Lucas  Garcia

Lucas Garcia

n. 1996 BR BR

n. 1996-08-30

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Soneto agnóstico

Quando chegar-me a Única Certeza
A arrebatar-me dos desejos já cansados
Serei tranquilo, da paz que ora sobeja
Ou irei fazendo birra, perturbado? 

Temerei os fantasmas do passado
Ou seguirei ao bom descanso recolhido?
Sorrir, amar, fazer-me derramado 
Fugir de um Para Sempre arrependido.

Num céu sem nome tenho acreditado 
Orando sempre a um Deus Paz e Sorriso
Que têm aos homens tanto esquecido

E se a carranca for mesmo tão preciso
Eu, que terei a vida inteira delinquido
Sorrirei também no inferno, abençoado.
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Poemas

14

Balanço

Enquanto o mundo se rasga ao meio
Por sua própria natureza
Como se tivesse algo em si
De humanidade e culpa
Eu, náufrago
Naufrago
Tentando emergir
Submerso
De algo mais que o menos contraditório
Desde o tenro átomo 
Ao abraço do universo
E a música, a trilha sonora
Não minha, a do mundo
Continua, contínua
Indefinidamente, alheia a tudo
E a mim no meio 
Bela, extremamente bela
Como se tudo fosse nada
- não é, de fato – 
Como se não houvesse amanhã
- não há, por certo – 
Exceto o mais nojento rato
E o mais asqueroso inseto
Acaso não é quando percebemos
- Percebamos - 
Que há em tudo algo de incorreto?
E as cordas vibram, sem nota
Sem notar a gente roda
Sem notar, a gente roda
Sem notar a gente, roda
Numa valsa qualquer coisa de ensaio
Como nunca saio
Dos passos de um eterno afogamento.
289

Águas paradas não movem moinhos

Conhecimento parado empoça.
Conhecimento parado? empossa!
294

Veredas

Há quem passe pelos bares 
e só veja pecado
pelas igrejas
e só veja virtude
pelos fóruns
e só veja honestidade.

Há quem passe pelas escolas
e só veja ignorância
pelos ginásios
e só veja saúde
pelos hospitais
e só veja doença
pelos cemitérios,
saudade.

Quem dera, Leão,
a pior cegueira fosse ver nos bosques 
apenas lenha para as fogueiras.

Já hoje não há tantas fogueiras,
e cada vez menos bosques.

Não temos qualquer necessidade
dos meios antigos de se fazer luz.
300

Ave!

Os pássaros, com sua voz de manhã
limpa - decerto não fumam -,
me contam seus segredos ancestrais. 
sobrevivem, desde que o mundo é mundo
apesar dos despejos
e prisões sem julgamento 
porque se bastam cantando
com sua voz limpa de manhã.
Decerto não fumam
- e nem se rebelam.
294

Outra versão de um velho mito

Passeio por um quarto 
Gigantesco, repleto
de camas - ou macas.
Pessoas adultas (?) dormem.
Encontro meu leito.
Estou dormindo.
Também eu não sou eu.
300

Modelos

Li na República
a recomendação
de que às crianças não se contassem
os contos dos deuses de outrora
nos quais matavam aos filhos
aos pais
e uns aos outros.
Quão feliz seria Platão
se soubesse que os heróis
e as histórias de seu tempo
são - talvez - menos cruéis
e - talvez - menos violentos
que as histórias e os heróis
aclamados pelos pequenos
daquilo que convém 
chamar-se 
o agora.
327

inorgânico

A pedra
Como é costume da pedra
Não se move a menos
Que uma força incida sobre ela.
O Homem se move 
Pois esbarra nele o mundo.
A pedra é menos pedra
Ao ser movimentada?
O homem é menos homem
Ao respirar, quieto, e bem fundo?
Quando o mundo aperta aquela
O destino é diamante
Quando nesse aperta o calo
- e dói até não doer mais - 
o que sobra é ouro
ou homem
ou nada.

Ou tudo.
290

Nossa bandeira jamais será vermelha

E no entanto, vermelho como brasa.
É vermelha a cor que a coroa perseguiu
A pintar cruz, pano e tábua rasa

Manchou assim tua mão no processo
Porque o pau que bate em Chico é pau brasil
O pau que hasteia ordem e progresso

Verde, amarelo, branco e azul anil
Flâmula orgulhosa estrelada 
Paz no futuro de um passado vil

Se não é toda vermelha
- esse vermelho tão sombrio - 
é dele em boa parte salpicada.

(set/2022)
312

Ceia

Um murmúrio ao redor da mesa,
abaixo do tampo.
As bocas - acima - calam.
Quando não, os pais calam as bocas.
Uma sinfonia de tilintares no vidro extremamente sonoro.
Notícias de esperança para o ano que vem chegam
pela palha de aço da meia antena que sobrou.
Até que Cleyton peida alto
E todos explodem em um riso totalmente inadequado.
296

Intraduzível

Algumas palavras 
São mais suaves em francês 
-Não por soarem melhor, 
o que não creio,
Mas por tê-las doído o inteiro
Do meu profundo português 
Brasileiro.
Às vezes, numa tarde de sábado
(Às vezes, com uma lata na mão) 
Olho para o céu, 
Derramo um gole no chão,
Solto um vazio: 
Tu me manques,
Tio.
E fico esperando a piada, que não vem.
No meu português, onde têm histórico,
Algumas palavras
Costumam nem existir 
Como palavras.
322

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