magnoferreira

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Boiada

Parei para correr a vista sobre uma boiada
Tocada por dois cavaleiros e mais nada,
Ou por tudo que não está na cabeça dos bois,
Ou por tudo que lá está ou pelos dois.

Fiquei me perguntando, pra onde vai essa boiada?
O que passa na cabeça dos bois tangidos nessa estrada,
Que leva a boiada para exploração?
Se ela estiver indo para o abate bate algo no coração? 

Um boi não consegue vencer os cavaleiros,
Mas pra boiada os tangedores perderiam ligeiro.
Essa boiada não sabe a força que tem.
Outras boiadas não sabem também.
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Poemas

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Boiada

Parei para correr a vista sobre uma boiada
Tocada por dois cavaleiros e mais nada,
Ou por tudo que não está na cabeça dos bois,
Ou por tudo que lá está ou pelos dois.

Fiquei me perguntando, pra onde vai essa boiada?
O que passa na cabeça dos bois tangidos nessa estrada,
Que leva a boiada para exploração?
Se ela estiver indo para o abate bate algo no coração? 

Um boi não consegue vencer os cavaleiros,
Mas pra boiada os tangedores perderiam ligeiro.
Essa boiada não sabe a força que tem.
Outras boiadas não sabem também.
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Boiada

Parei para correr a vista sobre uma boiada

Tocada por dois cavaleiros e mais nada,

Ou por tudo que não está na cabeça dos bois,

Ou por tudo que lá está ou pelos dois.

 

Fiquei me perguntando, pra onde vai essa boiada?

O que passa na cabeça dos bois tangidos nessa estrada,

Que leva a boiada para exploração?

Se ela estiver indo para o abate bate algo no coração?

 

Um boi não consegue vencer os cavaleiros,

Mas pra boiada os tangedores perderiam ligeiro.

Essa boiada não sabe a força que tem.

Outras boiadas não sabem também.
41

Zumbis

Sonhei que eu era um computador

Que em conversas com outras máquinas

Percebi algo estarrecedor:

Uma rede de computadores zumbi

Pronta para fazer o que o computador mestre pedir.

 

Nela cada escravo anda na tocada que é tocado.

Sócrates, Kant, Lock, Descartes tudo descartado.

A luz que ilumina é o escuro da escuridão.

Nas esquinas passeiam as viúvas da razão.

A razão razão de ser, fundamento, 

Afundada, pisoteada por um casco de jumento.
37

O Mar Na Piscina

Mar sem chão, em vão, sem pão...
Piscina com o mar na mão,
Piscina come o chão,
Piscina com alma do mar na mão,
Piscina com tudo na mão,
Piscina não ensina a mar não.
37

A Tela Na Fome

Caridade. Hipocrisia. Filantropia. Entropia.
Entupia, entope, cruel, não busca a cura.
Curativo, remendo, deixando gemendo,
Matando e vivendo do que está vendendo.
Vendo e revendo, vejo-me em brasas
Ao ver na tela pássaros batendo asas.

Narrador narra a dor chamando-a de bela,
Com a triste alegria a passar na passarela.
Parece mostrar um belo momento,
Humilhante instante, hiato no sofrimento.
É comum ver na tela a boa ação
Comida pela fome da situação.

A situação não quer que o tempo passe não,
A situação quer que tudo passe pela sua mão.
Não pergunto por que a situação existe,
Mas por que há oceanos nas mãos dessa triste? 

Situação má, maldita, condenada,
Situação que voa alto e ver na desgraça a sua caçada.
Situação que ninguém ver e todo mundo viu.
A alma da situação sopra o vil.
33

Buda



Todo ano, no apagar das luzes
Desfila a barca dos desejos
Pelo mar dos festejos.
Pedem paz, saúde, dinheiro...

Fico observando o espetáculo por inteiro.
Todo ano se repete.
Parece que todo mundo se derrete.
Por alguns momentos parece um nascimento,
Planta tão viva quanto uma bolha de sabão em movimento.
 
Segue a mesma embarcação,
Que navega em uma única direção:
A que leva o barco a poucas mãos
E deixa um oceano de desengano e escuridão.
No escuro não há paz, não há saúde, não há Buda
Que nos acuda.
29

O Papel Que Cabia

Como falar em combater a fome
Sem falar o nome
Das causas que impulsionam essa caravela?
A solidariedade é bela ou é uma novela?
A hipocrisia não é sadia,
Eleva a noite e engole o dia.

Passa o dia, passa a noite,
Passa o silêncio e o açoite,
Mas não passa a coisa fria
Que queima o papel que cabia.

Infelizmente o pronto socorro precisa existir,
Mas a vacina contra os males deve surgir.
Pouco vale quebrar galho
Sem fazer nada contra a raiz.
A massa vive sem assoalho;
O clone come, some e soma feliz. 

Só remediar não coliga.
Como é que pode atacar a formiga
Sem atacar o formigueiro?
Assim não há como sair do atoleiro.
As causas da fome comem
Tudo que falta ao homem.
27

Pássaro Certeza

Se há um pássaro que não me passa beleza
É o pássaro certeza.
Na música desse zabelê
Não existe a palavra porquê.
Ele parece um pássaro de verdade,
Mas não passa de um passo falso, sem identidade.
O pássaro certeza é tão belo
Quanto uma barata esmagada num chinelo.
O pássaro certeza é tão de confiança
Quanto os fios podres de uma trança.

O pássaro certeza canta forte, canta alto:
Para que o som possa desenhar o seu retrato,
Para que o vento varra um navio de verdade,
Para que o fogo queime quem não é utilidade. 

O pássaro certeza canta forte, canta alto:
Para não ouvir quem não é papagaio,
Para que fato, falso e feio se misturem no balaio,
Para garantir o passeio de um estrato,
Para vender caro seu produto barato,
Para esconder o seu rosto caricato,
Para continuar sugando feito carrapato,
Para tirar as calças do pacato,
Para deixar o pacato sem teto, sem tato,
Para deixar o negro sem sapato
E para deixar Deus estupefato.
27

A Causa Não Vem ao Caso

A palavra causa foi riscada
Do dicionário da minha jangada.
Na minha embarcação,
Essa palavra não embarca não.
Se eu tiver de conviver com ela, 
Vão querer saber o porquê das mazelas. 

Tira-me o sono e me consome
Ter de falar das causas da fome.
Para não correr esse risco,
Risco o causa, ponho um asterisco
Para poder indicar
Por onde podemos navegar. 

A análise da causa é como uma lupa,
Pode mostrar além da biruta.
Sou eu quem move o vento.
Todos pela biruta não haverá contratempo.
No meu barco tudo deve andar
Por onde sempre andou.
Nada de nadar
Por onde a biruta não apontou. 

O causa precisa estar fora de pauta.
Se ninguém vê-lo, ninguém sente falta.
Vamos navegar sem pausa
Pra ninguém navegar pelas causas:
Das vidas apagadas, do passeio das finanças, 
Da fome, das doenças, do balanço que balança,  
Do mar carcerário, do racismo dissimulado
E de todas as caravelas desse mar mal apurado.
33

O Pássaro da Praça

Feroz não é o cão, não é o leão, não é o não. 
Feroz é o pássaro da praça
Que se empanturra com a desgraça.
O pássaro da praça agita a fauna e garfa a alma
Dos que comem na palma de sua mão:
Quase toda a fauna.
O pássaro da praça causa trauma,
Dirige na escuridão e joga a pedra e esconde a mão. 

O pássaro da praça cisca, belisca e atiça a agitação.
Agita porque se explodir ele ganha com explosão.
Se não explodir ele ganha com a decantação.
O pássaro da praça não é gente não,
Transforma a vida em uma corrida pelo pão.
O pássaro da praça é um porco, para pegar farelo
Esfarela a alma da minha aldeia e semeia flagelo. 

Piolhos, vermes e carrapatos
Não me repugnam tanto quanto
O pássaro da praça de terno e sapatos.
O pássaro da praça precisa encher o infinito de alpiste
E pra isso, ele mata e desmata para matar a fome que não existe.
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