito na imagem retida, das lágrimas dos teus olhos

Adormeço num sono profundo, que se agita perfumado

Salto no imaginário, pulando numa orbe de estrelas e de astros

De velas ao vento navego solitário, por entre a caligem da saudade

Minha alma presa em flor fia a dor na ponta alta desses mastros

Emérito de júbilo coração de amor, na voz que por ti chama e por ti luta

Por intrínseca vontade de outro valor, num frémito vibrante de ansiedade

Encontra a inocência absoluta do instante, dessa tua dor que em mim perscruta

 

Emérito de júbilo coração de amor, na voz que por ti chama e por ti luta

Por intrínseca vontade de outro valor, num frémito vibrante de ansiedade

Encontra a inocência absoluta do instante, dessa tua dor que em mim perscruta


João Murty

313

NOITE DE ESPIRITOS II

Onde estás? Por céu, por mar e terra de procuro

porque me abandonaste e me enches de solidão

só apenas me resta as tuas histórias de perjuro

e o bruar do eco da voz, que ecoa na imensidão

uma voz doida, que chora, que grita, que clama

 rouca e fraca, por chamar por quem ama.

 

Paira na noite, sombras da mentira ou a verdade?

o eco devolve o som do vazio que me afasta

corroído na dor de uma alma doente que passou

vagueiam os  beijos de volúpia e maldade

flagelando o silêncio que me domina e me mata

 

No vácuo eterno em vão te busco sem te achar,

Introspetivo, também me procuro…sem me encontrar

 

João Murty

300

FRAGMENTOS - ALQUIMIA DO TEMPO II

Batem asas de anjos nos meus ouvidos,

sinto na minha pele

o aroma do teu perfume.

Sinto na minha,

a tua boca rosa de lume,

estrebuchando a alma,

despertando os sentidos.

Transformo os sonhos

de tormentos e dor,

reinvento-te por entre o tempo perdido,

apagando o fogo,  

em lagrimas de amor,

moldando o meu desejo ao imaginário

dou-te a forma do caminho percorrido.

Retenho no meu o teu espirito celeste,

soletrando a palavra desejo incendiada.

Nos teus seios, jaz a ampulheta cinzelada,

areias de tempo acariciam teu corpo agreste.

João Murty

 

361

MANHÃ DE AMORES

As estrelas virgens vão partindo

Piscando os olhos num ar matreiro

Para a manhã que vem chegando

Sonolenta e molhada de nevoeiro

 

Manhã envergonhada que no azul cinzento

Se perde num ócio de amanhecer

As estrelas já partiram no firmamento

E o sol estende os braços para nascer

 

Lavada pela luz benigna e triunfante

Sorri para o céu com amor

Saúda esse astro dominante

Que a visita com calor

 

As horas vão passando soalheiras

Pelos bosques e cumes arraigados

E a Manhã, vai-se furtando de mil maneiras

Às ordens dos deuses arreliados

 

Manhã jovem, de ar matreiro e angelical

Não vês que a luz da tarde já tremulava

É tempo, de outros tempos, afinal

E a Tarde na penumbra, cochichava.

 

Viver junto de ti justos amores 

Ao sol que desponta nova aurora

Receber dos deuses mil favores

Beijar teus lábios sem demora.

 

E partir, só ao fim do entardecer

Desprender-me num desejo de ficar

Ver Vénus no princípio do anoitecer

E amar-te, como a Tarde sabe amar

João Murty

317

UTOPIA I

Mascara de olhos verdes de sorriso

 rasgado e denso

Resplandecente como ouro

de alquimia em fusão

Mascara de aroma,

magia inebriante como o incenso

Incandescente,

penetra no meu sonho de ilusão.

 

Com quanto ardor,

este sonho de reclusão me enleou

Em noites de chamas bruxuleantes,

neve branca misteriosa

Por onde andais?

Busco-te no silêncio do êxtase

que me embebedou

Procuro no recôndito da mente,

aroma fértil da noite voluptuosa

Dos recantos escuros,

esbate-se visões diluídas por bruxedo

Doces noites de desvelo!

Riso de uma mascara sinuosa

Vida, encanto, viagem no segredo,

traços nublado da tua imagem virtuosa.

 

João Murty

312

NOITE DE ESPIRITOS I

Foi a noite mais louca

de todas as noites

 

Invoquei, chamei, e tu chegaste……….

 

Num vórtice de luz, brincando, escondendo

ondulando na escuridão, em vagas de desejo

sombras fugazes, longas esbranquiçadas,

lábios alvos sequiosos bebem na imaginação

dois vultos catalépticos, presos num beijo

correria etérea, num espaço sombrio em negra magia

rumores, suspiros cadenciados reabrem a ilusão

um estrebuchar bruxuleante, de prazer maldito

condensando o tempo, até ao romper do dia

nas asas do querer, voei alcançado o proibido.

 

Foi a noite mais triste de todas as noites

 

Eu pedi, insisti, mas tu não ficaste……….

 

João Murty

318

INSENSIBILIDADE DO CAOS

 Estava o homem no princípio…

Não vendo que ali ao lado, a fome habita e tudo se agita em ansiedade
Mas ele de olhos abertos esconde as mãos tapando a verdade.

Parte-se o cordão da harmonia
É solta a besta que em seu desejo
Sacia a fome no seu frio beijo
Em ondas de crueldade e mordomia

Soprando a terra com ar revolto, o vento gélido em céu que arde
Sem rumo, sem destino, como um gigante que acordando tarde
Segue a saga das profecias, nas profundezas de Babel
Actor sinistro e cruel, que no desempenho do seu papel
Vai calando os risos humanos, fracos sem substância
Que numa patética ignorância, em ânsia de bem viver
Vão destruindo o que resta e pouco ou nada há a fazer.

Estava o homem no princípio…

Da vida me alheei, obscura monótona. Raspo uma mão cheia de nada,
Com sacra flâmula abunda a miséria e os horrores da fome perdura e não acaba
Do rito obsceno do dia-a-dia gela o frio e o medo não tem horas nem morada.

Ancestrais profecias primitivas
Num cenário de holocausto adiado
São palco de um critério malfadado
Dos genes, maléficos narcisistas

Pensamentos de fé mitigados
Olhos cansados, profundos angustiados
Trazem imagens de óperas alucinantes
Dos vícios e tempos desesperados.

Funde-se a luz num eclipse
Devorando o bem que pouco resta
Resto de um mundo podre, que não presta
Prenúncio da hora do apocalipse

Remorso, que queres abraçar o céu num gesto fraterno
Absorve em ti, toda a dor do universo
Já não mora aqui o poeta eterno
Partiu na demanda deste triste verso.

Estava o homem no princípio…

Eterna Deusa da poesia, que não seja o princípio do fim
Não amortalhes a luz perdida, canta e declama sobre as almas
Porque a força e sensibilidade dos teus poemas, é o querer, é um sim,
Penitencia este tempo, onde o remorso já se senta nas noites calmas.
Num gesto de amor, bebe o cálice do mal, exorciza tanta dor,
Nos teus jardins de pedra em doce esquecimento da oprimente vida
Colhe a flor do desespero estende o áureo escudo de deusa maternal
Ao som da flauta da harmonia sepulta o holocausto no mar do sal.
Amortalha o vendaval e a dor ingente se esfuma no lado escuro do vento.
Talvez as mentes se abram e a luz da poesia seja a génesis de um novo alento.

João Murty
310

AMOR PERDIDO

Procuro-te e não percebes quem te procura

Neste sonho, que percorro sem alento

Pelos recônditos da noite fria e escura

Nas memórias dolorosas do sentimento

Ébrio de amor, sonho e penso em ti

Mastigando palavras que já ouviste

Entre um cigarro e o álcool que já bebi

Revivo, esse momento em que tu partiste.

 

Quero cismar e viver num desafogo

Sentir nas entranhas como um bálsamo entornado

O calor do teu corpo e a doçura desses lábios de fogo

Num gosto suave de quem ama e é amado.

Quero entrar no teu mundo e viver essa vida louca

Quero de novo, dormir em segredo contigo

Quero o assombro do teu rosto e a ansiedade na tua boca

Quando o sim for a Fénix de um sonho antigo. 


João Murty

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José João Murtinheira Branco nasceu em Lagos no ano de 1954. Graduou-se em Direção Hoteleira na Escola do Estoril, tendo concluído a Pós - Graduação em Gestão e Análise de Projetos e a Pós - Graduação em Gestão Integrada pela Universidade Internacional de Lisboa. O lado humano das coisas, a solidariedade e a justiça, levaram a abraçar com coragem e inconformismo, alguns projetos difíceis.

No período de 1993 a 1998, na qualidade de Diretor Geral de Operações, teve intervenção relevante no processo de recuperação e viabilidade do Grupo Torralta – CIF, que veio a ser adquirido pelo Grupo SONAE.

Ao longo da sua atividade profissional integrou o concelho fiscal de várias empresas e exerceu cargos de direção e administração em hotéis e grupos turísticos-hoteleiros. Cumulativamente esteve ligado á área do ensino e formação tendo lecionado no CFA – Pontinha, a disciplina de Planeamento e Controlo. Na área da consultadoria desenvolveu vários trabalhos no âmbito de Estudos, Projetos e Diagnósticos de Investimento e conjuntamente com o prof. Dr. João Carvalho das Neves (prof. Catedrático do ISEG) e com o prof. Dr. Charles Blair (prof. Catedrático da U. Manchester), participou no “Estudo de Desenvolvimento Integrado de Turismo - Ilha Porto Santo.

Em 1997, numa singela manifestação de agradecimento foi agraciado pela Casa do Pessoal do Hospital de Vila Franca de Xira. E, em Março de 2010 foi homenageado pela ADHP (Associação dos Diretores de Hotéis de Portugal), com o PLACA CARREIRA distinguindo o profissionalismo colocado ao serviço da Indústria Turístico - Hoteleira.

A leitura esteve sempre presente na sua vida Tem como autores de referência Pessoa, Bocage, Florbela, Poe, Quintana, Drummond, Aleixo, Mário de Sá Carneiro.

Gosta de futebol, golfe, mar, e do seu próprio espaço para escrever.

Em relação à vida, entende que é uma caminhada num processo cíclico de evolução. E que tudo é efémero, nada mais prevalece para além da aprendizagem dessa caminhada.