Desenho o esboço do teu corpo do meu modo na minha forma, não mais que traços pequenos detalhes que apenas eu sei e os teus olhos me ensinaram; os traços são ténues linhas finas palavras linhas de uma vida redonda doces cumplicidades entre o que sei e o que me tatuas, tingido, marcado no desenho raso e pleno como te tento descobrir
não me apazigues esta fome não me consoles na falta dos teus braços das palavras sussurradas de te morder os lábios e invadir a tua boca do teu corpo decalcado no meu dos teus olhos abertos no prazer de cada olhar não consoles a dor que tenho de ti não ilumines o escuro negro deste espaço oco onde nada cabe deixa apenas que o meu peito rebenta em saudade deixa-me ficar olhando os teus caminhos onde não quis ir do destino afugentado agora que as pedras se agigantam e cada sombra me acolhe num sorriso complacente não digas nada que me faça lembrar os silêncios de te olhar na madrugada dormindo ao teu lado deixa este adeus ser eterno não me apazigues esta saudade
168
Faltas
por entre as sombras da tarde que chegam falta-me o teu perfume a tua nuca perfeita onde aconchego os meus lábios e o teu peito onde amarro os meus braços falta-me o silêncio de nos termos aconchegados e a música que nos mantém colados na tua falta ficam as memórias os ses portas entreabertas por entre a noite que chega fica este frio que me queima o tempo e as palavras que nada podem trazer
149
Dança
se o meu dia regressasse ao lugar onde os meus lábios eram teus e a minha boca procurava a tua nos gestos que a verdade não desmentia se o meu dia não fugisse a esta noite que se estende talvez os meus braços ainda te apertassem e os teus olhos se guardassem nos meus como eu te guardo em cada poema e na memória deste teu cheiro que não desiste e me mantém refém em cada dia adiado em cada madrugada escura
cega
que a tua luz se apagou
147
Dança
na dança das valsas grandiosas é que as tuas asas se alongam e o teu corpo é um flamingo estreito cortando o ar cortando-me a fala danças e o teu corpo é um hino perfeito
145
Luz
se o meu dia regressasse ao lugar onde os meus lábios eram teus e a minha boca procurava a tua nos gestos que a verdade não desmentia se o meu dia não fugisse a esta noite que se estende talvez os meus braços ainda te apertassem e os teus olhos se guardassem nos meus como eu te guardo em cada poema e na memória deste teu cheiro que não desiste e me mantém refém em cada dia adiado em cada madrugada escura cega que a tua luz se apagou
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Agora
Agora que o sol repousou sobre um mar rendido e que as flores se fecharam abraçadas; agora que as bruxas acordam trocando feitiços, e a chuva se esmaga nas vidraças dançando elegante como se o mundo todo chorasse. Agora que te vi percorrendo cada rua com um sorriso generoso nesse rosto inesquecível, e que as tuas mãos se oferecem a outro destino, a outros abraços. Agora que os velhos repousam no esquecimento dos dias doridos e o suor seca por si escorrida das têmporas dos que chegam e já partem, agora que os livros se fecham marcados num canto deixando nas páginas cicatrizes indeléveis; agora que o tempo se esgota num mundo sempre cheio de fins de destinos sem roda, de homens de cátedra e de catres onde os homens se perdem; agora que as mulheres se soltam nas lantejoulas que iluminam as vielas onde a vida se ganha e perde agora entendo que há tempo para sempre ser agora
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As palavras mexem-se sózinhas
É certo que me falta a vontade e a causa de sempre ter vontade de escrever e sentir as palavras que se mexem sozinhas, como se não fossem deste corpo que vai enrugando e enganando o seu dono. Os olhos ardem do cansaço dos dias, porém continuam fitando com a mesma férrea liberdade o que os pensamentos sempre conseguem: - a verdade dos dias, a importuna necessidade que aparece nos filmes e nas televisões, sumários de vidas mais reais e certas, onde nem todos são felizes, nem lindos de arrepiar. Há dias a mais com a melancolia a tapar os joelhos, a obrigar-nos a vestir o casaquinho das aragens vespertinas. Eu estou pronto para o sol, e na minha cabeça, hei-de ser sempre o rapaz e ela há-de ser sempre a miúda que hei-de seduzir, quando lhe bater na porta e sentir o som dos seus passos a crescer de encontro a mim. Nos meus olhos, hei-de ter sempre a minha melodia que é apenas tua, aquela que só eu acho linda e nunca ninguém me ouviu nem sequer um som; é a tua É certo que a escrita pode ser tudo, pode ser catarse e terapia, pode ser solidão e entretenimento, pode ser código e forma de dizer, mas antes de tudo, é a maneira de expressar o que pensamos, sem ser preciso proferir os sons que tornam a escrita um modo diferente de entender aquilo que realmente ouvimos. Abraço cada palavra como a um filho, porque como um filho, é alguém que nasce para um sentido único, a quem damos tudo e depois vemos crescer e viver a sua vida para além de nós. No fim de cada história, de cada texto inventado, fica uma palavra a crescer no peito, como um pequeno vaso repousando no peitoril da janela, esperando a manhã e um raio de qualquer sol, para que cresça tal como a melodia de uma mulher, só cantada e feita para ela, só por amor, que só amor pode pintar as memórias de um homem com vontade de ter vontade.
140
Esboço
Desenho o esboço do teu corpo do meu modo na minha forma, não mais que traços pequenos detalhes que apenas eu sei e os teus olhos me ensinaram; os traços são ténues linhas finas palavras linhas de uma vida redonda doces cumplicidades entre o que sei e o que me tatuas, tingido, marcado no desenho raso e pleno como te tento descobrir