Lista de Poemas
Apagada
Queria um brilho oculto vislumbrar
Da brancura dos teus dentes ao mistério do teu olhar.
Mas o destino vil e cruel
Fez o infortúnio de nos separar
Pra onde você foi? Paris, Roma ou Lua?
Desatinado fiquei com o descortinar desse véu
Plim! Apagada. De você não consigo lembrar
Não sei se daquela vez estava vestida ou nua
e se algum dia te amei.
Lembro-me apenas de uma brancura,
se era do seu brilho ou das estrelas
Mais uma vez não sei.
Acho que eram as estrelas...
Onde está a arte?
Quem é meu inimigo?
O MAM, o MAC, o MASP,...
Eu, poeta que sou, que tanto preza a liberdade sempre me pergunto:
Por que tiram a liberdade das obras de arte?
Elas devem ser livres.
Estar na calçada.
Na fachada.
No muro.
Na rua.
Imagine-se andando pela rua do Catete e topando com uma Tarsila?
Ou dobrando no cruzamento da Paulista com a Consolação e dando de cara com Malfatti?
Até mesmo os quadros retratando a Liberdade não são livres.
A arte tem que andar de mãos dadas com o povo
Nas calçadas.
Nas fachadas.
Nas ruas.
E não encarcerada em prisões chamadas de museus.
A arte das ruas é mais selvagem, mas não menos importante.
A arte que vemos está nos muros,
Embora não a vemos realmente;
É menos clássica, mas nem por isso menos valiosa.
A arte existe em nós.
A arte está nas ruas.
A arte está nos esgotos.
A arte está nos lixões.
Ela sempre está lá.
Basta você saber enxergá-la.
Se é pra morrer
Se é pra morrer,
quero morrer de desgosto.
Nada mata tão rápido,
é preferível do que morrer sofrendo de uma dor pungente.
Parabéns!
Tu conseguiste me fazer cair de joelhos.
Agora, meus olhos injetados cravados nos seus,
num misto de dor e desespero,
loucos de amor, querem saber o porquê.
De tanta maldade, tanta ingratidão, tanta frieza...
Até agora nada entrou na minha mente
Como se houvesse um espaço vazio
Onde nenhuma peça se encaixa.
Espero que tal tormento acabe o quanto antes,
Pois se for pra morrer,
Quero morrer de desgosto.
Tália e Melpomene
Casa grande, casa bonita, sem muito ornamento.
Diz-se que lá a veia cômica desemboca na trágica,
Ao dia é solitária, porém à noite começa o movimento.
Aparecem pessoas robustas, risonhas, de grande desenvoltura,
E pessoas atarracadas, quietas, ávidas por cultura.
Todos sabiam que a casa tinha um poder especial
Transformava-se a si própria e o chato em fenomenal:
Homens viravam reis, cavaleiros e embriagados,
Loucos, mendigos e oprimidos soldados.
Em nórdicas e lavadeiras se transformam as atrizes;
Além de mães, princesas e meretrizes.
Sonhos se tornam realidade,
Feiticeiros desaparecem rapidamente,
Mas no fim sempre aparece a verdade,
Louvada de aplausos e sorrisos ardentes.
Noutro canto do mundo as pessoas não frequentam a casa
Não por lhes desagradar,
Porém por ela lhes faltar
E sem ela vivem na sufocante realidade rasa.
Sobre as nuvens
No cimo daquela montanha estava um mistério,
A complexidade de um ser,
Dentre as nuvens, exalava um sorriso amarelo,
Distorcia o tempo e o espaço à sua volta,
Não era um buraco negro, não!
Constrangia aos mais corajosos com um simples farfalhar,
Enchia o peito dos mais contidos a se libertarem de seus preconceitos,
Esvaziava os corações dos depressivos e preocupados
Para enchê-los de sensibilidade.
Sua visão era como se uma neve fresca que desabrocha nos olhos de quem vê, embaça-os
[de início e os lava ao mesmo tempo.
Não curava as doenças do corpo, embora sanasse as dores do peito e da alma;
Não desfazia os tortos da vida, embora endireitasse a real visão de tudo;
Daquilo, alguns só tiravam uma possível conclusão: a prova da existência de Deus.
Outros, em contrapartida, evocavam: a prova da beleza da natureza.
Talvez sejam as duas coisas em uma só - como vários caminhos que levam a um único fim.
Uns muitos davam várias explicações, cientistas elaboravam as mais diferentes teorias, alguns teólogos evocavam a Deus e todos os santos, os escritores escreviam ensaios, os poetas, elegias; mas acho que nenhum desses de fato entenderia e conseguiria falar sobre a beleza, formosura e perfeição de uma orquídea violeta.
7 de Setembro
À República da espada sem sangue,
À Nação que nascia manchada,
Ao Estado tradicional e moderno,
Rico e pobre, branco, preto e índio,
de nativos e estrangeiros;
Desejo, indo na contramão,
Saúde, segurança, cidadania,
Paz, respeito (da criança ao idoso),
Boa política e só.
É o que desejam os paulistas,
baianos, curitibanos, goianos, manauaras
e toda nação à Nação.
Certo dia
Não era um passarinho como outro qualquer,
era multicolorido, especial.
Seus diferentes tons e nuances despertaram meu vago olhar,
de súbito, me peguei num romance,
desses onde o improvável sempre acontece
e me dei conta da importância da ave.
Egoísta, pensei em aprisioná-lo
Numa gaiola velha e empoeirada,
Mas nada fiz;
Apenas sorri.
Agradeci a ele com um meneio de cabeça
E gargalhei como um desvairado,
Compreendendo tudo.
Ele bateu asas e foi-se embora, chilreando.
Me senti gratificado pela sua visita inusitada
Pois havia entendido, enfim, a importância de manter a janela aberta.
Ano novo
Ao dar 365 passos,
Olho pra trás e pergunto-me:
"Que diferença fiz eu?"
E pergunto como um fantasma que passa despercebido.
Gotas
As gotas que molham as plantas
São as mesmas que molham minha face,
Gotas quentes e cálidas.
Pequenas pérolas que rolam silentes,
Se são produtos de humor ou precipitação
Eu não sei.
Só sei que vieram do fundo do coração.
Gotas simples e funestas,
Como nós,
Mal nascem e já sentem o peso da morte.
Gotas quentes, gotas frias, não mais gotas.
Logofobia
Preciso confessar-lhe meu medo
Medo de ter medo,
Medo do porvir,
Medo das pessoas.
Sobretudo, o meu medo das palavras:
Hipopótomonstroesquipedaliofobia;
Pneumoultramicroscópicossilicovulcanoconiose;
Hexacosioihexecontahexafobia.
Não!
Não dessas palavras,
Mas de outras mais aterrorizantes:
Acabou,
Fim,
Adeus.
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