joaquimms

joaquimms

Perfil
1 789 Visualizações

ÁRVORES CADENTES

O pai acompanhava-te em passeio
por um carreiro de árvores cadentes,
refúgio que não toldava o receio,
lugar onde vão parar os poentes.

Conseguia dizer-te que fermentos
forjam nas memórias o reduto
para onde se escoam os pensamentos,
num ritmo irreversível, absoluto.

Conseguia dizer-te as trovoadas
que destroem com lentidão o corpo,
que tornam difíceis as alvoradas
e fazem demorar o olhar absorto,
conseguia dizer-te com brandura
como invocar a saudade futura.
Ler poema completo

Poemas

3

Coroação de cupidos

Vivemos em fértil escravidão,
deixando um rasto de poemas mortos
no espaço onde tombou a solidão
dos nossos sonhos e dos nossos corpos.

Escutamos o som de um céu proscrito
a cair sem sentido sobre nós,
parece que o sangue lento de um grito
se esvái da voz de uma ferida atroz.

Coroamos cupidos com a morte
num altar de arquitectura sinistra,
bordada por uma abóboda torpe.

Ao vazio feito de luz desmanchada,
oferecemos de forma imprevista
o que definha depois da alvorada.
121

Herberto Helder

Também a morte intercepta o poeta
e tolda-lhe a voz de vasto profeta,
sobrevivem os versos abundantes,
filhos aúreos dos férteis amantes
que foram Herberto e a poesia,
casal que, em vertigem, se consumia
num abraço de cosmos incessante,
criando o universo a cada instante

Num rodopio de harpas verdejantes
fechaste o poema invicto, viral,
o fluxo de palavras fulgurantes
calafetadas com um corpo astral,
deixaste de ser o pródigo intruso
que roubava liras ao céu difuso.
129

Jardins de Lisboa

Passeiam amantes pelos jardins
onde Lisboa de verde se vestiu,
eles planeiam discretos festins
para o adultério que floriu.

Observam a magnífica cidade,
as colinas quase multiplicadas,
à luz da paisagem a lealdade
das almas infieis e apaixonadas.

Consorte secreta deste casal
que se uniu sem lei convencional,
Lisboa abençoa o desejo livre.

Ao vosso abraço de intocável cor
apenas se insinua, sedutor,
o azul do Tejo que no longe vive.
179

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.