Manito O Nato

Manito O Nato

n. 0000-04-06, Rio de Janeiro

Perfil
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Deixei meu coração enfim morar na lua

Deixei meu coração enfim morar na lua.

Vi seu olhar, no céu sem fim planar, errante.

Vi-me espelhada a sorte eterna em brilho instante

Que na imensidão revela a essência Tua

Senti toda demência que na ciência atua

- Buscando pela essência Teu pairar constante

Sobre a mãe esfera - em atitude infante,

Pois tendo a Ti adiante segue improba e crua.

Vi do meu coração um longo olhar rendido,

Radiante e embebecido no esplendor da casa

Da Tua paz e da Tua luz, sem ter, sem dor, sem ruído.

Ouvi meu coração por fim bradar da lua:

“Dá-me fazer senhor, da imperfeição uma asa

e envolto em tua Paz voar feliz na rua”.
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Biografia

Regue tuas lágrimas a paixão perdida, mas que não venha a aguada de uma nova primavera encontrar-te a semente do amor putrefeita por tão longo pranto.
Mereces muito mais tu a tua liberdade, do que teus fracassos a coroa dos teus lamentos!
Manito O Nato
 

Poemas

27

Gota de orvalho

Descida do firmamento
Em movimento recamado,
Com suavidade e leveza,
Ao belo soma ornamento
Pelo céu estimulado.

Úmida, maternal, sem pecado,
se deita sobre arranha gatos,
Sobre ramagens e flores
E em ritmo contínuo e calado,
Transcende em altar os matos

É pérola inimitável
No seu estar passageiro,
Tal e qual o pensamento,
Que no tempo insaciável
Do presente é prisioneiro.

Viça pelas manhãs a rosa
E depõe-se no dia ao meio,
Mas, se o sol a quer enxuta,
Ao balanço da flor viçosa
Esparge sem ter receio.

Em folha seca pousada,
Brilhante qual passageira,
Úmida gota de orvalho,
Anuncia nova ramada,
Primavera alvissareira.

Ah, Déa de efêmera glória...
Celebrando seu estar solene,
O orvalho por ti se enluta
E a rosa tem na memória
O beijo que a faz perene.



687

QUANDO

Quando derribadas as utopias,
Açaimadas nas veredas da paixão;
Quando desbotadas e murchas as pétalas
Do irrigado e florido plantio da ilusão;
Quando as ausências povoadas de saudades
Empalidecem o horizonte da razão;
Quando dita o dia o despertar da luz
E teimosa segue a vida rendida á escuridão;
Quando os pesados grilhões da verdade
Aprisionam as asas da imaginação;
Quando acinzentada bruma das pagas
Apagam as cores da inspiração;
Quando a noite desperta o alarido
Nos surdos gritos subidos do coração:
Descalças de futuro e de presente,
investidas de seu domínio rígido,
Repetem-se agora as horas em vão
Consagrando-nos por oferendas
As débeis essências do passado,
As ausências travestidas de lembranças,
As somas dos silêncios do presente,
O amanhã de repleto vazio,
A solidão.

724

Pandorga

Crueldade!... Linha lhe sobra, e suspiro...
Cabeceia a pandorga qual ginete fogoso
Ao cabresto, instada sempre a restrito giro,
Órfã da penúria e do conquistar custoso.

No olhar do menino sorriem as cores,
Que ao sol, em brilho de contas reluz.
No olhar do menino fantasmas raptores
No disfarce do vento que a pipa conduz

A roxa pandorga contida reteve saudade!
Revestida da mordaz crueza que não finda,
Firma a suspeita que de lá da tenra idade
Anacrônico mastro o menino ainda guinda.

Nostálgico, o olhar infante veste a realidade
Em esmaecidas cores de cintilar purpurino,
E nela o quanto almeja ainda a liberdade
Da pipa, agora desbotada, o ignoto menino.
978

Primeiro amor



Envolta no véu poeirento da rua

Sob o abatido sol da manhã

Fuma a jardineira ao gemido arcado

Pela estrada nua rumo a Jaçanã

Exalando cheiro de diesel queimado



Nessa órfã e empoeirada estrada

Descompassada pedala a lembrança

Resgatando no odor da fumaça

O primeiro amor de criança

Cuja marca indelével não passa.



Os olhos brilhantes, encantados

Com a precoce chegada do amor

Não perdiam um só movimento

Dos "pegas" e "piques" de pés agitados

Das pregas das saias rodadas ao vento



Um par de olhos, um cheiro, uma visão...

Um rosto, um nome e nada mais...

Fez-se tom silencioso, fez-se canção

Fez-se agasalho na noite, fez-se oração

Fez-se luz dominante dos sóis matinais.



Ficou lá no suspiro, na pureza perdida

De um pequeno e virgem coração

Ficou lá prisioneira e esquecida

A reclamada receita que a vida

Debalde procura no mar da ilusão.







727

Re-lembranças

Reescrever linha a linha, velhas linhas,
Impressas na soleira da saudade
Permito-me, enfeitando a realidade,
De lembranças, estóicas, porem minhas.

Transmudar letra a letra em novas linhas,
Suprimindo as intrigas e a maldade,
O nó da nostalgia o peito invade,
Cingindo cepo a cepo antigas vinhas.

Vagando por memórias do passado,
Dissímiles, reencontro lado a lado,
O bem e o mal, num embate tão antigo.

Destarte, em findas telas presencio,
No ocaso o lusco fusco já tardio,
Colhendo o sol que ainda esta comigo.
585

Depois do tempo

Tens-me meu Deus em teu ser sempre
Porque sempre em ti ação do amor serei.
Serei na eternidade que para além de si perdura,
A predição da Tua terna e mais perfeita criatura.

Em Ti vi em arte pura as cores vivas
Vi da Via Láctea, altiva, o volutear da luz.
A vida eu vi passar nas horas que a conduz
Ao perpétuo estar em Ti pós noites aflitivas

Já que ao bacurau um céu de estrelas deste
E ao guaxinim as sombras mornas na campina
Também quiseste despejar Tua luz platina
O sono enluarando-nos em prelúdio ao fulgor celeste
 
Porque criaste, ó Deus, amante o homem
Porque o creste, assim amante, imagem Tua
De eternizá-lo é o anseio que O consome
E de ser Paz contigo ao que o tempo se conclua
298

Voltei

Voltei, eu ser daninho, ao inóspito meio
Fui sem receio, abjeto, nele aceito,
Sedento renovar-me à fonte anseio,
Eu, juiz e réu; presa, inquisidor e suspeito
Depondo o fardo a fadiga e a cobiça.

Atado ao meio pelo meio fui ficando
Nos braços traiçoeiros do sucesso
Deus possesso não me arguo até quando
Suportarei ao triste e irracional progresso,
Me atolando no pró-seco e na carniça...

Da água pura dia a dia me despeço;
No ar que trago só inspiro pó daninho;
Justo o repouso do silencio não mereço;
Abate-me o alimento me perde o vinho;
Cobre meu ninho o negro manto da injustiça.

Voltei, eu ser enfermo, ao nascedouro
Abjeta, vim a rogo revogar-me a tirania
Ávido em restaurar a um ser vindouro
O céu azul, a água límpida e alva a poesia
E alforriado não morrer em falsa liça.
752

O mar inteiro

Ei-lo com seu balanço obstinado

Que abraça a noite,torvo, sibilino,

Entregue à solidão do seu reinado

E do silencio da presença do divino.

 

Por liberdade tem o brilho matutino

E a fortuna de banhar a terra inteira

Acolhendo a foz dos rios que por destino

Dão-lhe o frescor dos véus da cachoeira

 

Do porto à pedra, da pedra à areia da areia ao porto,

Ele se perde, se encontra e se despede

E na distancia fluir se deixa, absorto,

Entre as algas e os corais que a cor lhe cede

 

Abandonando seu status de mar morto,

De mar aberto, mar revolto ou mar profundo

Se apequena e se desdobra a meu conforto

E em oceanos se divide pelo mundo.

 

Extasiado por seu pulsar ao sol fecundo,

Temperando corpo e alma com seu cheiro,

O coração não quer perder nenhum segundo

Pra pulsar c'a dimensão do mar inteiro
701

Advento e ocaso

longínquo advento,

em parcos tons apequenou-se

mas és ainda horizonte e história,

a mesma que ao tempo servil muito ofertou,

lá onde, em montanhas de primaveril ardor,

o rosto primeiro, em brilho auroral, aflorou.

 

melancólico ocaso,

feito de pendões perdidos,

de prontidão vazia, de propósitos risonhos

que o caminho tortuoso o perolar furtou.

melancólico postigo! via desluzida do florescer,

quando, no sumidouro da razão, adormeceram os sonhos.

 

irreverente advento,

prelúdio e sumário de canções e títulos

em sonoros acordes de possibilidades e convicções,

esteira de aluviões e tormentas que derramará,

na mesma caudalosa e transbordante taça,

o mosto rosado das alegrias e os restolhos das frustrações.

 

meritório ocaso,

vicejante de credo e esperança

que ora acena, daqui do dia que te tem presente,

não com as sombras que propõe teu pretérito ser,

mas com o aceno jovial de que há vida

e que alcançá-la em novo advento é oração eloquente.
137

Dissidentes

Aglutinando a paz e as gentes,
Andar célere e olhar atento,
Passa o mundo róseo e calado,
Fitando sob o céu ardente
Dissidentes passando ao lado.
Gentes que olvidaram a canção,
Que esqueceram o tom da poesia,
Tartufos de almas vazias
Mergulhados no ermo da urgia,
Da avareza e do pisar apressado,
Sem passado brotado do chão
Ou planado no ar da alegria.
Marchando sobre nuvens e lombra
Gentes agentes da sombra
Que assombra o verde cerrado
Com serras e a lei do machado,
Que mancham as marchas dos rios.
Gentes em castelos vazios
Lestas e austeros em vão,
Vão ávidos, segundo a segundo
E alheios, à margem do mundo,
Não o veem passar sem ruídos
Disposto a ofertar em penhor
Até ao sátiro agenciador de gemidos
Seu rosto azul “manchado” de amor.
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