Kátia Surreal

Kátia Surreal

escrevendo obscuridades da alma e do mundo.

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quem vai pelo bosque

busca-se 
quem se deixa 
vai-se pelas folhas
perde-se quando
é chegada a hora
a noite tem o tempo que quiser 
os dias são escuros
tudo que brilha
escapa-se por frestas
o bosque é perdição
devaneios por entre trilhas
mas sua intuição insiste
quem vai pelo bosque
busca-se
em estado triste
depara-se com uma fonte
o instante anuncia o retorno
o rio transborda 
a trilha é desfeita
tudo começa de novo
(kátia surreal: 22/9/2026)

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Poemas

67

na força de circe

há uma força muito supimpa que nos habita
que toda mulher deveria evocar à vida
sabemos
quase sempre é difícil um real livramento
daquele que nos causou descontentamento
transformá-lo em porco
após um soco
ou humilhação
é um profundo desejo
que nem sempre parece estar em nossas mãos
ah como queria vê-lo mudo feito esponja-do-mar
e nunca mais nossos íntimos segredo revelar
há um crime pois que ninguém descobre
encontra-se no mais tenebroso porém nobre
despenhadeiro da mente
convergência da universal emanação
mulher tu podes
segue da morte o coração
mulher este é teu suporte
segue as bifurcações da divina árvore
qliphoth
(kátia surreal: 27/9/2026)

10

as orelhas de obá

queres ser mulher
para a te escutar
obá quis ser oxum
o resultado foi nenhum

queres ser mulher
para um pouco a te escutar
não cortes a orelha
para que xangô te queira

queres ser mulher
para então a te escutar
cuidado com a invejosa
tens a força da pororoca

querer ser mulher
para agora a te escutar
ouve a própria intuição
livra-te de emboscadas
tu és tão enigmática
com poder e sedução
(kátia surreal: 25/9/2026)


11

medusa

quando garota
vi-me no espelho
a própria medusa
cabelos em ondas
tive medo

cerrei a boca
os olhos a mente
tapei as orelhas
adormeci no mundo

eis que me desperto
orelhas e olhos abertos
a concepção necessária
para que tudo 
de minha boca saia

cuidado
o veneno de minha língua
é milenar
(kátia surreal: 25/9/2026)


10

esfinge

sete anos e um livro verde
capa e leitura duras
o cheiro contudo me fez lutar
para que fosse meu 
não doutros irmãos

como se fosse agora
vejo se abrindo o quintal
por meio do verde livro
um mágico portal
cuja entrada de musgos
conduzia-me a novos mundos

parte de mim era fera
guardiã dessa entrada
por onde ninguém passava
já a outra havia-me
a liberdade do voo
escolhi a firmeza do tesouro
minha posse ninguém punha o olho

havia uma cidade onde ninguém passava
havia um lindo homem que desejava alcançá-la
o segredo era o tal perfume
sobre o qual quem presume
que responda ao magnífico enigma

o que é o que é
vem perfumado do verde da natureza
e guardado caducifoliamente
com perfumes em palavras

eis que édipo respondeu
o livro
mas ele não me atirou no abismo
apenas deixou-o aberto
transitando pela cidade ao seu bel-prazer
o tempo fez o odor desaparecer
e o perfume do mágico jardim
findou-se para mim
permanece apenas na memória
numa procura sem fim.
(kátia surreal: 25/9/2026)

7

a janela está aberta

sem frestas
com uma grossa cortina dura
sem que passe qualquer partícula
poeira ou até vida
por trás a impossível grade de ferro
 por aqui só tédio
sem remédio
nas horas de uma vida inteira
a segunda camada é de vidro
de chofre para o ponteiro
aperta o desespero
o relógio intimista relembra
que a chave da porta foi jogada fora
logo começa o jogo
põe-se cimento e tijolo
do outro lado e o sol a pino
no quarto desatino
o que este deus fez comigo
eis que na parede
a homogeneidade reinante
neste instante sem janela
tenho ainda dois olhos na escuridão
 e a luz se desenha com a imaginação
a janela está aberta
se só houver fechada
ainda assim há janela
a janela está aberta 
(kátia surreal: 24/9/2026)

14

avestruz

por esses dias 
certos bichos estavam 
pelos ambientes em que estive
ganso pato aranha 
bem-te-vi até tucano

em casa os gatos 
a cachorra a joaninha
apareceu o bicho-pau
saguis visitam o quintal
também a alma-de gato
a esperança a lagartixa
a barata minha inimiga
além do misterioso que
aparece pela câmera de segurança 
talvez um rato 
tomara que um gambá 

por onde quer que eu tenha ido
uma verde varejeira vem comigo

outro dia sonhei com um filhote de morcego
quase todas as noites
ouço a coruja 
e de manhã desperto com o
uivo de um cão vizinho 
que se manifesta como um lobo

há um bicho que há muito tempo não vejo e desejo
a pantera
ela também se incomoda 
com o olhar
a pantera é a forma como 
eu deveria ter vindo ao mundo

mas agora veio à mente
o avestruz
enquanto escrevia desconhecia o motivo
agora já faz algum sentido
é como me imagino
quando quero
enfio-me na terra
(kátia surreal: 23/9/2026)


13

sala de espera

quem tem mais emoção 
no cenário da razão 

quero falar do presente
mas uma lembrança 
veio de repente

a sala é o espaço coletivo
do atendimento 
da aula
da família 
da visita

todos têm sua relevância 
mas agora mais do que nunca
detesto todas as salas
não gosto sobretudo
de fazer sala
ser o centro de tudo

aquela poeira no canto
se olhar bem
é o que sobrou de mim
por isso ninguém percebe
(kátia surreal: 23/9/2026)

12

rompendo com a realidade

para romper com a realidade
primeiro a tesoura
um papel desenhado
a borda
e alguma lembrança vaga

na piscina do clube eu nadava
rosto na água 
assim ordenava a professora
mas eu não conseguia
Eu me travava
tenho o pulmão traiçoeiro
desde menina
segurava a borda no desespero
até que ela se rompeu
nadei nadei nadei
não morri na areia da praia
mas me afoguei e até agora
estou transbordando

para romper a realidade
é um tanto diferente
precisamos de um plano
muita coragem
gentes boas e inteligentes 

romper com a realidade 
tornou-se atitude banal
não se usa tesoura
no lugar disso
a foice e o martelo.
(kátia surreal: 22/9/2026)





10

CAPS LOCK

APERTEI O BOTÃO 
A LUZ VERMELHA CONTÍNUA 
OLHE BEM PARA O QUE DIGO
POR FAVOR FIQUE AQUI
COMIGO

ESTOU NO CAPS LOUCA
É A MINHA PRIMEIRA VEZ
FOI-SE MINHA SENSATEZ
FOICE

O MODO AUTOMÁTICO 
ATROPELOU TODA LÓGICA 

VIVO DA VIDA O MÁGICO
REPUDIO A HIPOCRISIA DA ORDEM
E A LINEARIDADE DO MEU ESTADO.
(kátia surreal: 22/9/2026)

12

pisar nas folhas secas

crocante quando pisoteio
as folhas secas do quintal 
das cidades
há uma alegria cretina
de sentir com os pés 
as partículas se desfazendo
com a pressão que me impulsiono
há um prazer de menina
de acabar rápido com o que já está morto
o estalo crocante 
das caducifólias se desfazendo
é mais saboroso do que
a batata chip sumindo
entre os dentes
há algo mais útil a dizer
além dessas insignificâncias 
só eu sei contudo
o quão me basta
ante a tantas mazelas
sentir prazer
com olhos de criança 
(kátia surreal: 22/9/2026)


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Comentários (2)

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Se tiveres um tempinho me visite ... com tuas reflexões sobre meu pequenos e humildes textos. obrigado. ademir o poeta.

Olá ...amiga ... se assim posso dizer... li todos 08 textos e posso lhes dizer que são muitos concretos - realistas - parabéns - este é o meu modo de entende-los. ademir o poeta.