Jorge Santos (namastibet)

Jorge Santos (namastibet)

n. 1961 PT PT

Que fazer, se assombro tudo que faço de medo e a fracasso ...

n. 1961-07-03, Setúbal

Perfil
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Sombras no nevoeiro




(Sombras no nevoeiro)
Sinto que sou um poeta falhado,
E escrever tornou-se uma tarefa
Balofa, à qual me não dou de todo,
Sinto um receio que m'atabafa,
No que digo, como se fosse eu, Rossio
De vão d'escada, fico-me p'las deixas,
Bem lá no meio duma seara de joio,
Aonde se não diferença vultos e névoa.
Não espero troco nem pago de saldo,
Justo por algo que não tem pra'mim custa
Nem apego, julgo que me sinto dividido,
Entre o que digo e o que dizer me basta,
É como é, o reverso e a medalha,
De um lado, vem algo inscrito,
E do outro nada que o valha,
Apenas o dom e o dia de morto.
Sinto que sou um poeta falhado,
Por todas as razões e d'outras,
Apregoo estas de telhado em telhado,
Mas confesso-me cansado d'inventar desculpas,
Pois nem tenho assim tanto de escritor,
Como um louco
Tem, do cajado dum actor,
Ser o seu sólido especo...
Jorge santos (01/2013)
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Biografia

Poemas

23

Cada passo que dou




Cada passo que dou, uma cruz,
A negação é o meu hemisfério,

Misturo delírio e discurso de guerra,
Como fosse o mundo inteiro,

Inteiramente novo, “a sério”,
Sem qualquer relevo clínico,

Cem planícies planas em roda,
Cada passo me dói, igual outro

E outros mil, meço-os p’lo meu
Passar e p’lo que fica pra ficar,

Parado e em ponto de cruz,
Cada passo que dou, não me

Avança, apenas atrasa, traçado
De outra e outra vez, em viés

Ou em movimento d’pendulo,
Enviesado e manso, sem peso

Ou luz, desejo parido na alma,
Que a gente perde de alcançar,

Cada passo damos completa,
Uma pirueta e a impressão

De cadência que sentimos,
Nas pernas, passando uma p’la

Outra, parecendo tocar-se ,
Podendo ser outra coisa, a julgar

P’lo que deixei de viver em
Cada passo que dei, ponto d’cruz

Sem pés. Cada passo que dou,
Uma f’rida “ao tempo”, breve

E um novo sentido para uma vida
Que fede, e que é definido

P’los passos que não dou. O sucesso
Não é aquilo que parece “servir

À partida”, antes uma maldição
Pedestre, o “perder de vista”,

Numa suave, mal parida mentira,
Dos sentidos de General em greve.

 

 

Joel Matos (Fevereiro 2023)

 

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127

Ricardo Reis




Me chame Leonor,
Que eu lhe chamarei
Verdura,

Me chamo Leonel,
Por nenhuma outra
Razão especial,

Senão mesmo
Essa, esse é meu nome …

Sou apenas eu
E só,
Eternamente seu

Circeu … Joan.
Joan Sen-Terra, Ricardo
Reis não,

Não sou eu,
Nem ela.




Joel Matos



Joel Matos (Fevereiro 2023)

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147

A dança continua









A dança continua,

A poesia não morre,
“Nem que a matem”,
Contudo pode ser f’rida
De morte durante o sono,

Com uma bala de prata,
Ou uma vulgar estaca
No lugar do coração,
Tal como faca de abate,

Sem gume, mal afiada.
Desfigurada no rosto,
Sob a máscara da morte,
Não deixará de sair dela

Meu paliativo, minha culpa
De ferimentos, graves
Golpes e da vulgar cura
“Do costume”, não punitiva

Mas bonita na forma prenha
De copo, taça ou de cálice,
Gamo negro, gazela fêmea, fonte
De bruma, poesia não morre,

Não se abate, nem se encosta
À parede, não se consome,
Com os músculos da face, nos
Gestos do rosto redor dos ossos

Considerados breves, brancos
Como ermitas em mármore e aço.
Poesia não morre, “nem que
A matem”.

Jorge Santos ( Fevereiro 2023)

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133

A importância de estar …




A importância de estar presente,
Foi a que eu sempre quis ter, no
Extremo do que nunca vou ser,
Importa o esforço de não deixar

De fazer e do que tarda a vir,
O vencer do desejo, do desejo
De vencer resta a impaciência,
Na medida do comprido do bico,

-De alguma vez ter voz, como sendo
Minha. -A importância – e mesquinho
Eu também, que em breve morrerei
Humilhado, envergonhado sim,

Por não ter, nem qualquer simbólico
Preço, nem valor para indústria a
Granel, no mercado prestamista
Valho zero, nada a retalho, pouco

Sirvo, nada mais que um Bordalo
No fundo da caneca, sendo vinho
De Pias tinto, carrascão corrente,
Bom copo até para padre, na missa.

O importante é ser lembrada breve,
Terminando a homilia de joelhos,
Como homem o normal que a mim
Me obrigo, com princípio meio, fim.

A importância é estar presente apenas
Na expressão plástica de que viver
É uma realidade externa, presa “ad-
-aeternum” à consciência vascular táctil,

De existir sem estar realmente vivo,
Presente nos restos que são palavras,
Semelhanças que nunca deixei de ter,
Com quem de maneira alguma eu fui.

Joel Matos (12 Fevereiro 2023)

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170

Se eu fosse eu




Se não fosse eu,

Sentiria a sensação de ser outro,
Dando a possibilidade de eu não ser
Dono d’minha veracidade, em ter
Um modo inconsciente d’mim, eu
Mesmo baço d’trás da minha vista,

Dos meus olhos, interior anexo
Da minha cabeça sobretudo curva
No que pensa acerca do Mundo,
Da realidade real, independente
De outra onde afirma ser eu outro

De corpo ausente, embora ainda
Pressinta não ter paralelo do lado
Real, inda que me esforce por ser
Eu mesmo, aqui ao lado, não doutro
Como divisão externa de ser mesmo

Eu próprio e não outro, por ordem
Diversa de vizinhança, sendo isso
Uma realidade atribuível por mim,
Não o contrário do que é suposto
Ser, eu o contexto e não o cenário,

Eu em papelão molhado, moldado
Feito à imagem e semelhança das
Coisas fáceis de moldar, em cartão
Canelado, sem verdadeira realidade
Calibrada, e real quanto a vida nunca

Poderá dar-me, nem eu me explicar
Perante mim, e muito menos face a
Todos, aos quais não partilho muito,
E muito menos a minha intimidade
Falsa, excepto dum hábil suposto,

Se eu fosse eu.

Joel Matos (15 Janeiro 2023)

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Má Casta



Má Casta

Sendo de excluída e má casta,
Sou vinho d’pessoa alguma,
Porque só eu, a mim me brindo,

Sou o que me embriago
De berros e do mau talento,
Apenas me pesa, oca do pego

Ao pulso, a náusea da mal
Parida, da avulsa frase mal eleita,
Infeliz, cansada de nada dizer.

Presas à minha bombástica boca
Com’o escárnio de mim próprio,
Rombas Agulhas como que me picam,

Escalavradas, severas, ásperas
Insinceras a tempo inteiro,
Pobre-diabo, doente louco, pouco

Generoso, sem merecida esperança,
Morto vivo de infelicidade, doença
Crónica, lesmo sem alma

Ou lar, enlameado d’lama, ranço
E mosto, cama de engaços, algemas
Houdinescas, as chamas evoluem

Sem formas, envolvem-me indistintas
Como num voo tonto, quem sou eu
Que me vejo moscardo alado

Sendo da extinta mais bera casta
Humana que veio à Terra rastejando.

 

 

Joel Matos (12/2022)

 

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139

Neruda Passáro



Neruda Passáro


Neruda Pássaro

Que Neruda Vivesse
Pra me vir sarar,
Como ele mesmo disse:
-“Com uma só pena”,

Sei que nunca tive exilio
Tão real quanto
O dele, poema tão vivo
De vida em verde,

Tão madressilva,
De vermelho loiro,
Semelhante a fogo
Maduro, azul pálio,

Se Neruda visse
Esta carta escrita,
Não saberia que fui eu,
Nem faria diferença,

Abro os braços
E sonho, sonhando
Amigos e sonhadas
Coisas que nunca somos,

Nem meus próprios
Sonhos sou,
Independente de quem
Eles sejam.

Que Neruda viesse
Tenho Dúvida,
Conhecendo Pablo,
Detrás prá frente,

De modo a tomá-lo
Por meu irmão passáro,
Pura inveja ? – sim
camarada, porque não

Pablo !? Passáro .

 

Jorge Santos ( 14 Dezembro 2022)

 

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138

Pouco sei, pouco faço




































Pouco faço,
Pouco sei,

Ando devagar,
Ao meu passo,

Dou o tudo,
Por nada,

O rumo,
Pela jornada,

Sonho o irreal
Suponho-o passível

D’alterações d’humor
Frequentes,

Inesperadas, sentimentos
Não se dão “de graça”

A quem passa,
Expressões não têm relevo,

Não se apalpam nem se aplaudem,
Suposto é sentir iludido,

O real sabendo-o falso,
Singular e diverso, a prumo

O trilho, caminho menos
Fácil, descalço e ferido

Ao passo que sei,
Não atinjo o ardor desejado

Desd’o início de mim
E do dilema do sucesso,

Me basta um ínfimo
Fragmento, uma fracção

De tido, do não tido
É outra história

Pra ser eu totalmente,
Moralmente imprópria

Minha memória
Febril fraca falida.

 

 

Joel Matos (Dezembro 2022)

 

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176

Do que tenho dito …




Do que tenho dito …

Assim não é viver,
Como girassóis desfiando
O Sol desd’o começo ao início,
Até não haver mais postiço céu
Ou horizonte branco cor d’visco,

Assim não é viver,
Mistura chão de terra
Com desejo e esperança desfraldada
Mas banal, aliança absoluta
Humana de facto, desperdício

Ter do que os outros têm
Tido, o mesmo suposto
Inútil, o fútil vulgar vício fictício,
O incontido, o mestiço pensamento
D’ametade, do que tenho dito …

“Sem contar da’verdade”,
Duvido dos rins, do fígado
E, como vinha dizendo
Do umbigo que me alberga
Não totalmente, mas “en’parte”.

Viver não é visto como a natureza
Das coisas violentas, terríveis
Mas do seu lado atraente e belo
De paixões emotivas, medidas
Do quadril à garganta.

 

Joel Matos (Dezembro 2022)

 

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Com’um grito




Com’um grito

Como eu o grito
Cresce à vista,
O vasto e o calado
A solidão do prado

Com o meu grito
Nem porto ou cais palafita
Poderá ser d’vendavais
Abrigo ou de canalha

Como grito, nen’fulano
Nem os pássaros índigo
E o cio dos lobos,
Parideira com dor

Como eu nem os
Animais ou a fúria humana
De seis Búfalos ou mais,
Como eu o grito

É ter cinco pedras
Na mão e determinação
Fora-d’normal
De gorila grisalho

De Adamastor Druso
Na Síria Jordânia ou Líbia
Desumana

 

Joel Matos (Dezembro 2022)

 

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Comentários (5)

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nilza_azzi

É bom ler o que escreves; tens ritmo, domínio da línguagem poética e abordas temas intensos.

obrigado a todos que me leram

ricardoc

Igualmente! Estou me familiarizando com a plataforma. Abraços, RicardoC.

131992

muito intenso seus poemas, adorei.

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Se a cólera que espuma, a dor que mora N’alma, e destrói cada ilusão que nasce, Tudo o que punge, tudo o que devora O coração, no rosto se estampasse; Se se pudesse o espírito que chora Ver através da máscara da face, Quanta gente, talvez, que inveja agora Nos causa, então piedade nos causasse! Quanta gente que ri, talvez, consigo Guarda um atroz, recôndito inimigo, Como invisível chaga cancerosa! Quanta gente que ri, talvez existe, Cuja a ventura única consiste Em parecer aos outros venturosa! Raimundo Correia -Raimundo Correia