Lista de Poemas
Abandono
Abandono...
Uma rabeca num canto sepultada.
Resignada, ensimesmada e muda.
Abandono...
O berço do filho planejado,
Que foi ser anjo.
E na parede, dois santos
Ensimesmados e surdos.
Abandono...
No chão, entre palhas e milhos carunchados,
Uma Nossa Senhora em prantos,
Sem a tinta dos olhos e sem o manto.
Ensimesmada e cega.
Abandono...
Cipó crescendo descontrolado.
Suas mãos insanas esgoelam o cafezal,
Razão da xícara,
Que agora jaz
Ensimesmada e suja.
Abandono...
O fogão a lenha congela.
Três bocas caladas num uníssono sondar,
Para onde foram todos.
Em cima a chaleira
Ensimesmada espera.
Abandono...
No canto do quarto
Um vestido de noiva entre trapos,
E uma carta nunca enviada.
Muda, surda, cega e suja,
Espera...
Espera...
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Uma rabeca num canto sepultada.
Resignada, ensimesmada e muda.
Abandono...
O berço do filho planejado,
Que foi ser anjo.
E na parede, dois santos
Ensimesmados e surdos.
Abandono...
No chão, entre palhas e milhos carunchados,
Uma Nossa Senhora em prantos,
Sem a tinta dos olhos e sem o manto.
Ensimesmada e cega.
Abandono...
Cipó crescendo descontrolado.
Suas mãos insanas esgoelam o cafezal,
Razão da xícara,
Que agora jaz
Ensimesmada e suja.
Abandono...
O fogão a lenha congela.
Três bocas caladas num uníssono sondar,
Para onde foram todos.
Em cima a chaleira
Ensimesmada espera.
Abandono...
No canto do quarto
Um vestido de noiva entre trapos,
E uma carta nunca enviada.
Muda, surda, cega e suja,
Espera...
Espera...
436
Rainha das flores
Se com a astúcia do olhar humano
Que olha a fêmea com olhar de bicho,
Esmiuçada for a rosa,
O homem não lhe tocará o âmago.
Pois, verá de Deus os caprichos,
E não verá na flor, a rosa.
Na alma dela há um amor insano,
Daquele amor de dor sem queixa,
De aloucar todos os arcanos
E acasalar monges e gueixas.
Quanto abandono há na rosa!
Quantos planos e desencantos!
Quanto mistério há na rosa!
Quantos crimes passionais!
Mas não há o pecado original.
Rameira e indecorosa?
Antes, benta e celestial.
Que olha a fêmea com olhar de bicho,
Esmiuçada for a rosa,
O homem não lhe tocará o âmago.
Pois, verá de Deus os caprichos,
E não verá na flor, a rosa.
Na alma dela há um amor insano,
Daquele amor de dor sem queixa,
De aloucar todos os arcanos
E acasalar monges e gueixas.
Quanto abandono há na rosa!
Quantos planos e desencantos!
Quanto mistério há na rosa!
Quantos crimes passionais!
Mas não há o pecado original.
Rameira e indecorosa?
Antes, benta e celestial.
422
As orações da Dona Lia
AS ORAÇÕES DA DONA LIA
Seu Juca trabalhava muito e bebia viciadamente..
Durante dez horas por dia respirava e comia o cimento da fábrica,
Comia cimento, do pão ao jantar..
Terminado o expediente,
Retornava um concreto ao lar,
No caminho, em cada esquina, entrava em um bar,
E não sei se para esquecer o dia,
Ou tolerar a vida,
Não sei!
O fato é que de bar em bar ele bebia,
Liquefazia o concreto com o álcool,
Todos os dias.
Quando descia a rua, seus filhos corriam ao seu encontro, mas
Não era o pai quem vinha,
Era concreto liquefeito,
Escorria de um lado ao outro da rua.
Acostumaram-se os filhos.
A mãe não...
Chorava...
Rezava...
E cumpria sua sina, resignada.
Não se divertia, não ia a festas, tinha um filho por ano,
E definhava.
Ela tentou de tudo,
De promessas a penitências
E ele continuava...
Alma de cimento, fumo no pulmão e álcool infinitamente.
Os colegas de trabalho dele mal se aposentavam e morriam,
Um de câncer na garganta, outro no pulmão,
Um de tosse esquisita, outros de fraqueza ou coração.
Um dia ele parou de beber,
Construiu a casa dos sonhos deles e ela sorriu o sorriso dos sorrisos,
Tanto sorriu que isso lhe fez mal - falta do costume.
Morreu de câncer no pulmão,
E como sofreu sem reclamar - força do costume.
Talvez, nas orações, ela tenha pedido
Para trocar de destino com o marido.
Acho que conseguiu.
Seu Juca trabalhava muito e bebia viciadamente..
Durante dez horas por dia respirava e comia o cimento da fábrica,
Comia cimento, do pão ao jantar..
Terminado o expediente,
Retornava um concreto ao lar,
No caminho, em cada esquina, entrava em um bar,
E não sei se para esquecer o dia,
Ou tolerar a vida,
Não sei!
O fato é que de bar em bar ele bebia,
Liquefazia o concreto com o álcool,
Todos os dias.
Quando descia a rua, seus filhos corriam ao seu encontro, mas
Não era o pai quem vinha,
Era concreto liquefeito,
Escorria de um lado ao outro da rua.
Acostumaram-se os filhos.
A mãe não...
Chorava...
Rezava...
E cumpria sua sina, resignada.
Não se divertia, não ia a festas, tinha um filho por ano,
E definhava.
Ela tentou de tudo,
De promessas a penitências
E ele continuava...
Alma de cimento, fumo no pulmão e álcool infinitamente.
Os colegas de trabalho dele mal se aposentavam e morriam,
Um de câncer na garganta, outro no pulmão,
Um de tosse esquisita, outros de fraqueza ou coração.
Um dia ele parou de beber,
Construiu a casa dos sonhos deles e ela sorriu o sorriso dos sorrisos,
Tanto sorriu que isso lhe fez mal - falta do costume.
Morreu de câncer no pulmão,
E como sofreu sem reclamar - força do costume.
Talvez, nas orações, ela tenha pedido
Para trocar de destino com o marido.
Acho que conseguiu.
504
O escolhido
O ESCOLHIDO
Fosse eu,
o escolhido,
O teu querido,
O teu deus
Fosse eu,
O teu sonho antigo,
O diário amigo,
Íntimo e fiel.
Eu te adoraria,
Venerar-te-ia
em genuflexão.
Pecaria misturando crenças
Monoteístas e ateias
Construiria para ti um templo de invocação,
E te adoraria sem fim,
Com devoção.
Fosse eu,
Somente eu,
O escolhido entre a criação,
Atiraria pétalas
E ramos de alecrim.
Isso, se eu fosse, menina,
O DIABO da tua imaginação.
Fosse eu,
o escolhido,
O teu querido,
O teu deus
Fosse eu,
O teu sonho antigo,
O diário amigo,
Íntimo e fiel.
Eu te adoraria,
Venerar-te-ia
em genuflexão.
Pecaria misturando crenças
Monoteístas e ateias
Construiria para ti um templo de invocação,
E te adoraria sem fim,
Com devoção.
Fosse eu,
Somente eu,
O escolhido entre a criação,
Atiraria pétalas
E ramos de alecrim.
Isso, se eu fosse, menina,
O DIABO da tua imaginação.
369
Dupla face
Um olho seu me enxerga,
O outro me evita.
Uma frase me enverga,
Uma outra me excita.
Os lábios bicotam,
A língua muxoxa.
Seu riso me encanta,
Seus dentes me cortam.
Uma mão me toca,
Outra a porta indica.
Uma perna só insinua,
A outra se oferta nua.
Uma lágrima é dor,
A outra dissimula o riso.
Riso dissimulador,
Calculado, preciso,
Angélico e ameaçador.
Eu falo,
Você cala...
Você grita,
Eu silencio.
Eu grito, berro, no cio,
Você emperra, empaca,
Indiferente à dor...
Indiferente à minha dor.
Um dia é Freud, outro Jung.
Num dia tudo é relativo,
No outro, quântico,
Yin e Yan.
Urro em desatino e cântico,
Passivo e ativo,
Comum e excêntrico,
Barroco e romântico.
Não! Romântico, não.
Chama, reclama, clama por mim,
Atira-me na cama,
E foge...
Antes do fim.Google+
O outro me evita.
Uma frase me enverga,
Uma outra me excita.
Os lábios bicotam,
A língua muxoxa.
Seu riso me encanta,
Seus dentes me cortam.
Uma mão me toca,
Outra a porta indica.
Uma perna só insinua,
A outra se oferta nua.
Uma lágrima é dor,
A outra dissimula o riso.
Riso dissimulador,
Calculado, preciso,
Angélico e ameaçador.
Eu falo,
Você cala...
Você grita,
Eu silencio.
Eu grito, berro, no cio,
Você emperra, empaca,
Indiferente à dor...
Indiferente à minha dor.
Um dia é Freud, outro Jung.
Num dia tudo é relativo,
No outro, quântico,
Yin e Yan.
Urro em desatino e cântico,
Passivo e ativo,
Comum e excêntrico,
Barroco e romântico.
Não! Romântico, não.
Chama, reclama, clama por mim,
Atira-me na cama,
E foge...
Antes do fim.
517
O Passarinho (soneto)
O passarinho
Por que tu foste de mim, passarinho.
Por que tão longe da minha janela,
Buscaste teu ninho, tua quimera,
Justamente quando me vi menino.
Quem irá à próxima primavera
Fazer-me sorrir sem estar mentindo,
E me dispor a dar um grito fino
Como quem ao primeiro amor se entrega.
Quem me trará no aroma matutino
O gosto da vida que se arremessa,
Do cantar febril de quem faz um hino.
No anoitecer, rezo agora, sozinho,
Para o amanhecer trazer à janela,
A vida, no teu cantar, passarinho.Google+
Por que tu foste de mim, passarinho.
Por que tão longe da minha janela,
Buscaste teu ninho, tua quimera,
Justamente quando me vi menino.
Quem irá à próxima primavera
Fazer-me sorrir sem estar mentindo,
E me dispor a dar um grito fino
Como quem ao primeiro amor se entrega.
Quem me trará no aroma matutino
O gosto da vida que se arremessa,
Do cantar febril de quem faz um hino.
No anoitecer, rezo agora, sozinho,
Para o amanhecer trazer à janela,
A vida, no teu cantar, passarinho.
462
Bolhas de sabão
Todas as manhãs eu te invento,
Ponho-te na palma da mão e solto ao vento.
Depois, feito um louco, saio à tua procura.
Muitas vezes eu encontro,
Todas as vezes tu és bolha de sabão.
Pacientemente, na próxima manhã, eu te invento,
Ponho-te na palma da mão e solto ao vento.
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Ponho-te na palma da mão e solto ao vento.
Depois, feito um louco, saio à tua procura.
Muitas vezes eu encontro,
Todas as vezes tu és bolha de sabão.
Pacientemente, na próxima manhã, eu te invento,
Ponho-te na palma da mão e solto ao vento.
521
O Nada (soneto)
O Nada (soneto)
Um pincel passeia pela tela"Lento afetuoso" a violino,
E no céu num'alva nuvem rindo,
A cor da razão de todas elas.
Algoz de si, rumo ao concebível,
Esforça-se e com o esforço o espanto,
Tentar pintar e na tela, o inflexível,
O incólume, o inefável branco.
Há no nada uma tendência ao nada,
Como na urgência se hospeda a inércia,
E nas minhas obsessões, fadas.
Sinto-me numa luta fadada
Ao destino de todas as crenças:
- a inexistência, o branco e mais nada.Google+
Um pincel passeia pela tela"Lento afetuoso" a violino,
E no céu num'alva nuvem rindo,
A cor da razão de todas elas.
Algoz de si, rumo ao concebível,
Esforça-se e com o esforço o espanto,
Tentar pintar e na tela, o inflexível,
O incólume, o inefável branco.
Há no nada uma tendência ao nada,
Como na urgência se hospeda a inércia,
E nas minhas obsessões, fadas.
Sinto-me numa luta fadada
Ao destino de todas as crenças:
- a inexistência, o branco e mais nada.
469
Mentiras
Mentiras
Sei que mentes sérias coisas
E até o que mentes eu sei.
Foste uma rainha perigosa,
Uma rainha de muitos reis.
Sei por que gostas das rosas,
Sei dos espinhos nos teus seios
E das sementes destes, eu sei.
Teu passado tem vários veios
(o fim esconde os meios),
Fizeste as próprias leis.
Teu passado é quase inacessível,
Mas deixou marcas de ver.
No teu presente, pouco invejável,
Sei que mentes para viver.
Sei que mentes certas coisas,
Mas é o teu maior poder,
Cada vez que sorris falsa,
Cessa meu impulso de morrer.
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Sei que mentes sérias coisas
E até o que mentes eu sei.
Foste uma rainha perigosa,
Uma rainha de muitos reis.
Sei por que gostas das rosas,
Sei dos espinhos nos teus seios
E das sementes destes, eu sei.
Teu passado tem vários veios
(o fim esconde os meios),
Fizeste as próprias leis.
Teu passado é quase inacessível,
Mas deixou marcas de ver.
No teu presente, pouco invejável,
Sei que mentes para viver.
Sei que mentes certas coisas,
Mas é o teu maior poder,
Cada vez que sorris falsa,
Cessa meu impulso de morrer.
481
Vinho perfeito
VINHO PERFEITO
Na uva doce e selvagem
Vi o néctar idealizado.
Da parreira encontrada
Colhi nos sonhos os rubis
Escuros aromatizados,
Senti o bouquet perfeito,
Previ o sabor de notas raras
Murmurando em minha língua,
Brindando alma com alma,
A minha vida colorindo.
Néctar é para deuses!
Néctar é para deuses!
Zeus tomou-me o cálice.
Chronos me sacudiu.
Levaram o sonho de mim.
Na uva doce e selvagem
Vi o néctar idealizado.
Da parreira encontrada
Colhi nos sonhos os rubis
Escuros aromatizados,
Senti o bouquet perfeito,
Previ o sabor de notas raras
Murmurando em minha língua,
Brindando alma com alma,
A minha vida colorindo.
Néctar é para deuses!
Néctar é para deuses!
Zeus tomou-me o cálice.
Chronos me sacudiu.
Levaram o sonho de mim.
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Mondolfo
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