Lista de Poemas

PASSAGEIROS DO SOL

PASSAGEIROS DO SOL

Passageiros do sol temos sido.
Temos sido passageiros da luz.
A noite nos incomoda.

Ao limiar do entardecer.
Nossos corações pulsam mais forte,
E pulsam mais a cada bater do relógio,
Para alcançar um limite na madrugada.

Nossos corpos cansados
Adormecem lentamente,
Ainda arfantes...
Arfantes...
De tanta...
De tanta solidão.

Passageiros da luz,
Temos vivido o dia.
Aquele amor notívago
Se foi como a noite que sempre esconde os podres no escuro,
No inconsciente do inconsciente.








681

Imitação de Van Gogh

(Para a Luiza de Brito, o Pablo Pereira e o Filipe Pereira)

Quando você foi embora,
Refugiei-me dentro de mim
E pensei um trigal sem fim,
Com corvos rondando.
E caminhos que vão dar em lugar nenhum.

Pensei num céu sombrio e escuro.
Pensei na minha impotência
Diante dos axiomas da sua fé.

Quando você foi embora,
Eu quis pintar com óleo sobre tela. (N.A. Não concordo)
Depois quis arrancar minhas orelhas,
E quis paralisar meu coração.

Mas eu não venho da Holanda,
Nem nunca estive em Auvers.
Então chorei sozinho e pintei dentro de mim
O meu campo de trigos com corvos,
E me descobri morrendo amanhã. Google+
616

Universo em mim

Foste sempre minha aspiração maior,
Minha inspiração,
Respiração,
Instante zero universal,
Centelha inicial.
Sempre estiveste,
Sempre houveste,
Sempre...

Não houve um único plenilúnio suspirado um dia,
Que não fosse tu em pétalas,
Em veludo,
Em prata (carne da lua).

Nem nunca houve evento cósmico,
Quasar,
Pulsar,
Mancha solar,
Partícula,
E antipartícula,
Ao menos um vago vaga-lume,
Um luar e seu inexplicável perfume,
Que não fosses tu, impregnando o ar
Como o ruído de fundo da grande explosão.

Qualquer que fosse a estrela nova a contar,
Tua luz é que emprestava a ela a vocação.

Sempre estiveste,
Sempre houveste,
Sempre...
No entanto,
Nunca houve um início,
Nem nunca espaço.
Nunca tempo cronológico.
Por isso, não haverá saudades,
E não é possível o adeus;
Porque sempre estiveste,
Sempre houveste universal em mim,
Antes do início de tudo
E muito depois do fim. Google+
624

Flores Vermelhas

Olho ao meio-dia para o chão.
Procuro...
E não as vejo mais.
As flores vermelhas
Que na minha infância
Coloriram de vida
O cinza que insistia.

Elas vinham às onze horas,
E dormiam cedo, bem cedo.
Tinham uma cor diferente,
Lava de vulcão
Furiosamente ativo.

Semeadas pelo negro aveludado das mãos de minha Maria,
Saltavam da terra,
Por entre o verde musgo das folhas de veludo.

Olhar para elas era acreditar na vida,
Que o inferno era improvável,
E que no céu, além dos anjos, tinha
Doces e uma bicicleta.

Uma festa de aniversário? Tinha!
Com um bolo enorme? Tinha!
Tinha um piso azul salpicado de nuvens brancas.
No céu dos céus, com nuvens verdes, um outro céu, escarlate
Como a minha flor.

Olho para o céu
Que reflete o chão de hoje.
O chão é cinza,
Os dias são cinzas,
O meu céu é cinza...

O cinza voltou.

456

Menina da lua

Braços abertos,
Coração de abraços,
Abraços...

Boca entreaberta,
Coração de beijos,
Beijos...

Volúpia louca,
Coração alado,
Pulsar febril,
Mas efêmero.
Loucuras adolescentes,
Loucuras...

É a lua,
Clareando,
Abraçando,
Beijando,
Enlouquecendo...
Minha lira sedenta de encantamentos,
E arrebatamentos, e paixão, e poesia.


Braços abertos,
Coração de abraços,
Abraços...

Boca entreaberta,
Coração de beijos,
Beijos...

Volúpia louca,
Coração alado,
Pulsar febril,
Mas efêmero.
Loucura adolescente,
Loucura...

É a menina da lua,
Clareando,
Abraçando,
Beijando,
Enlouquecendo...
Minha lira sedenta de encantamentos,
E arrebatamentos, e paixão, e poesia. Google+
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A dança da lua

A dança da lua

(Este texto foi concluído sob a influência do eclipse total da lua
ocorrido no dia 27 de outubro de 2004 )

Por uma fresta da minha janela trancada,
Janela da alma,
Visita-me de repente uma luz prateada.
Linda, cheia, imensa, a lua!
Divina intercessão e diabólico provimento.
Linda, jovem, intensa, a lua!

Desce do firmamento,
Vence as bridas que nos impõem o espaço e o tempo,
Angelicamente endiabrada.
Invade o breu sem meu consentimento, e diz o meu nome:
- Poeta, meu Tejinho! Rio da minha aldeia!
E a voz é doce, e mansa, e vai sumindo devagarzinho:
- Poeta, Tejinho! Riozinho da minha aldeia!

Estende-me os braços, e eles são longos no abraço do corpo inteiro.
Seus olhos espelham as águas dos oceanos...
Quando olha em plenilúnio, minh'alma acende em verde claro,
Meio prata, meio ardósia,
Para sempre iluminada.

Instala-se no meu quarto de infortúnios,
Estala os milhares de dedos e então surge a música,
É a Madonna, pulsante, lúbrica.
Some por instantes numa nuvem, e quando volta é uma dançarina do ventre,
As vestes brilhantes, uma renda no rosto rente,
E uma saia de raios, de ofuscar os olhos.
A dança começa tímida, mas um furor lascivo suas formas incendeia,
E ela roda...
E é lua nova...
Crescente e meia,
E minguante e cheia,
Todas de uma vez.
Requebra, tremula, ondeia,
E me provoca a preamar.

Porque sabe encantar,
Faz-me em lobisomem,
E eu uivo... Uivo...
Uivo, ao rasgar-lhe os raios com os dentes,
Ao secar-lhe o suor com os olhos
E despir as formas com a mente.

Vejo-a sedenta e nua,
Germinando em minha alma todas as sementes escondidas,
De riso e prazer e - Vida.

Então, comovido, faço amor com a lua.

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728

Fim da procura

Um dia eu sonhei você,
Idealizei você,
Descrevi você em versos utópicos.
Estudei poesia,
Estudei filosofia,
Metafísica,
E Deus.

Tantas... Tantas páginas apenas para lhe entender em mim.
Visitei paisagens em sonhos e a vi correr pelos campos,
Colhi flores brancas para os seus cabelos,
E quando molhou as mãos no riacho,
Pareceu-me que toda a vida na terra
Fora feita ao seu dispor.

Idealizei você,
Vi seus olhos nas chuvas,
Seus cabelos num bando de pássaros,
Sua voz baixinha no arfar de folhas,
Sua pele nas névoas das montanhas,
Seu sorriso eu vi em cada sorriso.

Idealizei você,
Sonhei você.

Beijei bocas que não eram a sua,
Mas era a sua boca que eu beijava.
Amei e fui amado.
Só meu corpo amou,
Minha alma lhe esperava.

De tanto esperar, encontrei...
Encontrada, eu me encontrei,
E me perdi.
416

Estrela que passa

(Peço licença ao poeta Manuel Bandeira)

Oh! Vulcana, feita de caos e luz,De cujo corpo paina resplandece,
Uma aura indecente torpe que induz
Ao frio coração, o fogo, e ferve.

E abrasa e liquefaz o duro aço.
Oh! Profana, de toque tal que arde
Feito beijo roubado e vão abraço
De adeus. Que aperta, queima, embora tarde.

Oh! Dama, volátil como bom sonho
"vem feito chama, vai feito fumaça",
sobram cinzas, sobra pó e carcaça.

Oh! Cigana estrela no céu tristonho,
Que eu queria fosse estrela que passa,
"Vem feito chama, vai feito fumaça".
414

Um abandono em outro abandono

Enquanto a moça caminhava pelos corredores da exposição, parava, observava quase sem fazer comentários. Eu que já tinha visto todas as obras expostas tantas vezes, aproveitava para assistir a ela, que é quase tão difícil de entender quanto é difícil de se ver Rodin e Camille Claudel em Belo Horizonte.
Às vezes, ela quietava paralisada próxima a uma escultura, isso era para mim como ver duas obras de arte, sem conflitos, só emoção. Noutras vezes, arriscava um comentário, nunca pretensioso, e quando me perguntou algo, me esforcei para ser útil.
Eu, que não sou entendedor de artes - gosto mais da história que circunda as criações de Camille e seu mestre-amante do que entendo as obras deles propriamente - e se tantas vezes fui à exposição, e vi o filme, e pesquisei na internet, foi para entender o efeito da paixão nas suas criações. Confesso que me emocionei todas as vezes que visitei A sombra de Rodin.
A obra de arte que mais me emociona é O abandono de Camille Claudel. Esta escultura tem beleza, alma, espiritualidade, precisão técnica, e seus reflexos e sombras, dependendo da hora, da iluminação e do estado de espírito do observador, dão uma leitura diferente a cada nova visita. Isso é arte! Há nela um abandono de entrega, de resignação, mas de deleite, só possíveis para quem viveu o que a autora viveu.
A moça que circulava pelos corredores da alma de Camille, na exposição do Museu de Artes e Ofícios, em Belo Horizonte, me fez delirar uns delírios possíveis da artista. Eis aqui os meus:


Nos corredores do Abandono de Camille Claudel

Tento esculpir um mundo novo onde tu não alcances.
Com o cinzel da paixão ruída, mutilada e sem chances,
Vou livrando das minhas pedras as sensações dos teus toques inefáveis,
Desconstruindo o meu abandono em ti, abandono-me.

Tua voz de dono, silente agora, no subconsciente da pedra mora... impalpável.
O teu olhar que me despia outrora são meus olhares concretos hoje, sem retinas, sem cristalinos, Reconstruo-te como tu és.
Lavro! Vaso! Arranco os teus olhos de dentro de mim aos gritos de miserável.

Teu tino do amor é do cerne da rocha, não se alcança, não dá para arranhar.
Ah! As tuas peles reflexivas eram como oxigênio, oxidaram minhas luzes do real...
Tento esculpir um mundo no vácuo, retiro o ar, retiro as peles,
Desbasto a lucidez do óbvio para revelar a rudeza de dentro de mim.

E retiro de mim as cores...
E arranco as flores... não há de amanhecer em flores,
Nunca mais deve haver primaveras, somente dores.
Preencho o meu abandono com a pausa da tua dança.
Preencho de sanha o meu mundo ideal.
E às canhas rasuro o riso e o mel,
Da paixão domo o pouco siso,
E os nossos tantos gritos lascivos...
Estes serão para sempre o âmago para mim.

Tu me ensinaste a criar corpos e músculos e pomos,
Dôo minha alma como alma para os corpos que agora crio em abandono.

Abandonei-me em ti...
Abandono-me de mim.

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Bombus hypnorum

Como dois mangangás
Meus olhos buscam as acácias
E esfregam-se nas pétalas
E se banham de pólen e néctar.

Mas são olhos e não dois mangangás.

Sorte dessas abelhas gigantes
Que não param para chorar.
Se não encontram uma acácia,
Caçam a flor do maracujá. Google+
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Comentários (2)

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