José Roberto Tolentino

José Roberto Tolentino

n. 1957 BR BR

n. 1957-05-02, Salvador-Ba

Perfil
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Eternamantes

Gosto das coisas duráveis
que as quero permanentes
como gema inalterável
como cena no presente
como nó inarredável
como deus onipotente.

Gosto das coisas seguras
que nelas eu adormeço:
mão de pai na noite escura
um colo como endereço
criador e criatura
olhar do santo de gesso.

Gosto das coisas eternas
que as quero sempre antes
como adulações maternas
como anel de diamantes
como toque em tuas pernas...
Gosto de estarmos amantes.
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Poemas

36

E a nave não vai

Não vou te tocar, te abraçar, nunca!
Jamais irei beijar-te os lábios.

O teu corpo estará sempre distante, inacessível
como um continente após o abismo dos oceanos.

Jamais serei um navegante audacioso
(desses que não acreditam em abismos de mares findos).

Estás lá, para além dos meus horizontes
e nem tomas conhecimento
do teu remoto e pretenso descobridor
que em ti lança âncoras
e te dá nomes de flores, de deusas, de musas.

Descubro-te todos os dias santos e santos dias;
dias que excedem minha vida insuficiente e medíocre
em que me faltam gestos e me sobra sono e expectativas vãs.

Não! Nunca irei te ter por perto;
receber de ti um olhar terno;
despertar em ti qualquer sentimento ou desejo.

Jamais acrescentarei um batimento sequer
aos do teu coração.

Contentar-me-ei em sonhar-te;
postar-me no topo do mastro e amar-te...

...até que o mar te traga ou me trague.
882

Amores e Humores

Sou do tempo do amor carnal
e não deste, de amor "borrachal".

Do tempo da mistura de humores:
os humores dos amantes;
os humores dos amores.

Nada mais é como antes...

Há barreiras, há temores
humor negro, maus humores:
humores contaminantes
esterilizando amores.
804

Espaçotempo

Nas horas dos mundos que habito
é sempre um tempo diverso
gerando-me sérios conflitos;
descompassando meu verso.

Começo a medir o infinito
com mãos de palmos eternos:
o espaço fica eternito
e o tempo fica infiterno.

O espaço e o tempo domados;
arrebatados da esfera:
o espaço por mim limitado
e o tempo em compasso de espera.
783

Necrológio do Amor Contido

Desprende-se de mim o fogo-fátuo
do verso que se afogou na razão;
do verbo que se embotou em metáfora
morrendo no peito e evitando a mão.

Desprende-se de mim o fogo-fátuo
de todos os versos que eu enterrei.
Evolam-se restos mortalizados
de todas as rimas que eu não ousei.

Como fantasmas, arrastam correntes
e uivam de sede e uivam de fome
os ectoplasmas em nada contentes.

A fome que bebe, a sede que come
devoram-me e sugam-me lentamente
- fogos que queimam e escrevem teu nome.
809

Olhar de Ontem

Havia a impressão de um tempo lento;
jam sessions de bichos noturnos;
o Sol interceptado pelo vento;
a casa com a forma e o conteúdo;
a chuva datilografando telhas;
relâmpagos mostrando a mão do santo;
a noite freqüentada por estrelas;
fantasmas de corujas agourando;
o rio murmurando em corredeiras;
o rádio me ninando e despertando.

Havia arbustos vistos como baobás;
a neblina apagando o cemitério.
Os dias eram tão desigualmente iguais
e os verdes eram azuis e amarelos.
Havia bandos de urubus planadores
prognosticando a chuva iminente...
e o aguaceiro desabava em estertores
(tão previsível e impreterivelmente).

Havia meu pai vivo
mais que nunca e muito e sempre estava.
Havia a mãe - a via
e isso e eu a mim bastava.

Avidez ingênua e vida, enfim, havia
e eu era feliz e infeliz e sabia.
736

Papel de Pedra

A verticalidade do penhasco fincado
tem a grave missão de sustentar o rio
que se derrama e permanece sustentado:
é o rio no alto; a cachoeira; e embaixo o rio.

Indiferente segue o rio seu curso d'água
sem dar nenhum sinal de ter sentido a queda.
Abandonada a penha jaz petrificada
e compõe a paisagem - seu papel de pedra.

Imobilizado e mudo e sempre ignorado;
arrimo eterno e trampolim pro salto alheio...
- morre em areias de nunca se ter chorado;
morre o penhasco de manter o peito cheio.

Velho penhasco que carrega o rio nas costas
e que possibilita o ser da cachoeira:
ninguém o vê ou lhe confere qualquer nota
(exceto eu, que fui penhasco a vida inteira).
873

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