Lista de Poemas

Separação de sílabas




na sala de aula

quando a professora perguntava

como era a minha família

eu dizia que era um tritongo

havia cigarra

dançávamos jongo

mas a mãe se foi

a cigarra morreu

a dança acabou

a tristeza invadiu

meu pai e a mim

e viramos ditongo

mas veio a madrasta

que teve três filhos

me jogou num hiato

e fiquei feito um i

em ICARA-í
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epifania


uma fúria suave de buganvílias oferecendo-se às calçadas

por entre as grades das casas pelas tardes de inverno

buganvílias de ramos arqueados e retos

e passa a menina enamorada

e o rapaz lhe põe um cacho no cabelo

passa outra menina e se fotografa ao lado delas

os meninos as levam ao pique-bandeira:

bandeira branca, lilás, salmão, alaranjada...

do alto a garça crepuscular, visão binocular

branca branca branca

da paisagem se alimenta.

tardes de inverno

por que logo hoje para fora das grades

esse único e reto ramo de buganvília vermelha

uma espada ensanguentada

que acabou de sair do meu peito?
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os muçuns

eles turvam a água
para que você não veja,
para que você não beba,
para que você não seja,
para que você não saiba,
para que você não suba

e depender da aspereza;

turvam a água e são retráteis,
retratos de déspotas a despistar
cinicamente;

eles estão na superfície
e nós no fundo, entre náufragos,
como seres estranhos,
se alimentando do que afunda
e está morto;

no fundo, sem vermelho,
sem amarelo,
sem verde
e o azul já se desfaz,
escuro e frio...

eles estão na superfície
e nós no fundo,
em baixa temperatura-
dentes à mostra-
e a pressão aumenta
esse entredevorar-se.

tempo em que a palavra verde esperança
é proliferação de bactérias
e há versos que nascem das feridas,
da injustiça, do incêndio, do abuso-,
e até os poemas são equipados para a guerra.
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informal




no mar a voz que se alteara
como um pescoço de garça
com sua brancura feroz:

é preciso perder teus barcos,
teus marujos, teus pensamentos sujos
para chegar a Ítaca.

perder para não ficar perdido
e não chegar a Ítaca.

ver por outra ótica
para chegar à ética,
para voltar a Ítaca.

é preciso despir-se do rei,
vestir-se de mendigo,
ser Ninguém
para chegar a Ítaca.

é preciso deixar Calypso,
Circe e esta madrasta mítica
para chegar a Ítaca.

para chegar a Ítaca
e cessar a orgia,

para chegar a Ítaca
e não Itaocara, cara.
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poema de circunstância



nesta pandemia que asfixia e desagrega,
que esfrega os barcos nas pedras,
que naufraga todo dia
e devora toda noite-
impossível-.
mil caírem ao meu lado,
dez mil à minha direita
e eu não ser atingido.
784

solidariedade

poema
824

ao leitor

venho de uma família de pedreiros...

meu pai levantava casas para os outros,

de segunda a sábado regendo aquela orquestra

de sons desagradáveis com marretas, ponteiros, talhadeiras

e no domingo serrávamos a melancolia, as tábuas para o nosso barracão,

no serra-serra mostrava meninas me olhando

e, como ostra que copula com o rochedo,

subia-me às narinas uma influência de flor abraçada ao serrote.

meu pai levantava casas para os outros,

levantava por cima de tudo a afirmação pela vida.

por necessidade estivemos em consonância com as pedras,

rodando de verso em verso até perdermos as pontas.

meu pai amava as letras,

mas meu avô não permitiu esses namoros.

venho de uma família de analfabetos,

de tempos apagados,

não sei o que erguemos no passado,

o que derrubamos,

se quebramos estátuas buscando status,

se levantamos paredes ao redor de jardins,

se erguemos o muro da caverna de Platão...

já estivemos a caminho do desmanche, da ruína, como um navio;

sobrevoaram-nos corujas, garças, pousaram, nidificaram.

às vezes é preciso derrubar-se, passar pela loucura, nascer-se outro,

levantar-se dos escombros como Nabucodonosor...

Cristo derrubou-se em três dias,

meu pai levantava casas em dois meses,

meu pai levantava casas para os outros,

podava pedras, metal, ferro para os outros,

para os outros não ficava uma aresta,

a nós a fresta onde entrava o vento frio,

a poesia congelada...

ficou a lição - meu pai levantava casas para os outros-,

eu construo versos com você.

e que Netuno em raiva, com tridente, já não diga: haja pedras.
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menino




quando nasci
meu avô já tinha roçado
a plantação de sonetos.

por questão de saúde
meu pai me enviou para a poesia.

no parque aceso
fico preso
e menino
oceânicas palavras

a garça pesca

nos bocejos do abismo.

abismo, palavra muito próxima de mim.


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ao pó tornarás



meu pai pedreiro voltou ao pó... 

não fiquei só.
quando encosto em muro chapiscado, pergunto:
pai, é o senhor com sua eterna aspereza?!
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CANTIGAS DE MINAR




                                 para Lírian Tabosa e Gabriela Mistral

                                                  todo bien tuviste
                                                  al tenerme a mí
                                       (Me tuviste, Gabriela Mistral)  

                                                                                 

                                                          

sereias dos navios chamando para o mar,

esse lugar retirado para acalanto,

para um canto paralelo,

penduro minha infância no horizonte.

o contratorpedeiro embalado pelas ondas

logo estaria a caminho das Índias para desmanche,

do beliche eu ouvia a melancolia, nitidamente, em rumorejos,

roxa voz, lá fora, batendo, querendo entrar e entrava...

de onde vinha?

sublinha,

o balanço do navio

é o berço-barco balançando,

barco sem defensa e à deriva,

ninguém para salvá-lo,

com um som ora grave, ora estridente,

o menino a herniar-se no universo,

madrasta, porto sem cabeço, entrando no quarto

para tripular um navio de guerra.

para me fazer adormecer,

acorrentava-me ao seio,

braços salgados e frios

como correntes de âncoras

e num marítimo vaivém,

ia cantando, na surdina,

para ninguém ouvir,

cantigas de minar.

suas ameaças não eram fraudulentas,

todas se cumpriram,

tornei-me um menino vidroso,

Adernaldo, adernado,

a espatifar-se contra as pedras... 

uma língua tão sonora

e usada como espora. 


antigas cantigas,

tremura às cantigas de minar.

nada dispersa essas garças-da-noite

que à maneira de rebanho

se uniram no meu peito,

se meus primeiros sons

não foram bons,

hoje a penejar,

na cadeira de balanço,

a felicidade do poema

para você que não teve filhos

e eu que não tive mãe.
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Lasana Lukata é poeta e escritor nascido em São João de Meriti, 14 de março de 1964, Dia Nacional da Poesia, na antiga Estrada de Minas; oriundo de família de pedreiros, foi marinheiro de um navio contratorpedeiro que afundou nas águas de Durban a caminho da Índia ao ser rebocado para desmanche. (D37 Contratorpedeiro Rio Grande do Norte). Coincidentemente, a vida de Lukata também afundou, de servidor federal caiu para estadual, hoje é servidor público da Prefeitura de São João do Meriti como trabalhador braçal, mas se afundaram o navio e o homem de guerra, emergiu o poeta, participando da Oficina Literária ministrada pelo poeta Ferreira Gullar em 2001, na UERJ, resultando na Antologia Poética “Próximas Palavras”; cursando Literaturas Portuguesa e Africanas de Língua Portuguesa, UFRJ. obras publicadas: Meu Cartão Vermelho (crônicas), Multifoco, 2010, Caçada ao Madrastio (crônicas, 2010), Exercício de Garça, Íthacas, 2011 (Poesia); Separação de Sílabas, 2011 (poesia) Virtualbooks; Urdume (Poesias), editora Multifoco, 2013; Homem ao Mar, (Contos), Livros Ilimitados, 2014, Setênfluo (Poesias), editora Livros Ilimitados, 2014, Garça na janela (poesias), editora livros Ilimitados, 2015; pássaros sem pressa, 2016(poesias), Mergulho, poesias, 2017, editora Livro Rápido; Garça sem voz, poesias, 2018