Manito O Nato

Manito O Nato

n. 0000-04-06, Rio de Janeiro

Perfil
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Deixei meu coração enfim morar na lua

Deixei meu coração enfim morar na lua.

Vi seu olhar, no céu sem fim planar, errante.

Vi-me espelhada a sorte eterna em brilho instante

Que na imensidão revela a essência Tua

Senti toda demência que na ciência atua

- Buscando pela essência Teu pairar constante

Sobre a mãe esfera - em atitude infante,

Pois tendo a Ti adiante segue improba e crua.

Vi do meu coração um longo olhar rendido,

Radiante e embebecido no esplendor da casa

Da Tua paz e da Tua luz, sem ter, sem dor, sem ruído.

Ouvi meu coração por fim bradar da lua:

“Dá-me fazer senhor, da imperfeição uma asa

e envolto em tua Paz voar feliz na rua”.
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Biografia

Regue tuas lágrimas a paixão perdida, mas que não venha a aguada de uma nova primavera encontrar-te a semente do amor putrefeita por tão longo pranto.
Mereces muito mais tu a tua liberdade, do que teus fracassos a coroa dos teus lamentos!
Manito O Nato
 

Poemas

8

Amor de mãe

Escorre, oh distintivo de amores selados, líquido lânguido, de fonte pura e altiva, vagueando por sulcos amargos, cansados, em gotas que rolam na face, a deriva, lavando do semblante a beleza perdida, esquecida, na lida intensa de recantos sombrios.

As aves que em teu ninho romperam cascas, ora errantes presas de alísios e do poente, bebericado tendo o teu suco em rotas tascas, voltar-se hão ao ninho, arrulhando docilmente; esquivas, chorosas, pias e prodigas crias a consolarem-se e a oferecerem-te mãos vazias.

Secam-se os veios de amargor e prantos. Filtram-se as lagrimas em exultantes cantos. Debela-se, debalde, a dor e volta o encanto.

Assim enverga-se o coração do parto, feito junco. Aceita das tascas as sobras e do amor o fiunco... e se alegra, e sorri, tingindo de azul o pranto


655

Como é bela minha cidade!

Curvilíneos relevos, seios maduros,
moldados em rochas de amor,
cinzelados pelo Criador,
deleitam e aprisionam o olhar
de apaixonados filhos a sonhar
em jamais evadir-lhe os muros.

Com sorridente frescor jovial
e alma morena cheirosa de mar,
espraiada na areia seduz o luar,
que na espuma lhe beija as veias,
nas noites claras de lua cheia,
em mágico rito de glamour sensual.

Sob os cílios do sol ardente,
sobre as coroas de terras nuas,
escorre sangue por suas ruas,
impregna-lhe o olfato de fatos
e na enlutada invasão de seus matos,
Ela se imola por toda gente.

Explorando sua tez inocente,
ferindo seus seios e muros,
proclamam-lhe mãe os perjuros,
Ao tempo em que ao labor os nobres,
sonhadores, abastados ou pobres,
orgulhosos postam-se reverentes.

Mais que torrão, uma beldade!
Ora moça de trato fino,
de andar seguro e arguto tino,
ora gueixa sedutora e cortês...
Mesclando dor, luxúria e altivez,
como é bela minha cidade!



600

Gota de orvalho

Descida do firmamento
Em movimento recamado,
Com suavidade e leveza,
Ao belo soma ornamento
Pelo céu estimulado.

Úmida, maternal, sem pecado,
se deita sobre arranha gatos,
Sobre ramagens e flores
E em ritmo contínuo e calado,
Transcende em altar os matos

É pérola inimitável
No seu estar passageiro,
Tal e qual o pensamento,
Que no tempo insaciável
Do presente é prisioneiro.

Viça pelas manhãs a rosa
E depõe-se no dia ao meio,
Mas, se o sol a quer enxuta,
Ao balanço da flor viçosa
Esparge sem ter receio.

Em folha seca pousada,
Brilhante qual passageira,
Úmida gota de orvalho,
Anuncia nova ramada,
Primavera alvissareira.

Ah, Déa de efêmera glória...
Celebrando seu estar solene,
O orvalho por ti se enluta
E a rosa tem na memória
O beijo que a faz perene.



687

Pérolas de um sonho

Quando ofertado me será teu cheiro
Em branco linho ou no seleiro impuro
Virás, eu juro, reanimar-me inteiro
E matinal respiro há de romper o escuro

Quando ofertado me será teu peito
Serei refeito das dores e temores idos
Aleitamento de paz terá efeito
Nos vicejantes sonhos por ti acolhidos.

Quando ofertados me serão teus sonhos
Em sussurrar secreto te poderei ouvir,
No embalo de notas e lábios risonhos,
Solfejadas pérolas, meu sonho invadir

Ao jorrar nos corações do amor o sumo
Em verão miscigenado de rumor e calma
Nossa incerteza reencontrará seu rumo
Sorvendo, por consumo, do suor da alma

Dissipadas divisas veremos esmaecer
E recrudescer o frio e fino fio do desejo
À relva, recostados em nosso anoitecer,
Voltar a crer, viver do sonho de novo beijo



614

O grito da vida

A tarde enfeita-se do entorno ao monte,
As ondas bailam suaves no final de dia,
Em degrade escarlate veste-se o horizonte,
Tremula dourado o sol na brisa tardia,
Tépida, reflete a areia um último cintilar...

Reconfortadora, imersa no silêncio,
Não tardará a noite, amiga passageira.
O astro rei inclina-se a orar!...
A paz brilhará na estrelada cimeira:
Anúncios perpétuos d’um novo despertar.

Emerjo-me do mergulho nos frágeis ais
E submerjo na fecundidade das tardas tintas,
Em cada tom de laranja, carmim e lilás,
Derradeiros recamos da luz fugidia.
Ressuscitam-me no que há e no que havia.

Ouço sob este manto que recolhe o dia,
Tênue como a brisa redentora da tormenta,
Enredado em bordado de paz e harmonia,
- Aqui estou; Amor que depura e inocenta...
O grito da Vida ecoando desde o horizonte.

E a não menos que em tudo me refaz:
Espírito, substância, consciência e vontade;
Sonhos, propósitos, esperanças e liberdade.
Submeto-me às alvíssaras que o Amor traz
Num estar sem lembranças e sem verdades.

706

Eis que vivo

 

Eis que vivo e vivo esperando.

Vivo o silencio, eu e o pensamento;

Pensamento de leveza azulada,

de medida lenta, sobrevoando,

vivo ainda, a alma já, de ímpeto,

quebrantada.

Eis que vivo e vivo em turbilhão,

folhetim solto ao vento.

Olhar desatento, invernal, sem emoção,

vivo só, com tudo que professo

e confesso, pelo bater do coração.

Vivo do sal, do prazo, de algum tento.

Já sem talento, eis que vivo,

eu e o pensamento.

 

674

QUANDO

Quando derribadas as utopias,
Açaimadas nas veredas da paixão;
Quando desbotadas e murchas as pétalas
Do irrigado e florido plantio da ilusão;
Quando as ausências povoadas de saudades
Empalidecem o horizonte da razão;
Quando dita o dia o despertar da luz
E teimosa segue a vida rendida á escuridão;
Quando os pesados grilhões da verdade
Aprisionam as asas da imaginação;
Quando acinzentada bruma das pagas
Apagam as cores da inspiração;
Quando a noite desperta o alarido
Nos surdos gritos subidos do coração:
Descalças de futuro e de presente,
investidas de seu domínio rígido,
Repetem-se agora as horas em vão
Consagrando-nos por oferendas
As débeis essências do passado,
As ausências travestidas de lembranças,
As somas dos silêncios do presente,
O amanhã de repleto vazio,
A solidão.

724

Deixei meu coração enfim morar na lua

Deixei meu coração enfim morar na lua.

Vi seu olhar, no céu sem fim planar, errante.

Vi-me espelhada a sorte eterna em brilho instante

Que na imensidão revela a essência Tua

Senti toda demência que na ciência atua

- Buscando pela essência Teu pairar constante

Sobre a mãe esfera - em atitude infante,

Pois tendo a Ti adiante segue improba e crua.

Vi do meu coração um longo olhar rendido,

Radiante e embebecido no esplendor da casa

Da Tua paz e da Tua luz, sem ter, sem dor, sem ruído.

Ouvi meu coração por fim bradar da lua:

“Dá-me fazer senhor, da imperfeição uma asa

e envolto em tua Paz voar feliz na rua”.
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