Leonardo Vianna

Leonardo Vianna

n. 1991 BR BR

n. 1991-11-28, Rio de Janeiro

Perfil
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Na minha janela

Cercado por conhecimento
Não sou menos escravo do que um operário.
Sou pior!

Soterrado por livros
Respiro com dificuldade,
Sufocado pelo verso,
Afogado na prosa,
Eu vivo - ou finjo viver.

E mesmo tendo fontes de ambrosia
Para o meu regalo,
Dou preferência à janela
Onde me debruço.
Não por amar a morte,
Mas por aprender mais com o que ela me mostra.

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Poemas

20

Gotas

As gotas que molham as plantas
São as mesmas que molham minha face,
Gotas quentes e cálidas.

Pequenas pérolas que rolam silentes,
Se são produtos de humor ou precipitação
Eu não sei.
Só sei que vieram do fundo do coração.

Gotas simples e funestas,
Como nós,
Mal nascem e já sentem o peso da morte.
Gotas quentes, gotas frias, não mais gotas.

571

Onde está a arte?

Quem é meu inimigo?
O MAM, o MAC, o MASP,...
Eu, poeta que sou, que tanto preza a liberdade sempre me pergunto:
Por que tiram a liberdade das obras de arte?
Elas devem ser livres.
Estar na calçada.
Na fachada.
No muro.
Na rua.

Imagine-se andando pela rua do Catete e topando com uma Tarsila?
Ou dobrando no cruzamento da Paulista com a Consolação e dando de cara com Malfatti?
Até mesmo os quadros retratando a Liberdade não são livres.
A arte tem que andar de mãos dadas com o povo
Nas calçadas.
Nas fachadas.
Nas ruas.

E não encarcerada em prisões chamadas de museus.
A arte das ruas é mais selvagem, mas não menos importante.
A arte que vemos está nos muros,
Embora não a vemos realmente;
É menos clássica, mas nem por isso menos valiosa.

A arte existe em nós.
A arte está nas ruas.
A arte está nos esgotos.
A arte está nos lixões.
Ela sempre está lá.
Basta você saber enxergá-la.

573

A mula(ta)

- "Casa-te comigo, ó Xica
Serás livre e minha mulher
Tudo o que me pedires, nada te faltará!"

- "Quero, mas não posso, Sinhô
Sou escrava fugida de Alenquer
E logo viro ama-de-leite pra Sinhá."

- "Pois com Sinhá não quero mais ficar
Quero provar desse chocolate de negrinha."

- "Sinhá carrega sementinha que vai brotar
E o Sinhô aqui querendo dar escapadinha?
Aceito contigo me casar, me possua!"
Xica sonhadora pulou nos braços do Sinhô
- "Fala que sou tua!"
O Sinhô sorriu e logo se assanhou
mentiu-lhe ao ouvido e foram à estrebaria
Xica se preparou para, enfim, ser amada.

[A mulata virou mula
ou a mula mirou mulata?]

Mas o amor não veio, ele a violentou.
Sinhô fazia de um jeito que nem ela imaginaria
Xica chorava com tal ultraje, sempre calada.

Ao fim de tudo, ele disse que a amava
E foi-se embora, deixando Xica.
A mulata enganada maldizia sua sina
O pedido de casamento violento todo dia voltava

665

7 de Setembro

À República da espada sem sangue,
À Nação que nascia manchada,
Ao Estado tradicional e moderno,
Rico e pobre, branco, preto e índio,
de nativos e estrangeiros;
Desejo, indo na contramão,
Saúde, segurança, cidadania,
Paz, respeito (da criança ao idoso),
Boa política e só.

É o que desejam os paulistas,
baianos, curitibanos, goianos, manauaras
e toda nação à Nação.

514

Epitáfio de uma estrela

Ao cantar dos anjos
E ao alvorecer do dia,
Deixar-me-ei descansar nos braços dela,
Aquela que me censura
E nutre: de ver, de sentir e de sonhos.

A última estrela do céu se foi
e com ela a minha esperança
O firmamento nunca mais será o mesmo
mas nem assim ele pode parar:
de girar, de perceber e de sonhar.

Galáxias e nebulosas choram a perda
daquele pontinho de luz que fazia a diferença
na imensidão escura. Machuca
no peito daquele que sofre a partida
sem volta daquele sem vinda.

584

Logofobia

Preciso confessar-lhe meu medo
Medo de ter medo,
Medo do porvir,
Medo das pessoas.
Sobretudo, o meu medo das palavras:
Hipopótomonstroesquipedaliofobia;
Pneumoultramicroscópicossilicovulcanoconiose;
Hexacosioihexecontahexafobia.

Não!
Não dessas palavras,
Mas de outras mais aterrorizantes:
Acabou,
Fim,
Adeus.

748

Apagada

Queria um brilho oculto vislumbrar
Da brancura dos teus dentes ao mistério do teu olhar.

Mas o destino vil e cruel
Fez o infortúnio de nos separar
Pra onde você foi? Paris, Roma ou Lua?
Desatinado fiquei com o descortinar desse véu
Plim! Apagada. De você não consigo lembrar
Não sei se daquela vez estava vestida ou nua
e se algum dia te amei.

Lembro-me apenas de uma brancura,
se era do seu brilho ou das estrelas
Mais uma vez não sei.
Acho que eram as estrelas...

624

Ano novo

Ao dar 365 passos,
Olho pra trás e pergunto-me:
"Que diferença fiz eu?"
E pergunto como um fantasma que passa despercebido.

585

Se é pra morrer

Se é pra morrer,
quero morrer de desgosto.
Nada mata tão rápido,
é preferível do que morrer sofrendo de uma dor pungente.

Parabéns!
Tu conseguiste me fazer cair de joelhos.
Agora, meus olhos injetados cravados nos seus,
num misto de dor e desespero,
loucos de amor, querem saber o porquê.

De tanta maldade, tanta ingratidão, tanta frieza...
Até agora nada entrou na minha mente
Como se houvesse um espaço vazio
Onde nenhuma peça se encaixa.

Espero que tal tormento acabe o quanto antes,
Pois se for pra morrer,
Quero morrer de desgosto.

553

1964-1985

Aos desaparecidos políticos.

Quem hoje é capaz de ouvir o grito dos esquecidos?
Heróis sem cavalos e espadas
E heroínas sem objetos mágicos, só armados
Com paus e pedras. Mas que com paus e pedras
Não deixaram de luta contra a tropa,
O governo,
O sistema,
O mundo...

Quem hoje é capaz de ouvir o grito de apelo de suas famílias?
Eles só queriam mudar o mundo,
Isso é um crime?
Crime é esquecer e empurrá-los
Para baixo do tapete, sem nenhuma cerimônia.

544

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