Leonardo Vianna

Leonardo Vianna

n. 1991 BR BR

n. 1991-11-28, Rio de Janeiro

Perfil
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Na minha janela

Cercado por conhecimento
Não sou menos escravo do que um operário.
Sou pior!

Soterrado por livros
Respiro com dificuldade,
Sufocado pelo verso,
Afogado na prosa,
Eu vivo - ou finjo viver.

E mesmo tendo fontes de ambrosia
Para o meu regalo,
Dou preferência à janela
Onde me debruço.
Não por amar a morte,
Mas por aprender mais com o que ela me mostra.

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Poemas

20

Na minha janela

Cercado por conhecimento
Não sou menos escravo do que um operário.
Sou pior!

Soterrado por livros
Respiro com dificuldade,
Sufocado pelo verso,
Afogado na prosa,
Eu vivo - ou finjo viver.

E mesmo tendo fontes de ambrosia
Para o meu regalo,
Dou preferência à janela
Onde me debruço.
Não por amar a morte,
Mas por aprender mais com o que ela me mostra.

594

Bando

Eu passarinho, canto lá
Tu passarás, não mais
Ele passará, um dia
Nós passaremos, será?
Vós passareis, até que...
Eles passarão, não! Já passaram.

Entre Eu e Ele, um espanto de beija-flor.
558

Não lhe quero mal

Não lhe quero mal, quero-a morta!
Porque viva não posso te ter
E não tê-la é pior que morrer,
E sabes disso, mas não lhe quero mal, não!

Quero-a morta afogada,
Seu corpo boiando, branca e fria,
Tendo como ornamentos
Os aguapés e as vitórias-régias em flor,
Quem sabe até uma garça...
Mas não te quero viva, não!

Vê-la viva em companhia
É doloroso, por isso te quero morta.
Ninguém mais te olhará, por nojo,
Mas eu a velarei da melhor maneira
Contemplando seu corpo até o primeiro verme surgir.

E eu o invejarei
Porque ele percorrerá os cantos do seu corpo
Que eu jamais sonhei.
O meu amor recusado
Agora de nada valerá,
Pois o verme está devorando
O único músculo que jamais bateu por mim...
E nem mais baterá.

611

Ipanema

Meus olhos se perdem em tamanha imensidão
onde o azul do céu se funde com o do mar;
areias brancas, palmeiras e tesouros a encontrar
Onde estão? Não sei, talvez onde ocorre a arrebentação.

As gaivotas caçam os pobres peixes
e as morenas se banham ao Sol.
Ai Deus-pescador, não me fisgue com seu anzol!
Deixe-me vivo para admirar seus belos feixes.

Quero a onda sempre sublime
e os surfistas ordinários a desafiando.
Ai Deus-pescador, perdoai meu lamento enjoativo,
mas é a minha caneta que se exprime!

641

Sobre homens

O homem não nasce do ventre feminino
Nem é identificável pelo falo entre as pernas,
Também não é o que come várias mulheres,
Muito menos é aquele que possui pomo-de-adão.

O homem de verdade só nasce na flor da juventude
Busca no orvalho o que lhe atrai
E só assim tornar-se-á homem, mas é um processo demorado.

Inicialmente ele é um caldeirão
Uma sopa de volúpias e perversões,
Através da boca só saem besteiras, sacanagens e nada que preste.
O cérebro migra para a glande
E quase tudo - senão tudo - que povoa sua mente tem a ver com sexo.
Ele pensa que quanto mais mulheres come mais homem é.
O sexo oposto é o poço de maturidade onde todos que nele se banham são os mais machos.
Chorar? É coisa de gay... Homem não chora, fica mal, só isso.
Vida? Pra quê se preocupar com o amanhã se o que se vive é o momento?
Música? Uma com batida dançante, nada de letras melodiosas ou inteligentes.
Amar? Coisa de mulher.

Os anos passam
E o tempo faz a ficha cair para todos!

Alguns chegam a ser homens, outros pensam que são e uns outros jamais o serão!
Homem que é homem chora;
Homem que é homem ama;
Homem que é homem pensa com a cabeça de cima;
Homem que é homem respeita o sexo oposto, não faz dele um mero objeto sexual, reconhece-o como
gente;
Homem que é homem não nasce, faz-se;
Indo contra todas as anunciações de parteiras e ginecologistas.

Ter pênis e duas bolas entre as pernas é fácil, quero ver ser homem de verdade.

607

Epitáfio de uma estrela

Ao cantar dos anjos
E ao alvorecer do dia,
Deixar-me-ei descansar nos braços dela,
Aquela que me censura
E nutre: de ver, de sentir e de sonhos.

A última estrela do céu se foi
e com ela a minha esperança
O firmamento nunca mais será o mesmo
mas nem assim ele pode parar:
de girar, de perceber e de sonhar.

Galáxias e nebulosas choram a perda
daquele pontinho de luz que fazia a diferença
na imensidão escura. Machuca
no peito daquele que sofre a partida
sem volta daquele sem vinda.

584

Certo dia

Certo dia, um passarinho pousou na minha janela.
Não era um passarinho como outro qualquer,
era multicolorido, especial.
Seus diferentes tons e nuances despertaram meu vago olhar,
de súbito, me peguei num romance,
desses onde o improvável sempre acontece
e me dei conta da importância da ave.

Egoísta, pensei em aprisioná-lo
Numa gaiola velha e empoeirada,
Mas nada fiz;
Apenas sorri.

Agradeci a ele com um meneio de cabeça
E gargalhei como um desvairado,
Compreendendo tudo.

Ele bateu asas e foi-se embora, chilreando.
Me senti gratificado pela sua visita inusitada
Pois havia entendido, enfim, a importância de manter a janela aberta.
533

A foice

O tiquetaquear do relógio mata
Tão rapidamente um relacionamento
Do que as mentiras
Que a cicuta servida a dois.

As estrelas todas apagam-se;
O Sol parece que refulgia menos;
Tudo é um prelúdio sinistro
De uma possível morte.

Faça o que for possível, mas
Não faça nada.
Muitas vezes o ato deixa de
Ser uma ajuda para tornar-se
A foice.

672

Apagada

Queria um brilho oculto vislumbrar
Da brancura dos teus dentes ao mistério do teu olhar.

Mas o destino vil e cruel
Fez o infortúnio de nos separar
Pra onde você foi? Paris, Roma ou Lua?
Desatinado fiquei com o descortinar desse véu
Plim! Apagada. De você não consigo lembrar
Não sei se daquela vez estava vestida ou nua
e se algum dia te amei.

Lembro-me apenas de uma brancura,
se era do seu brilho ou das estrelas
Mais uma vez não sei.
Acho que eram as estrelas...

624

7 de Setembro

À República da espada sem sangue,
À Nação que nascia manchada,
Ao Estado tradicional e moderno,
Rico e pobre, branco, preto e índio,
de nativos e estrangeiros;
Desejo, indo na contramão,
Saúde, segurança, cidadania,
Paz, respeito (da criança ao idoso),
Boa política e só.

É o que desejam os paulistas,
baianos, curitibanos, goianos, manauaras
e toda nação à Nação.

514

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