Lista de Poemas

informal




no mar a voz que se alteara
como um pescoço de garça
com sua brancura feroz:

é preciso perder teus barcos,
teus marujos, teus pensamentos sujos
para chegar a Ítaca.

perder para não ficar perdido
e não chegar a Ítaca.

ver por outra ótica
para chegar à ética,
para voltar a Ítaca.

é preciso despir-se do rei,
vestir-se de mendigo,
ser Ninguém
para chegar a Ítaca.

é preciso deixar Calypso,
Circe e esta madrasta mítica
para chegar a Ítaca.

para chegar a Ítaca
e cessar a orgia,

para chegar a Ítaca
e não, Itaocara, cara.

 
175

outra linguagem

a garça

rouca que canta

não canta por cantar



canta quando se encolhe

canta quando se ergue

canta quando anda

movendo os pés sobre as águas

para atrair o leitor



canta o seu voo pesado

histórias de pedras antigas


seu grito de asas abertas

batendo em asas fechadas



as aves que não cantam

cantam de outro modo



a garça noutra linguagem

canta com sua plumagem

canta com a solidão

nas suas olheiras verdes

canta de modo agressivo



repare no peito do mar

rasgado todos os dias pelas quilhas



os bombeiros foram chamados

para buscar a garça numa casa,

cantava com a asa ferida



eu não sei porque me aproximo do mar



também tenho uma garça lesionada no poema

e os bombeiros nunca vêm

porque dizem que é trote

porque dizem é um poema



dizem com o tempo

a asa volta um pouco pro lugar

e cortam a ligação



e a garça rouca que canta

agora canta por cantar
574

cio




as palavras entram no cio
e os poetas vão atrás
214

quero-quero



dia e noite vais dizendo quero-quero...

quero-quero, quero-quero, barricada de palavras,

proteção do território,

rasantes voos acinzentando o espaço

para defender o ninho...


da cor do rato, de um navio de guerra,

o bico de proa abalroa em terra firme

a imodicidade dos desejos...


quero-quero, quero-quero,

esse quero sempre em dobro,

infinita querulência,

nós queremos muitas coisas,

muitos querem querosene,

querem até à obesidade,

eu só quero ser poeta

nem que seja por usucapião;


fui marujo,

do mar trouxe a resistência

e também fosforescência,

profundezas luminosas...


quero-quero, quero quero

dispersou minha boiada,

mas me uniu à poesia.


quero-quero, quero-quero

não te quero erguendo muros,

disse o pai pedreiro

e prometi ser das palavras.


quero-quero, quero-quero

quantas vezes me esmero,

quantas vezes me onero

nesse voo com a garça.

da avifauna,

garça, voo caro.

garça, voo pesado.

garça, voo salgado.


quero-quero, quero-quero

querofóbico fiquei...

como posso ser feliz?

garça, branca cicatriz.


quero-quero

também quero meu leitor,

quero acima da dor

o pescoço dessa garça,

não produza mais tristeza

à tristeza que já tenho.


quero-quero,

como posso ser Homero

de um país que nada espero?

como posso ser Virgílio

se Eneias gonorreias?

mal-chegado a bordo

tornei-me bardo,

tornei-me bird

num mar de blood.


quero-quero, quero-quero

se a vejo me acelero,

se é outono, primavero.


quero-quero, quero-quero

é minha voz que te chama,

abstratamente-,

a herniar-se no universo.









377

haicai





ventania

a garça tenta pousar
num galho que recua
382

ícaro


estamos siempre a nombrar las cosas.

hay malos nombramientos, precários,

nombres sin lumbres, irónicos, por ejemplo,

Hitler del Espiritu Santo, mi vecino.

ya no uso mi nombre de guerra.

mi nombre renqueaba, 

mi nombre era cojo,

mi nombre era Cláudio,

mi nombre ya estaba con las ropas rasgadas.

quien me nombró fue yo mismo.

soy un objeto rebelado.

seré mi próprio Homero.

mi nombré LASANA LUKMAN LUKATA.

- ¡Un tren! Dijeron.

me quité um vagón…

a veces es necesario desmochar el nombre, los deseos,

la nariz de cera... ni el cielo ni el mar:

Ícaro vuela entre las garzas.

Las  garzas vuelam bajo.

se quedó LASANA LUKATA.

todos  miraron.

- Nombre sonoro! Dijeron.

- ¡Está poético! Es el vuelo de la garza.

pero hay agua en la fiesta.

y entre os hijos  de Diós había uno que dijo:

- De poético sólo tiene el nombre.

Y de pronto ICARO ICARA-Í


por testimonio el inarticulado canto de la garza

que no se puede traducir.
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gambiarra

fui menino pobre morando em barracão

e o vizinho nos cedeu um bico de luz.

as lâmpadas como um rosário de garças

luminoso sobre o rio nos fundos do quintal.

telhado bicado por pássaros era de zinco.

menino auditivo tinha uma vantagem para a poesia,

ser poeta é obedecer ao delírio,

mas eu, navegando às escuras,

não sabia onde estavam as palavras

e Quintana me cedeu um bico de luz,

Bandeira me cedeu um bico de luz,

Drummond me cedeu um bico de luz

e fez-se a nitidez de outono,

o poema inteiro iluminado,

navio ancorado em noite de festa.

há poetas que puxam um bico de luz...

Rosa cedeu a Manoel de Barros um bico de luz,

Zequiel - ele igreja as árvores.

minha barba me avisa que estou acabando...

por um tempo vivi com morcegos sob um bico de luz.

agora fui à Light,

já tenho a minha própria luz.

e ontem apareceu uma menina,

pedindo que eu ceda um bico de luz,

vou ceder...

avareza, abismo,

tudo entra, nada sai.
450

coleccionador



                                                                                                                                   
                                                                                           para Carmen Názara Besada







LASANA LUKATA es poeta cazador,

cazando garza,

no como cazan los cazadores,

aparteando la danza nupcial

por codicia mercantil.

no soy pajarero,

lazo millares de palabras,

pero basta una perna

para la poesía se equilibrar.

la garza no es retórica,

es pictórica, metafórica,

apolínea y dionisíaca,

en el água es danzarina de la sardana,

en el aire danza la jota de la Galicia,

inventa con los vientos vuelos de pasión.

la garza anda por las ramas,

por las llamas del flamboyant,

garza, alba plumaje donde escribo tu nombre.

y en las paredes,

en vez de armas,

en vez de aves,

en vez de alce,

cabeza de léon,

cuelgo versos.
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Lasana Lukata é poeta e escritor nascido em São João de Meriti, 14 de março de 1964, Dia Nacional da Poesia, na antiga Estrada de Minas; oriundo de família de pedreiros, foi marinheiro de um navio contratorpedeiro que afundou nas águas de Durban a caminho da Índia ao ser rebocado para desmanche. (D37 Contratorpedeiro Rio Grande do Norte). Coincidentemente, a vida de Lukata também afundou, de servidor federal caiu para estadual, hoje é servidor público da Prefeitura de São João do Meriti como trabalhador braçal, mas se afundaram o navio e o homem de guerra, emergiu o poeta, participando da Oficina Literária ministrada pelo poeta Ferreira Gullar em 2001, na UERJ, resultando na Antologia Poética “Próximas Palavras”; cursando Literaturas Portuguesa e Africanas de Língua Portuguesa, UFRJ. obras publicadas: Meu Cartão Vermelho (crônicas), Multifoco, 2010, Caçada ao Madrastio (crônicas, 2010), Exercício de Garça, Íthacas, 2011 (Poesia); Separação de Sílabas, 2011 (poesia) Virtualbooks; Urdume (Poesias), editora Multifoco, 2013; Homem ao Mar, (Contos), Livros Ilimitados, 2014, Setênfluo (Poesias), editora Livros Ilimitados, 2014, Garça na janela (poesias), editora livros Ilimitados, 2015; pássaros sem pressa, 2016(poesias), Mergulho, poesias, 2017, editora Livro Rápido; Garça sem voz, poesias, 2018