kennedy Araújo

kennedy Araújo

n. 1987 BR BR

Um poeta de beira de rio

n. 1987-01-14, Santarém, Pará, Amazônia

Perfil
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Espelho d'água

No renitente assobio da coruja, 
a madrugada declina 
               impassível 
à minha dor...

               o céu 
é um vasto rio negro
de densidade fina 
e de profundas ilusões 
onde dispõem-se
                       estrelas,
          planetas,
satélites,
                       distâncias infindas,
além de vazios incontornáveis...

o céu é então 
espelho dos teus olhos de cigana,
                     olhos
de anseios repentinos,
                     olhos
de mistérios insondáveis,
                     olhos donde emergem
confissões impossíveis,
além de poemas indecifráveis...

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Biografia

Poeta, Filósofo, Professor e Mestre em Educação.

Poemas

17

CABEÇA DE POETA

Cabeça de poeta é um troço complicado:
horas a fio 
nessa delirante busca pela palavra;
palavra pela qual 
imagina-se
que tudo que dói
será um dia perdoado.

Poeta 
é aquele que, no mundo, 
segue desmareado de urgências.
Abstrai, aqui e acolá, 
o rendimento da palavra,  
não como escolha, 
mas como uma delicada fatalidade.

Acomodado no seu trono de silêncio,
O poeta precipita 
a sintaxe precisa
do disparate dos seus versos.

                                               

96

UTOPIA

Suportei todo o peso do dia
e sua inútil burocracia:
dos papéis,
dos protocolos,
e das enfadonhas filas paralíticas.

Suportei toda imponderável mentira, 
dissimulada em riso mecânico,
em gentileza vazia,
dessa gente triste,
de olhar triste, 
que sonha apenas
com o fim do dia.

Suportei a tudo, quem diria,
com dignidade 
e com modesta alegria.

E se suportei, 
foi somente por saber 
que a vida, 
apesar da amargura emanada
dos que existem miseráveis de utopia, 
sempre me valerá a pena,   
mesmo que por um átimo de poesia.   

57

FENOMENOLOGIA

Enquanto requento este café de ontem 
com promessa de amor vindouro,
a tênue poeira que paira na amplitude da luz matinal, 
reincide translúcida sobre o branco do azulejo.

Efemeridades incandescem diante de meus olhos,
colapsam antigas certezas, 
põem em xeque meu corpo, 
minhas lembranças, 
meu ego, 
minhas tolas pretensões de poeta,
meus doces delírios com o futuro.

Agora, a xícara de café 
mais uma vez fria sobre a mesa 
me faz lembrar do mito da linearidade do tempo,
e que toda tessitura lógica do pensamento 
nunca refletiu do mundo
o que não fosse apenas aparência.                                                                               

97

CANSAÇO

Da pétrea indiferença deste século – 
a suma afetação.

A racionalidade técnica, enfim, 
resumiu-nos os sonhos.

A rarefeita e multidimensional comunicação,
via satélite,   
permutou-nos os sentidos, 
obliterou-nos a palavra. 

O homem, 
escamoteado em algoritmos,
constantemente enfadado de si, perdeu-se 
através do esquizofrênico espelho desta interface vazia.

Em meio a tanto desperdício de humanidade, 
poderia ainda haver lugar, em nossos distantes olhos,
para o pasmo essencial de Pessoa?
Ou será que das insígnias do cansaço, 
preencher-se-ão, para sempre, nossos dias? 

                                                                                   

86

VICINAIS DO VERBO

Por entre os velados vicinais do verbo 
a pupila da noite 
encara-me, tão imensamente dilatada.

Escrevo a eternidade em meus versos,
mas é sempre no fio da navalha.

Será disparate dos meus olhos,
ou a lua, do azul, a lançar-se, 
me ameaça?

 

103

O VERDE DO RIO

Em todo lugar, em qualquer tempo,
o constante objeto da minha percepção
é o imanente mistério do teu ser.

A trigueira forma do teu corpo
resplandece através das minhas retinas, 
como a claridade dessas manhãs de setembro.

Estás no voo das andorinhas,
roçando o verde do rio;
como estás na branda força do vento 
que verga o cimo das árvores 
e desvanece, por um momento,   
as insaturáveis dores do mundo,
tão profundamente exasperadas em mim.

76

DOS PEQUENOS ENCANTOS COTIDIANOS

Por volta das dez horas 
d’uma cálida manhã de sexta-feira, 
erguida dos olhos etéreos do poeta,
uma mulher de cabelo negro e vestido vermelho
estampa, na mestiça e esguia panturrilha, 
a desvanecida tatuagem de uma rosa, 
ao que parece, também vermelha.

Sua postura, resignada e altiva, 
frente o perigo da iminente travessia 
daquela tórrida e indiferente avenida, 
contrastava com o desatino 
d’uma pequena vira-lata caramelo,
que desafiava com doçura e soberba,
o incomensurável ímpeto 
dos homens enclausurados 
em seus próprios automóveis.

E, naquele prosaico e insigne instante, 
o estardalhaço das buzinas nada pôde 
perante o brilho do sol sobre a terra,
e nem o assombro da guerra nuclear
foi capaz de reprimir a esperança
que resplandeceu no verde dos canteiros.

Nem mesmo o agorento desamor, 
sublimado no triste e inválido coração 
dos que vivem naufragados em si mesmos,
foi capaz de macular a delicadeza revelada 
à atônita sensibilidade do poeta.

 

71

SOB A PALPEBRAL SOMBRA DO HORIZONTE

Ao azul sabor do vento,
sob a palpebral sombra do horizonte,
sigo desatinado por entre sendas do silêncio. 

Devaneando reminiscências, 
desanuvio-me.

De repente, a noite me acontece, 
perpetuamente grávida de mistérios,  
debruçando-se, imensamente negra, 
ante o abstrato tempo da espera do verso.

E assim, amalgamado a este sereno,
desvencilho-me por inteiro 
da seta cinza do ocaso, 
através das asas enluaradas 
da palavra que tanto me abisma.   

 

89

APRESSA-TE O PASSO, POETA

Apressa-te o passo, poeta.
Apressa-te e vá adiante.
Nunca temas a morte certa,
nem tampouco a vida errante.

Apressa-te o passo e enceta
tua cidade
de ruinas radiantes.

Apressa-te o passo e enxerga
tua sombra
entre outros transeuntes.

Apressa-te o passo, poeta.
Apressa-te e não vacila.
Lembra-te do caminho de Rimbaud.
Não te esqueças do teu encontro com Sibila...     

 

106

MELANCOLIA

Fiz-me poeta numa cidade que já não existe mais.
Por isso atravesso a oblíqua madrugada 
verso adentro,
e traço na espiral do silêncio
diferentes caminhos de volta...

Por isso ignoro as luzes do poste,
e sinto na dureza mórbida do asfalto
a gélida dimensão do esquecimento.

Por isso acendo as estrelas, 
por isso aqueço as esquinas.

Por isso 
clarifico o instante desprendido do tempo, 
e surjo dum largo ontem
por entre a espectral bruma
desta sempre jovem melancolia.                                                                                                                                                                                                                                               

.                                                        

71

Comentários (3)

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Luciana

muito linda a poesia ! parabens!!!

Lagaz

Parabéns poeta... é um prazer conhecer os escritos que tem vida

Kaio Gabriel
Kaio Gabriel

Parabéns professor, belos poemas