Balanço
Enquanto o mundo se rasga ao meio
Por sua própria natureza
Como se tivesse algo em si
De humanidade e culpa
Eu, náufrago
Naufrago
Tentando emergir
Submerso
De algo mais que o menos contraditório
Desde o tenro átomo
Ao abraço do universo
E a música, a trilha sonora
Não minha, a do mundo
Continua, contínua
Indefinidamente, alheia a tudo
E a mim no meio
Bela, extremamente bela
Como se tudo fosse nada
- não é, de fato –
Como se não houvesse amanhã
- não há, por certo –
Exceto o mais nojento rato
E o mais asqueroso inseto
Acaso não é quando percebemos
- Percebamos -
Que há em tudo algo de incorreto?
E as cordas vibram, sem nota
Sem notar a gente roda
Sem notar, a gente roda
Sem notar a gente, roda
Numa valsa qualquer coisa de ensaio
Como nunca saio
Dos passos de um eterno afogamento.
Águas paradas não movem moinhos
Conhecimento parado empoça.
Conhecimento parado? empossa!
Veredas
Há quem passe pelos bares
e só veja pecado
pelas igrejas
e só veja virtude
pelos fóruns
e só veja honestidade.
Há quem passe pelas escolas
e só veja ignorância
pelos ginásios
e só veja saúde
pelos hospitais
e só veja doença
pelos cemitérios,
saudade.
Quem dera, Leão,
a pior cegueira fosse ver nos bosques
apenas lenha para as fogueiras.
Já hoje não há tantas fogueiras,
e cada vez menos bosques.
Não temos qualquer necessidade
dos meios antigos de se fazer luz.
Ave!
Os pássaros, com sua voz de manhã
limpa - decerto não fumam -,
me contam seus segredos ancestrais.
sobrevivem, desde que o mundo é mundo
apesar dos despejos
e prisões sem julgamento
porque se bastam cantando
com sua voz limpa de manhã.
Decerto não fumam
- e nem se rebelam.
Outra versão de um velho mito
Passeio por um quarto
Gigantesco, repleto
de camas - ou macas.
Pessoas adultas (?) dormem.
Encontro meu leito.
Estou dormindo.
Também eu não sou eu.
Modelos
Li na República
a recomendação
de que às crianças não se contassem
os contos dos deuses de outrora
nos quais matavam aos filhos
aos pais
e uns aos outros.
Quão feliz seria Platão
se soubesse que os heróis
e as histórias de seu tempo
são - talvez - menos cruéis
e - talvez - menos violentos
que as histórias e os heróis
aclamados pelos pequenos
daquilo que convém
chamar-se
o agora.
inorgânico
A pedra
Como é costume da pedra
Não se move a menos
Que uma força incida sobre ela.
O Homem se move
Pois esbarra nele o mundo.
A pedra é menos pedra
Ao ser movimentada?
O homem é menos homem
Ao respirar, quieto, e bem fundo?
Quando o mundo aperta aquela
O destino é diamante
Quando nesse aperta o calo
- e dói até não doer mais -
o que sobra é ouro
ou homem
ou nada.
Ou tudo.
Nossa bandeira jamais será vermelha
E no entanto, vermelho como brasa.
É vermelha a cor que a coroa perseguiu
A pintar cruz, pano e tábua rasa
Manchou assim tua mão no processo
Porque o pau que bate em Chico é pau brasil
O pau que hasteia ordem e progresso
Verde, amarelo, branco e azul anil
Flâmula orgulhosa estrelada
Paz no futuro de um passado vil
Se não é toda vermelha
- esse vermelho tão sombrio -
é dele em boa parte salpicada.
(set/2022)
Ceia
Um murmúrio ao redor da mesa,
abaixo do tampo.
As bocas - acima - calam.
Quando não, os pais calam as bocas.
Uma sinfonia de tilintares no vidro extremamente sonoro.
Notícias de esperança para o ano que vem chegam
pela palha de aço da meia antena que sobrou.
Até que Cleyton peida alto
E todos explodem em um riso totalmente inadequado.
Intraduzível
Algumas palavras
São mais suaves em francês
-Não por soarem melhor,
o que não creio,
Mas por tê-las doído o inteiro
Do meu profundo português
Brasileiro.
Às vezes, numa tarde de sábado
(Às vezes, com uma lata na mão)
Olho para o céu,
Derramo um gole no chão,
Solto um vazio:
Tu me manques,
Tio.
E fico esperando a piada, que não vem.
No meu português, onde têm histórico,
Algumas palavras
Costumam nem existir
Como palavras.