Leonardo Vianna

Leonardo Vianna

n. 1991 BR BR

n. 1991-11-28, Rio de Janeiro

Perfil
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Na minha janela

Cercado por conhecimento
Não sou menos escravo do que um operário.
Sou pior!

Soterrado por livros
Respiro com dificuldade,
Sufocado pelo verso,
Afogado na prosa,
Eu vivo - ou finjo viver.

E mesmo tendo fontes de ambrosia
Para o meu regalo,
Dou preferência à janela
Onde me debruço.
Não por amar a morte,
Mas por aprender mais com o que ela me mostra.

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Poemas

20

Se é pra morrer

Se é pra morrer,
quero morrer de desgosto.
Nada mata tão rápido,
é preferível do que morrer sofrendo de uma dor pungente.

Parabéns!
Tu conseguiste me fazer cair de joelhos.
Agora, meus olhos injetados cravados nos seus,
num misto de dor e desespero,
loucos de amor, querem saber o porquê.

De tanta maldade, tanta ingratidão, tanta frieza...
Até agora nada entrou na minha mente
Como se houvesse um espaço vazio
Onde nenhuma peça se encaixa.

Espero que tal tormento acabe o quanto antes,
Pois se for pra morrer,
Quero morrer de desgosto.

553

Ano novo

Ao dar 365 passos,
Olho pra trás e pergunto-me:
"Que diferença fiz eu?"
E pergunto como um fantasma que passa despercebido.

585

Gotas

As gotas que molham as plantas
São as mesmas que molham minha face,
Gotas quentes e cálidas.

Pequenas pérolas que rolam silentes,
Se são produtos de humor ou precipitação
Eu não sei.
Só sei que vieram do fundo do coração.

Gotas simples e funestas,
Como nós,
Mal nascem e já sentem o peso da morte.
Gotas quentes, gotas frias, não mais gotas.

571

O último

Antes que as cortinas se fechem eu
Apresento uma tragicomédia,
Pulo, canto e danço
Mais colorido que um saltimbanco.

Enceno minha peça com maestria
Sem vergonha, com alegria.
Rodo, choro e rio,
Mas o público permanece sombrio.

Encerro a encenação e agradeço,
Porém o público cala.
Nos bastidores a voz da mente fala:
"Minha própria vida rejeitada... um dia desapareço".

591

Logofobia

Preciso confessar-lhe meu medo
Medo de ter medo,
Medo do porvir,
Medo das pessoas.
Sobretudo, o meu medo das palavras:
Hipopótomonstroesquipedaliofobia;
Pneumoultramicroscópicossilicovulcanoconiose;
Hexacosioihexecontahexafobia.

Não!
Não dessas palavras,
Mas de outras mais aterrorizantes:
Acabou,
Fim,
Adeus.

748

Onde está a arte?

Quem é meu inimigo?
O MAM, o MAC, o MASP,...
Eu, poeta que sou, que tanto preza a liberdade sempre me pergunto:
Por que tiram a liberdade das obras de arte?
Elas devem ser livres.
Estar na calçada.
Na fachada.
No muro.
Na rua.

Imagine-se andando pela rua do Catete e topando com uma Tarsila?
Ou dobrando no cruzamento da Paulista com a Consolação e dando de cara com Malfatti?
Até mesmo os quadros retratando a Liberdade não são livres.
A arte tem que andar de mãos dadas com o povo
Nas calçadas.
Nas fachadas.
Nas ruas.

E não encarcerada em prisões chamadas de museus.
A arte das ruas é mais selvagem, mas não menos importante.
A arte que vemos está nos muros,
Embora não a vemos realmente;
É menos clássica, mas nem por isso menos valiosa.

A arte existe em nós.
A arte está nas ruas.
A arte está nos esgotos.
A arte está nos lixões.
Ela sempre está lá.
Basta você saber enxergá-la.

573

Tália e Melpomene

No final daquela rua há uma casa mágica,
Casa grande, casa bonita, sem muito ornamento.
Diz-se que lá a veia cômica desemboca na trágica,
Ao dia é solitária, porém à noite começa o movimento.
Aparecem pessoas robustas, risonhas, de grande desenvoltura,
E pessoas atarracadas, quietas, ávidas por cultura.

Todos sabiam que a casa tinha um poder especial
Transformava-se a si própria e o chato em fenomenal:
Homens viravam reis, cavaleiros e embriagados,
Loucos, mendigos e oprimidos soldados.
Em nórdicas e lavadeiras se transformam as atrizes;
Além de mães, princesas e meretrizes.

Sonhos se tornam realidade,
Feiticeiros desaparecem rapidamente,
Mas no fim sempre aparece a verdade,
Louvada de aplausos e sorrisos ardentes.

Noutro canto do mundo as pessoas não frequentam a casa
Não por lhes desagradar,
Porém por ela lhes faltar
E sem ela vivem na sufocante realidade rasa.
657

Sobre as nuvens

No cimo daquela montanha estava um mistério,
A complexidade de um ser,
Dentre as nuvens, exalava um sorriso amarelo,
Distorcia o tempo e o espaço à sua volta,
Não era um buraco negro, não!

Constrangia aos mais corajosos com um simples farfalhar,
Enchia o peito dos mais contidos a se libertarem de seus preconceitos,
Esvaziava os corações dos depressivos e preocupados
Para enchê-los de sensibilidade.
Sua visão era como se uma neve fresca que desabrocha nos olhos de quem vê, embaça-os
[de início e os lava ao mesmo tempo.

Não curava as doenças do corpo, embora sanasse as dores do peito e da alma;
Não desfazia os tortos da vida, embora endireitasse a real visão de tudo;
Daquilo, alguns só tiravam uma possível conclusão: a prova da existência de Deus.
Outros, em contrapartida, evocavam: a prova da beleza da natureza.
Talvez sejam as duas coisas em uma só - como vários caminhos que levam a um único fim.

Uns muitos davam várias explicações, cientistas elaboravam as mais diferentes teorias, alguns teólogos evocavam a Deus e todos os santos, os escritores escreviam ensaios, os poetas, elegias; mas acho que nenhum desses de fato entenderia e conseguiria falar sobre a beleza, formosura e perfeição de uma orquídea violeta.

645

1964-1985

Aos desaparecidos políticos.

Quem hoje é capaz de ouvir o grito dos esquecidos?
Heróis sem cavalos e espadas
E heroínas sem objetos mágicos, só armados
Com paus e pedras. Mas que com paus e pedras
Não deixaram de luta contra a tropa,
O governo,
O sistema,
O mundo...

Quem hoje é capaz de ouvir o grito de apelo de suas famílias?
Eles só queriam mudar o mundo,
Isso é um crime?
Crime é esquecer e empurrá-los
Para baixo do tapete, sem nenhuma cerimônia.

544

A mula(ta)

- "Casa-te comigo, ó Xica
Serás livre e minha mulher
Tudo o que me pedires, nada te faltará!"

- "Quero, mas não posso, Sinhô
Sou escrava fugida de Alenquer
E logo viro ama-de-leite pra Sinhá."

- "Pois com Sinhá não quero mais ficar
Quero provar desse chocolate de negrinha."

- "Sinhá carrega sementinha que vai brotar
E o Sinhô aqui querendo dar escapadinha?
Aceito contigo me casar, me possua!"
Xica sonhadora pulou nos braços do Sinhô
- "Fala que sou tua!"
O Sinhô sorriu e logo se assanhou
mentiu-lhe ao ouvido e foram à estrebaria
Xica se preparou para, enfim, ser amada.

[A mulata virou mula
ou a mula mirou mulata?]

Mas o amor não veio, ele a violentou.
Sinhô fazia de um jeito que nem ela imaginaria
Xica chorava com tal ultraje, sempre calada.

Ao fim de tudo, ele disse que a amava
E foi-se embora, deixando Xica.
A mulata enganada maldizia sua sina
O pedido de casamento violento todo dia voltava

665

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