Lista de Poemas

sobre ti




a garça que pesa fortemente sobre ti

que te empurra com suas asas

fortemente para o abismo

para os tubarões que acompanham teu navio

à espera do naufrágio

às madrugadas sem ponto sem vírgula

sem aviso

como um cassetete usado

em situações de covardia

com bicadas agressivas

te cutuca

te levanta

para ordenhar a tristeza

e à mesa

ninguém bebe contigo

garça repentina e brutal
1 073

arte

não ponho seu nome na encruzilhada,

coloco num poema...

arte é colocar seu nome num poema.

incorporar setembros.


saudade sem distância é feitiço.

o trabalho que faço é poesia.

a palavra não tem corpo fechado.

meu pai amarrava tijolos,

fiz amarração de navios pelos mares,

amarrei nos portos meus apertos,

minha ademonia, 
o sol acendia

velas dos veleiros


e se em versos despacho

brancuras de garças enfebrecidas

                                                 é para fazê-la voar.
1 109

poema degradado












aguardando navios o cais apodrecido

a cidade comercial um joelho que se dobra

meu joelho não se dobra

dessa terra de laranjas

eu herdei a acidez

a pedra aberta por um raio

homens com mãos fechadas

mãos de pedra só abertas

por um raio e o rio

tão sujo como a política

impossível não manchar as asas

desenrola língua negra

veludo preto

onde presas as derrotas que vende

o barquinho de papel tropeça nas ondas

o tempo para com as garças

a garça plágio do urubu

que se limpa com palavras

vem todos os dias

empoleirar-se no meu verso

com sua visão binocular

enardecer

um mostruário de misérias.
1 049

em Y

da biblioteca do SESC olhava o óbvio num galho bívio,

a letra Y que se espalhou na América,

no tupi Nictheroy, Icaray...




nela pousada a garça ou mesmo no livro,

outrora menino, não passava de forquilha

para acertar passarinhos...




perspectivada garça de visão binocular

e ele olhava a vida com o olho do P de Polifemo,

sem ver nas ruas as placas de advertência:

bifurcação em “Y”.




depois ele foi passarinho,

a forquilha o acertou...




em vindo a madrasta,

tendo três filhos e o pai dominado,

o ramo bifurcado exibia abertamente o verbo separar,

no geográphico nome ICARA-y, substituto do i,

antiga orthographia,




plantas cabisbaixas,

a melancolia bifurcava-se nas flores

e já não sabia dizer

se foi a letra desprezada

ou a sílaba que escapou.




mas além da paisagem,

o flamboyant em flor,

pétalas caindo,

para ele sangrava

na superfície pura de uma garça

que mesmo mutilada, insistia em voar

sobre o Rio Merity.
1 105

voo



sabe a garça o voar pesado,
voar de pedra...
embriaga-se de vento
para o voo luminoso.
1 105

caturrar

lá vem a garça bicuda no bico de proa.
aprendi esgrima com a garça, minha parça,
perfurar nevoeiros.
a garça como Rimbaud não tem horror à lama,
a garça é plágio do urubu.
dela recebi o dom da espreita,
a visão binocular, o limpo voo, a curva do peixe.

lá vem a garça bicuda no bico de proa.
ensinou-me a penetrar os corações,
palavras agudas...
minhas palavras não ficam no vento.
tenho a escrita fina e a escrita grossa,
tinta clara e escura,
minha Bic dá bicadas agressivas e amorosas,
é pincel e é clavel.

lá vem a garça bicuda no bico de proa.
e na sala de aula, lendo meus versos,
dizia a professora: tenho pena de quem cair 
no bico da sua caneta! você não é mau, não,
você é cruel.

lá vem no bico de proa a garça bicuda. 
e o poema pouco anda 
com essa ave pesada, o vento de proa,
a craca no casco, anáfora enjoa.

lá vem a garça bicuda descendo com a proa,
não teme, não voa, a sede de sal,
a vida desterra, quase sempre destoa,
quantas vezes descemos ao abismo,
quantas garças perdemos no bico de proa
e a proa se ergue às alturas perdidas.
no cais um som de agulheiro pneumático,
a garça na desgraça desgraçadamente
não consegue ser um grito.
o que me espeta é a garça que perdi...
1 090

Polifemo


vieste pelos sete mares mirando o horizonte e as estrelas,
guardaste teus vestidos roçagantes,
sobre tua nudez desceu a farda mitológica.

o navio ricocheteando pelos portos,
agora estás voltando a Ítaca
como a garça que regressa ao ninho.

seis meses é muito pouco, Gallega,
para subirem as velas,
uma viagem rápida e pequena
no mar antigramatical.
fica um pouco mais...
não adestraste cavalos-marinhos.
à beira da praia só chegam conchas vazias.
é preciso mergulhar...

Netuno anda mudado, enfraquecido ou
alternado de rigor e de brandura:
se te perseguiu por meses,
Ulisses foram anos, quantos danos...

estiveste separada da família,
mas anexada ao infinito,
do privado para o público
foi subtração e adição,
palidez e rubidez...
há descidas e subidas
como a proa que retorna do abismo.

só as impetuosas inclinam-se ao delírio
na contextura náutica das ondas.

agora que desvelejas, renavega as letras,
titânicas palavras...

e perdão se te persigo com poemas,
se enchi o mar de versos,
mas deixaste no Rio de Janeiro
um ciclope cego por ti.
1 117

infância



nuvens no horizonte, não distingo ditongos...
no convés batem, marujos, a ferrugem dos tempos,
voam garças em direção ao passado, idade de pedra...
na praia o poeta crava seu arpão na fugacidade:
a tartaruguinha correndo na areia
e os rasantes voos da gaivota
era madrasta sobre mim,
dura, espinhosa, bicando minha infância
para todos os lados,
suas mãos de diamante me prendendo
e eu querendo chegar ao mar,
onde já estava tudo diluído,
sem ritmo, sem nome
e Ulisses era Ninguém;
onde pedra é polvo
e a palavra com oito tentáculos
oito cores
oito texturas
oitenta disfarces
às águas rasas,
para manter-se criativa,
vinha devorar a poesia.
1 084

EL FLECHAZO

I
a una guardiamarina do Elcano

vai poema com as garças pelos mares

(a garça clareia-se abismo)

vai por mãos de duas guardas-marinhas

de México e Espanha.

quantos livros me chegaram de navio...

nada foi por avião.

sim, eu tenho a paciência dos navios.

poeta pobre à espera dos navios.

não, não falo de improviso,

as palavras catequizo.


vai poema na velocidade de 10 nós,

vai com cisne, pelicano, albatroz,

vai ao vento, vai à vela, a palo seco,

mulher, me deixa apenas beijar orquídeas

dos teus becos;

vai com as asas da coruja de Minerva,

sempre verde, sobrevoa, sobremodo,

sobretudo, sobrevive,

vai fazer viagens que não pude,

fui marujo de açude, mareado verso rude,

não passei pelo batismo do equador,

não detenho este líquido diploma,

com esta linha que divide em hemisférios.



II



dentro da Armada Española

busquei por ti Amada Española

com um porquê irrespondível e sem cura,

este lirismo que me mata,

pisando a pata numa rima

enlouquece todo o verso;

por ti seis meses mapeei o oceano;

por ti seis vezes visitei o Elcano,

buscando pano para o poema;

por ti seis vezes revistaram minha bolsa,

só havia o teu retrato no castelo de proa tão infanta,

e os ventos entusiasmavam teus cabelos

como espias desfiadas, assediadas pelo mar.

encabritavam-se os navios esporeados pelas ondas,

pelo tridente de Netuno,

sim, Elcano, teus mastros tocam astros

quando em ondas de ternuras,

as velas dos veleiros são os papiros das aves

e uma ave o nome dela, a cada voo, em cada vela,

escandalosa, escreve nas alturas

com água, goma arábica e fuligem...


obra de arte bem tratada, apesar da ação do mar,

branco, branco, branco,

do porto de Gran Canária de Tomás Morales,

migraste como um grande animal da Pedra Polida,

fugindo do inverno em busca de verão;



visitar este veleiro, tem com ele a minha vida

no passado, nostalgia, no presente, só encanto,

fui da equipe de velas da Marinha,

apontar a proa para a vida, há descidas no abismo...



quando Netuno embarca no poema,

não tem sujeito, objeto,

quem comanda é o verbo,

tudo é delírio, fluidez, golfinhos rotadores,

esguichos retorcidos num gesto barroco;



visitar este veleiro, tem com ele a minha vida

no passado, nostalgia, no presente, só encanto,

fui da equipe de velas da Marinha,

apontar a proa para a vida, há descidas no abismo...



não, não quero o mundo,

sou farol abandonado onde garças fazem ninho,

sou sempre o fora do tempo e do espaço,

do sextante e do compasso,

basta circunfuso rodear-me de teus olhos,

fiquei preso como um pássaro no visgo,

como verso perdido no convés,

naufragar é desejar profundamente,

o búzio ainda canta o som do teu sorriso,

tuas mãos de areia ainda sinto o teu aperto,

o Princípio da Solidariedade, a coletividade do mar,

nesta tarde de outono, a bordo do Elcano,

antigo como um buque ofereço-te um buquê,

girassóis ensolarados,

continuando o mês de março sobre a terra

e que não seja coberto pelas águas.

rasas como este rio estão as almas.

e quando tudo fragmenta,

desencadernadas pelos ares,

disperso-me nas garças.
1 347

a morte do Zé do Norte - a Ferreira Gullar (in memoriam)

contratorpedeiro Zé do Norte,

bico fino,

desejo agudo pelos mares,

já não pode ser contra nada...

de capitânia a rebocado

a caminho do desmanche,

perdeu o manche,

da montanha a avalanche,

desmoronou sobre ti

garças negras, africanas,

águas de Durban.

mar, cama líquida e azul,

noites de erguimentos e quedas,

de nas estrelas cadentes

encharcar-se de abismos

e a vida com seus Zés:

Zé da Rita

Zé da Preta

Zé do pão

no final serão da morte,

todos a caminho do desmanche,

a morte quer seu lanche,

a despedida é lilás.

águas de Alang

quanto sang!

Zé do Norte mudou de nação,

de número, de nome,

mudará de forma,

disforme,

Zé da Morte;

cortaram cabos de reboque

e se foi com a tempestade,

com seus postos de combate,

virou posto de abandono;

seus paióis de enfermaria,

onde fui encarregado,

um lugar apropriado

ao marujo mareado;

meu primeiro navio afundou

e em harmonia afundei

de servidor federal

para estadual,

hoje municipal,

trabalhador braçal

da prefeitura de Meriti;

mas se afundaram o navio

e o homem de guerra,

emergiu o poeta.

seu destino, como as aves,

era entrelaçar-se ao vento;

sua metralhadora antiaérea

era inveja de passarinhos.

vento forte Zé do Norte!

a mercadoria não chegou,

menos sangue em Alang,

caturrei, afundamos,

deixamos juntos

a altivez das ondas,

afundei em todos os navios,

vim aos ares com todos os poemas

como a proa que retorna do abismo.

agora

o girassol se desmancha em outros benefícios,

nos tubos-almas dos canhões

deslizam peixes, não metais.

eu, passei de menos para mais...

quem dera essa imagem

fosse aqui na superfície.

1 547

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Lasana Lukata é poeta e escritor nascido em São João de Meriti, 14 de março de 1964, Dia Nacional da Poesia, na antiga Estrada de Minas; oriundo de família de pedreiros, foi marinheiro de um navio contratorpedeiro que afundou nas águas de Durban a caminho da Índia ao ser rebocado para desmanche. (D37 Contratorpedeiro Rio Grande do Norte). Coincidentemente, a vida de Lukata também afundou, de servidor federal caiu para estadual, hoje é servidor público da Prefeitura de São João do Meriti como trabalhador braçal, mas se afundaram o navio e o homem de guerra, emergiu o poeta, participando da Oficina Literária ministrada pelo poeta Ferreira Gullar em 2001, na UERJ, resultando na Antologia Poética “Próximas Palavras”; cursando Literaturas Portuguesa e Africanas de Língua Portuguesa, UFRJ. obras publicadas: Meu Cartão Vermelho (crônicas), Multifoco, 2010, Caçada ao Madrastio (crônicas, 2010), Exercício de Garça, Íthacas, 2011 (Poesia); Separação de Sílabas, 2011 (poesia) Virtualbooks; Urdume (Poesias), editora Multifoco, 2013; Homem ao Mar, (Contos), Livros Ilimitados, 2014, Setênfluo (Poesias), editora Livros Ilimitados, 2014, Garça na janela (poesias), editora livros Ilimitados, 2015; pássaros sem pressa, 2016(poesias), Mergulho, poesias, 2017, editora Livro Rápido; Garça sem voz, poesias, 2018