Passageiros do sol temos sido. Temos sido passageiros da luz. A noite nos incomoda.
Ao limiar do entardecer. Nossos corações pulsam mais forte, E pulsam mais a cada bater do relógio, Para alcançar um limite na madrugada.
Nossos corpos cansados Adormecem lentamente, Ainda arfantes... Arfantes... De tanta... De tanta solidão.
Passageiros da luz, Temos vivido o dia. Aquele amor notívago Se foi como a noite que sempre esconde os podres no escuro, No inconsciente do inconsciente.
Passageiros do sol temos sido. Temos sido passageiros da luz. A noite nos incomoda.
Ao limiar do entardecer. Nossos corações pulsam mais forte, E pulsam mais a cada bater do relógio, Para alcançar um limite na madrugada.
Nossos corpos cansados Adormecem lentamente, Ainda arfantes... Arfantes... De tanta... De tanta solidão.
Passageiros da luz, Temos vivido o dia. Aquele amor notívago Se foi como a noite que sempre esconde os podres no escuro, No inconsciente do inconsciente.
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Imitação de Van Gogh
(Para a Luiza de Brito, o Pablo Pereira e o Filipe Pereira)
Quando você foi embora, Refugiei-me dentro de mim E pensei um trigal sem fim, Com corvos rondando. E caminhos que vão dar em lugar nenhum.
Pensei num céu sombrio e escuro. Pensei na minha impotência Diante dos axiomas da sua fé.
Quando você foi embora, Eu quis pintar com óleo sobre tela. (N.A. Não concordo) Depois quis arrancar minhas orelhas, E quis paralisar meu coração.
Mas eu não venho da Holanda, Nem nunca estive em Auvers. Então chorei sozinho e pintei dentro de mim O meu campo de trigos com corvos, E me descobri morrendo amanhã.Google+
É a menina da lua, Clareando, Abraçando, Beijando, Enlouquecendo... Minha lira sedenta de encantamentos, E arrebatamentos, e paixão, e poesia.Google+
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Flores Vermelhas
Olho ao meio-dia para o chão. Procuro... E não as vejo mais. As flores vermelhas Que na minha infância Coloriram de vida O cinza que insistia.
Elas vinham às onze horas, E dormiam cedo, bem cedo. Tinham uma cor diferente, Lava de vulcão Furiosamente ativo.
Semeadas pelo negro aveludado das mãos de minha Maria, Saltavam da terra, Por entre o verde musgo das folhas de veludo.
Olhar para elas era acreditar na vida, Que o inferno era improvável, E que no céu, além dos anjos, tinha Doces e uma bicicleta.
Uma festa de aniversário? Tinha! Com um bolo enorme? Tinha! Tinha um piso azul salpicado de nuvens brancas. No céu dos céus, com nuvens verdes, um outro céu, escarlate Como a minha flor.
Olho para o céu Que reflete o chão de hoje. O chão é cinza, Os dias são cinzas, O meu céu é cinza...
O cinza voltou.
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Universo em mim
Foste sempre minha aspiração maior, Minha inspiração, Respiração, Instante zero universal, Centelha inicial. Sempre estiveste, Sempre houveste, Sempre...
Não houve um único plenilúnio suspirado um dia, Que não fosse tu em pétalas, Em veludo, Em prata (carne da lua).
Nem nunca houve evento cósmico, Quasar, Pulsar, Mancha solar, Partícula, E antipartícula, Ao menos um vago vaga-lume, Um luar e seu inexplicável perfume, Que não fosses tu, impregnando o ar Como o ruído de fundo da grande explosão.
Qualquer que fosse a estrela nova a contar, Tua luz é que emprestava a ela a vocação.
Sempre estiveste, Sempre houveste, Sempre... No entanto, Nunca houve um início, Nem nunca espaço. Nunca tempo cronológico. Por isso, não haverá saudades, E não é possível o adeus; Porque sempre estiveste, Sempre houveste universal em mim, Antes do início de tudo E muito depois do fim.Google+
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A dança da lua
A dança da lua
(Este texto foi concluído sob a influência do eclipse total da lua ocorrido no dia 27 de outubro de 2004 )
Por uma fresta da minha janela trancada, Janela da alma, Visita-me de repente uma luz prateada. Linda, cheia, imensa, a lua! Divina intercessão e diabólico provimento. Linda, jovem, intensa, a lua!
Desce do firmamento, Vence as bridas que nos impõem o espaço e o tempo, Angelicamente endiabrada. Invade o breu sem meu consentimento, e diz o meu nome: - Poeta, meu Tejinho! Rio da minha aldeia! E a voz é doce, e mansa, e vai sumindo devagarzinho: - Poeta, Tejinho! Riozinho da minha aldeia!
Estende-me os braços, e eles são longos no abraço do corpo inteiro. Seus olhos espelham as águas dos oceanos... Quando olha em plenilúnio, minh'alma acende em verde claro, Meio prata, meio ardósia, Para sempre iluminada.
Instala-se no meu quarto de infortúnios, Estala os milhares de dedos e então surge a música, É a Madonna, pulsante, lúbrica. Some por instantes numa nuvem, e quando volta é uma dançarina do ventre, As vestes brilhantes, uma renda no rosto rente, E uma saia de raios, de ofuscar os olhos. A dança começa tímida, mas um furor lascivo suas formas incendeia, E ela roda... E é lua nova... Crescente e meia, E minguante e cheia, Todas de uma vez. Requebra, tremula, ondeia, E me provoca a preamar.
Porque sabe encantar, Faz-me em lobisomem, E eu uivo... Uivo... Uivo, ao rasgar-lhe os raios com os dentes, Ao secar-lhe o suor com os olhos E despir as formas com a mente.
Vejo-a sedenta e nua, Germinando em minha alma todas as sementes escondidas, De riso e prazer e - Vida.
Então, comovido, faço amor com a lua.
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754
Mentiras
Mentiras
Sei que mentes sérias coisas E até o que mentes eu sei. Foste uma rainha perigosa, Uma rainha de muitos reis.
Sei por que gostas das rosas, Sei dos espinhos nos teus seios E das sementes destes, eu sei.
Teu passado tem vários veios (o fim esconde os meios), Fizeste as próprias leis.
Teu passado é quase inacessível, Mas deixou marcas de ver. No teu presente, pouco invejável, Sei que mentes para viver.
Sei que mentes certas coisas, Mas é o teu maior poder, Cada vez que sorris falsa, Cessa meu impulso de morrer.
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O Passarinho (soneto)
O passarinho
Por que tu foste de mim, passarinho. Por que tão longe da minha janela, Buscaste teu ninho, tua quimera, Justamente quando me vi menino.
Quem irá à próxima primavera Fazer-me sorrir sem estar mentindo, E me dispor a dar um grito fino Como quem ao primeiro amor se entrega.
Quem me trará no aroma matutino O gosto da vida que se arremessa, Do cantar febril de quem faz um hino.
No anoitecer, rezo agora, sozinho, Para o amanhecer trazer à janela, A vida, no teu cantar, passarinho.Google+
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Estrela que passa
(Peço licença ao poeta Manuel Bandeira)
Oh! Vulcana, feita de caos e luz,De cujo corpo paina resplandece, Uma aura indecente torpe que induz Ao frio coração, o fogo, e ferve.
E abrasa e liquefaz o duro aço. Oh! Profana, de toque tal que arde Feito beijo roubado e vão abraço De adeus. Que aperta, queima, embora tarde.
Oh! Dama, volátil como bom sonho "vem feito chama, vai feito fumaça", sobram cinzas, sobra pó e carcaça.
Oh! Cigana estrela no céu tristonho, Que eu queria fosse estrela que passa, "Vem feito chama, vai feito fumaça".
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Por onde anda
Por onde anda o anjo de olhos tristes, Voz de brisa, E pele de nuvem, Que brinca de me amar, E enquanto brinca, Devolve-me a vida...
Aonde anda meu ar.
Por onde anda o anjo, Que fala e enrubesce, Que sorri e enrubesce, Que me olha nos olhos e vê no fundo a alma, E enquanto enrubesce, eu fico roxo.
Por onde anda o anjo, Que nunca mais me deixará só, Que se está longe, não se vai de mim. E quando está perto, paro o pensamento. Que, quando amanhece, faz render-me em agradecimentos, E quando anoitece... Não... Trevas nunca mais, Nunca mais insônia, Nunca mais inércia.
Por onde anda o anjo-pétalas-orvalhadas... Anjo-pássaros-cantando... Anjo-água-de-bica... Anjo-peixes-no-riacho... Anjo-descalço-no-areal... Anjo-frutas-no-quintal... Anjo tudo que esqueci, Deixei de ver.
Por onde anda, O anjo que desvendou os olhos meus.