O escolhido
O ESCOLHIDO
Fosse eu,
o escolhido,
O teu querido,
O teu deus
Fosse eu,
O teu sonho antigo,
O diário amigo,
Íntimo e fiel.
Eu te adoraria,
Venerar-te-ia
em genuflexão.
Pecaria misturando crenças
Monoteístas e ateias
Construiria para ti um templo de invocação,
E te adoraria sem fim,
Com devoção.
Fosse eu,
Somente eu,
O escolhido entre a criação,
Atiraria pétalas
E ramos de alecrim.
Isso, se eu fosse, menina,
O DIABO da tua imaginação.
Mentiras
Mentiras
Sei que mentes sérias coisas
E até o que mentes eu sei.
Foste uma rainha perigosa,
Uma rainha de muitos reis.
Sei por que gostas das rosas,
Sei dos espinhos nos teus seios
E das sementes destes, eu sei.
Teu passado tem vários veios
(o fim esconde os meios),
Fizeste as próprias leis.
Teu passado é quase inacessível,
Mas deixou marcas de ver.
No teu presente, pouco invejável,
Sei que mentes para viver.
Sei que mentes certas coisas,
Mas é o teu maior poder,
Cada vez que sorris falsa,
Cessa meu impulso de morrer.
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Estrela que passa
(Peço licença ao poeta Manuel Bandeira)
Oh! Vulcana, feita de caos e luz,De cujo corpo paina resplandece,
Uma aura indecente torpe que induz
Ao frio coração, o fogo, e ferve.
E abrasa e liquefaz o duro aço.
Oh! Profana, de toque tal que arde
Feito beijo roubado e vão abraço
De adeus. Que aperta, queima, embora tarde.
Oh! Dama, volátil como bom sonho
"vem feito chama, vai feito fumaça",
sobram cinzas, sobra pó e carcaça.
Oh! Cigana estrela no céu tristonho,
Que eu queria fosse estrela que passa,
"Vem feito chama, vai feito fumaça".
O Nada (soneto)
O Nada (soneto)
Um pincel passeia pela tela"Lento afetuoso" a violino,
E no céu num'alva nuvem rindo,
A cor da razão de todas elas.
Algoz de si, rumo ao concebível,
Esforça-se e com o esforço o espanto,
Tentar pintar e na tela, o inflexível,
O incólume, o inefável branco.
Há no nada uma tendência ao nada,
Como na urgência se hospeda a inércia,
E nas minhas obsessões, fadas.
Sinto-me numa luta fadada
Ao destino de todas as crenças:
- a inexistência, o branco e mais nada.Google+
Por onde anda
Por onde anda o anjo de olhos tristes,
Voz de brisa,
E pele de nuvem,
Que brinca de me amar,
E enquanto brinca,
Devolve-me a vida...
Aonde anda meu ar.
Por onde anda o anjo,
Que fala e enrubesce,
Que sorri e enrubesce,
Que me olha nos olhos e vê no fundo a alma,
E enquanto enrubesce, eu fico roxo.
Por onde anda o anjo,
Que nunca mais me deixará só,
Que se está longe, não se vai de mim.
E quando está perto, paro o pensamento.
Que, quando amanhece, faz render-me em agradecimentos,
E quando anoitece...
Não... Trevas nunca mais,
Nunca mais insônia,
Nunca mais inércia.
Por onde anda o anjo-pétalas-orvalhadas...
Anjo-pássaros-cantando...
Anjo-água-de-bica...
Anjo-peixes-no-riacho...
Anjo-descalço-no-areal...
Anjo-frutas-no-quintal...
Anjo tudo que esqueci,
Deixei de ver.
Por onde anda,
O anjo que desvendou os olhos meus.
Bolhas de sabão
Todas as manhãs eu te invento,
Ponho-te na palma da mão e solto ao vento.
Depois, feito um louco, saio à tua procura.
Muitas vezes eu encontro,
Todas as vezes tu és bolha de sabão.
Pacientemente, na próxima manhã, eu te invento,
Ponho-te na palma da mão e solto ao vento.
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