Nunca nunca esquecido
NUNCA, NUNCA ESQUECIDO.
Meu grande amor,
Amor chorado,
Cantado em verso,
Amor solitário,
Unilateral.
Amor perdido,
Deixado para trás, mas nunca, nunca esquecido.
Amor de menino, que virou gente grande e se comportou como tal.
Ah! Teus cabelos dourados, teu pescoço com sal.
Um quarto de século se foi,
Sobrevivemos ao bem e ao mal . Eu, em carne e osso,
Mais em osso,
Tu... Nem sei.
Como vai a vida da qual eu não participei?
Tuas alegrias,
(Tiveste alegrias, suponho.)
E tristezas,
E alergias.
O vestibular,
A gripe forte,
O corte no dedo,
O acidente que quase foi.
Eu perdi manias,
Adquiri outras tantas...
Perdi minha Maria,
No céu faltava uma santa.
E a tua Maria, como vai?
E a música que nos unia,
O "rock" mudou, não dá mais para ouvir.
E as baladas, as danceterias, o cigarro e o álcool.
Tiveste uma paixão louca?
E "amassos" no portão?
E tua primeira vez, ai... ai...
E deu em casamento, em filhos?
Filhos...
Noites inteiras sem dormir.
E nas tantas noites alerta, lembraste de mim,
E do meu amor infantil, e riste?
De manhã a vida sempre continua,
A tua vida eu não sei... A minha é triste, triste...
Luz
LUZ
Luz de um astro,
Rastro do mais absoluto inferno,
Da mais imponderável fornalha.
Transcende a si e a fonte,
Rondando o impalpável
E o impossível eterno.
Sendo luz é onda,
E anda,
Entre o abissal e o píncaro.
Oscila,
Entre o cósmico
E a partícula,
Da partícula,
Do infinitamente ínfimo.
Entre o plano e o multidimensional.
Entre a harmonia e o caos,
Assim é a mulher amada,
Caótica e harmônica,
Louca e santa,
Aleatória,
Mas antes...
Intencional.
As orações da Dona Lia
AS ORAÇÕES DA DONA LIA
Seu Juca trabalhava muito e bebia viciadamente..
Durante dez horas por dia respirava e comia o cimento da fábrica,
Comia cimento, do pão ao jantar..
Terminado o expediente,
Retornava um concreto ao lar,
No caminho, em cada esquina, entrava em um bar,
E não sei se para esquecer o dia,
Ou tolerar a vida,
Não sei!
O fato é que de bar em bar ele bebia,
Liquefazia o concreto com o álcool,
Todos os dias.
Quando descia a rua, seus filhos corriam ao seu encontro, mas
Não era o pai quem vinha,
Era concreto liquefeito,
Escorria de um lado ao outro da rua.
Acostumaram-se os filhos.
A mãe não...
Chorava...
Rezava...
E cumpria sua sina, resignada.
Não se divertia, não ia a festas, tinha um filho por ano,
E definhava.
Ela tentou de tudo,
De promessas a penitências
E ele continuava...
Alma de cimento, fumo no pulmão e álcool infinitamente.
Os colegas de trabalho dele mal se aposentavam e morriam,
Um de câncer na garganta, outro no pulmão,
Um de tosse esquisita, outros de fraqueza ou coração.
Um dia ele parou de beber,
Construiu a casa dos sonhos deles e ela sorriu o sorriso dos sorrisos,
Tanto sorriu que isso lhe fez mal - falta do costume.
Morreu de câncer no pulmão,
E como sofreu sem reclamar - força do costume.
Talvez, nas orações, ela tenha pedido
Para trocar de destino com o marido.
Acho que conseguiu.
Vinho perfeito
VINHO PERFEITO
Na uva doce e selvagem
Vi o néctar idealizado.
Da parreira encontrada
Colhi nos sonhos os rubis
Escuros aromatizados,
Senti o bouquet perfeito,
Previ o sabor de notas raras
Murmurando em minha língua,
Brindando alma com alma,
A minha vida colorindo.
Néctar é para deuses!
Néctar é para deuses!
Zeus tomou-me o cálice.
Chronos me sacudiu.
Levaram o sonho de mim.
Mentiras
Mentiras
Sei que mentes sérias coisas
E até o que mentes eu sei.
Foste uma rainha perigosa,
Uma rainha de muitos reis.
Sei por que gostas das rosas,
Sei dos espinhos nos teus seios
E das sementes destes, eu sei.
Teu passado tem vários veios
(o fim esconde os meios),
Fizeste as próprias leis.
Teu passado é quase inacessível,
Mas deixou marcas de ver.
No teu presente, pouco invejável,
Sei que mentes para viver.
Sei que mentes certas coisas,
Mas é o teu maior poder,
Cada vez que sorris falsa,
Cessa meu impulso de morrer.
Google+
O Nada (soneto)
O Nada (soneto)
Um pincel passeia pela tela"Lento afetuoso" a violino,
E no céu num'alva nuvem rindo,
A cor da razão de todas elas.
Algoz de si, rumo ao concebível,
Esforça-se e com o esforço o espanto,
Tentar pintar e na tela, o inflexível,
O incólume, o inefável branco.
Há no nada uma tendência ao nada,
Como na urgência se hospeda a inércia,
E nas minhas obsessões, fadas.
Sinto-me numa luta fadada
Ao destino de todas as crenças:
- a inexistência, o branco e mais nada.
Google+
O Passarinho (soneto)
O passarinho
Por que tu foste de mim, passarinho.
Por que tão longe da minha janela,
Buscaste teu ninho, tua quimera,
Justamente quando me vi menino.
Quem irá à próxima primavera
Fazer-me sorrir sem estar mentindo,
E me dispor a dar um grito fino
Como quem ao primeiro amor se entrega.
Quem me trará no aroma matutino
O gosto da vida que se arremessa,
Do cantar febril de quem faz um hino.
No anoitecer, rezo agora, sozinho,
Para o amanhecer trazer à janela,
A vida, no teu cantar, passarinho.
Google+
O pecado que ainda não fiz
O pecado que ainda não fiz
Chego em casa, a imagem da Santa chora.
Nem pequei ainda, Nossa Senhora!
Não encaro a imagem e peço perdão
Pelo que não fiz. Sinto solidão,
Frio, medo, silêncio e abandono.
Ela nada me diz e eu finjo ter sono.
Deito-me a observar a lua nova,
Que passa e lentamente vai embora.
Fecho os olhos, abrem-se os olhos da alma.
A tez da amiga distante me acalma,
E sua voz preenche todo o espaço,
Oscilante entre o choro e o riso fácil.
Choro de olhos fechados e peito aberto,
E durmo a pensar sobre o inatingível.
Será que há o plenamente perto?
Há o longe totalmente impossível?
Beijo os lábios da lua distante,
Na ilusão infernalmente feliz.
No sonho não há espaço nem Dante,
Cometo o pecado que ainda não fiz.
Google+
Karol santo, Carol nem tanto
Karol santo, Carol nem tanto
Quando Karol Wojtyla chegou ao céu,
Na sua mochila de campanha havia então...
Um uniforme surrado das batalhas vencidas,
Um cajado e uma velha bíblia.
Sem paramentos,
Sem ouro,
Sem mitra,
"Franciscanamente" rico.
Recebido foi com intimidade por Pedro:
- Entre amigo, quisera todo Karol fosse santo como tu.
- Entre amigo, sabemos qual Karol tu foste.
- Entre amigo, mas ainda há uma Carol sem fé...
Ainda Carol que mente...
Ainda Carol que se avilta...
Ainda Carol serpente...
Que envergonha os pais,
Que desperdiça a vida.
- Alegra-te amigo, tu salvaste Marias, Joanas e uma Carol.
Ah! Se inda houvesse a foice,
Se inda fosse o martelo...
Carol perderia as mãos,
Carol perderia a liberdade,
Carol perderia a vida,
E o pai perderia Carol,
E a mãe perderia o pai.
- Bem-vindo, Karol Wojtyla, que a Carol do mundo tem tempo.
E Karol Wojtyla se aquietou pensativo.
Tinha salvado Carol, da foice e do martelo.
Mas subiu aos céus, com um olho no novo inferno.
A Visão
A VISÃO
O poeta sente frio,
Surge um rio álgido de entre seus dedos,
Tremores inexplicáveis destroem seus edifícios.
Perdido, não mais sabe onde está.
Escondido nas grutas fechadas dos seus medos,
Um grande frio, muitíssimo frio.
Agulhas no peito,
Algemas na língua,
Garganta seca.
Vontade de ser um deus,
De inventar novas seitas,
De parar o tempo,
Reinventar o espaço.
De morrer e ser Lázaro,
De ser bom e mau.
À visão da eleita,
O poeta é simples mortal.