Lista de Poemas
Na minha janela
Não sou menos escravo do que um operário.
Sou pior!
Soterrado por livros
Respiro com dificuldade,
Sufocado pelo verso,
Afogado na prosa,
Eu vivo - ou finjo viver.
E mesmo tendo fontes de ambrosia
Para o meu regalo,
Dou preferência à janela
Onde me debruço.
Não por amar a morte,
Mas por aprender mais com o que ela me mostra.
Bando
Tu passarás, não mais
Ele passará, um dia
Nós passaremos, será?
Vós passareis, até que...
Eles passarão, não! Já passaram.
Entre Eu e Ele, um espanto de beija-flor.
Ipanema
Meus olhos se perdem em tamanha imensidão
onde o azul do céu se funde com o do mar;
areias brancas, palmeiras e tesouros a encontrar
Onde estão? Não sei, talvez onde ocorre a arrebentação.
As gaivotas caçam os pobres peixes
e as morenas se banham ao Sol.
Ai Deus-pescador, não me fisgue com seu anzol!
Deixe-me vivo para admirar seus belos feixes.
Quero a onda sempre sublime
e os surfistas ordinários a desafiando.
Ai Deus-pescador, perdoai meu lamento enjoativo,
mas é a minha caneta que se exprime!
Sobre homens
O homem não nasce do ventre feminino
Nem é identificável pelo falo entre as pernas,
Também não é o que come várias mulheres,
Muito menos é aquele que possui pomo-de-adão.
O homem de verdade só nasce na flor da juventude
Busca no orvalho o que lhe atrai
E só assim tornar-se-á homem, mas é um processo demorado.
Inicialmente ele é um caldeirão
Uma sopa de volúpias e perversões,
Através da boca só saem besteiras, sacanagens e nada que preste.
O cérebro migra para a glande
E quase tudo - senão tudo - que povoa sua mente tem a ver com sexo.
Ele pensa que quanto mais mulheres come mais homem é.
O sexo oposto é o poço de maturidade onde todos que nele se banham são os mais machos.
Chorar? É coisa de gay... Homem não chora, fica mal, só isso.
Vida? Pra quê se preocupar com o amanhã se o que se vive é o momento?
Música? Uma com batida dançante, nada de letras melodiosas ou inteligentes.
Amar? Coisa de mulher.
Os anos passam
E o tempo faz a ficha cair para todos!
Alguns chegam a ser homens, outros pensam que são e uns outros jamais o serão!
Homem que é homem chora;
Homem que é homem ama;
Homem que é homem pensa com a cabeça de cima;
Homem que é homem respeita o sexo oposto, não faz dele um mero objeto sexual, reconhece-o como
gente;
Homem que é homem não nasce, faz-se;
Indo contra todas as anunciações de parteiras e ginecologistas.
Ter pênis e duas bolas entre as pernas é fácil, quero ver ser homem de verdade.
Não lhe quero mal
Não lhe quero mal, quero-a morta!
Porque viva não posso te ter
E não tê-la é pior que morrer,
E sabes disso, mas não lhe quero mal, não!
Quero-a morta afogada,
Seu corpo boiando, branca e fria,
Tendo como ornamentos
Os aguapés e as vitórias-régias em flor,
Quem sabe até uma garça...
Mas não te quero viva, não!
Vê-la viva em companhia
É doloroso, por isso te quero morta.
Ninguém mais te olhará, por nojo,
Mas eu a velarei da melhor maneira
Contemplando seu corpo até o primeiro verme surgir.
E eu o invejarei
Porque ele percorrerá os cantos do seu corpo
Que eu jamais sonhei.
O meu amor recusado
Agora de nada valerá,
Pois o verme está devorando
O único músculo que jamais bateu por mim...
E nem mais baterá.
O último
Antes que as cortinas se fechem eu
Apresento uma tragicomédia,
Pulo, canto e danço
Mais colorido que um saltimbanco.
Enceno minha peça com maestria
Sem vergonha, com alegria.
Rodo, choro e rio,
Mas o público permanece sombrio.
Encerro a encenação e agradeço,
Porém o público cala.
Nos bastidores a voz da mente fala:
"Minha própria vida rejeitada... um dia desapareço".
A mula(ta)
- "Casa-te comigo, ó Xica
Serás livre e minha mulher
Tudo o que me pedires, nada te faltará!"
- "Quero, mas não posso, Sinhô
Sou escrava fugida de Alenquer
E logo viro ama-de-leite pra Sinhá."
- "Pois com Sinhá não quero mais ficar
Quero provar desse chocolate de negrinha."
- "Sinhá carrega sementinha que vai brotar
E o Sinhô aqui querendo dar escapadinha?
Aceito contigo me casar, me possua!"
Xica sonhadora pulou nos braços do Sinhô
- "Fala que sou tua!"
O Sinhô sorriu e logo se assanhou
mentiu-lhe ao ouvido e foram à estrebaria
Xica se preparou para, enfim, ser amada.
[A mulata virou mula
ou a mula mirou mulata?]
Mas o amor não veio, ele a violentou.
Sinhô fazia de um jeito que nem ela imaginaria
Xica chorava com tal ultraje, sempre calada.
Ao fim de tudo, ele disse que a amava
E foi-se embora, deixando Xica.
A mulata enganada maldizia sua sina
O pedido de casamento violento todo dia voltava
A foice
O tiquetaquear do relógio mata
Tão rapidamente um relacionamento
Do que as mentiras
Que a cicuta servida a dois.
As estrelas todas apagam-se;
O Sol parece que refulgia menos;
Tudo é um prelúdio sinistro
De uma possível morte.
Faça o que for possível, mas
Não faça nada.
Muitas vezes o ato deixa de
Ser uma ajuda para tornar-se
A foice.
Epitáfio de uma estrela
E ao alvorecer do dia,
Deixar-me-ei descansar nos braços dela,
Aquela que me censura
E nutre: de ver, de sentir e de sonhos.
A última estrela do céu se foi
e com ela a minha esperança
O firmamento nunca mais será o mesmo
mas nem assim ele pode parar:
de girar, de perceber e de sonhar.
Galáxias e nebulosas choram a perda
daquele pontinho de luz que fazia a diferença
na imensidão escura. Machuca
no peito daquele que sofre a partida
sem volta daquele sem vinda.
1964-1985
Aos desaparecidos políticos.
Quem hoje é capaz de ouvir o grito dos esquecidos?
Heróis sem cavalos e espadas
E heroínas sem objetos mágicos, só armados
Com paus e pedras. Mas que com paus e pedras
Não deixaram de luta contra a tropa,
O governo,
O sistema,
O mundo...
Quem hoje é capaz de ouvir o grito de apelo de suas famílias?
Eles só queriam mudar o mundo,
Isso é um crime?
Crime é esquecer e empurrá-los
Para baixo do tapete, sem nenhuma cerimônia.
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