Lista de Poemas
sobre ti
a garça que pesa fortemente sobre ti
que te empurra com suas asas
fortemente para o abismo
para os tubarões que acompanham teu navio
à espera do naufrágio
às madrugadas sem ponto sem vírgula
sem aviso
como um cassetete usado
em situações de covardia
com bicadas agressivas
te cutuca
te levanta
para ordenhar a tristeza
e à mesa
ninguém bebe contigo
garça repentina e brutal
arte
coloco num poema...
arte é colocar seu nome num poema.
incorporar setembros.
saudade sem distância é feitiço.
o trabalho que faço é poesia.
a palavra não tem corpo fechado.
meu pai amarrava tijolos,
fiz amarração de navios pelos mares,
amarrei nos portos meus apertos,
minha ademonia, o sol acendia
velas dos veleiros
e se em versos despacho
brancuras de garças enfebrecidas
é para fazê-la voar.
poema degradado
aguardando navios o cais apodrecido
a cidade comercial um joelho que se dobra
meu joelho não se dobra
dessa terra de laranjas
eu herdei a acidez
a pedra aberta por um raio
homens com mãos fechadas
mãos de pedra só abertas
por um raio e o rio
tão sujo como a política
impossível não manchar as asas
desenrola língua negra
veludo preto
onde presas as derrotas que vende
o barquinho de papel tropeça nas ondas
o tempo para com as garças
a garça plágio do urubu
que se limpa com palavras
vem todos os dias
empoleirar-se no meu verso
com sua visão binocular
enardecer
um mostruário de misérias.
em Y
a letra Y que se espalhou na América,
no tupi Nictheroy, Icaray...
nela pousada a garça ou mesmo no livro,
outrora menino, não passava de forquilha
para acertar passarinhos...
perspectivada garça de visão binocular
e ele olhava a vida com o olho do P de Polifemo,
sem ver nas ruas as placas de advertência:
bifurcação em “Y”.
depois ele foi passarinho,
a forquilha o acertou...
em vindo a madrasta,
tendo três filhos e o pai dominado,
o ramo bifurcado exibia abertamente o verbo separar,
no geográphico nome ICARA-y, substituto do i,
antiga orthographia,
plantas cabisbaixas,
a melancolia bifurcava-se nas flores
e já não sabia dizer
se foi a letra desprezada
ou a sílaba que escapou.
mas além da paisagem,
o flamboyant em flor,
pétalas caindo,
para ele sangrava
na superfície pura de uma garça
que mesmo mutilada, insistia em voar
sobre o Rio Merity.
caturrar
aprendi esgrima com a garça, minha parça,
perfurar nevoeiros.
a garça como Rimbaud não tem horror à lama,
a garça é plágio do urubu.
dela recebi o dom da espreita,
a visão binocular, o limpo voo, a curva do peixe.
lá vem a garça bicuda no bico de proa.
ensinou-me a penetrar os corações,
palavras agudas...
minhas palavras não ficam no vento.
tenho a escrita fina e a escrita grossa,
tinta clara e escura,
minha Bic dá bicadas agressivas e amorosas,
é pincel e é clavel.
lá vem a garça bicuda no bico de proa.
e na sala de aula, lendo meus versos,
dizia a professora: tenho pena de quem cair
no bico da sua caneta! você não é mau, não,
você é cruel.
lá vem no bico de proa a garça bicuda.
e o poema pouco anda
com essa ave pesada, o vento de proa,
a craca no casco, anáfora enjoa.
lá vem a garça bicuda descendo com a proa,
não teme, não voa, a sede de sal,
a vida desterra, quase sempre destoa,
quantas vezes descemos ao abismo,
quantas garças perdemos no bico de proa
e a proa se ergue às alturas perdidas.
no cais um som de agulheiro pneumático,
a garça na desgraça desgraçadamente
não consegue ser um grito.
o que me espeta é a garça que perdi...
Polifemo
vieste pelos sete mares mirando o horizonte e as estrelas,
guardaste teus vestidos roçagantes,
sobre tua nudez desceu a farda mitológica.
o navio ricocheteando pelos portos,
agora estás voltando a Ítaca
como a garça que regressa ao ninho.
seis meses é muito pouco, Gallega,
para subirem as velas,
uma viagem rápida e pequena
no mar antigramatical.
fica um pouco mais...
não adestraste cavalos-marinhos.
à beira da praia só chegam conchas vazias.
é preciso mergulhar...
Netuno anda mudado, enfraquecido ou
alternado de rigor e de brandura:
se te perseguiu por meses,
Ulisses foram anos, quantos danos...
estiveste separada da família,
mas anexada ao infinito,
do privado para o público
foi subtração e adição,
palidez e rubidez...
há descidas e subidas
como a proa que retorna do abismo.
só as impetuosas inclinam-se ao delírio
na contextura náutica das ondas.
agora que desvelejas, renavega as letras,
titânicas palavras...
e perdão se te persigo com poemas,
se enchi o mar de versos,
mas deixaste no Rio de Janeiro
um ciclope cego por ti.
infância
nuvens no horizonte, não distingo ditongos...
no convés batem, marujos, a ferrugem dos tempos,
voam garças em direção ao passado, idade de pedra...
na praia o poeta crava seu arpão na fugacidade:
a tartaruguinha correndo na areia
e os rasantes voos da gaivota
era madrasta sobre mim,
dura, espinhosa, bicando minha infância
para todos os lados,
suas mãos de diamante me prendendo
e eu querendo chegar ao mar,
onde já estava tudo diluído,
sem ritmo, sem nome
e Ulisses era Ninguém;
onde pedra é polvo
e a palavra com oito tentáculos
oito cores
oito texturas
oitenta disfarces
às águas rasas,
para manter-se criativa,
vinha devorar a poesia.
EL FLECHAZO
a una guardiamarina do Elcano
pelo tridente de Netuno,
obra de arte bem tratada, apesar da ação do mar,
branco, branco, branco,
do porto de Gran Canária de Tomás Morales,
migraste como um grande animal da Pedra Polida,
fugindo do inverno em busca de verão;
visitar este veleiro, tem com ele a minha vida
no passado, nostalgia, no presente, só encanto,
fui da equipe de velas da Marinha,
apontar a proa para a vida, há descidas no abismo...
esguichos retorcidos num gesto barroco;
visitar este veleiro, tem com ele a minha vida
no passado, nostalgia, no presente, só encanto,
fui da equipe de velas da Marinha,
apontar a proa para a vida, há descidas no abismo...
do sextante e do compasso,
fiquei preso como um pássaro no visgo,
como verso perdido no convés,
continuando o mês de março sobre a terra
a morte do Zé do Norte - a Ferreira Gullar (in memoriam)
contratorpedeiro Zé do Norte,
bico fino,
desejo agudo pelos mares,
já não pode ser contra nada...
de capitânia a rebocado
a caminho do desmanche,
perdeu o manche,
da montanha a avalanche,
desmoronou sobre ti
garças negras, africanas,
águas de Durban.
mar, cama líquida e azul,
noites de erguimentos e quedas,
de nas estrelas cadentes
encharcar-se de abismos
e a vida com seus Zés:
Zé da Rita
Zé da Preta
Zé do pão
no final serão da morte,
todos a caminho do desmanche,
a morte quer seu lanche,
a despedida é lilás.
águas de Alang
quanto sang!
Zé do Norte mudou de nação,
de número, de nome,
mudará de forma,
disforme,
Zé da Morte;
cortaram cabos de reboque
e se foi com a tempestade,
com seus postos de combate,
virou posto de abandono;
seus paióis de enfermaria,
onde fui encarregado,
um lugar apropriado
ao marujo mareado;
meu primeiro navio afundou
e em harmonia afundei
de servidor federal
para estadual,
hoje municipal,
trabalhador braçal
da prefeitura de Meriti;
mas se afundaram o navio
e o homem de guerra,
emergiu o poeta.
seu destino, como as aves,
era entrelaçar-se ao vento;
sua metralhadora antiaérea
era inveja de passarinhos.
vento forte Zé do Norte!
a mercadoria não chegou,
menos sangue em Alang,
caturrei, afundamos,
deixamos juntos
a altivez das ondas,
afundei em todos os navios,
vim aos ares com todos os poemas
como a proa que retorna do abismo.
agora
o girassol se desmancha em outros benefícios,
nos tubos-almas dos canhões
deslizam peixes, não metais.
eu, passei de menos para mais...
quem dera essa imagem
fosse aqui na superfície.
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