Lista de Poemas
Sonhar é cabelo,

Sonhar é cabelo, nos ombros a razão fala
E murmura o que persigo, se é verdade de leigo
Ou ilusão de passageiro, Encaro o que escrevo,
Sonhar em cabelo, idioma raro, não sei lê-lo,
Não sei sê-lo, erro ao explicar o credo sendo
Eu imperador dos descrentes e dos rochedos
Negros, atavio de profeta cuja incapacidade
Apesar de empolgada, mil vezes lida à peça,
Não contém profecias nem interpretações
Cabales ...Tenho ego de "formiga-d'asa"
Partilho estrelas num céu que, cego eu nem vejo,
Sob o tecto da minha minga casa,
Distinto, apenas o cachimbo
De boca, "à Torga", posso argumentar como fosse
Poeta mas confundo o luzir das velas,
No brilhar de mil e uma telhas ...
A química do universo começou com HeH+,
Numa espécie de "panspermia química",
As paisagens, tão admiráveis como quadros
Entraram-me pelos olhos adentro, querendo
Que algum Deus os criou com velas de perto,
Pano preto, braços estranhos, tanto quanto
Eu, tão cheio a "esperantos" mudos, cansaços
Quanto o Mundo pode causar-me nos olhos,
Tantas musas causas, tantos pregões longos,
Lembram cavalos cinzentos, cavalgadas sísmicas,
Funestas. O vento é um fluído volátil,
Ainda assim, fugidio o sinto como o tempo,
Acariciando-me o cabelo raso e ao ouvido táctil
Dizendo:
-Vem comigo, vem comigo, vem comigo...
Antes que se faça tarde, sonhar é cabelo …
Joel Matos 10/2019
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295
Doce manifesto da vida
Doce manifesto da vida ...
Complexa expressão de tributo, presta
A arte à dor como impressão de prazer divino.
Se eu soubesse que a tal me completaria,
Deixava completamente de a ter, amarga,
Substituía-a por outra abominável sensação,
Que evocasse o vazio nulo que contemplo,
Sendo seu falso monarca ou subordinado atento,
Como só grandes homens o são, condenados
A um paliativo degredo, ainda que imposto
A quem homenageia, numa manifestação
De triunfo, a amargura complexa, mimética
Igual quanto a dor é e desperta em mim,
Nivela-me a quantos têm na vida grandes
Sonhos, sem que os ponham de lado, levando
Consigo demasiados bocados da alma e pés,
Sem terem quem os reanime, batidos, derrotados.
Nada mais me dói senão a lucidez do dia,
De facto atrai-me o que repele aos outros,
Não me submeto ao conforto da opinião alheia
Como uma panaceia, cultivo a liberdade
De espírito assim como o desprezo do real,
Pois só o temos do lado que vemos, não do
Aposto do olho, deselegante e rude, porém
Divino tanto quanto pode ser a dor, um doce
Manifesto de vida...
Joel Matos 09/2019
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321
Supondo-me desperto

Despertei não sei do quê nem como,
Se ainda durmo um tardio febril sonho
Vestido a luto ou se desperto a mando
De alguém morto há séculos e por falecer
Do mesmo mal que me anima ainda pés e tronco
E em que nada combina com vida, nem ar aliado
Ao movimento de sombra e luz que me perdure,
Inútil a alma que, se existisse seria cinza, pó terra
Acabando por se perder na penumbra alada
Desse neutro, negro outro lado, não sei porquê,
Nem onde, mestiça margem d’outro homem,
Vestida a manga, só no decote o tecido é curto,
A glote é minha assim como a de todos outros
Sem glória, cantando “à capella”, o divino moribundo
E o grotesco aplaudido por milhões de varejas,
Maldigo o destino, coso-me ao último, tomara certo,
Não falsa ideia final, do inútil que sou, supondo-me
Desperto, sem uso nem posto, confundo-me
Com as pedras que acariciam meu estéril rosto
E se alinham nas mãos e não no gesso do grotesco busto .
Jorge Santos 06/2019
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325
Escrevo o que ninguém escuta ...

Escrevo o que ninguém escuta eu dizer,
Se me manifesto pela saliva do nariz,
Salvo a consciência, perco-me no que digo,
Na memória e na forragem do umbigo,
A trajectória não tem leme, vagão ou rumo,
Escrevo “por-bem-dizer” o que conluio
Ser uma tela de superfícies cavas, expressando
O que é a face humana e manuscrita, não falando
Daqueles que não têm remédio comigo,
Os dias grandes não costumam se repetir,
É um facto, cabe a mim situar-me
No melhor lugar e pensar diferente
A cada minuto de dia, na galeria,
Na plateia ou no balcão para que
Esta pareça uma outra peça,
Sem me sentir prisioneiro do teatro,
Posso sempre sair para a praça,
Jogar matraquilhos ou assistir da bancada
Ao clube da terra, enormes são os dias
Que não se repetem, nem mesmo
Eu, repito-me escrevendo, concluí
Que sou um viciado em rotinas pequenas,
Pequenos são os meus dias e a rotina …
Escrevo o que ninguém escuta
Eu dizer falando. Venho de uma pequena
Ciência em que os dias são todos os tais,
Lá fora formaram-se coisas, grandes causas
Ao abrigo da conspiração das horas,
Temem a desolação que habita dentro
De mim, sem dúvida que sou pequeno,
Tudo em mim é noite escura e meia
Altura de tamanho e peso, ninguém escuta
O que eu digo do umbigo e em roda dele,
Situo-o no meio-dia e eu em órbita do nariz,
Da saliva desvalorizada, vulgar, parda
Vida em que vivo sem me fazer ouvir…
Jorge Santos 07/2019
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326
Tesoureiros da luz,

Tesoureiros da luz,
Tenho alma de cão pastor cego,
Sinto nas galáxias o que não vejo
Cá baixo, caminho na certeza de
Voltar nunca o mesmo que fui,
Faz tempo, o futuro foi lá trás,
Sigo meus pés descalços, a alma
As estrelas e o espaço, tanto faz,
Formiga d'asa, onde possa voar,
Embarcar para as estrelas que sigo,
Pastor perseguindo velas, cego,
Queimando os dedos noutros
Universos loucos, menos paralelos,
Assim como um tesoureiro da luz,
Caminhando no breu pelos pontos
Que brilham, sinto pelo som os astros,
Pouso nos cotovelos os ombros,
Nas estepes o desafio, a orgia da luz
Aí percebo quanto sou frágil, caniço
Da luz que sai pela voz e apenas,
Se é chama, é orgânica na lucidez,
Ela nos diz se a podemos desfiar
Ou não fiar, dependendo do ouro,
Da densidade frágil do fio, da voz o ar
E do modo como sai da boca, o cosmos
Da confiança e no tear próximo,
O pouso e os cabelos de Berenice...
Da janela os reconheço, cada transeunte
Pelo brilho que apresenta e usa,
Como que se germinassem espelhos
Na calçada, reflectidos na minha
Face a pontos ouro de luz, fina Ursa Menor
Ou grossa, difusa ou orgia em chama,
Tenha ou não eu alma de pastor cego
Certo é ter de rinoceronte ego, escaravelho
Sinto nas galáxias o que não vejo, pego
O facho e caminho para um Sol poente vizinho,
O meu travesseiro de luz.
Jorge Santos 04/2019
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278
A ilusão do Salmão ...

Onde anda o mar, pergunto eu, ao Sem-Rosto...
Perguntei a um triste búzio Quasímodo,
O que dizia bem de dentro da maré ferida,
Respondeu bramindo e a custo, que dentro,
Havia tanto asco de tainha verde, era o búzio
Quem não se ouvia do mar, nem ao plágio fanho,
Ao tom do jazz, ronco de esquadrilha mortal,
Onda do mar a bater no bojo, morteiro
Estoirando o ar, alga podre, peixe-gato, nojo,
E dum oco, ocre, búzio torto, nem ralho...
Onde anda o mar pergunto, debruçado,
Moribundo doente e coxo, ao rouco mar de junco,
Aí onde a costa engorda o atum infecto...
Respiramos ar gordo a contragosto,
Um monstro, tanto Ogre quanto Elfo-de-caça,
Me treme na voz, quem sou, que importa à corça,
O pavilhão na caça, sem a salvação da grossa,
A poça à soleira da porta é rasa, nossa rude tábua
Ardeu, pegando fogo ao mastro e à casta aurora,
Aonde andas justo agora, ao mar eu pergunto,
-Para onde caminho, O Sem-Rosto és tu, Salino,
Pergunto eu indigno e mudo, pro céu do
Sol-posto com o mindinho abreviado e meio,
-No meu peito reinou um salmão e de desgosto
Morri eu, seu irmão, - O Do-Coração-Ateu -...
Joel Matos 04/2019
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402
Morto vivo eu já sou …
Morto vivo eu já sou …
Se só e rigorosamente de objectos
Mortos se compõem museus,
Morto vivo eu já sou, não estranho,
Fui partido, deixados mil e cem bocados
No labirinto em que me fingi preso,
Duvido que o vento teso
Ou o sol do meio-dia, me encontrem vivo,
Pois sinceramente me sinto morto,
Pra vida que nunca quis ter… …
Eis quanto comum de facto sou,
Ao ponto de ter vulgar umbigo;
Peculiar adereço em mim, o estar
Sem estar, a dor sem hiato ou subtítulo,
Desprezo de inglorioso palhaço de circo,
Desses sem palco nem apreço,
Velhaco tecido a palha, pseudónimo-erudito
E canalha com firma-reconhecida, mal pago
Taberneiro, manhoso com ácaros nos
Testículos e na mal-formada verga
O sujo, besuntado a tinto e canja de
Galinha gorda, na barriga tatuo “marujo”,
Sem jamais ter raspado nos flancos
Um batelão, nem de joelhos o convés,
Contramestre da ignomínia, da infâmia,
O coração, se pudesse, fugiria de mim,
Tão vulgar sou, sete sobre sete dias
Suo que nem camelo perante o Alfage
Mauritano, cerebelo de Sapo e Urubu,
Pinta de fuinha, saio ao meu avô Garim,
Morto externamente vivo …
Joel Matos 04/2019
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428
Cuido que não sei,

Cuido que não sei,
Sendo quem sou, descrente,
É nulo dizer algo novo,
Que não ecoe repetido,
Inteligência não é confiança,
Profissão nem é fé,
Invólucro do meu ser,
Inferno o respirar sair.
Pensar, o meu modo
De dizer, não sei,
Sei que não, emérita é a vida,
Evoco o engano como
Preenchendo o tempo,
Não o altero, tanto o sonho,
Como o visto do lado
Tornado igual, eco é o acto de
Dormir em pé, como se despertasse
Com os sentidos de fora pra dentro,
Pra me dedicar aos que duvido
Ter lá dentro, incompreendedores
Natos, repetidores absurdos
Que suam ao cheirar a minha
Vaidade inútil, a minha fé
Vencida, cuido não sei e brinco
Ao processo de me "fazer-de"
Quem nunca fui, "Rei-do-Mundo",
Preencho o tempo de sofismas,
Reduzo o espírito à atitude, não à
Consciência, a menor representação
Visível, da minha íntima descrença
Grassa ...
Joel Matos 02/2019
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316
Certidão de procedência

Certidão de procedência
Qualquer coisa em mim se parece agora mais comigo,
Pálpebras de besta, coração de gente,
Sensação de vácuo omnipresente, amargo
De boca agreste, ombros do tamanho dum touro,
Qualquer coisa em mim pressente que morro,
Que tudo seja fantasia, asseguro que não mudo,
Não mudo as pálpebras para o peito,
Não me iludo com o que antevejo,
Desligo o passo, do real faço absurdo,
Bocejo quanto a boca pode, como forasteiro,
Procedo a uma aceitação das coisas leves,
Indiferente aos valores, nada há que explicar
A um defunto que seja lúcido quanto o ferro
E saiba a sangue ou o prazer que existe
Na dor caseira, hoje é a lembrança que penetro,
Que magoa, plantei os olhos numa maçã
Gamboa, elogio a loucura, gabo-me ao metro
De não ser do que padeço mas da cura,
Vivo com impressão que não me pertenço
Pálpebras de besta, coração de mula,
Em negrito, “New Roman” que mais se pareça
Comigo, salário mísero e sem remédio,
A gula é privilégio da embriaguez de eunucos
E eu procedo do lado duro, sobretudo domino-me
Pela preguiça …
Jorge Santos 04/2019
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292
Despido de tudo quanto sou...

Andei distraído procurando o que não via
Nem vejo, visto que sou pequeno,
Viro o rosto pra de onde venho
E não pra onde fui posto,
Vejo nas estrelas o rosto,
Não da morte mas do oposto, da vida
Pra'lém do percurso que fui, fiz nesta Terra
Outrora bela, soberba ...
Outrora viva,
Andei por aí buscando o repouso,
Não via nem vejo, a fonte do limo,
O álamo esguio,
O negrume do teixo, da terra preta o apelo,
Das folhas mortas,
Abdiquei de ser rei,
Pra ser jardineiro "por conta própria",
Sem reino nem terreno pra arar,
Podei as rosas dos quintais dos outros
E observei pardais nos ninhos,
Nas sombras os olivais dir-se-iam deuses mortais,
Não contei quantos, mas muitos, muitos.
Há muito que desejo desertar,
Mas as pernas na beira da estrada,
Estão sempre fora de mim e o meu coração ... lento,
Lento não dá pra fugir por aí de rastos
Admito não ter dormido todo o tempo do mundo,
Mas mesmo assim penso como se fosse madrugada
E domingo, cada vez que me levanto
Sem vida e me mudo pro outro lado da cama,
Na mesma fronha que uso desde que vim ao mundo,
Sinto um ritual de vencedor num corpo derrotado,
O que muda são apenas os sonhos que persegui
Sem sucesso ao longo do tempo
E ainda sonho sonhos que não sigo,
Acatei a derrota,
Sinto um ritual de vencedor nas asas
E nas pernas o símbolo das coisas
Que me pegam ao chão terreno,
"Rocket-man", visto que
O meu território é de ar,
Balouço-me na fronteira do tudo e do nada,
Qualquer um desses reinos me conforma,
A memória passa sem se ver, sem se dar
Sonhar é não estar presente em nenhum Destes países
Pra sempre,
Duvidar é dar liberdade ao voo ...
O plano é adormecer descrente,
Desnudo de tudo o que sei,
Despido de tudo quanto sou.
Jorge Santos 11/2018
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Comentários (4)
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É bom ler o que escreves; tens ritmo, domínio da línguagem poética e abordas temas intensos.
obrigado a todos que me leram
Igualmente! Estou me familiarizando com a plataforma. Abraços, RicardoC.
muito intenso seus poemas, adorei.