Laércio Jose Pereira

Laércio Jose Pereira

n. 1961 BR BR

Sou fotógrafo, técnico em equipamentos fotográficos e escrevo poemas por puro prazer.

n. 1961-12-22, Belo Horizonte

Perfil
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PASSAGEIROS DO SOL

PASSAGEIROS DO SOL

Passageiros do sol temos sido.
Temos sido passageiros da luz.
A noite nos incomoda.

Ao limiar do entardecer.
Nossos corações pulsam mais forte,
E pulsam mais a cada bater do relógio,
Para alcançar um limite na madrugada.

Nossos corpos cansados
Adormecem lentamente,
Ainda arfantes...
Arfantes...
De tanta...
De tanta solidão.

Passageiros da luz,
Temos vivido o dia.
Aquele amor notívago
Se foi como a noite que sempre esconde os podres no escuro,
No inconsciente do inconsciente.








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Biografia

Poemas

26

Vinho perfeito

VINHO PERFEITO


Na uva doce e selvagem
Vi o néctar idealizado.

Da parreira encontrada
Colhi nos sonhos os rubis
Escuros aromatizados,
Senti o bouquet perfeito,
Previ o sabor de notas raras
Murmurando em minha língua,
Brindando alma com alma,
A minha vida colorindo.

Néctar é para deuses!
Néctar é para deuses!
Zeus tomou-me o cálice.
Chronos me sacudiu.

Levaram o sonho de mim.
436

Luz

LUZ


Luz de um astro,
Rastro do mais absoluto inferno,
Da mais imponderável fornalha.
Transcende a si e a fonte,
Rondando o impalpável
E o impossível eterno.

Sendo luz é onda,
E anda,
Entre o abissal e o píncaro.

Oscila,
Entre o cósmico
E a partícula,
Da partícula,
Do infinitamente ínfimo.

Entre o plano e o multidimensional.

Entre a harmonia e o caos,

Assim é a mulher amada,
Caótica e harmônica,
Louca e santa,
Aleatória,

Mas antes...
Intencional.
439

Karol santo, Carol nem tanto

Karol santo, Carol nem tanto


Quando Karol Wojtyla chegou ao céu,
Na sua mochila de campanha havia então...
Um uniforme surrado das batalhas vencidas,
Um cajado e uma velha bíblia.
Sem paramentos,
Sem ouro,
Sem mitra,
"Franciscanamente" rico.

Recebido foi com intimidade por Pedro:
- Entre amigo, quisera todo Karol fosse santo como tu.
- Entre amigo, sabemos qual Karol tu foste.
- Entre amigo, mas ainda há uma Carol sem fé...
Ainda Carol que mente...
Ainda Carol que se avilta...
Ainda Carol serpente...
Que envergonha os pais,
Que desperdiça a vida.

- Alegra-te amigo, tu salvaste Marias, Joanas e uma Carol.
Ah! Se inda houvesse a foice,
Se inda fosse o martelo...
Carol perderia as mãos,
Carol perderia a liberdade,
Carol perderia a vida,
E o pai perderia Carol,
E a mãe perderia o pai.

- Bem-vindo, Karol Wojtyla, que a Carol do mundo tem tempo.

E Karol Wojtyla se aquietou pensativo.
Tinha salvado Carol, da foice e do martelo.
Mas subiu aos céus, com um olho no novo inferno.
436

O Nada (soneto)

O Nada (soneto)

Um pincel passeia pela tela"Lento afetuoso" a violino,
E no céu num'alva nuvem rindo,
A cor da razão de todas elas.

Algoz de si, rumo ao concebível,
Esforça-se e com o esforço o espanto,
Tentar pintar e na tela, o inflexível,
O incólume, o inefável branco.

Há no nada uma tendência ao nada,
Como na urgência se hospeda a inércia,
E nas minhas obsessões, fadas.

Sinto-me numa luta fadada
Ao destino de todas as crenças:
- a inexistência, o branco e mais nada.Google+
485

Dupla face

Um olho seu me enxerga,
O outro me evita.

Uma frase me enverga,
Uma outra me excita.

Os lábios bicotam,
A língua muxoxa.

Seu riso me encanta,
Seus dentes me cortam.

Uma mão me toca,
Outra a porta indica.
Uma perna só insinua,
A outra se oferta nua.

Uma lágrima é dor,
A outra dissimula o riso.
Riso dissimulador,
Calculado, preciso,
Angélico e ameaçador.

Eu falo,
Você cala...
Você grita,
Eu silencio.

Eu grito, berro, no cio,
Você emperra, empaca,
Indiferente à dor...
Indiferente à minha dor.

Um dia é Freud, outro Jung.
Num dia tudo é relativo,
No outro, quântico,
Yin e Yan.

Urro em desatino e cântico,
Passivo e ativo,
Comum e excêntrico,
Barroco e romântico.
Não! Romântico, não.
Chama, reclama, clama por mim,
Atira-me na cama,
E foge...

Antes do fim.Google+
533

Bolhas de sabão

Todas as manhãs eu te invento,
Ponho-te na palma da mão e solto ao vento.
Depois, feito um louco, saio à tua procura.
Muitas vezes eu encontro,
Todas as vezes tu és bolha de sabão.
Pacientemente, na próxima manhã, eu te invento,
Ponho-te na palma da mão e solto ao vento.

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542

Abandono

Abandono...
Uma rabeca num canto sepultada.
Resignada, ensimesmada e muda.

Abandono...
O berço do filho planejado,
Que foi ser anjo.
E na parede, dois santos
Ensimesmados e surdos.

Abandono...
No chão, entre palhas e milhos carunchados,
Uma Nossa Senhora em prantos,
Sem a tinta dos olhos e sem o manto.
Ensimesmada e cega.

Abandono...
Cipó crescendo descontrolado.
Suas mãos insanas esgoelam o cafezal,
Razão da xícara,
Que agora jaz
Ensimesmada e suja.

Abandono...
O fogão a lenha congela.
Três bocas caladas num uníssono sondar,
Para onde foram todos.
Em cima a chaleira
Ensimesmada espera.

Abandono...
No canto do quarto
Um vestido de noiva entre trapos,
E uma carta nunca enviada.
Muda, surda, cega e suja,
Espera...
Espera...
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455

Um abandono em outro abandono

Enquanto a moça caminhava pelos corredores da exposição, parava, observava quase sem fazer comentários. Eu que já tinha visto todas as obras expostas tantas vezes, aproveitava para assistir a ela, que é quase tão difícil de entender quanto é difícil de se ver Rodin e Camille Claudel em Belo Horizonte.
Às vezes, ela quietava paralisada próxima a uma escultura, isso era para mim como ver duas obras de arte, sem conflitos, só emoção. Noutras vezes, arriscava um comentário, nunca pretensioso, e quando me perguntou algo, me esforcei para ser útil.
Eu, que não sou entendedor de artes - gosto mais da história que circunda as criações de Camille e seu mestre-amante do que entendo as obras deles propriamente - e se tantas vezes fui à exposição, e vi o filme, e pesquisei na internet, foi para entender o efeito da paixão nas suas criações. Confesso que me emocionei todas as vezes que visitei A sombra de Rodin.
A obra de arte que mais me emociona é O abandono de Camille Claudel. Esta escultura tem beleza, alma, espiritualidade, precisão técnica, e seus reflexos e sombras, dependendo da hora, da iluminação e do estado de espírito do observador, dão uma leitura diferente a cada nova visita. Isso é arte! Há nela um abandono de entrega, de resignação, mas de deleite, só possíveis para quem viveu o que a autora viveu.
A moça que circulava pelos corredores da alma de Camille, na exposição do Museu de Artes e Ofícios, em Belo Horizonte, me fez delirar uns delírios possíveis da artista. Eis aqui os meus:


Nos corredores do Abandono de Camille Claudel

Tento esculpir um mundo novo onde tu não alcances.
Com o cinzel da paixão ruída, mutilada e sem chances,
Vou livrando das minhas pedras as sensações dos teus toques inefáveis,
Desconstruindo o meu abandono em ti, abandono-me.

Tua voz de dono, silente agora, no subconsciente da pedra mora... impalpável.
O teu olhar que me despia outrora são meus olhares concretos hoje, sem retinas, sem cristalinos, Reconstruo-te como tu és.
Lavro! Vaso! Arranco os teus olhos de dentro de mim aos gritos de miserável.

Teu tino do amor é do cerne da rocha, não se alcança, não dá para arranhar.
Ah! As tuas peles reflexivas eram como oxigênio, oxidaram minhas luzes do real...
Tento esculpir um mundo no vácuo, retiro o ar, retiro as peles,
Desbasto a lucidez do óbvio para revelar a rudeza de dentro de mim.

E retiro de mim as cores...
E arranco as flores... não há de amanhecer em flores,
Nunca mais deve haver primaveras, somente dores.
Preencho o meu abandono com a pausa da tua dança.
Preencho de sanha o meu mundo ideal.
E às canhas rasuro o riso e o mel,
Da paixão domo o pouco siso,
E os nossos tantos gritos lascivos...
Estes serão para sempre o âmago para mim.

Tu me ensinaste a criar corpos e músculos e pomos,
Dôo minha alma como alma para os corpos que agora crio em abandono.

Abandonei-me em ti...
Abandono-me de mim.

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424

As orações da Dona Lia

AS ORAÇÕES DA DONA LIA

Seu Juca trabalhava muito e bebia viciadamente..

Durante dez horas por dia respirava e comia o cimento da fábrica,
Comia cimento, do pão ao jantar..

Terminado o expediente,
Retornava um concreto ao lar,
No caminho, em cada esquina, entrava em um bar,
E não sei se para esquecer o dia,
Ou tolerar a vida,
Não sei!
O fato é que de bar em bar ele bebia,
Liquefazia o concreto com o álcool,
Todos os dias.

Quando descia a rua, seus filhos corriam ao seu encontro, mas
Não era o pai quem vinha,
Era concreto liquefeito,
Escorria de um lado ao outro da rua.
Acostumaram-se os filhos.
A mãe não...
Chorava...
Rezava...
E cumpria sua sina, resignada.
Não se divertia, não ia a festas, tinha um filho por ano,
E definhava.

Ela tentou de tudo,
De promessas a penitências

E ele continuava...
Alma de cimento, fumo no pulmão e álcool infinitamente.

Os colegas de trabalho dele mal se aposentavam e morriam,
Um de câncer na garganta, outro no pulmão,
Um de tosse esquisita, outros de fraqueza ou coração.

Um dia ele parou de beber,
Construiu a casa dos sonhos deles e ela sorriu o sorriso dos sorrisos,
Tanto sorriu que isso lhe fez mal - falta do costume.
Morreu de câncer no pulmão,
E como sofreu sem reclamar - força do costume.

Talvez, nas orações, ela tenha pedido
Para trocar de destino com o marido.

Acho que conseguiu.
523

Fim da procura

Um dia eu sonhei você,
Idealizei você,
Descrevi você em versos utópicos.
Estudei poesia,
Estudei filosofia,
Metafísica,
E Deus.

Tantas... Tantas páginas apenas para lhe entender em mim.
Visitei paisagens em sonhos e a vi correr pelos campos,
Colhi flores brancas para os seus cabelos,
E quando molhou as mãos no riacho,
Pareceu-me que toda a vida na terra
Fora feita ao seu dispor.

Idealizei você,
Vi seus olhos nas chuvas,
Seus cabelos num bando de pássaros,
Sua voz baixinha no arfar de folhas,
Sua pele nas névoas das montanhas,
Seu sorriso eu vi em cada sorriso.

Idealizei você,
Sonhei você.

Beijei bocas que não eram a sua,
Mas era a sua boca que eu beijava.
Amei e fui amado.
Só meu corpo amou,
Minha alma lhe esperava.

De tanto esperar, encontrei...
Encontrada, eu me encontrei,
E me perdi.
431

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