Magno Ferreira

Magno Ferreira

n. 0000-00-00, Propriá SE

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O Pássaro da praça

Feroz não é o cão,

Não é o leão, não é o não. 

Feroz é o pássaro da praça

Que se empanturra com a desgraça.

O pássaro da praça agita a fauna e garfa a alma

Dos que comem na palma de sua mão:

Quase toda a fauna.

O pássaro da praça causa trauma,

Dirige na escuridão e joga a pedra e esconde a mão.

 

O pássaro da praça cisca, belisca e atiça a agitação.

Agita porque se explodir ele ganha com a explosão.

Se não explodir ele ganha com a decantação.

O pássaro da praça não é gente não,

Transforma a vida em uma corrida pelo pão.

O pássaro da praça para colecionar castelos

Esfarela a alma da minha aldeia e semeia flagelo.

 

O pássaro da praça precisa encher o infinito de alpiste

E pra isso: ele mata e desmata para matar a fome que não existe.
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Poemas

38

Jurômetro

Juro que eu não sei pra onde vai o meu suor.

Juro que eu preciso desatar esse nó.

Juro que eu queria uma medida, que diga

Onde passeiam as causas de minha fadiga.

Juro que me vejo menor que uma formiga.

Juro que a neblina é inimiga,

Que não me deixa enxergar o mar que me abriga

E me obriga a suar, suar, suar sem parar

Para encher os rios que só correm para o mar,

Socorrem quem não precisa de socorro

E é pra essa brincadeira que eu corro.

Morro de correr

Para ser sugado pela mão que ninguém vê.

Juro, juro que eu quero um medidor

Que meça a minha dor

Nessa conversa do ameaçador,

Quadro pintado por quem jamais pintou.

Juro que uma medida que meça os juros

Mostrará o que é feito no escuro,

Onde os juros movem-se ao som dos cardeais.

Desconjuro! Juros que não acabam mais.

97

O espírito

O espírito dos navios negreiros, da colonização

Dos juros, da inflação,

Das bolsas que me deixam sem chão

E de tantas outras pedras que dificultam a caminhada

É como semente enterrada:

Some pra dar lugar a uma nova,

Na qual a essência se renova.

 

A nova é a velha marca d'água.

O novo é de novo a barca furada.

Tudo muda e nada muda

No som que toca a grave e a aguda.

 

As notas estão nas mãos de Judas,

Que toca uma viola absurda,

Que viola as leis naturais

E torna imortais as linhagens dos feudais.

116

Medo de Medir

Eu conheço uns papagaios da minha aldeia

Que falam de boca cheia

Que têm medo que ela

Vire uma Venezuela,

Pedem que Deus acuda

Pra isso aqui não ser uma Cuba.

Mas toda essa ladainha

É pra esconder a casa-grande na casinha,

É para tapar o sol com uma peneira

E passar nota falsa por verdadeira.

 

Esses papagaios que aqui tecem a trança

Têm medo é que a aldeia vire uma França,

Uma Alemanha, uma Inglaterra...

Aqui é terra que tem dono,

Que não é o povo, que vive no abandono

Como eterno colono para a farra que nos ferra.

 

Eles têm medo é dos mares e da claridão

Que não comportam o navio da escravidão.

Têm medo de perder a galinha dos ovos de ouro.

Ouro, maldito ouro

Que do povo suga o sangue e tira o couro.

Têm medo é de que os que aqui estão

Ousem querer ser cidadãos.

 

Medo de medir.

Medo de não poder mentir,

De ver a massa ir e vir,

De ver a massa ver e sentir.

 

Esses moços têm medo

É da divulgação do segredo

Que não é nenhum segredo:

Que a base sustenta o topo da pirâmide

E tem corpo e alma amarrados com arame.

89

Viola

A viola dos cardeais

Viola as leis naturais,

Toca do jeito que quer,

Diz como deve ser o café

Mas se ele ficar amargo,

Jamais assume o encargo.

 

A viola dos cardeais

Faz tudo e nada faz,

Toca tudo e nada toca,

Dita o ritmo e faz da nota

A mão invisível de um deus 

Que só existe para os seus,

Mas se vende como única saída

Para qualquer sentido da avenida.

 

A viola dos cardeais

É só uma e é demais,

Fingindo tocar pra Deus 

Faz o show pro satanás.

É de cair o queixo!

Como é podre todo o eixo

Que sustenta a encenação

Que indica um caminho livre que leva a prisão. 

 

O espetáculo sustenta o palco

E esmaga o estrato

Que não está no contrato.

O contrato é elaborado pela nata.

Quem faz tudo só se mata.

Quem faz tudo, nada faz

Na farra dos cardeais.  

103

Laissez-faire

A minha aldeia sempre teve dono.

Mas hoje está de tirar o sono.

Deixe fazer, deixe fazer, deixe fazer…

Fizeram pedra virar urina.

Vendem veneno por vitamina.

O fim é metamorfoseado em um meio.

Fizeram uma mãe que não tem seio.

Estão dirigindo um carro sem freio

Passando por cima de quem não está no passeio.

 

Fazem para desfazer o que não possa valer

Para a mão que ninguém vê, 

Que libera suas feras para saciarem o insaciável.

Inacreditável: tudo está tangenciável,

Não param de alienar o inalienável

E qualquer luz é vista como inflamável.

 

Os cardeais com o diabo nas mãos seguram as rédeas,

O que há para contê-los é uma comédia:

Não segura, não controla, não regula.

Os cardeais pulam e manipulam toda a bula.

Os cardeais estão na direção da idade média.

Não é comédia, é uma tragédia.

 

Nessa festa os filhotes são piores que os pais.

Hoje é pior que ontem, devoram cada vez mais.

A chave da condução está nas mãos de cardeais

Que atropelam a quem não os servem e transportam os seus chacais.

Cada vez mais as almas mais tortas

Tomam conta das chaves das maiores portas.

95

Encomenda

Onde eu pinto o meu e digo que é o seu retrato

Dois mais dois não é igual a quatro.

As operações dessa matemática

Desdobram-se numa sacola elástica.

 

Tudo cabe na sacola que enrola.

Tudo cola na vida que vigora

No barzinho da dona Aurora.

Os valores vivem de esmola.

Deita e rola o menino dono da bola,

Joga falso e fato num balaio

E a distinção depende de um ensaio.

 

O fato está fora da barriga.

O falso está em tudo, está na briga.

O fato virou comida.

A ração expulsa a razão da avenida.

A vergonha está em seu fim de vida

No barzinho da dona Aurora.

O fato está à venda.

Na prateleira, o fato atende à encomenda.

A barriga está rasgada, as vísceras estão expostas.

O ar está cheirando mal no barzinho da dona Aurora.

 

100

Vale do ouro

Vale o valor que vale na arapuca armada.

No vale tudo, que não vale nada,

Vale tudo a favor da peça encenada.

O vale tudo deixa a água enlameada.

Na arapuca armada tudo é quase nada se não valer o valor que vale.

As águas arrastam muita coisa para o vale.

O vale leva tudo para um fosso infecto.

O valor deixa desvalido o intelecto.

O valor vai invalidando todos os valores.

O valor define o toque, o trote e os sabores.

O valor dá as cartas e descarta qualquer valor

Que não seja o corrente que acorrenta e causa dor.

O valor afaga e afoga, não entrega e cobra

A quem não deve e serve a quem manobra.

O valor leva lava para queimar os valores.

Na terra arrasada o valor passeia em tratores.

No vale do ouro os valores são um jardim,

Sem flores, sem árvores e entregue aos cupins.

107

Limites

“É preciso haver limites pra criança”.

– Sempre ouvi isso com a esperança

De que também haja limites para outras criaturas,

Porque sem eles alvorece a loucura

E o tempo para em uma noite escura

E deixa as almas à mercê da ditadura

Que dita uma construção sem fundação

E um caminho livre que leva à prisão.

 

A falta de limites limita a visão

E ao invés de lavar, leva almas para contramão.

Contra os sentidos ou andando para trás,

Os cavaleiros tiram de quem não tem para dar a quem tem mais.

 

Que vergonha que me dá

Em ver a cerca do Ademar

Caminhar daqui pra lá

Engolindo as terras do Gilmar.

 

Sem limites, as cercas não param de andar

E a virtude não para de se afundar.

As cercas engolem terras, almas, vidas,

Enchem de veneno as comidas,

Deixam corpos e almas adoecidos

E o barco que nos trouxe até aqui é esquecido.

As cercas transformam sujeito em objeto

E ditam os traços do projeto.

 

As cercas estão enfraquecendo a iluminação.

As cercas estão festejando a escuridão.

As cercas estão sem limite

E em um rumo de verdade arremessam dinamites.

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