Parei para correr a vista sobre uma boiada Tocada por dois cavaleiros e mais nada, Ou por tudo que não está na cabeça dos bois, Ou por tudo que lá está ou pelos dois.
Fiquei me perguntando, pra onde vai essa boiada? O que passa na cabeça dos bois tangidos nessa estrada, Que leva a boiada para exploração? Se ela estiver indo para o abate bate algo no coração?
Um boi não consegue vencer os cavaleiros, Mas pra boiada os tangedores perderiam ligeiro. Essa boiada não sabe a força que tem. Outras boiadas não sabem também.
Parei para correr a vista sobre uma boiada Tocada por dois cavaleiros e mais nada, Ou por tudo que não está na cabeça dos bois, Ou por tudo que lá está ou pelos dois.
Fiquei me perguntando, pra onde vai essa boiada? O que passa na cabeça dos bois tangidos nessa estrada, Que leva a boiada para exploração? Se ela estiver indo para o abate bate algo no coração?
Um boi não consegue vencer os cavaleiros, Mas pra boiada os tangedores perderiam ligeiro. Essa boiada não sabe a força que tem. Outras boiadas não sabem também.
37
Boiada
Parei para correr a vista sobre uma boiada
Tocada por dois cavaleiros e mais nada,
Ou por tudo que não está na cabeça dos bois,
Ou por tudo que lá está ou pelos dois.
Fiquei me perguntando, pra onde vai essa boiada?
O que passa na cabeça dos bois tangidos nessa estrada,
Que leva a boiada para exploração?
Se ela estiver indo para o abate bate algo no coração?
Um boi não consegue vencer os cavaleiros,
Mas pra boiada os tangedores perderiam ligeiro.
Essa boiada não sabe a força que tem.
Outras boiadas não sabem também.
41
Zumbis
Sonhei que eu era um computador
Que em conversas com outras máquinas
Percebi algo estarrecedor:
Uma rede de computadores zumbi
Pronta para fazer o que o computador mestre pedir.
Nela cada escravo anda na tocada que é tocado.
Sócrates, Kant, Lock, Descartes tudo descartado.
A luz que ilumina é o escuro da escuridão.
Nas esquinas passeiam as viúvas da razão.
A razão razão de ser, fundamento,
Afundada, pisoteada por um casco de jumento.
37
O Mar Na Piscina
Mar sem chão, em vão, sem pão... Piscina com o mar na mão, Piscina come o chão, Piscina com alma do mar na mão, Piscina com tudo na mão, Piscina não ensina a mar não.
37
A Tela Na Fome
Caridade. Hipocrisia. Filantropia. Entropia. Entupia, entope, cruel, não busca a cura. Curativo, remendo, deixando gemendo, Matando e vivendo do que está vendendo. Vendo e revendo, vejo-me em brasas Ao ver na tela pássaros batendo asas.
Narrador narra a dor chamando-a de bela, Com a triste alegria a passar na passarela. Parece mostrar um belo momento, Humilhante instante, hiato no sofrimento. É comum ver na tela a boa ação Comida pela fome da situação.
A situação não quer que o tempo passe não, A situação quer que tudo passe pela sua mão. Não pergunto por que a situação existe, Mas por que há oceanos nas mãos dessa triste?
Situação má, maldita, condenada, Situação que voa alto e ver na desgraça a sua caçada. Situação que ninguém ver e todo mundo viu. A alma da situação sopra o vil.
33
Buda
Todo ano, no apagar das luzes Desfila a barca dos desejos Pelo mar dos festejos. Pedem paz, saúde, dinheiro...
Fico observando o espetáculo por inteiro. Todo ano se repete. Parece que todo mundo se derrete. Por alguns momentos parece um nascimento, Planta tão viva quanto uma bolha de sabão em movimento.
Segue a mesma embarcação, Que navega em uma única direção: A que leva o barco a poucas mãos E deixa um oceano de desengano e escuridão. No escuro não há paz, não há saúde, não há Buda Que nos acuda.
29
O Papel Que Cabia
Como falar em combater a fome Sem falar o nome Das causas que impulsionam essa caravela? A solidariedade é bela ou é uma novela? A hipocrisia não é sadia, Eleva a noite e engole o dia.
Passa o dia, passa a noite, Passa o silêncio e o açoite, Mas não passa a coisa fria Que queima o papel que cabia.
Infelizmente o pronto socorro precisa existir, Mas a vacina contra os males deve surgir. Pouco vale quebrar galho Sem fazer nada contra a raiz. A massa vive sem assoalho; O clone come, some e soma feliz.
Só remediar não coliga. Como é que pode atacar a formiga Sem atacar o formigueiro? Assim não há como sair do atoleiro. As causas da fome comem Tudo que falta ao homem.
27
Pássaro Certeza
Se há um pássaro que não me passa beleza É o pássaro certeza. Na música desse zabelê Não existe a palavra porquê. Ele parece um pássaro de verdade, Mas não passa de um passo falso, sem identidade. O pássaro certeza é tão belo Quanto uma barata esmagada num chinelo. O pássaro certeza é tão de confiança Quanto os fios podres de uma trança.
O pássaro certeza canta forte, canta alto: Para que o som possa desenhar o seu retrato, Para que o vento varra um navio de verdade, Para que o fogo queime quem não é utilidade.
O pássaro certeza canta forte, canta alto: Para não ouvir quem não é papagaio, Para que fato, falso e feio se misturem no balaio, Para garantir o passeio de um estrato, Para vender caro seu produto barato, Para esconder o seu rosto caricato, Para continuar sugando feito carrapato, Para tirar as calças do pacato, Para deixar o pacato sem teto, sem tato, Para deixar o negro sem sapato E para deixar Deus estupefato.
27
A Causa Não Vem ao Caso
A palavra causa foi riscada Do dicionário da minha jangada. Na minha embarcação, Essa palavra não embarca não. Se eu tiver de conviver com ela, Vão querer saber o porquê das mazelas.
Tira-me o sono e me consome Ter de falar das causas da fome. Para não correr esse risco, Risco o causa, ponho um asterisco Para poder indicar Por onde podemos navegar.
A análise da causa é como uma lupa, Pode mostrar além da biruta. Sou eu quem move o vento. Todos pela biruta não haverá contratempo. No meu barco tudo deve andar Por onde sempre andou. Nada de nadar Por onde a biruta não apontou.
O causa precisa estar fora de pauta. Se ninguém vê-lo, ninguém sente falta. Vamos navegar sem pausa Pra ninguém navegar pelas causas: Das vidas apagadas, do passeio das finanças, Da fome, das doenças, do balanço que balança, Do mar carcerário, do racismo dissimulado E de todas as caravelas desse mar mal apurado.
33
O Pássaro da Praça
Feroz não é o cão, não é o leão, não é o não. Feroz é o pássaro da praça Que se empanturra com a desgraça. O pássaro da praça agita a fauna e garfa a alma Dos que comem na palma de sua mão: Quase toda a fauna. O pássaro da praça causa trauma, Dirige na escuridão e joga a pedra e esconde a mão.
O pássaro da praça cisca, belisca e atiça a agitação. Agita porque se explodir ele ganha com explosão. Se não explodir ele ganha com a decantação. O pássaro da praça não é gente não, Transforma a vida em uma corrida pelo pão. O pássaro da praça é um porco, para pegar farelo Esfarela a alma da minha aldeia e semeia flagelo.
Piolhos, vermes e carrapatos Não me repugnam tanto quanto O pássaro da praça de terno e sapatos. O pássaro da praça precisa encher o infinito de alpiste E pra isso, ele mata e desmata para matar a fome que não existe.