Lista de Poemas

Amor de mãe

Escorre, oh distintivo de amores selados, líquido lânguido, de fonte pura e altiva, vagueando por sulcos amargos, cansados, em gotas que rolam na face, a deriva, lavando do semblante a beleza perdida, esquecida, na lida intensa de recantos sombrios.

As aves que em teu ninho romperam cascas, ora errantes presas de alísios e do poente, bebericado tendo o teu suco em rotas tascas, voltar-se hão ao ninho, arrulhando docilmente; esquivas, chorosas, pias e prodigas crias a consolarem-se e a oferecerem-te mãos vazias.

Secam-se os veios de amargor e prantos. Filtram-se as lagrimas em exultantes cantos. Debela-se, debalde, a dor e volta o encanto.

Assim enverga-se o coração do parto, feito junco. Aceita das tascas as sobras e do amor o fiunco... e se alegra, e sorri, tingindo de azul o pranto


648

Eis que vivo

 

Eis que vivo e vivo esperando.

Vivo o silencio, eu e o pensamento;

Pensamento de leveza azulada,

de medida lenta, sobrevoando,

vivo ainda, a alma já, de ímpeto,

quebrantada.

Eis que vivo e vivo em turbilhão,

folhetim solto ao vento.

Olhar desatento, invernal, sem emoção,

vivo só, com tudo que professo

e confesso, pelo bater do coração.

Vivo do sal, do prazo, de algum tento.

Já sem talento, eis que vivo,

eu e o pensamento.

 

667

Pandorga

Crueldade!... Linha lhe sobra, e suspiro...
Cabeceia a pandorga qual ginete fogoso
Ao cabresto, instada sempre a restrito giro,
Órfã da penúria e do conquistar custoso.

No olhar do menino sorriem as cores,
Que ao sol, em brilho de contas reluz.
No olhar do menino fantasmas raptores
No disfarce do vento que a pipa conduz

A roxa pandorga contida reteve saudade!
Revestida da mordaz crueza que não finda,
Firma a suspeita que de lá da tenra idade
Anacrônico mastro o menino ainda guinda.

Nostálgico, o olhar infante veste a realidade
Em esmaecidas cores de cintilar purpurino,
E nela o quanto almeja ainda a liberdade
Da pipa, agora desbotada, o ignoto menino.
970

Primeiro amor



Envolta no véu poeirento da rua

Sob o abatido sol da manhã

Fuma a jardineira ao gemido arcado

Pela estrada nua rumo a Jaçanã

Exalando cheiro de diesel queimado



Nessa órfã e empoeirada estrada

Descompassada pedala a lembrança

Resgatando no odor da fumaça

O primeiro amor de criança

Cuja marca indelével não passa.



Os olhos brilhantes, encantados

Com a precoce chegada do amor

Não perdiam um só movimento

Dos "pegas" e "piques" de pés agitados

Das pregas das saias rodadas ao vento



Um par de olhos, um cheiro, uma visão...

Um rosto, um nome e nada mais...

Fez-se tom silencioso, fez-se canção

Fez-se agasalho na noite, fez-se oração

Fez-se luz dominante dos sóis matinais.



Ficou lá no suspiro, na pureza perdida

De um pequeno e virgem coração

Ficou lá prisioneira e esquecida

A reclamada receita que a vida

Debalde procura no mar da ilusão.







707

Re-lembranças

Reescrever linha a linha, velhas linhas,
Impressas na soleira da saudade
Permito-me, enfeitando a realidade,
De lembranças, estóicas, porem minhas.

Transmudar letra a letra em novas linhas,
Suprimindo as intrigas e a maldade,
O nó da nostalgia o peito invade,
Cingindo cepo a cepo antigas vinhas.

Vagando por memórias do passado,
Dissímiles, reencontro lado a lado,
O bem e o mal, num embate tão antigo.

Destarte, em findas telas presencio,
No ocaso o lusco fusco já tardio,
Colhendo o sol que ainda esta comigo.
578

Depois do tempo

Tens-me meu Deus em teu ser sempre
Porque sempre em ti ação do amor serei.
Serei na eternidade que para além de si perdura,
A predição da Tua terna e mais perfeita criatura.

Em Ti vi em arte pura as cores vivas
Vi da Via Láctea, altiva, o volutear da luz.
A vida eu vi passar nas horas que a conduz
Ao perpétuo estar em Ti pós noites aflitivas

Já que ao bacurau um céu de estrelas deste
E ao guaxinim as sombras mornas na campina
Também quiseste despejar Tua luz platina
O sono enluarando-nos em prelúdio ao fulgor celeste
 
Porque criaste, ó Deus, amante o homem
Porque o creste, assim amante, imagem Tua
De eternizá-lo é o anseio que O consome
E de ser Paz contigo ao que o tempo se conclua
282

Voltei

Voltei, eu ser daninho, ao inóspito meio
Fui sem receio, abjeto, nele aceito,
Sedento renovar-me à fonte anseio,
Eu, juiz e réu; presa, inquisidor e suspeito
Depondo o fardo a fadiga e a cobiça.

Atado ao meio pelo meio fui ficando
Nos braços traiçoeiros do sucesso
Deus possesso não me arguo até quando
Suportarei ao triste e irracional progresso,
Me atolando no pró-seco e na carniça...

Da água pura dia a dia me despeço;
No ar que trago só inspiro pó daninho;
Justo o repouso do silencio não mereço;
Abate-me o alimento me perde o vinho;
Cobre meu ninho o negro manto da injustiça.

Voltei, eu ser enfermo, ao nascedouro
Abjeta, vim a rogo revogar-me a tirania
Ávido em restaurar a um ser vindouro
O céu azul, a água límpida e alva a poesia
E alforriado não morrer em falsa liça.
741

O mar inteiro

Ei-lo com seu balanço obstinado

Que abraça a noite,torvo, sibilino,

Entregue à solidão do seu reinado

E do silencio da presença do divino.

 

Por liberdade tem o brilho matutino

E a fortuna de banhar a terra inteira

Acolhendo a foz dos rios que por destino

Dão-lhe o frescor dos véus da cachoeira

 

Do porto à pedra, da pedra à areia da areia ao porto,

Ele se perde, se encontra e se despede

E na distancia fluir se deixa, absorto,

Entre as algas e os corais que a cor lhe cede

 

Abandonando seu status de mar morto,

De mar aberto, mar revolto ou mar profundo

Se apequena e se desdobra a meu conforto

E em oceanos se divide pelo mundo.

 

Extasiado por seu pulsar ao sol fecundo,

Temperando corpo e alma com seu cheiro,

O coração não quer perder nenhum segundo

Pra pulsar c'a dimensão do mar inteiro
692

Advento e ocaso

longínquo advento,

em parcos tons apequenou-se

mas és ainda horizonte e história,

a mesma que ao tempo servil muito ofertou,

lá onde, em montanhas de primaveril ardor,

o rosto primeiro, em brilho auroral, aflorou.

 

melancólico ocaso,

feito de pendões perdidos,

de prontidão vazia, de propósitos risonhos

que o caminho tortuoso o perolar furtou.

melancólico postigo! via desluzida do florescer,

quando, no sumidouro da razão, adormeceram os sonhos.

 

irreverente advento,

prelúdio e sumário de canções e títulos

em sonoros acordes de possibilidades e convicções,

esteira de aluviões e tormentas que derramará,

na mesma caudalosa e transbordante taça,

o mosto rosado das alegrias e os restolhos das frustrações.

 

meritório ocaso,

vicejante de credo e esperança

que ora acena, daqui do dia que te tem presente,

não com as sombras que propõe teu pretérito ser,

mas com o aceno jovial de que há vida

e que alcançá-la em novo advento é oração eloquente.
128

Dissidentes

Aglutinando a paz e as gentes,
Andar célere e olhar atento,
Passa o mundo róseo e calado,
Fitando sob o céu ardente
Dissidentes passando ao lado.
Gentes que olvidaram a canção,
Que esqueceram o tom da poesia,
Tartufos de almas vazias
Mergulhados no ermo da urgia,
Da avareza e do pisar apressado,
Sem passado brotado do chão
Ou planado no ar da alegria.
Marchando sobre nuvens e lombra
Gentes agentes da sombra
Que assombra o verde cerrado
Com serras e a lei do machado,
Que mancham as marchas dos rios.
Gentes em castelos vazios
Lestas e austeros em vão,
Vão ávidos, segundo a segundo
E alheios, à margem do mundo,
Não o veem passar sem ruídos
Disposto a ofertar em penhor
Até ao sátiro agenciador de gemidos
Seu rosto azul “manchado” de amor.
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Regue tuas lágrimas a paixão perdida, mas que não venha a aguada de uma nova primavera encontrar-te a semente do amor putrefeita por tão longo pranto.
Mereces muito mais tu a tua liberdade, do que teus fracassos a coroa dos teus lamentos!
Manito O Nato