Lista de Poemas

ÁRVORES CADENTES

O pai acompanhava-te em passeio
por um carreiro de árvores cadentes,
refúgio que não toldava o receio,
lugar onde vão parar os poentes.

Conseguia dizer-te que fermentos
forjam nas memórias o reduto
para onde se escoam os pensamentos,
num ritmo irreversível, absoluto.

Conseguia dizer-te as trovoadas
que destroem com lentidão o corpo,
que tornam difíceis as alvoradas
e fazem demorar o olhar absorto,
conseguia dizer-te com brandura
como invocar a saudade futura.
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Ausência

AMAR é não renunciar ao que está certo,
UNS desistem pois temerosos estremecem,
AOS desejos que sentem, de peito desperto,
OUTROS mais seguros e pensados acrescem.
PREZA mal quem de excesso nulo se alimenta,
O prazer devassando e alguém magoando,
TEU consorte iludindo por sede opulenta,
PRÓXIMO de ti somente a luz rareando.
O amor, através da claridade, ressurge,
SOL que revolve e pelo brilho as trevas cala,
TURVA-SE o degredo por onde a cor não urge,
NA paisagem mais clara descobre-se a alma:
SUA forma sem luxúrias nem receios,
AUSÊNCIA de ambições que ensombrem anseios.
223

Coroação de cupidos

Vivemos em fértil escravidão,
deixando um rasto de poemas mortos
no espaço onde tombou a solidão
dos nossos sonhos e dos nossos corpos.

Escutamos o som de um céu proscrito
a cair sem sentido sobre nós,
parece que o sangue lento de um grito
se esvái da voz de uma ferida atroz.

Coroamos cupidos com a morte
num altar de arquitectura sinistra,
bordada por uma abóboda torpe.

Ao vazio feito de luz desmanchada,
oferecemos de forma imprevista
o que definha depois da alvorada.
98

Jardins de Lisboa

Passeiam amantes pelos jardins
onde Lisboa de verde se vestiu,
eles planeiam discretos festins
para o adultério que floriu.

Observam a magnífica cidade,
as colinas quase multiplicadas,
à luz da paisagem a lealdade
das almas infieis e apaixonadas.

Consorte secreta deste casal
que se uniu sem lei convencional,
Lisboa abençoa o desejo livre.

Ao vosso abraço de intocável cor
apenas se insinua, sedutor,
o azul do Tejo que no longe vive.
155

Olhos de fogo fingidos

OLHOS plurais de um rosto singular,
DE traço púdico e trejeito ardente,
FOGO feito por gesto bipolar,
FINGIDOS ficam se olhados de frente.
TOCAM o centro da melancolia,
A sua carne que é treva dobrada,
NOITE contorcida, penumbra esguia,
ANINHADA na foz da madrugada.
ENTRE homilias ternas, clandestinas,
OS anseios crescem, são corpos crentes,
AMANTES de orações quase divinas.
Eles seguem-nos, furtivos, urgentes,
fulguram nos olhares que trocamos
quando em segredo nos encontramos.
204

ÁRVORES CADENTES

O pai acompanhava-te em passeio
por um carreiro de árvores cadentes,
refúgio que não toldava o receio,
lugar onde vão parar os poentes.

Conseguia dizer-te que fermentos
forjam nas memórias o reduto
para onde se escoam os pensamentos,
num ritmo irreversível, absoluto.

Conseguia dizer-te as trovoadas
que destroem com lentidão o corpo,
que tornam difíceis as alvoradas
e fazem demorar o olhar absorto,
conseguia dizer-te com brandura
como invocar a saudade futura.
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Herberto Helder

Também a morte intercepta o poeta
e tolda-lhe a voz de vasto profeta,
sobrevivem os versos abundantes,
filhos aúreos dos férteis amantes
que foram Herberto e a poesia,
casal que, em vertigem, se consumia
num abraço de cosmos incessante,
criando o universo a cada instante

Num rodopio de harpas verdejantes
fechaste o poema invicto, viral,
o fluxo de palavras fulgurantes
calafetadas com um corpo astral,
deixaste de ser o pródigo intruso
que roubava liras ao céu difuso.
112

Instante


Aqueles olhos podiam ter sido
as sementes de um amor importante,
mas o agoiro por eles prometido
perdurou somente por um instante.
Permitiu o acaso que a vislumbrasse
em evento efémero do destino,
de um outro futuro encontrei a face,
símbolo vindouro desvanecido.
O tempo, com diversos argumentos,
tenta negar-te mas dele discordo,
ainda te penso, ainda te recordo,
na memória sobejam os fragmentos
desse dia que, sem qualquer razão,
ficou num recanto do coração.
221

Ao ficares no passado

 Ao ficares no passado,
 no fosso do que foi perdido,
 essa reentrância escavada
 por algozes minúsculos
 mas persistentes,
 pertences a uma peça de teatro
 onde os espíritos se acumulam
 por entre adereços adiados,
 estás num palco e contracenas
 com actores putrefactos.
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