Kátia Surreal

Kátia Surreal

escrevendo obscuridades da alma e do mundo.

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quem vai pelo bosque

busca-se 
quem se deixa 
vai-se pelas folhas
perde-se quando
é chegada a hora
a noite tem o tempo que quiser 
os dias são escuros
tudo que brilha
escapa-se por frestas
o bosque é perdição
devaneios por entre trilhas
mas sua intuição insiste
quem vai pelo bosque
busca-se
em estado triste
depara-se com uma fonte
o instante anuncia o retorno
o rio transborda 
a trilha é desfeita
tudo começa de novo
(kátia surreal: 22/9/2026)

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Poemas

14

ananke ó deusa

na geografia palmar
as moiras tecem as linhas
como quem baila
a infinitude de uma frequência musical
súbito ó deusa
vejo-vos guiais minha vida
transito por entre as vias salomônicas
cruz alguma ou mesmo a lua
transmuta a ordem de vosso desfecho
o encontro estrelar

ó deusa
por entre tridentes e certas correntes
ainda que cáli siga tracejando ilhas 
obrigais-me aqui estar

ó deusa ananke
de períodos tão distantes
desde a infância
estou atravessando por vosso comando
a nossa rigidez une ambas as mãos
qual enfim o destino
poupai-me da demasiada angústia
dessas múltiplas ramificações
da rota que continua.
(kátia surreal: 21/10/2026)




3

macambúzio 

o vento serenou
em meu rosto
macambúzio 
a tatuagem na pele 
da poesia 
não sinto
o vazio prenuncia a saudade
pôr pedras no passado
por perdas
no sonho que me levei
trocamos de corpo
noutro ângulo 
nos esfregamos
o palco não segura as cortinas
macambúzio
o estado mais lúcido 
diz
vai-se embora
morrer poeticamente
"fade to black"
que a vida continua
enquanto me lanço 
no mais profundo
instrumental
blecaute.
(Kátia Surreal)
5

myrtha a rainha interior

 

no profundo da floresta há um tumulto

onde dança giselle em ritmo oculto

 

no escuro da sua alma a rainha interior

seduz o homem amado com horror

já que em vida ele traiu seu doce amor

quem poderia tal vingança supor

 

maldade na ponta da sapatilha

seu rodopio uma trevosa armadilha

 

cuidado co’a virgem pois ela é um vulto

que guarda no íntimo muito rancor

levando à morte os que entram em sua trilha.

(kátia surreal)

7

ah! escola e religião?!

uma mãe quis bater a diretora tentou me esconder
se escola é lugar de definir religião creio que não
mas pelo visto só não há problema em exaltar Cristo

essas são as minhas constantes indagações
e enquanto não houver respostas
levarei à escola as nossas pretas memórias!

uma deusa adorada que tanto me motiva
a guerreira yaba que me habita
clama ao mundo por justiça
já nem temo que cerrem as portas
que a força da poderosa atravessa pororocas
e a sua intolerância pouco me importa

eis a afiada ofange que protege e nos guia
escudo vibrante da negra luta em nossas vidas
faíscas de luz e sorte dia a dia
(kátia surreal: 12/10/2026)
 
6

casa da criança

não é um poema
entenda como quiser
eu preciso lhe dizer do jeito 
que a lembrança repulsiva me der

na casa da criança que conheço
há muito tempo
uma jovem de quinze 
sem família
não podia ficar na casa no fim de semana
rodava por aí sem rumo
rodava bolsinha
a fazer sua grana
do jeito que tinha

na casa da criança que conheço
certa vez
o aluno foi tirado de sala
justo na aula de termos integrantes da oração
só para que filmasse a oração da igreja
a pedido da casa da criança em que foi guardado

este mesmo aluno
um dia me xingou de raiva
por nada
noutra vez
de repente
seus olhos brilhavam
algo no chão derramava
era sangue
de seu braço que ele cortava

tento descrever os fatos
mas não o que sinto
pediram para que que eu continuasse a aula
mas ante o trauma
fiz um desenho no caderno
enquanto as demais crianças
choravam baixinho
com a cabeça sobre a mesa
certamente
pensando na oração integrante do dia
(kátia surreal: 10/10/2026)


8

casa estufada

eu tive um sonho
a casa era nova
mas estufava e estufava
a cada dia
ela me apertava
o teto parecia encurtecer
os lados me estreitavam
não sei se chovia lá fora
sei que o sol brilhava
mas não encontrava a janela
eu tive medo
chamei meu pai ora distante
só me havia o cobertor
que certamente encharcar-se-ia
eu nunca tinha lágrimas 
apenas soluço
e algum afogamento
que estava por vir mas não vinha
tinha hora marcada
mas os ponteiros encheram-se d'água
enquanto não via a casa cheia
sentia a correnteza
e uma ânsia em ter de continuar
a casa estava prestes
e eu não sei o que aconteceu com ela
pois acordei
(kátia surreal: 10/10/2026)

5

casa das ilusões

meu pai me dizia
sobre um homem que achava
ser dono de uma casa
mas em seu entorno só havia
uma extensão vazia
e um sujeito de terno 
alimentando seu ego
ou sua loucura
desventura
ele até tinha um barraquinho
que foi doado
ele vivia sozinho
sentia-se abençoado
sob a falsificação
de um sonho transmutado
(kátia surreal: 10/10/2026)

5

gentrificação

polícia para quem precisa não
polícia para gentrificação
revitalização
expulsão
usuários da cracolândia
não podem ter esperança
vão e voltam para qualquer lado
a bel-prazer dos empresários
é o sistema
mas só isso não basta
há nomes e sobrenomes
para um fim da situação nefasta
(kátia surreal: 10/10/2026)


6

revolução permanente

não adormeças agora
apenas continua dormindo
no instante que ficas comigo
brado a ti um sonho acordado
acoplado
cujo princípio é aqui - entende
esta poesia deve ser feita em sete dias
por toda uma vida
descansaremos enfim
porquanto outro dia vibra
o mundo inteiro se treme meu amor
ecoando-se para que permaneça
só precisamos do nosso tempo
não  de horas extras
(kátia surreal: 10/10/2026)

4

casa de coronel

quase na bahia
pra lá do espírito santo
onde a mãe viveu a infância
e eis que imagino um conto
da casa de espanto

o coronel tinha muitas propriedades
sítios terrenos até pessoas
mas não suportava a roça
o dia inteiro tomado pelo nada

migrou co'a família principal
num local lá na maravilhosa
antes co'a ideia maldosa
amarrou um servo sem água no quarto
coitado

morria-se pouco a pouco de sede
ninguém investigava o fato
pareciam aliados
ou alheios
diziam ser mal assombrado
cruz em credo
só havia medo
quem chegava perto

e lá se foi o cidadão de bem contente
co'a sua família favorita
e a notícia
a tal casa lá dos cus de judas
continuava legalmente sua

os futuros herdeiros eram só preguiça
e a casa foi sendo tomada por mato
até que veio um se dizendo macho
plantou os pés na velha residência

nem houve assombro
a ele qualquer gemido ou som de corrente
apenas coincidência 
ou uma verdadeira serpente

esta amigo é um caso de terror sem susto
não de gente morta mas viva
que mexe com o profundo da mente
e assim um dia ele se foi
sendo proprietário eternamente
(kátia surreal: 10/10/2026)

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Comentários (2)

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Se tiveres um tempinho me visite ... com tuas reflexões sobre meu pequenos e humildes textos. obrigado. ademir o poeta.

Olá ...amiga ... se assim posso dizer... li todos 08 textos e posso lhes dizer que são muitos concretos - realistas - parabéns - este é o meu modo de entende-los. ademir o poeta.