O Passarinho (soneto)
O passarinho
Por que tu foste de mim, passarinho.
Por que tão longe da minha janela,
Buscaste teu ninho, tua quimera,
Justamente quando me vi menino.
Quem irá à próxima primavera
Fazer-me sorrir sem estar mentindo,
E me dispor a dar um grito fino
Como quem ao primeiro amor se entrega.
Quem me trará no aroma matutino
O gosto da vida que se arremessa,
Do cantar febril de quem faz um hino.
No anoitecer, rezo agora, sozinho,
Para o amanhecer trazer à janela,
A vida, no teu cantar, passarinho.
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Karol santo, Carol nem tanto
Karol santo, Carol nem tanto
Quando Karol Wojtyla chegou ao céu,
Na sua mochila de campanha havia então...
Um uniforme surrado das batalhas vencidas,
Um cajado e uma velha bíblia.
Sem paramentos,
Sem ouro,
Sem mitra,
"Franciscanamente" rico.
Recebido foi com intimidade por Pedro:
- Entre amigo, quisera todo Karol fosse santo como tu.
- Entre amigo, sabemos qual Karol tu foste.
- Entre amigo, mas ainda há uma Carol sem fé...
Ainda Carol que mente...
Ainda Carol que se avilta...
Ainda Carol serpente...
Que envergonha os pais,
Que desperdiça a vida.
- Alegra-te amigo, tu salvaste Marias, Joanas e uma Carol.
Ah! Se inda houvesse a foice,
Se inda fosse o martelo...
Carol perderia as mãos,
Carol perderia a liberdade,
Carol perderia a vida,
E o pai perderia Carol,
E a mãe perderia o pai.
- Bem-vindo, Karol Wojtyla, que a Carol do mundo tem tempo.
E Karol Wojtyla se aquietou pensativo.
Tinha salvado Carol, da foice e do martelo.
Mas subiu aos céus, com um olho no novo inferno.
O Nada (soneto)
O Nada (soneto)
Um pincel passeia pela tela"Lento afetuoso" a violino,
E no céu num'alva nuvem rindo,
A cor da razão de todas elas.
Algoz de si, rumo ao concebível,
Esforça-se e com o esforço o espanto,
Tentar pintar e na tela, o inflexível,
O incólume, o inefável branco.
Há no nada uma tendência ao nada,
Como na urgência se hospeda a inércia,
E nas minhas obsessões, fadas.
Sinto-me numa luta fadada
Ao destino de todas as crenças:
- a inexistência, o branco e mais nada.
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O escolhido
O ESCOLHIDO
Fosse eu,
o escolhido,
O teu querido,
O teu deus
Fosse eu,
O teu sonho antigo,
O diário amigo,
Íntimo e fiel.
Eu te adoraria,
Venerar-te-ia
em genuflexão.
Pecaria misturando crenças
Monoteístas e ateias
Construiria para ti um templo de invocação,
E te adoraria sem fim,
Com devoção.
Fosse eu,
Somente eu,
O escolhido entre a criação,
Atiraria pétalas
E ramos de alecrim.
Isso, se eu fosse, menina,
O DIABO da tua imaginação.
A Visão
A VISÃO
O poeta sente frio,
Surge um rio álgido de entre seus dedos,
Tremores inexplicáveis destroem seus edifícios.
Perdido, não mais sabe onde está.
Escondido nas grutas fechadas dos seus medos,
Um grande frio, muitíssimo frio.
Agulhas no peito,
Algemas na língua,
Garganta seca.
Vontade de ser um deus,
De inventar novas seitas,
De parar o tempo,
Reinventar o espaço.
De morrer e ser Lázaro,
De ser bom e mau.
À visão da eleita,
O poeta é simples mortal.
Bolhas de sabão
Todas as manhãs eu te invento,
Ponho-te na palma da mão e solto ao vento.
Depois, feito um louco, saio à tua procura.
Muitas vezes eu encontro,
Todas as vezes tu és bolha de sabão.
Pacientemente, na próxima manhã, eu te invento,
Ponho-te na palma da mão e solto ao vento.
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