Lista de Poemas

Deixei meu coração enfim morar na lua

Deixei meu coração enfim morar na lua.

Vi seu olhar, no céu sem fim planar, errante.

Vi-me espelhada a sorte eterna em brilho instante

Que na imensidão revela a essência Tua

Senti toda demência que na ciência atua

- Buscando pela essência Teu pairar constante

Sobre a mãe esfera - em atitude infante,

Pois tendo a Ti adiante segue improba e crua.

Vi do meu coração um longo olhar rendido,

Radiante e embebecido no esplendor da casa

Da Tua paz e da Tua luz, sem ter, sem dor, sem ruído.

Ouvi meu coração por fim bradar da lua:

“Dá-me fazer senhor, da imperfeição uma asa

e envolto em tua Paz voar feliz na rua”.
735

Presente

Sou... Estou... Estás... São...
Preciosidade soberana, segura,
Lente diáfana da realidade em ação!
Perene morada de glória e loucura.

Não fujas do É, nem divagues.
Assim, que ao imponderável será,
Remorsos e quimeras não pagues.
Preserva a flama que só aquele te dá!

Porque contemplar em frincha estreita,
Se encontrarás ossada desértica e adeus?
Registro ou é história ou é colheita.
Em memória os cultue, vá lá, eram teus!

Acende teus refletores e teus gravetos
Luz no presente, não no que vem ou foi embora.
Nele teus tesouros, ramalhetes e sonetos.
Vive intensamente a eternidade do agora!
979

Nas asas da surreal-idade

Nas asas da surreal-idade
Lancei-me fora ao vento
Tendo a esquerda o silencio
E à direita mortas verdades...
N'alma lembranças acesas
No olhar o sonho celeste...
Levo no coração agreste
Rumorejante vozerio

À frente, em brilho noturno
Única silenciosa e bela
Reinando sobre o vazio
Sorri-me a estrela-dalva
Emoldurada pela janela

Ao meu convite e da mata
Que do véu negro ela encanta
Ajoelhada diante dela
A noite fica parada...
E o silencio a cantar se levanta
No coaxar, nos silvos e nos pios,
Soltando-se em risos cálidos;
Tudo petrifica o momento
Escondido na vésper azulada...
E eu sem pensamento
Adormeço em sua luz... ao relento.
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Pérolas de um sonho

Quando ofertado me será teu cheiro
Em branco linho ou no seleiro impuro
Virás, eu juro, reanimar-me inteiro
E matinal respiro há de romper o escuro

Quando ofertado me será teu peito
Serei refeito das dores e temores idos
Aleitamento de paz terá efeito
Nos vicejantes sonhos por ti acolhidos.

Quando ofertados me serão teus sonhos
Em sussurrar secreto te poderei ouvir,
No embalo de notas e lábios risonhos,
Solfejadas pérolas, meu sonho invadir

Ao jorrar nos corações do amor o sumo
Em verão miscigenado de rumor e calma
Nossa incerteza reencontrará seu rumo
Sorvendo, por consumo, do suor da alma

Dissipadas divisas veremos esmaecer
E recrudescer o frio e fino fio do desejo
À relva, recostados em nosso anoitecer,
Voltar a crer, viver do sonho de novo beijo



606

Solidão de mim

Retirante de mim
Alem de mim vou buscar
Turba bendita
Estrépito ludo rodeia meu penar.
Rumor, areia e mar...
Acolá farnéis à vista
Fragor e risos.
Ruído desolador,
Epidérmico ardor.
É agora insolação o matinal alvor
Ardência benfazeja!
Açoita esse mandrião.
Desperta seu letárgico grito,
Beta multicor em aquário bretão.
Glacial solidão!
Minh'alma orvalhou esse chão
Com a razão apregoando o fim
No regado torrão dessa ruína
Germinou o homem
Da solidão de mim!
981

Vozes do silencio

Da manhã do tempo ouço seu clamor,

Vozes do silencio de mim desgarradas.

Ávidos lamentos do não amado amor

Escondido nos cúmulos das incertezas

Amordaçadas.

Eco longínquo de vozes sem vida

Dos rascunhos de sonhos de amores não tidos

De verbetes não lidos da estrofe perdida

Nos mananciais de princípios e dogmas

Poluídos.

Reclama das horas sepultadas em devaneios

Por não amar com o amar que o amor quis,

Quando quis do amor subjugar os anseios

Enxertados com espectrais e renitentes receios

Desde a raiz.

Róseo fulgor não havido que haveria de ser,

Nesta negra e poeirenta mina de hulha,

Ora resta lutuoso brilho do anoitecer,

Sob o olhar vago e profundo da ave penitente

Que infeliz arrulha.

546

QUANDO

Quando derribadas as utopias,
Açaimadas nas veredas da paixão;
Quando desbotadas e murchas as pétalas
Do irrigado e florido plantio da ilusão;
Quando as ausências povoadas de saudades
Empalidecem o horizonte da razão;
Quando dita o dia o despertar da luz
E teimosa segue a vida rendida á escuridão;
Quando os pesados grilhões da verdade
Aprisionam as asas da imaginação;
Quando acinzentada bruma das pagas
Apagam as cores da inspiração;
Quando a noite desperta o alarido
Nos surdos gritos subidos do coração:
Descalças de futuro e de presente,
investidas de seu domínio rígido,
Repetem-se agora as horas em vão
Consagrando-nos por oferendas
As débeis essências do passado,
As ausências travestidas de lembranças,
As somas dos silêncios do presente,
O amanhã de repleto vazio,
A solidão.

714

O grito da vida

A tarde enfeita-se do entorno ao monte,
As ondas bailam suaves no final de dia,
Em degrade escarlate veste-se o horizonte,
Tremula dourado o sol na brisa tardia,
Tépida, reflete a areia um último cintilar...

Reconfortadora, imersa no silêncio,
Não tardará a noite, amiga passageira.
O astro rei inclina-se a orar!...
A paz brilhará na estrelada cimeira:
Anúncios perpétuos d’um novo despertar.

Emerjo-me do mergulho nos frágeis ais
E submerjo na fecundidade das tardas tintas,
Em cada tom de laranja, carmim e lilás,
Derradeiros recamos da luz fugidia.
Ressuscitam-me no que há e no que havia.

Ouço sob este manto que recolhe o dia,
Tênue como a brisa redentora da tormenta,
Enredado em bordado de paz e harmonia,
- Aqui estou; Amor que depura e inocenta...
O grito da Vida ecoando desde o horizonte.

E a não menos que em tudo me refaz:
Espírito, substância, consciência e vontade;
Sonhos, propósitos, esperanças e liberdade.
Submeto-me às alvíssaras que o Amor traz
Num estar sem lembranças e sem verdades.

698

Como é bela minha cidade!

Curvilíneos relevos, seios maduros,
moldados em rochas de amor,
cinzelados pelo Criador,
deleitam e aprisionam o olhar
de apaixonados filhos a sonhar
em jamais evadir-lhe os muros.

Com sorridente frescor jovial
e alma morena cheirosa de mar,
espraiada na areia seduz o luar,
que na espuma lhe beija as veias,
nas noites claras de lua cheia,
em mágico rito de glamour sensual.

Sob os cílios do sol ardente,
sobre as coroas de terras nuas,
escorre sangue por suas ruas,
impregna-lhe o olfato de fatos
e na enlutada invasão de seus matos,
Ela se imola por toda gente.

Explorando sua tez inocente,
ferindo seus seios e muros,
proclamam-lhe mãe os perjuros,
Ao tempo em que ao labor os nobres,
sonhadores, abastados ou pobres,
orgulhosos postam-se reverentes.

Mais que torrão, uma beldade!
Ora moça de trato fino,
de andar seguro e arguto tino,
ora gueixa sedutora e cortês...
Mesclando dor, luxúria e altivez,
como é bela minha cidade!



591

Gota de orvalho

Descida do firmamento
Em movimento recamado,
Com suavidade e leveza,
Ao belo soma ornamento
Pelo céu estimulado.

Úmida, maternal, sem pecado,
se deita sobre arranha gatos,
Sobre ramagens e flores
E em ritmo contínuo e calado,
Transcende em altar os matos

É pérola inimitável
No seu estar passageiro,
Tal e qual o pensamento,
Que no tempo insaciável
Do presente é prisioneiro.

Viça pelas manhãs a rosa
E depõe-se no dia ao meio,
Mas, se o sol a quer enxuta,
Ao balanço da flor viçosa
Esparge sem ter receio.

Em folha seca pousada,
Brilhante qual passageira,
Úmida gota de orvalho,
Anuncia nova ramada,
Primavera alvissareira.

Ah, Déa de efêmera glória...
Celebrando seu estar solene,
O orvalho por ti se enluta
E a rosa tem na memória
O beijo que a faz perene.



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Regue tuas lágrimas a paixão perdida, mas que não venha a aguada de uma nova primavera encontrar-te a semente do amor putrefeita por tão longo pranto.
Mereces muito mais tu a tua liberdade, do que teus fracassos a coroa dos teus lamentos!
Manito O Nato