magnoferreira

magnoferreira

n. 0000-00-00

Perfil
377 Visualizações

Boiada

Parei para correr a vista sobre uma boiada
Tocada por dois cavaleiros e mais nada,
Ou por tudo que não está na cabeça dos bois,
Ou por tudo que lá está ou pelos dois.

Fiquei me perguntando, pra onde vai essa boiada?
O que passa na cabeça dos bois tangidos nessa estrada,
Que leva a boiada para exploração?
Se ela estiver indo para o abate bate algo no coração? 

Um boi não consegue vencer os cavaleiros,
Mas pra boiada os tangedores perderiam ligeiro.
Essa boiada não sabe a força que tem.
Outras boiadas não sabem também.
Ler poema completo

Poemas

13

O Mar Na Piscina

Mar sem chão, em vão, sem pão...
Piscina com o mar na mão,
Piscina come o chão,
Piscina com alma do mar na mão,
Piscina com tudo na mão,
Piscina não ensina a mar não.
37

Apátrida

Nasci numa casa abandonada
Onde nada existe para mim,
Tudo existe para um fim
Que faz de mim alma penada.
Já nasci com peso nos ombros,
Cresci no meio dos escombros
A sentir a poeira nos olhos e a noite em pleno dia,
Feito um fruto que sem amadurecer já apodrecia.

27

Pássaro Certeza

Se há um pássaro que não me passa beleza
É o pássaro certeza.
Na música desse zabelê
Não existe a palavra porquê.
Ele parece um pássaro de verdade,
Mas não passa de um passo falso, sem identidade.
O pássaro certeza é tão belo
Quanto uma barata esmagada num chinelo.
O pássaro certeza é tão de confiança
Quanto os fios podres de uma trança.

O pássaro certeza canta forte, canta alto:
Para que o som possa desenhar o seu retrato,
Para que o vento varra um navio de verdade,
Para que o fogo queime quem não é utilidade. 

O pássaro certeza canta forte, canta alto:
Para não ouvir quem não é papagaio,
Para que fato, falso e feio se misturem no balaio,
Para garantir o passeio de um estrato,
Para vender caro seu produto barato,
Para esconder o seu rosto caricato,
Para continuar sugando feito carrapato,
Para tirar as calças do pacato,
Para deixar o pacato sem teto, sem tato,
Para deixar o negro sem sapato
E para deixar Deus estupefato.
27

O Pássaro da Praça

Feroz não é o cão, não é o leão, não é o não. 
Feroz é o pássaro da praça
Que se empanturra com a desgraça.
O pássaro da praça agita a fauna e garfa a alma
Dos que comem na palma de sua mão:
Quase toda a fauna.
O pássaro da praça causa trauma,
Dirige na escuridão e joga a pedra e esconde a mão. 

O pássaro da praça cisca, belisca e atiça a agitação.
Agita porque se explodir ele ganha com explosão.
Se não explodir ele ganha com a decantação.
O pássaro da praça não é gente não,
Transforma a vida em uma corrida pelo pão.
O pássaro da praça é um porco, para pegar farelo
Esfarela a alma da minha aldeia e semeia flagelo. 

Piolhos, vermes e carrapatos
Não me repugnam tanto quanto
O pássaro da praça de terno e sapatos.
O pássaro da praça precisa encher o infinito de alpiste
E pra isso, ele mata e desmata para matar a fome que não existe.
31

A Causa Não Vem ao Caso

A palavra causa foi riscada
Do dicionário da minha jangada.
Na minha embarcação,
Essa palavra não embarca não.
Se eu tiver de conviver com ela, 
Vão querer saber o porquê das mazelas. 

Tira-me o sono e me consome
Ter de falar das causas da fome.
Para não correr esse risco,
Risco o causa, ponho um asterisco
Para poder indicar
Por onde podemos navegar. 

A análise da causa é como uma lupa,
Pode mostrar além da biruta.
Sou eu quem move o vento.
Todos pela biruta não haverá contratempo.
No meu barco tudo deve andar
Por onde sempre andou.
Nada de nadar
Por onde a biruta não apontou. 

O causa precisa estar fora de pauta.
Se ninguém vê-lo, ninguém sente falta.
Vamos navegar sem pausa
Pra ninguém navegar pelas causas:
Das vidas apagadas, do passeio das finanças, 
Da fome, das doenças, do balanço que balança,  
Do mar carcerário, do racismo dissimulado
E de todas as caravelas desse mar mal apurado.
33

A Tela Na Fome

Caridade. Hipocrisia. Filantropia. Entropia.
Entupia, entope, cruel, não busca a cura.
Curativo, remendo, deixando gemendo,
Matando e vivendo do que está vendendo.
Vendo e revendo, vejo-me em brasas
Ao ver na tela pássaros batendo asas.

Narrador narra a dor chamando-a de bela,
Com a triste alegria a passar na passarela.
Parece mostrar um belo momento,
Humilhante instante, hiato no sofrimento.
É comum ver na tela a boa ação
Comida pela fome da situação.

A situação não quer que o tempo passe não,
A situação quer que tudo passe pela sua mão.
Não pergunto por que a situação existe,
Mas por que há oceanos nas mãos dessa triste? 

Situação má, maldita, condenada,
Situação que voa alto e ver na desgraça a sua caçada.
Situação que ninguém ver e todo mundo viu.
A alma da situação sopra o vil.
33

O Papel Que Cabia

Como falar em combater a fome
Sem falar o nome
Das causas que impulsionam essa caravela?
A solidariedade é bela ou é uma novela?
A hipocrisia não é sadia,
Eleva a noite e engole o dia.

Passa o dia, passa a noite,
Passa o silêncio e o açoite,
Mas não passa a coisa fria
Que queima o papel que cabia.

Infelizmente o pronto socorro precisa existir,
Mas a vacina contra os males deve surgir.
Pouco vale quebrar galho
Sem fazer nada contra a raiz.
A massa vive sem assoalho;
O clone come, some e soma feliz. 

Só remediar não coliga.
Como é que pode atacar a formiga
Sem atacar o formigueiro?
Assim não há como sair do atoleiro.
As causas da fome comem
Tudo que falta ao homem.
27

Buda



Todo ano, no apagar das luzes
Desfila a barca dos desejos
Pelo mar dos festejos.
Pedem paz, saúde, dinheiro...

Fico observando o espetáculo por inteiro.
Todo ano se repete.
Parece que todo mundo se derrete.
Por alguns momentos parece um nascimento,
Planta tão viva quanto uma bolha de sabão em movimento.
 
Segue a mesma embarcação,
Que navega em uma única direção:
A que leva o barco a poucas mãos
E deixa um oceano de desengano e escuridão.
No escuro não há paz, não há saúde, não há Buda
Que nos acuda.
29

Se Eu Fosse Um Pastor

Se eu fosse um pastor,
Como eu caminharia com as minhas ovelhas?
Se eu fosse um pastor,
Eu me lambuzaria no mel das abelhas?
Eu seria a escuridão ou a luz do dia?
Se eu fosse um pastor eu seria uma lupa
Ou um filho da puta de um cachorro guia? 

Eu furaria os olhos do assum-preto
Pra ele cantar e me deixar satisfeito?
Eu transformaria minhas ovelhas em escadas
Para eu subir, sugar e deixá-las lascadas?
Minhas ovelhas seriam sujeito ou objeto?
Seriam atores ou figurantes no projeto? 

Se eu fosse um pastor
Eu me preocuparia com a busca pela harmonia
Ou apenas pensaria na minha bilheteria?
38

Boiada

Parei para correr a vista sobre uma boiada
Tocada por dois cavaleiros e mais nada,
Ou por tudo que não está na cabeça dos bois,
Ou por tudo que lá está ou pelos dois.

Fiquei me perguntando, pra onde vai essa boiada?
O que passa na cabeça dos bois tangidos nessa estrada,
Que leva a boiada para exploração?
Se ela estiver indo para o abate bate algo no coração? 

Um boi não consegue vencer os cavaleiros,
Mas pra boiada os tangedores perderiam ligeiro.
Essa boiada não sabe a força que tem.
Outras boiadas não sabem também.
37

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.