A Visão
A VISÃO
O poeta sente frio,
Surge um rio álgido de entre seus dedos,
Tremores inexplicáveis destroem seus edifícios.
Perdido, não mais sabe onde está.
Escondido nas grutas fechadas dos seus medos,
Um grande frio, muitíssimo frio.
Agulhas no peito,
Algemas na língua,
Garganta seca.
Vontade de ser um deus,
De inventar novas seitas,
De parar o tempo,
Reinventar o espaço.
De morrer e ser Lázaro,
De ser bom e mau.
À visão da eleita,
O poeta é simples mortal.
Rainha das flores
Se com a astúcia do olhar humano
Que olha a fêmea com olhar de bicho,
Esmiuçada for a rosa,
O homem não lhe tocará o âmago.
Pois, verá de Deus os caprichos,
E não verá na flor, a rosa.
Na alma dela há um amor insano,
Daquele amor de dor sem queixa,
De aloucar todos os arcanos
E acasalar monges e gueixas.
Quanto abandono há na rosa!
Quantos planos e desencantos!
Quanto mistério há na rosa!
Quantos crimes passionais!
Mas não há o pecado original.
Rameira e indecorosa?
Antes, benta e celestial.
O escolhido
O ESCOLHIDO
Fosse eu,
o escolhido,
O teu querido,
O teu deus
Fosse eu,
O teu sonho antigo,
O diário amigo,
Íntimo e fiel.
Eu te adoraria,
Venerar-te-ia
em genuflexão.
Pecaria misturando crenças
Monoteístas e ateias
Construiria para ti um templo de invocação,
E te adoraria sem fim,
Com devoção.
Fosse eu,
Somente eu,
O escolhido entre a criação,
Atiraria pétalas
E ramos de alecrim.
Isso, se eu fosse, menina,
O DIABO da tua imaginação.
Bombus hypnorum
Como dois mangangás
Meus olhos buscam as acácias
E esfregam-se nas pétalas
E se banham de pólen e néctar.
Mas são olhos e não dois mangangás.
Sorte dessas abelhas gigantes
Que não param para chorar.
Se não encontram uma acácia,
Caçam a flor do maracujá.Google+
O pecado que ainda não fiz
O pecado que ainda não fiz
Chego em casa, a imagem da Santa chora.
Nem pequei ainda, Nossa Senhora!
Não encaro a imagem e peço perdão
Pelo que não fiz. Sinto solidão,
Frio, medo, silêncio e abandono.
Ela nada me diz e eu finjo ter sono.
Deito-me a observar a lua nova,
Que passa e lentamente vai embora.
Fecho os olhos, abrem-se os olhos da alma.
A tez da amiga distante me acalma,
E sua voz preenche todo o espaço,
Oscilante entre o choro e o riso fácil.
Choro de olhos fechados e peito aberto,
E durmo a pensar sobre o inatingível.
Será que há o plenamente perto?
Há o longe totalmente impossível?
Beijo os lábios da lua distante,
Na ilusão infernalmente feliz.
No sonho não há espaço nem Dante,
Cometo o pecado que ainda não fiz.
Google+
Nunca nunca esquecido
NUNCA, NUNCA ESQUECIDO.
Meu grande amor,
Amor chorado,
Cantado em verso,
Amor solitário,
Unilateral.
Amor perdido,
Deixado para trás, mas nunca, nunca esquecido.
Amor de menino, que virou gente grande e se comportou como tal.
Ah! Teus cabelos dourados, teu pescoço com sal.
Um quarto de século se foi,
Sobrevivemos ao bem e ao mal . Eu, em carne e osso,
Mais em osso,
Tu... Nem sei.
Como vai a vida da qual eu não participei?
Tuas alegrias,
(Tiveste alegrias, suponho.)
E tristezas,
E alergias.
O vestibular,
A gripe forte,
O corte no dedo,
O acidente que quase foi.
Eu perdi manias,
Adquiri outras tantas...
Perdi minha Maria,
No céu faltava uma santa.
E a tua Maria, como vai?
E a música que nos unia,
O "rock" mudou, não dá mais para ouvir.
E as baladas, as danceterias, o cigarro e o álcool.
Tiveste uma paixão louca?
E "amassos" no portão?
E tua primeira vez, ai... ai...
E deu em casamento, em filhos?
Filhos...
Noites inteiras sem dormir.
E nas tantas noites alerta, lembraste de mim,
E do meu amor infantil, e riste?
De manhã a vida sempre continua,
A tua vida eu não sei... A minha é triste, triste...