Manito O Nato

Manito O Nato

n. 0000-04-06, Rio de Janeiro

Perfil
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Deixei meu coração enfim morar na lua

Deixei meu coração enfim morar na lua.

Vi seu olhar, no céu sem fim planar, errante.

Vi-me espelhada a sorte eterna em brilho instante

Que na imensidão revela a essência Tua

Senti toda demência que na ciência atua

- Buscando pela essência Teu pairar constante

Sobre a mãe esfera - em atitude infante,

Pois tendo a Ti adiante segue improba e crua.

Vi do meu coração um longo olhar rendido,

Radiante e embebecido no esplendor da casa

Da Tua paz e da Tua luz, sem ter, sem dor, sem ruído.

Ouvi meu coração por fim bradar da lua:

“Dá-me fazer senhor, da imperfeição uma asa

e envolto em tua Paz voar feliz na rua”.
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Biografia

Regue tuas lágrimas a paixão perdida, mas que não venha a aguada de uma nova primavera encontrar-te a semente do amor putrefeita por tão longo pranto.
Mereces muito mais tu a tua liberdade, do que teus fracassos a coroa dos teus lamentos!
Manito O Nato
 

Poemas

15

Primeiro amor



Envolta no véu poeirento da rua

Sob o abatido sol da manhã

Fuma a jardineira ao gemido arcado

Pela estrada nua rumo a Jaçanã

Exalando cheiro de diesel queimado



Nessa órfã e empoeirada estrada

Descompassada pedala a lembrança

Resgatando no odor da fumaça

O primeiro amor de criança

Cuja marca indelével não passa.



Os olhos brilhantes, encantados

Com a precoce chegada do amor

Não perdiam um só movimento

Dos "pegas" e "piques" de pés agitados

Das pregas das saias rodadas ao vento



Um par de olhos, um cheiro, uma visão...

Um rosto, um nome e nada mais...

Fez-se tom silencioso, fez-se canção

Fez-se agasalho na noite, fez-se oração

Fez-se luz dominante dos sóis matinais.



Ficou lá no suspiro, na pureza perdida

De um pequeno e virgem coração

Ficou lá prisioneira e esquecida

A reclamada receita que a vida

Debalde procura no mar da ilusão.







727

Pandorga

Crueldade!... Linha lhe sobra, e suspiro...
Cabeceia a pandorga qual ginete fogoso
Ao cabresto, instada sempre a restrito giro,
Órfã da penúria e do conquistar custoso.

No olhar do menino sorriem as cores,
Que ao sol, em brilho de contas reluz.
No olhar do menino fantasmas raptores
No disfarce do vento que a pipa conduz

A roxa pandorga contida reteve saudade!
Revestida da mordaz crueza que não finda,
Firma a suspeita que de lá da tenra idade
Anacrônico mastro o menino ainda guinda.

Nostálgico, o olhar infante veste a realidade
Em esmaecidas cores de cintilar purpurino,
E nela o quanto almeja ainda a liberdade
Da pipa, agora desbotada, o ignoto menino.
978

Presente

Sou... Estou... Estás... São...
Preciosidade soberana, segura,
Lente diáfana da realidade em ação!
Perene morada de glória e loucura.

Não fujas do É, nem divagues.
Assim, que ao imponderável será,
Remorsos e quimeras não pagues.
Preserva a flama que só aquele te dá!

Porque contemplar em frincha estreita,
Se encontrarás ossada desértica e adeus?
Registro ou é história ou é colheita.
Em memória os cultue, vá lá, eram teus!

Acende teus refletores e teus gravetos
Luz no presente, não no que vem ou foi embora.
Nele teus tesouros, ramalhetes e sonetos.
Vive intensamente a eternidade do agora!
988

Planície do tempo

Tempo...
Flor em desabrochar continuo,
Albergue de quantas lágrimas
Relâmpago desluzido do agora...
Atravessando por sua planície
Viandantes de toda hora,
Por estações, plantios e colheitas,
Caminham de mãos dadas
Entrelaçando realidades e sonhos,
Risos e prantos, partidas e chegadas

Tempo... tempo...
Em despedida, vestidas de cansaço,
Por detrás do resplendor tremulo
Pesarosas quão tardias lágrimas,
Inundam seu caminho lasso,
Lavando das esperas o acúmulo,
Da nostalgia a relva e o túmulo.

Tempo... tempo... tempo
Janela entreaberta às fantasias...
Em seu parapeito, emudecida
A vida se curva à sorte;
Despede desbotadas as alegrias
E lança-se de ti para além
Usando por trampolim a morte
613

Voltei

Voltei, eu ser daninho, ao inóspito meio
Fui sem receio, abjeto, nele aceito,
Sedento renovar-me à fonte anseio,
Eu, juiz e réu; presa, inquisidor e suspeito
Depondo o fardo a fadiga e a cobiça.

Atado ao meio pelo meio fui ficando
Nos braços traiçoeiros do sucesso
Deus possesso não me arguo até quando
Suportarei ao triste e irracional progresso,
Me atolando no pró-seco e na carniça...

Da água pura dia a dia me despeço;
No ar que trago só inspiro pó daninho;
Justo o repouso do silencio não mereço;
Abate-me o alimento me perde o vinho;
Cobre meu ninho o negro manto da injustiça.

Voltei, eu ser enfermo, ao nascedouro
Abjeta, vim a rogo revogar-me a tirania
Ávido em restaurar a um ser vindouro
O céu azul, a água límpida e alva a poesia
E alforriado não morrer em falsa liça.
752

Veste branca da manhã

Bordando a veste branca da manhã
Sorridente, desperta dourada, sem pressa
A luz da aurora espreguiçando na parede
E em seu raiar silente bebe minha sede
Em solene entrega de pencas de promessas

Ah! Esse aroma matutino que me inventa,
Em outro solo, em outra água e em outros ares,
- débil bacelo salvo em vinha poeirenta -
E em toda sorte de semente e de pomares.

Ah! Perfumada veste branca da manhã!
566

Nas asas da surreal-idade

Nas asas da surreal-idade
Lancei-me fora ao vento
Tendo a esquerda o silencio
E à direita mortas verdades...
N'alma lembranças acesas
No olhar o sonho celeste...
Levo no coração agreste
Rumorejante vozerio

À frente, em brilho noturno
Única silenciosa e bela
Reinando sobre o vazio
Sorri-me a estrela-dalva
Emoldurada pela janela

Ao meu convite e da mata
Que do véu negro ela encanta
Ajoelhada diante dela
A noite fica parada...
E o silencio a cantar se levanta
No coaxar, nos silvos e nos pios,
Soltando-se em risos cálidos;
Tudo petrifica o momento
Escondido na vésper azulada...
E eu sem pensamento
Adormeço em sua luz... ao relento.
1 150

Nuvens espessas

Espessas formam-se as nuvens
Carregadas de cor e de penas
Das penas caladas na alma
Na alma em que o penar reza
Quem como ao céu acena
Sem disfarce rogando à arte
No Deus de quem ela é parte
Que as espessas nuvens errantes
Sejam brancas, fugazes, serenas
Caminheiras em cantilenas
E seja a tormenta estandarte
Fechando-lhe o inverno, destarte.
762

Regenerando

Equilibre-se minha cambembe carcaça...

De ti me libertar não pude, não posso e tento

Tentado no menino que de sempre e ainda,

Num jogo acriançado de birra e de graça,

Em seu bojo sorri e brinca arreliento.

Deste casulo que o pó dos anos encurva,

Despertar adolescente retorna à fantasia

E o licor adamantino brota da fonte turva;

Torrente primaveril à carquilha se mistura

E regenera a velha craca inerte, seca e dura.

552

O mar inteiro

Ei-lo com seu balanço obstinado

Que abraça a noite,torvo, sibilino,

Entregue à solidão do seu reinado

E do silencio da presença do divino.

 

Por liberdade tem o brilho matutino

E a fortuna de banhar a terra inteira

Acolhendo a foz dos rios que por destino

Dão-lhe o frescor dos véus da cachoeira

 

Do porto à pedra, da pedra à areia da areia ao porto,

Ele se perde, se encontra e se despede

E na distancia fluir se deixa, absorto,

Entre as algas e os corais que a cor lhe cede

 

Abandonando seu status de mar morto,

De mar aberto, mar revolto ou mar profundo

Se apequena e se desdobra a meu conforto

E em oceanos se divide pelo mundo.

 

Extasiado por seu pulsar ao sol fecundo,

Temperando corpo e alma com seu cheiro,

O coração não quer perder nenhum segundo

Pra pulsar c'a dimensão do mar inteiro
701

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